REVELAÇÕES ÍNTIMAS
Paulo Wainberg
As probabilidades são infinitas e só uma lei as rege, a conhecida, famosa e sempre invocada “lei das probabilidades”.
Como isso é possível? E que lei é essa?
Posso garantir que não foi o Congresso brasileiro quem a editou. Deve ser coisa de algum físico maluco ou de algum metido a entender dessas coisas referentes à estatísticas, física quântica, relatividade e origem divina do Universo como por exemplo meu querido amigo e compadre Aloísio (Svaiter) – o sobrenome entre parênteses é para preservar o sigilo – que mora no Rio, trabalha em São Paulo e tem a mente espargida como saborosos perfumes de lavanda.
Ouso dizer que sou o único que o compreende, além de todos os outros. O Aloísio e eu inventamos uma brincadeira internética que consiste em demolir conceitos. Até hoje não entendi o objetivo do brinquedo, é um tipo de jogo cujas regras são inventadas na hora e nunca se sabe quem sai vencedor.
Bem ao contrário, por exemplo, dos meus amigos Mauro Keiserman e Vilmar Elman. Com eles EU sempre saio vencedor. Nem tem mais graça jogar. O Mauro ainda me surpreende, volta e meia, mas o Vilmar, francamente, basta iniciar uma discussão e ele é derrotado na primeira frase. O pior é que ele não aprende, provoca, provoca e...leva um talagaço.
Já o Moyses Abensur é mais sábio, adquiriu sabedoria com a experiência e simplesmente não discute: concorda com tudo o que eu digo. Quando estou com astral meio down ligo para ele, lanço uma teoria como se lançam metais ao éter e ele me dá razão na hora.
Poderia falar no Paulo Tiaraju mas é covardia, pior que bater em bêbado, roubar balão de criança ou dormir só de sunga...
Você tem todo o direito de me perguntar o motivo destas mal traçadas linhas, falando em pessoas que você não conhece, conhece, ouviu falar, nunca ouviu falar e coisa e tal.
Pode perguntar, não me ofendo.
Pior do que isso, você pode inclusive se chatear porque não falei em você que, da mesma forma, não me ofendo.
Quais são as probabilidades disso acontecer? Sei lá, vá consultar a lei delas, as probabilidades, que existe justamente para responder perguntas como estas, mais imbecis do que qualquer programa das tvs do bispo Macedo.
Será que os acima citados vão ficar brabos comigo? E se ficarem, vão fazer o que?
Entretanto e para que não reste qualquer sombra de dúvida, não paire nenhuma controvérsia nem me venham dizer que tal e qual não é qual e tal, informo que o supra-citado Vilmar Elman criou, com invejável humor e inteligência, uma comemoração sui-generis, quando sua primeira filha, a Rose, casou: a despedida do pai da noiva.
O que vinha a ser isso? Um ato de revolta? Claro que não. Uma expressão de rebeldia? Nada disso. Ao perceber que para sua filha era organizado um chá de panela, para sua esposa era organizado um chá das amigas e tias (vão gostar de chá assim em Singapura) e para seu futuro genro uma despedida de solteiro, viu-se subitamente à margem, como se ele, o progenitor, o gerador primeiro de toda efeméride, estava à margem, nada era organizado para ele que, por bem ou por mal, tinha que pagar a conta.
Convocou os amigos (eu era um deles) e realizou uma cerimônia ecumênica celebrada por professantes de várias fés, baseada no maior respeito e amparada nos sagrados princípios da família e dos bons costumes, encomendou quatorze panelas de chá, colocou oito discos na eletrola, começando com Mozart e terminando com Gounaud, serviu salgadinhos e doces e, na hora dos discursos, declarou que, como pai da noiva, estava se despedindo.
Todos nós, com nossas roupas formais para a ocasião, aplaudimos e depois disso, não lembro de mais nada... há um imenso vácuo na minha memória que, por absoluta conveniência, faço questão de manter, vá que eu recorde alguma coisa e...
Então.
Semana que vem casa a minha filha, já contei a vocês. E onde está a minha despedida? Onde se meteram os organizadores (porque depois da primeira vez os demais pais de noiva se despediram à custa dos amigos...), por que razão ninguém fala comigo sobre o assunto, não me dão nenhum indício sobre preparativos, convocações, locais e tal?
Já teve o chá de panela da noiva (nem conto pra vocês...), o noivo há um mês que não para de se despedir, a mãe da noiva teve que desmarcar todos seus pacientes de tanto chá que foi obrigada a tomar e eu, pai da noiva e origem de tudo, estou aqui, a ver navios, veleiros, lanchas, botes a remo e caixas de sabonete jogadas no riacho. Nada para mim???
Nem um waflles, uma bolachinha dágua para molhar no café?
Vamos lá, rapaziada, esqueçam minha rigidez moral, meus princípios pétreos e movam-se, ofereçam-me uma despedida digna de um pai de noiva, regada a chá de boldo com pipoca e doce de leite condensado na sobremesa. E não esqueçam de por meu cd preferido, suíte número dois de Bach, para alegrar o evento.
O tempo passa rápido e, pela lei, as probabilidades disso acontecer estão cada vez menores.
Será que vou ter que me despedir sozinho, de mim mesmo?
O Vilmar instituiu uma tradição como tantas outras que nosso grupo mais íntimo instituiu ao longo dos anos. Embora no batizado do filho dele, o Marcio, tenha faltado vinho, ele já foi perdoado porque na ocasião, quase trinta anos atrás, ninguém notou e, a bem da verdade, ninguém precisava tomar mais vinho, as tradições são imutáveis e devem ser preservadas “ad eternum”.
Eu, por exemplo, sou o organizador do churrasco na casa dos outros. Distribuo as funções e compareço para comer. Em geral na casa do Mauro que tem um telão e fica melhor para assistir o jogo.
Pelo que me informaram, mês passado, coube ao Moysés organizar minha despedida de pai da noiva. E aí? Até agora nada, repito.
Se eu tiver que me despedir sozinho, juro que não me responsabilizo. Depois não venham me acusar disto ou daquilo, se me deixarem por conta própria sei lá... como decidirei entre ficar assistindo um filme na TV ou ir para a cama dormir?
Portanto rapazes, é agora ou nunca. E podem convidar quem quiser.
E você, Aloísio, pega um avião e vem porque, como me disse certa vez um conhecido que queria me levar para um motel, de conversa estou até aqui. Eu quero é ação!
sexta-feira, 11 de julho de 2008
quinta-feira, 10 de julho de 2008
VARIAÇÕES EM TORNO DO TEMA FIADASPUTAS
INVENTÁRIO FESTIVO
João Eichbaum
Inspirado no axioma popular, segundo o qual o orifício traseiro do bêbado não passa de “res derelicta”, escrevi, outro dia, que “dinheiro de bêbado também não tem dono. E não é que tinha razão?
Vejam o que a Zero Hora, ingenuamente publica, na edição de 9 de julho, se referindo à multa aplicada aos bebuns na direção de veículos automotores. Digo ingenuamente porque o dito jornal, de algum tempo a esta parte, fazendo coro à demagogia dos governos que lhe enchem as páginas de publicidade, encampou o slogan “isso tem que ter fim”, se referindo aos acidentes de trânsito. Isso é o que noticia a matéria sobre o destino do dinheiro arrecadado:”essa verba não tem direcionamento único: pode ser utilizada de forma diferenciada conforme o órgão responsável pela autuação... Conforme a divisão de Planejamento e Controle orçamentário, a maior parte do dinheiro acaba no caixa único da União. O recurso poderá voltar para a PRF por meio de orçamento anual. Na Brigada Militar praticamente a metade da multa é revertida para a corporação. Na capital a EPTC recebe também quase a metade dos recursos. O Detran tem a responsabilidade de operar a emissão das notificações e recebe, por meio de convênios, recursos dos outros órgãos para executar este serviço. Por se tratar de uma legislação nacional, o departamento também recebe suas parcela das multas...”
Esse é o festim que fazem com o dinheiro dos bêbados: um pouco pra mim, um pouco ti, a metade para Brigada Militar, outra metade para a EPTC...Ah, e não podemos esquecer o Detran, para quem não existe homem, nem mulher pobre.
Essa é regra: multa, que o dinheiro é nosso.
Então, meu amigo, prepare-se. Daqui para diante não tem mais luta contra outro crime que não seja estar na direção de um veículo depois de ter comemorado o aniversário do filho ou o enterro da sogra. Assaltante pode dar ou não dar dinheiro. Traficante, idem. Pé-de-chinelo, nem se fala. Então vamos atrás dos bêbados que a grana é certa. Prepare-se, meu amigo, para ser atacado pela Brigada, pela Polícia Rodoviária, pelos azuizinhos, a toda hora. Não vai mais haver trégua para ninguém. O que importa é o dinheiro. Até porque não é só a multa, tem a fiança também. É muita grana. Não dá pra abrir mão dela.
Sim, mas – você perguntará - não tem ninguém pra controlar essa farra toda? Claro que tem, meu amigo: no papel, na Constituição, na lei, o Tribunal de Contas. Mas você sabe quem é que compõe o Tribunal de Contas? Os políticos, que se arreglam uns com os outros, os afilhados dos políticos e os demais, que não entendem bosta nenhuma de contas públicas. Mas se, por exceção, der zebra, certamente vai haver nova rubrica: a “sobra” das multas, na esteira da “sobra” de campanha.
E enquanto o pessoal de baixo faz a farra com a grana dos bêbados, sobra mais dinheiro para o pessoal de cima, os do governo propriamente dito, que poderá encher a Zero Hora de publicidade, afim de que ela elogie a Lei Seca e arranque aplausos de toda a companheirada, a começar pelo Tarso Genro, que trocou a caneta da poesia pela espada do poder. E viva Che Guevara!
João Eichbaum
Inspirado no axioma popular, segundo o qual o orifício traseiro do bêbado não passa de “res derelicta”, escrevi, outro dia, que “dinheiro de bêbado também não tem dono. E não é que tinha razão?
Vejam o que a Zero Hora, ingenuamente publica, na edição de 9 de julho, se referindo à multa aplicada aos bebuns na direção de veículos automotores. Digo ingenuamente porque o dito jornal, de algum tempo a esta parte, fazendo coro à demagogia dos governos que lhe enchem as páginas de publicidade, encampou o slogan “isso tem que ter fim”, se referindo aos acidentes de trânsito. Isso é o que noticia a matéria sobre o destino do dinheiro arrecadado:”essa verba não tem direcionamento único: pode ser utilizada de forma diferenciada conforme o órgão responsável pela autuação... Conforme a divisão de Planejamento e Controle orçamentário, a maior parte do dinheiro acaba no caixa único da União. O recurso poderá voltar para a PRF por meio de orçamento anual. Na Brigada Militar praticamente a metade da multa é revertida para a corporação. Na capital a EPTC recebe também quase a metade dos recursos. O Detran tem a responsabilidade de operar a emissão das notificações e recebe, por meio de convênios, recursos dos outros órgãos para executar este serviço. Por se tratar de uma legislação nacional, o departamento também recebe suas parcela das multas...”
Esse é o festim que fazem com o dinheiro dos bêbados: um pouco pra mim, um pouco ti, a metade para Brigada Militar, outra metade para a EPTC...Ah, e não podemos esquecer o Detran, para quem não existe homem, nem mulher pobre.
Essa é regra: multa, que o dinheiro é nosso.
Então, meu amigo, prepare-se. Daqui para diante não tem mais luta contra outro crime que não seja estar na direção de um veículo depois de ter comemorado o aniversário do filho ou o enterro da sogra. Assaltante pode dar ou não dar dinheiro. Traficante, idem. Pé-de-chinelo, nem se fala. Então vamos atrás dos bêbados que a grana é certa. Prepare-se, meu amigo, para ser atacado pela Brigada, pela Polícia Rodoviária, pelos azuizinhos, a toda hora. Não vai mais haver trégua para ninguém. O que importa é o dinheiro. Até porque não é só a multa, tem a fiança também. É muita grana. Não dá pra abrir mão dela.
Sim, mas – você perguntará - não tem ninguém pra controlar essa farra toda? Claro que tem, meu amigo: no papel, na Constituição, na lei, o Tribunal de Contas. Mas você sabe quem é que compõe o Tribunal de Contas? Os políticos, que se arreglam uns com os outros, os afilhados dos políticos e os demais, que não entendem bosta nenhuma de contas públicas. Mas se, por exceção, der zebra, certamente vai haver nova rubrica: a “sobra” das multas, na esteira da “sobra” de campanha.
E enquanto o pessoal de baixo faz a farra com a grana dos bêbados, sobra mais dinheiro para o pessoal de cima, os do governo propriamente dito, que poderá encher a Zero Hora de publicidade, afim de que ela elogie a Lei Seca e arranque aplausos de toda a companheirada, a começar pelo Tarso Genro, que trocou a caneta da poesia pela espada do poder. E viva Che Guevara!
terça-feira, 8 de julho de 2008
COLUNA DO PAULO WAINBERG
CRÔNICAS FISIO-JURÍDICAS
O HÍMEN À LUZ DO DIREITO
Paulo Wainberg
Li no jornal que na França, um Juiz de Direito anulou um casamento porque a noiva não era virgem!
Imagino a cena: suíte de luxo no hotel cinco estrelas, champanhe gelada, sorrisos, a noiva retorna do banheiro com seus negligées sedutores e estende-se ao leito, pronta para a ação.
O noivinho, ansioso, promete carinhos e cuidados, jura que não vai doer, que ela, a sua amada, vai gostar e, enquanto fala, vai enfiando a mão á valer. Ela, louca para receber seu amado, entrega-se à paixão.
Tudo pronto, as preliminares concluídas, todas as palavras ditas e lá vai o rapaz, com delicadeza e cuidado, invadir o tão cobiçado território, sabendo que terá ainda um último obstáculo a superar: o hímen da mulher amada.
E manda ver.
Daí em diante... o escândalo.
Você decide se ele armou o escândalo quando percebeu que o tal obstáculo já fora removido por outro desbravador ou, porque ninguém é de ferro, concluiu o serviço e só então foi se queixar ao Bispo, ao Mulá ou, no caso, ao Juiz.
Quando comecei minha recente carreira de advogado, em 1968, a noiva não ser virgem era motivo para anular o casamento, sim senhora. E o marido traído podia matar a esposa infiel porque seria absolvido pela legítima defesa da sua honra maculada.
Virgindade e fidelidade, qualidades femininas divinizadas por séculos, ainda são atributos celebrados pelas religiões e, ainda que num caso circunstancial, pela Justiça francesa.
Fantástico.
Com a imparcialidade que me é peculiar, ouso dizer que, do ponto de vista das religiões, a verdadeira divindade é o hímen feminino que, inadequadamente rompido, condena os participantes, circunstantes e observadores incautos às mais dolorosas penas celestiais.
Nada é mais sagrado do que um hímen, tão sagrado que o repuseram em Maria, mãe de Jesus, transformando José, seu marido de tantos anos em, no mínimo, um pobre eunuco, incapaz de deflorar a esposa, que teve de conceber com o hímen intacto.
Tão importante e fundamental a Sacra Membrana que a ordem divina de crescermos e multiplicarmo-nos foi adequadamente acrescida da exigência do matrimônio sem o qual podemos apenas crescer mas, multiplicar, jamais.
O Serviço de Proteção ao Hímen percorreu séculos de História, gerando verdadeiros exércitos de abstinentes, poluindo cortes judiciais de civilizações antigas, pré-antigas, meio-idosas, modernas e contemporâneas, exercitando-se em templos e catedrais à base de ameaças furibundas, castigos terríveis e sofrimentos atrozes.
Mulher sem hímen era impura por definição, sabendo-se que impuro é tudo aquilo que contraria as ordens religiosas.
Casar com mulher virgem era imposição cultural, social, religiosa e, por que não?, econômica, vistas as finalidades materiais de um casamento bem fornido.
E a jovem nubente que ousasse desfazer-se, ainda solteira, da Santa Membrana era, entre outras coisas, expulsa de casa, desterrada, morta na fogueira, execrada em público e, conforme antigos costumes, apedrejada em praça pública, exercício que algumas mentes mais, digamos assim, conservadoras, ainda acham exemplares.
O homem-bomba, por exemplo, se explode num shopping porque, fazendo isso, terá à sua disposição incontáveis jovens mulheres virgens, pelo resto da eternidade. É importante ressaltar a condição “jovens” porque ninguém vai se explodir por aí se a eternidade lhe reservar “velhas” virgens.
Eu não me explodiria.
Interessante que a concepção de pureza da mulher concentra-se na pele pré-vaginal. Pode rolar de tudo, mãos nas pudícias, pênis nas coxinhas, sexo oral, sexo anal, lambidas e mordidas, desde que se preserve a pelanca a ser removida pós-núpcias com manchas de sangue no lençol para não haver dúvidas.
A noiva assim casada, mesmo que se tenha esvaído em orgasmos mis, pré-nupciais e com diversos namorados ou, vá lá, ficantes, é pura para as finalidades do credo e, portanto, apta a preservar o matrimônio, desde que não incorra no pecado do adultério que, mais do que pecado, ofende de morte a honra do marido.
“Ó tempora, ó mores”, ó tempo, ó costumes, afirmo hoje o que Cícero disse há mais de dois séculos, no Senado Romano.
Quem te viu, quem te vê, já comentou Chico Buarque de Holanda quando você era a mais bonita das cabrochas desta ala.
Não fossem as mulheres feias terem deflagrado o Movimento Feminista e estaríamos ainda hoje subjugados pelo Sagrado Hímen, pela Pelanca Fundamental a impedir homens e mulheres de acessarem-se mutuamente, em atos de amor, de paixão, de tesão ou de pura e explícita sacanagem o que - me contaram - parece ser muito bom.
E ainda estaríamos à mercê de Cortes Judiciais nutridas de preconceitos a sancionar a insensatez e o obscurantismo da intolerância religiosa, seus tabus, sofismas e dogmas absurdos da qual esse Juiz francês é um anacrônico modelo.
Menos mal que o Governo e a sociedade franceses repudiaram a sentença, escandalizaram-se com ela, afinal de contas o que é isso, meu? Onde é que estamos? Com quem o senhor pensa que está falando? Anular um casamento porque a noiva já tinha dado? Porque a virgindade era cláusula do contrato? Afirmo, do alto de minha cadeira de advogado no meu escritório que essa cláusula, se existiu, é nula de pleno direito, ferindo os mais comezinhos princípios do Direito e da Moral, inclusive sob a ótica do Código de Defesa do Consumidor, a definir-se, no caso concreto, quem era o consumidor.
Aliás, qual é a função biológica do hímen? Alguém sabe? Sua existência não será um defeito na evolução, um apêndice desnecessário que, uma vez rompido, não deixa rastro, pegada nem impressões digitais?
Protegê-lo com tanta fúria como alguns segmentos ainda fazem é o mesmo que negar as funções biológicas, entre elas comer, beber e, com perdão da má palavra, fazer cocô. Mulher pura faz essas coisas? Ó meus sais, quanta decepção...
Ironias à parte se eu fosse imperador da Áustria no Século XVIII, teria encomendado de Mozart uma Missa Solene chamada A Sagração do Hímen, que seria tocada obrigatoriamente em todas as cerimônias de casamento da Europa. Beethoven poderia ter composto a Décima Sinfonia, A Himenêutica e James Joyce, em vez de escrever o nunca lido Ulisses teria escrito a monumental obra O Hímen Caído, isto depois de percorrer todos os cabarés e casas de meretrício de Dublin num único dia.
Neste assunto sou radical e definitivo.
Às portadoras de hímen recomendo: livrem-se dele, só atrapalha e não conserva pureza alguma até porque não existe, nem na natureza, nem na religião nem na sociologia lato senso nenhuma norma, regra ou determinação para que mulheres sejam puras interna ou externamente falando. Mulheres produzem sucos gástricos e espinhas no rosto, assim como os homens, e olha que não estou falando de outras nojeiras.
Às que já se desfizeram da Santa Membrana minha recomendação é: aproveitem que a vida é curta e é só uma.
E vocês, homens, francamente, me fazem vergonha. Virgindade é lá coisa que se exija de uma noiva contemporânea? Nem minha sogra acredita mais nisso.
Se você pegar uma virgem, desvirgine mas nem por isso sinta-se dono da garota. Acredite em mim: é muito melhor ser amigo do dono da piscina do que ter piscina em casa. Você passa o domingo tomando banho na piscina dele e vai embora sem se preocupar em saber se ele tem cloro em casa para purificar a água.
Recomendo que as Altas Instâncias da Justiça Francesa exonerem o tal Juiz, coloquem-no nas galés e o desterrem para a Ilha de Alba ou de Santa Helena onde ele poderá proferir suas sentenças sem incomodar ninguém nem me obrigar a escrever esta crônica.
Nem você a lê-la.
O HÍMEN À LUZ DO DIREITO
Paulo Wainberg
Li no jornal que na França, um Juiz de Direito anulou um casamento porque a noiva não era virgem!
Imagino a cena: suíte de luxo no hotel cinco estrelas, champanhe gelada, sorrisos, a noiva retorna do banheiro com seus negligées sedutores e estende-se ao leito, pronta para a ação.
O noivinho, ansioso, promete carinhos e cuidados, jura que não vai doer, que ela, a sua amada, vai gostar e, enquanto fala, vai enfiando a mão á valer. Ela, louca para receber seu amado, entrega-se à paixão.
Tudo pronto, as preliminares concluídas, todas as palavras ditas e lá vai o rapaz, com delicadeza e cuidado, invadir o tão cobiçado território, sabendo que terá ainda um último obstáculo a superar: o hímen da mulher amada.
E manda ver.
Daí em diante... o escândalo.
Você decide se ele armou o escândalo quando percebeu que o tal obstáculo já fora removido por outro desbravador ou, porque ninguém é de ferro, concluiu o serviço e só então foi se queixar ao Bispo, ao Mulá ou, no caso, ao Juiz.
Quando comecei minha recente carreira de advogado, em 1968, a noiva não ser virgem era motivo para anular o casamento, sim senhora. E o marido traído podia matar a esposa infiel porque seria absolvido pela legítima defesa da sua honra maculada.
Virgindade e fidelidade, qualidades femininas divinizadas por séculos, ainda são atributos celebrados pelas religiões e, ainda que num caso circunstancial, pela Justiça francesa.
Fantástico.
Com a imparcialidade que me é peculiar, ouso dizer que, do ponto de vista das religiões, a verdadeira divindade é o hímen feminino que, inadequadamente rompido, condena os participantes, circunstantes e observadores incautos às mais dolorosas penas celestiais.
Nada é mais sagrado do que um hímen, tão sagrado que o repuseram em Maria, mãe de Jesus, transformando José, seu marido de tantos anos em, no mínimo, um pobre eunuco, incapaz de deflorar a esposa, que teve de conceber com o hímen intacto.
Tão importante e fundamental a Sacra Membrana que a ordem divina de crescermos e multiplicarmo-nos foi adequadamente acrescida da exigência do matrimônio sem o qual podemos apenas crescer mas, multiplicar, jamais.
O Serviço de Proteção ao Hímen percorreu séculos de História, gerando verdadeiros exércitos de abstinentes, poluindo cortes judiciais de civilizações antigas, pré-antigas, meio-idosas, modernas e contemporâneas, exercitando-se em templos e catedrais à base de ameaças furibundas, castigos terríveis e sofrimentos atrozes.
Mulher sem hímen era impura por definição, sabendo-se que impuro é tudo aquilo que contraria as ordens religiosas.
Casar com mulher virgem era imposição cultural, social, religiosa e, por que não?, econômica, vistas as finalidades materiais de um casamento bem fornido.
E a jovem nubente que ousasse desfazer-se, ainda solteira, da Santa Membrana era, entre outras coisas, expulsa de casa, desterrada, morta na fogueira, execrada em público e, conforme antigos costumes, apedrejada em praça pública, exercício que algumas mentes mais, digamos assim, conservadoras, ainda acham exemplares.
O homem-bomba, por exemplo, se explode num shopping porque, fazendo isso, terá à sua disposição incontáveis jovens mulheres virgens, pelo resto da eternidade. É importante ressaltar a condição “jovens” porque ninguém vai se explodir por aí se a eternidade lhe reservar “velhas” virgens.
Eu não me explodiria.
Interessante que a concepção de pureza da mulher concentra-se na pele pré-vaginal. Pode rolar de tudo, mãos nas pudícias, pênis nas coxinhas, sexo oral, sexo anal, lambidas e mordidas, desde que se preserve a pelanca a ser removida pós-núpcias com manchas de sangue no lençol para não haver dúvidas.
A noiva assim casada, mesmo que se tenha esvaído em orgasmos mis, pré-nupciais e com diversos namorados ou, vá lá, ficantes, é pura para as finalidades do credo e, portanto, apta a preservar o matrimônio, desde que não incorra no pecado do adultério que, mais do que pecado, ofende de morte a honra do marido.
“Ó tempora, ó mores”, ó tempo, ó costumes, afirmo hoje o que Cícero disse há mais de dois séculos, no Senado Romano.
Quem te viu, quem te vê, já comentou Chico Buarque de Holanda quando você era a mais bonita das cabrochas desta ala.
Não fossem as mulheres feias terem deflagrado o Movimento Feminista e estaríamos ainda hoje subjugados pelo Sagrado Hímen, pela Pelanca Fundamental a impedir homens e mulheres de acessarem-se mutuamente, em atos de amor, de paixão, de tesão ou de pura e explícita sacanagem o que - me contaram - parece ser muito bom.
E ainda estaríamos à mercê de Cortes Judiciais nutridas de preconceitos a sancionar a insensatez e o obscurantismo da intolerância religiosa, seus tabus, sofismas e dogmas absurdos da qual esse Juiz francês é um anacrônico modelo.
Menos mal que o Governo e a sociedade franceses repudiaram a sentença, escandalizaram-se com ela, afinal de contas o que é isso, meu? Onde é que estamos? Com quem o senhor pensa que está falando? Anular um casamento porque a noiva já tinha dado? Porque a virgindade era cláusula do contrato? Afirmo, do alto de minha cadeira de advogado no meu escritório que essa cláusula, se existiu, é nula de pleno direito, ferindo os mais comezinhos princípios do Direito e da Moral, inclusive sob a ótica do Código de Defesa do Consumidor, a definir-se, no caso concreto, quem era o consumidor.
Aliás, qual é a função biológica do hímen? Alguém sabe? Sua existência não será um defeito na evolução, um apêndice desnecessário que, uma vez rompido, não deixa rastro, pegada nem impressões digitais?
Protegê-lo com tanta fúria como alguns segmentos ainda fazem é o mesmo que negar as funções biológicas, entre elas comer, beber e, com perdão da má palavra, fazer cocô. Mulher pura faz essas coisas? Ó meus sais, quanta decepção...
Ironias à parte se eu fosse imperador da Áustria no Século XVIII, teria encomendado de Mozart uma Missa Solene chamada A Sagração do Hímen, que seria tocada obrigatoriamente em todas as cerimônias de casamento da Europa. Beethoven poderia ter composto a Décima Sinfonia, A Himenêutica e James Joyce, em vez de escrever o nunca lido Ulisses teria escrito a monumental obra O Hímen Caído, isto depois de percorrer todos os cabarés e casas de meretrício de Dublin num único dia.
Neste assunto sou radical e definitivo.
Às portadoras de hímen recomendo: livrem-se dele, só atrapalha e não conserva pureza alguma até porque não existe, nem na natureza, nem na religião nem na sociologia lato senso nenhuma norma, regra ou determinação para que mulheres sejam puras interna ou externamente falando. Mulheres produzem sucos gástricos e espinhas no rosto, assim como os homens, e olha que não estou falando de outras nojeiras.
Às que já se desfizeram da Santa Membrana minha recomendação é: aproveitem que a vida é curta e é só uma.
E vocês, homens, francamente, me fazem vergonha. Virgindade é lá coisa que se exija de uma noiva contemporânea? Nem minha sogra acredita mais nisso.
Se você pegar uma virgem, desvirgine mas nem por isso sinta-se dono da garota. Acredite em mim: é muito melhor ser amigo do dono da piscina do que ter piscina em casa. Você passa o domingo tomando banho na piscina dele e vai embora sem se preocupar em saber se ele tem cloro em casa para purificar a água.
Recomendo que as Altas Instâncias da Justiça Francesa exonerem o tal Juiz, coloquem-no nas galés e o desterrem para a Ilha de Alba ou de Santa Helena onde ele poderá proferir suas sentenças sem incomodar ninguém nem me obrigar a escrever esta crônica.
Nem você a lê-la.
segunda-feira, 7 de julho de 2008
AS COISAS DA VIDA
ELAS MOSTRAM O REGUINHO
João Eichbaum
Ah, aquela faixa de pele nova, fresca e desembaraçada logo abaixo dos quadris, que as minas gostam de mostrar. Elas deixam, de propósito, pra gente ver. Às vezes, sabe-se lá, por costume ou por arrependimento, elas puxam as calças pra cima e, nesse movimento de estica e puxa, não sei se por querer, ou querendo, elas rebolam os quadris, para que as calças se ajustem. A bundinha sobe e desce, ligeiramente, mexendo prum lado e pra outro, as carnes tremem e a gente fica parado, quieto, em êxtase, como o padre Réus, quando rezava a missa e subia quatros palmos, pairando no ar, e perdendo o entendimento das coisas.
Numa hora dessas a gente até esquece de meter o pau na prefeitura por causa dos buracos na rua e de xingar o governo por causa do MST, que atravanca o trânsito e nos faz perder a hora.
É claro que esse esforço da gata é por nada ou por pouco. Em seguida, resolutas e renitentes, as calças deslizam de novo, monte glúteo abaixo, que geralmente é de uma abundância suficiente para deslumbrar o mais distraído dos machos.
Há variações naquelas faixas, de carne branca, morena ou mais escurinha. Algumas são discretas, mal e mal aparecem. Mas o que mostram é o suficiente para deixar o cara mais excitado porque, na verdade, - é sempre assim – quanto maior é a curiosidade, maior é a excitação, o anelo pelo território desconhecido. As mais generosas, aquelas de aproximadamente quatro dedos, mostram horizontes mais amplos, zonas mais nítidas, naturalmente: a pontinha da coluna dorsal, a curva bem pronunciada dos quadris e – ah, sim – a parte superior da calcinha, que nos faz pensar na beleza das cores, no contraste da pele, na impertinência da calça jeans, em como seria a dona sem ela. Enfim, a síntese de toda a beleza.
Tudo isso sem contar a comissão de frente, aquela parte que mostra uma barriguinha sarada, não poucas vezes ornamentada por um brilhante “piercing”.
São assim as mulheres. Elas aguçam a curiosidade, levam-nos para o mundo movediço e flutuante da imaginação, despertam fantasias, solicitam-nos, por favor, os olhares, mas ai de nós se mostrarmos efetivamente e concretamente um vivo e real interesse. Aí já falam em assédio, taradismo ou coisas do tipo “esse velho não se encherga”..
Não temos idéia do que lhes vai pela mente, sabendo que a espécie macho sempre carrega consigo o seu armamento, mesmo aqueles que fingem castidade. Não sabemos até que ponto o ego delas é capaz de ir, para atrair admiração, para congregar olhares, para despertar suspiros e tesões., para aguçar desejos alheios, nem sabemos porque o fazem se, na hora do melhor, elas nos dão um “chega pra lá”.
Mulher não é como mosquito, que irrita e propaga o mal. Mas quem é que a entende?
João Eichbaum
Ah, aquela faixa de pele nova, fresca e desembaraçada logo abaixo dos quadris, que as minas gostam de mostrar. Elas deixam, de propósito, pra gente ver. Às vezes, sabe-se lá, por costume ou por arrependimento, elas puxam as calças pra cima e, nesse movimento de estica e puxa, não sei se por querer, ou querendo, elas rebolam os quadris, para que as calças se ajustem. A bundinha sobe e desce, ligeiramente, mexendo prum lado e pra outro, as carnes tremem e a gente fica parado, quieto, em êxtase, como o padre Réus, quando rezava a missa e subia quatros palmos, pairando no ar, e perdendo o entendimento das coisas.
Numa hora dessas a gente até esquece de meter o pau na prefeitura por causa dos buracos na rua e de xingar o governo por causa do MST, que atravanca o trânsito e nos faz perder a hora.
É claro que esse esforço da gata é por nada ou por pouco. Em seguida, resolutas e renitentes, as calças deslizam de novo, monte glúteo abaixo, que geralmente é de uma abundância suficiente para deslumbrar o mais distraído dos machos.
Há variações naquelas faixas, de carne branca, morena ou mais escurinha. Algumas são discretas, mal e mal aparecem. Mas o que mostram é o suficiente para deixar o cara mais excitado porque, na verdade, - é sempre assim – quanto maior é a curiosidade, maior é a excitação, o anelo pelo território desconhecido. As mais generosas, aquelas de aproximadamente quatro dedos, mostram horizontes mais amplos, zonas mais nítidas, naturalmente: a pontinha da coluna dorsal, a curva bem pronunciada dos quadris e – ah, sim – a parte superior da calcinha, que nos faz pensar na beleza das cores, no contraste da pele, na impertinência da calça jeans, em como seria a dona sem ela. Enfim, a síntese de toda a beleza.
Tudo isso sem contar a comissão de frente, aquela parte que mostra uma barriguinha sarada, não poucas vezes ornamentada por um brilhante “piercing”.
São assim as mulheres. Elas aguçam a curiosidade, levam-nos para o mundo movediço e flutuante da imaginação, despertam fantasias, solicitam-nos, por favor, os olhares, mas ai de nós se mostrarmos efetivamente e concretamente um vivo e real interesse. Aí já falam em assédio, taradismo ou coisas do tipo “esse velho não se encherga”..
Não temos idéia do que lhes vai pela mente, sabendo que a espécie macho sempre carrega consigo o seu armamento, mesmo aqueles que fingem castidade. Não sabemos até que ponto o ego delas é capaz de ir, para atrair admiração, para congregar olhares, para despertar suspiros e tesões., para aguçar desejos alheios, nem sabemos porque o fazem se, na hora do melhor, elas nos dão um “chega pra lá”.
Mulher não é como mosquito, que irrita e propaga o mal. Mas quem é que a entende?
OURO POR OURO, PENTE POR PENTE
Paulo Wainberg
Durante muito tempo pensei que Talião fosse o nome de algum cruel tirano da antiguidade, brutal e vingativo, que a ninguém perdoava e, olho por olho, dente por dente, punia os desagravos com ferocidade implacável.
Muitas coisas na vida são assim, ouve-se falar, tira-se as próprias conclusões e acredita-se nelas como se fossem verdadeiras.
Não recordo como a expressão “olho por olho, dente por dente” entrou na minha esfera de conhecimento, se através de amigos, de alguma leitura, notícia de jornal ou citação e sempre teve, para mim, a conotação de incitar vingança, de ser uma norma cruel e de péssima reputação.
Ocorreu que certa madrugada despertei pensando: “Quem foi Talião?”. A pergunta ficou martelando até que adormeci novamente. Quando acordei pela manhã, a perguntou ressurgiu e, antes de querer a resposta, eu perguntava o motivo da pergunta.
Na época eu fazia terapia em grupo, uma grande experiência por sinal. Coloquei a questão para grupo, na esperança de ouvir uma explicação dos colegas e uma interpretação do terapeuta.
Vã esperança. O assunto não deu IBOPE, o máximo que ouvi, “em passant” como diz o Lula, foi um comentário distraído: - ter curiosidade não é problema – e foi-se o grupo a tratar do problema de um rapaz que vomitava sempre que se aproximava de uma mulher.
Não me amofinei, sinceramente. Se eu queria saber quem foi Talião, então que fosse pesquisar e saberia. Na época as fontes rápidas de informação eram as enciclopédias, enormes coleções que tratavam, sinteticamente, do manancial do conhecimento e tinham que ser atualizadas todos os anos. Não era fácil a procura. O último volume em geral era um índice alfabético que remetia ao número do volume e da página correspondente. Se você não encontrasse o que procurava no índice podia desistir, a informação não existia ou não estava disponível.
Havia três enciclopédias na biblioteca do meu pai: a Jackson, a Barsa e o Tesouro da Juventude.
Durante algumas semanas olhei para as estantes e deixei para amanhã a pesquisa, eu tinha coisas mais importantes a fazer, a principal delas era esperar que meus pais saíssem para o cinema para tentar comer a empregada doméstica.
Durante o dia não dava para pesquisar, tinha o colégio, o futebol, o tema de casa – que sempre ficava para depois, os amigos, as gurias, atividades prioritárias que teimavam em reforçar minha preguiça, meu pecado capital preferido, depois da luxúria e da gula.
Passaram os dias e passou o desejo de saber quem foi Talião. O assunto afastou-se da minha realidade tanto quanto a desova dos bacuris ou as leis de consumo na Groelândia.
Seguiu a vida como os rios, Talião e sua Lei repousando em algum limbo da memória, arquivo não utilizado.
Alguém já usou a expressão: “os insondáveis mistérios da mente”? Caso ninguém tenha usado alegre-se, você está diante de uma originalidade. Mas não se empolgue, tenho certeza que já ouvi essa expressão, literariamente falando.
Pois.
A mente possui insondáveis mistérios, o maior deles é o comportamento. Explico melhor: a mente se comporta tão misteriosamente que, nem usando as mais modernas técnicas de hipnose, de lavagem cerebral, lobotomia central ou lateral, introdução de chips aleatórios, condicionantes ou perspicazes, biópsias eletrônicas, autópsias médico-legais, perfurações profiláticas, anodos sinodiais e ondas nanomagnéticas, se consegue sondar.
Não é que, há quinze dias, acordo de madrugada querendo saber quem foi Talião? Olhei o relógio, eram quatro e meia. Levantei e fui ao banheiro, fazer xixi. Terei acordado para fazer xixi e pensado em Talião ou terei acordado pensando em Talião e aproveitado para fazer xixi?, era o que me perguntava, observando as borbulhas na água do vaso sanitário. Puxei a água, lavei as mãos e, decidido a não prolongar a matéria e adiar a dúvida, combati herculeamente a preguiça e fui pesquisar.
Diante de mim, no lugar das imensas estantes e suas enciclopédias intermediáveis, a tela e o teclado do computador.
Ó benesses da vida moderna e suas simplificações.
Contive a impaciência enquanto minhas configurações eram abertas, os ícones da área de trabalho se revelavam, os negocinhos da barra de ferramentas entravam em ordem e o anti-virus realizava uma atualização automática. Cliquei na internet, entrei no Google, digitei Lei de Talião entre aspas e em 0,12 segundos apareceram aproximadamente 47.100 informações.
Não pesquisei todas, na verdade apenas duas.
Descobri, espantado, que “talião” não é ninguém, não é um lugar, não é sequer o nome de alguma coisa. É uma palavra composta originária do latim: talis onis ou talio onis, isto é, “pena igual à ofensa”, norma descoberta pela primeira vez no Código de Hamurabi e depois referida na Tora judaica, manifestada pelo aforismo universal, Olho por Olho, Dente por Dente.
Estarrecido, continuei lendo e aprendi uma coisa que, como advogado, eu devia saber há muito: a lei de talião constitui a primeira manifestação legal que estabelece que a indenização deve corresponder exatamente ao dano causado, nem mais nem menos. Dela provem as proibições existentes nos Códigos Civis, desde o Direito Romano, de enriquecimento ilícito, isso é, alguém obter vantagem indevida a custa de outrem, ainda que o outrem tenha causado um dano.
Ao contrário de ser a expressão imperativa para “vingança”, a Lei de Talião limita o direito do prejudicado em ver reparado o dano sofrido e impede que o causador desse dano seja explorado, tendo que indenizar além do prejuízo que causou. Se me tirares um olho, terás que me devolver um olho. Se me tirares um dente, terás que me devolver um dente.
A conotação vingativa foi introduzida pela Igreja Católica que tanto revisou o Velho Testamento. Segundo a nova interpretação, se me tirares um olho, tenho o direito de te tirar um olho, se me tirares um dente, tenho o direito de te tirar um dente.
Ou seja, vingança pelo prazer da vingança, visto que nenhuma vantagem aufere alguém que se cobra de um olho perdido tirando um olho do outro.
A norma original, que continha um conceito primordial da Justiça – reparação do dano no limite do dano - foi transformada em apologia do ódio gratuito, enriquecendo o manancial das pregações religiosas e suas eternas e inúteis sagas em favor do Bem, na eterna luta contra o Mal.
Que coisa!
Não sei você mas eu prefiro o sentido original: se você me prejudicar em dez, tem que me indenizar em dez e não vinte.
Bem melhor do que aleijar a sua perna, caso você tenha aleijado a minha num acidente causado por você.
Para que serviriam, aos olhos do mundo, das religiões e dos deuses, mais dois mancos atravancando o fluxo de pedestres, nas calçadas?
Paulo Wainberg
Durante muito tempo pensei que Talião fosse o nome de algum cruel tirano da antiguidade, brutal e vingativo, que a ninguém perdoava e, olho por olho, dente por dente, punia os desagravos com ferocidade implacável.
Muitas coisas na vida são assim, ouve-se falar, tira-se as próprias conclusões e acredita-se nelas como se fossem verdadeiras.
Não recordo como a expressão “olho por olho, dente por dente” entrou na minha esfera de conhecimento, se através de amigos, de alguma leitura, notícia de jornal ou citação e sempre teve, para mim, a conotação de incitar vingança, de ser uma norma cruel e de péssima reputação.
Ocorreu que certa madrugada despertei pensando: “Quem foi Talião?”. A pergunta ficou martelando até que adormeci novamente. Quando acordei pela manhã, a perguntou ressurgiu e, antes de querer a resposta, eu perguntava o motivo da pergunta.
Na época eu fazia terapia em grupo, uma grande experiência por sinal. Coloquei a questão para grupo, na esperança de ouvir uma explicação dos colegas e uma interpretação do terapeuta.
Vã esperança. O assunto não deu IBOPE, o máximo que ouvi, “em passant” como diz o Lula, foi um comentário distraído: - ter curiosidade não é problema – e foi-se o grupo a tratar do problema de um rapaz que vomitava sempre que se aproximava de uma mulher.
Não me amofinei, sinceramente. Se eu queria saber quem foi Talião, então que fosse pesquisar e saberia. Na época as fontes rápidas de informação eram as enciclopédias, enormes coleções que tratavam, sinteticamente, do manancial do conhecimento e tinham que ser atualizadas todos os anos. Não era fácil a procura. O último volume em geral era um índice alfabético que remetia ao número do volume e da página correspondente. Se você não encontrasse o que procurava no índice podia desistir, a informação não existia ou não estava disponível.
Havia três enciclopédias na biblioteca do meu pai: a Jackson, a Barsa e o Tesouro da Juventude.
Durante algumas semanas olhei para as estantes e deixei para amanhã a pesquisa, eu tinha coisas mais importantes a fazer, a principal delas era esperar que meus pais saíssem para o cinema para tentar comer a empregada doméstica.
Durante o dia não dava para pesquisar, tinha o colégio, o futebol, o tema de casa – que sempre ficava para depois, os amigos, as gurias, atividades prioritárias que teimavam em reforçar minha preguiça, meu pecado capital preferido, depois da luxúria e da gula.
Passaram os dias e passou o desejo de saber quem foi Talião. O assunto afastou-se da minha realidade tanto quanto a desova dos bacuris ou as leis de consumo na Groelândia.
Seguiu a vida como os rios, Talião e sua Lei repousando em algum limbo da memória, arquivo não utilizado.
Alguém já usou a expressão: “os insondáveis mistérios da mente”? Caso ninguém tenha usado alegre-se, você está diante de uma originalidade. Mas não se empolgue, tenho certeza que já ouvi essa expressão, literariamente falando.
Pois.
A mente possui insondáveis mistérios, o maior deles é o comportamento. Explico melhor: a mente se comporta tão misteriosamente que, nem usando as mais modernas técnicas de hipnose, de lavagem cerebral, lobotomia central ou lateral, introdução de chips aleatórios, condicionantes ou perspicazes, biópsias eletrônicas, autópsias médico-legais, perfurações profiláticas, anodos sinodiais e ondas nanomagnéticas, se consegue sondar.
Não é que, há quinze dias, acordo de madrugada querendo saber quem foi Talião? Olhei o relógio, eram quatro e meia. Levantei e fui ao banheiro, fazer xixi. Terei acordado para fazer xixi e pensado em Talião ou terei acordado pensando em Talião e aproveitado para fazer xixi?, era o que me perguntava, observando as borbulhas na água do vaso sanitário. Puxei a água, lavei as mãos e, decidido a não prolongar a matéria e adiar a dúvida, combati herculeamente a preguiça e fui pesquisar.
Diante de mim, no lugar das imensas estantes e suas enciclopédias intermediáveis, a tela e o teclado do computador.
Ó benesses da vida moderna e suas simplificações.
Contive a impaciência enquanto minhas configurações eram abertas, os ícones da área de trabalho se revelavam, os negocinhos da barra de ferramentas entravam em ordem e o anti-virus realizava uma atualização automática. Cliquei na internet, entrei no Google, digitei Lei de Talião entre aspas e em 0,12 segundos apareceram aproximadamente 47.100 informações.
Não pesquisei todas, na verdade apenas duas.
Descobri, espantado, que “talião” não é ninguém, não é um lugar, não é sequer o nome de alguma coisa. É uma palavra composta originária do latim: talis onis ou talio onis, isto é, “pena igual à ofensa”, norma descoberta pela primeira vez no Código de Hamurabi e depois referida na Tora judaica, manifestada pelo aforismo universal, Olho por Olho, Dente por Dente.
Estarrecido, continuei lendo e aprendi uma coisa que, como advogado, eu devia saber há muito: a lei de talião constitui a primeira manifestação legal que estabelece que a indenização deve corresponder exatamente ao dano causado, nem mais nem menos. Dela provem as proibições existentes nos Códigos Civis, desde o Direito Romano, de enriquecimento ilícito, isso é, alguém obter vantagem indevida a custa de outrem, ainda que o outrem tenha causado um dano.
Ao contrário de ser a expressão imperativa para “vingança”, a Lei de Talião limita o direito do prejudicado em ver reparado o dano sofrido e impede que o causador desse dano seja explorado, tendo que indenizar além do prejuízo que causou. Se me tirares um olho, terás que me devolver um olho. Se me tirares um dente, terás que me devolver um dente.
A conotação vingativa foi introduzida pela Igreja Católica que tanto revisou o Velho Testamento. Segundo a nova interpretação, se me tirares um olho, tenho o direito de te tirar um olho, se me tirares um dente, tenho o direito de te tirar um dente.
Ou seja, vingança pelo prazer da vingança, visto que nenhuma vantagem aufere alguém que se cobra de um olho perdido tirando um olho do outro.
A norma original, que continha um conceito primordial da Justiça – reparação do dano no limite do dano - foi transformada em apologia do ódio gratuito, enriquecendo o manancial das pregações religiosas e suas eternas e inúteis sagas em favor do Bem, na eterna luta contra o Mal.
Que coisa!
Não sei você mas eu prefiro o sentido original: se você me prejudicar em dez, tem que me indenizar em dez e não vinte.
Bem melhor do que aleijar a sua perna, caso você tenha aleijado a minha num acidente causado por você.
Para que serviriam, aos olhos do mundo, das religiões e dos deuses, mais dois mancos atravancando o fluxo de pedestres, nas calçadas?
quinta-feira, 3 de julho de 2008
COLUNA DO PAULO WAINBERG
AMULETOS FEBRÍS
Paulo Wainberg
Meu horóscopo anda aprontando para mim.
Como é de conhecimento público, não sou absolutamente supersticioso nem acredito em mau-olhado. Quebro espelhos com tranqüilidade, nem me importo quando derramo sal ou se um gato preto cruzar à minha frente. E quando vejo uma escada passo por baixo dela sem nenhuma cerimônia.
Além disso não saio de casa sem ler meu horóscopo, e já vão décadas. É leitura obrigatória no jornal, durante meu café da manhã. Faço isto por duas razões perfeitamente justificáveis.
A primeira é que gosto de saber o que os astros reservam para o meu dia. Em quais conjunções se envolveram para determinar se devo fazer isto ou aquilo e se o momento é propício para dar mais atenção àquela tarefa ou à pessoa que, nos últimos dias, negligenciei.
A segunda, e mais importante, é porque, como me disse alguém que não lembro mais, tanto tempo faz, que sair de casa sem ler o horóscopo dá um azar danado, se eu não quisesse que coisas ruins me acontecessem, que jamais, jamais repetiu ele, saísse de casa sem ler meu horóscopo.
Por via das dúvidas, nunca se sabe e porque não custa nada, venho obedecendo à recomendação com fidelidade idêntica à conjugal, se é que me entende.
Não sei se você já se deu conta que as coisas ruins estão à espreita, prontas para acontecer a qualquer momento, principalmente aquelas que, lá no fundo mais profundo do seu eu, você teme que aconteçam e, todos os dias, na hora de dormir, você respira aliviado porque não foi hoje.
Ao contrário, as coisas boas em geral pegam você de surpresa, demoram tanto para acontecer que você nem esperava mais.
Então, para que fique bem claro e você não pensar que sou supersticioso, leio meu horóscopo todos os dias para dificultar o trabalho das coisas ruins e não para provocar o surgimento de coisas boas. Aí sim, seria superstição, compriende?
Entre as várias facetas da minha personalidade a de menor expressão é a originalidade, razão pela qual, por instinto de defesa, copio o que os outros dizem com a maior cara de pau, porém com honestidade.
Quando copio, eu digo.
E é copiando os grandes mestres da auto-ajuda que ouso dizer a V. Excelência que diante das coisas ruins, deveis lutar para melhorá-las e para conseguir as coisas boas, batalhai por elas sem esperar que elas vos caiam do céu, como caem granizo, aviões e cocô de pombas.
Meu horóscopo costumava dar conselhos, orientar meu dia e fazer previsões, gerais, é verdade, mas previsões.
“Você, libriano, se sente melhor no imaginário do que no real, mas às vezes é bom olhar para a terra.”
“Aquário, seu ascendente, influencia negativamente seu signo. É tempo de refletir mais, antes de agir.”
“Marte está sob a influência de Vênus, bom período para o amor. Já é hora de dar aquele telefonema que você vem adiando”.
“Excelente período para assinar papéis, assumir compromissos e adquirir a tão sonhada casa própria. Leituras favorecidas.”
Alguns vaticínios mais filosóficos:
“Não perca tempo com aquilo que você não compreende, entre o céu e a terra”.
“Se um é ruim, dois é bom e três é demais, não insista. Contente-se com o que tem e pare de cobiçar o que não tem.”
“A lua está em fase propícia, libriano. Liberte-se, solte as amarras que impedem você de voar.”
“Estão culpando você por tudo? Lembre-se, você não tem a missão de carregar o mundo nas costas. Avalie as possibilidades e deixe de lado o lixo do dia a dia.”
Conselhos mais diretos:
“Deixe de lado a tendência de querer ajudar os outros. Não esqueça que, para ajudar alguém você precisa primeiro ajudar a si mesmo.”
“Encucar-se não adianta, aja! Você só saberá o significado do sorriso que ela(e) lhe deu se for perguntar”.
“Não perca a oportunidade, marque logo aquele almoço, diga o que tem a dizer e verá que o retorno será imediato.”
Alguns até com alguma dose de ironia e bom-humor:
“O alinhamento astral é turbulento. Se eu fosse você não saia da cama, hoje.”
“Levante daí, Libriano, sacuda a poeira, dê a volta por cima. Mercúrio, no periélio, convida você para a aventura.”
Prognósticos, portanto, com os quais eu lido muito bem, não me causam sobressaltos, inclusive as metáforas astrais que, sem maior dificuldade, interpreto muito bem. Posso sair de casa tranqüilo e arremeter dia adentro, com força e com vontade.
Ultimamente, entretanto, meu horóscopo mudou o estilo e o foco, o que muito está me perturbando.
E o jornal não trocou o horoscopista, pelo menos o nome é o mesmo.
Meu horóscopo abandonou a linha do conselho, do prognóstico e da orientação e passou a me fazer perguntas:
“Um libriano normalmente desconhece a própria força. Você conhece a sua?”
Como assim? Não é ele quem tem que me dizer qual o tamanho da minha força? Qual força ele está falando, a física, a moral, a psíquica? Estará ele me sugerindo ir a uma academia de ginástica erguer halteres? Me desafiando a recusar dez milhões de Euros de propina? Propondo que eu leia pensamentos ou movimente objetos só com o olhar?
“Quando os conflitos vão ao extremo a razão cede e o impulso assume o controle. O que você vai fazer, quanto a isso?”
Você não imagina como eu fico quando, mastigando pão com manteiga e tomando um gole de café, leio uma coisa dessas escrita no meu horóscopo. Engasto, tusso, entra um farelo de pão pela faringe (ou laringe), espirro, meu cachorro fica louco (ele enlouquece com espirros), derramo café no pijama e queimo a perna, espirro de novo, tusso mais ainda, levo cinco minutos para escapar da apoplexia e respirar normalmente.
O que é que eu vou fazer quanto a isso? Como é que eu vou saber, por Meu Pé de Laranja Lima?!!!!!! Estarei por acaso no Iraque? Alguém cortou a minha frente no trânsito? Os funcionários do meu escritório me esperam com escopetas, floretes e socos-ingleses? Algum magistrado me jurou de morte por causa de um recurso?
“As meias-medidas servem para obter apenas meias soluções. Você já é bastante grande para procurar soluções inteiras. Qual vai ser a sua atitude, daqui para frente?”
Isso lá e coisa que um horóscopo pergunte aos membros de um signo? Por acaso todos nós, nascidos em Libra com ascendente em Aquário estamos tão defasados, quanto às soluções?
Dia desses, assustado, fiz o que nunca faço em materia horoscopal e li os outros signos. Fiquei mais assustado pois meu temor se confirmou: Marte e Áries sabiam, com perfeita clareza, que o período não era recomendado para jogos de azar e apostas em geral. Os leoninos entravam no período da fecundidade e podiam fazer planos para aumentar a família ou iniciar uma. Todos os signos dentro da mais absoluta normalidade.
O que eu suspeitava se confirmou de forma aterrorizadora: era uma questão pessoal. Meu horóscopo está falando diretamente comigo, querendo saber de mim quais providências vou tomar para, no futuro incerto, merecer outra vez o que ele, por tanto tempo, tem me ofertado.
Vivo atormentado, posto diante de um dilema, sem saber qual atitude tomar: continuo a ler meu horóscopo e seus angustiantes questionamentos a me torturar? Ou paro de ler e afundo na onda de azar inevitável que sobre mim desabará?
Como, felizmente, não sou supersticioso, resolvi fazer o seguinte: comprei um pé de coelho, catei um trevo de quatro folhas num banhado lá perto de casa, guardei um dólar na carteira e pendurei ferraduras em todas as portas de minha casa.
E dei um tempo para o horóscopo que é para ele saber quem é que manda.
Paulo Wainberg
Meu horóscopo anda aprontando para mim.
Como é de conhecimento público, não sou absolutamente supersticioso nem acredito em mau-olhado. Quebro espelhos com tranqüilidade, nem me importo quando derramo sal ou se um gato preto cruzar à minha frente. E quando vejo uma escada passo por baixo dela sem nenhuma cerimônia.
Além disso não saio de casa sem ler meu horóscopo, e já vão décadas. É leitura obrigatória no jornal, durante meu café da manhã. Faço isto por duas razões perfeitamente justificáveis.
A primeira é que gosto de saber o que os astros reservam para o meu dia. Em quais conjunções se envolveram para determinar se devo fazer isto ou aquilo e se o momento é propício para dar mais atenção àquela tarefa ou à pessoa que, nos últimos dias, negligenciei.
A segunda, e mais importante, é porque, como me disse alguém que não lembro mais, tanto tempo faz, que sair de casa sem ler o horóscopo dá um azar danado, se eu não quisesse que coisas ruins me acontecessem, que jamais, jamais repetiu ele, saísse de casa sem ler meu horóscopo.
Por via das dúvidas, nunca se sabe e porque não custa nada, venho obedecendo à recomendação com fidelidade idêntica à conjugal, se é que me entende.
Não sei se você já se deu conta que as coisas ruins estão à espreita, prontas para acontecer a qualquer momento, principalmente aquelas que, lá no fundo mais profundo do seu eu, você teme que aconteçam e, todos os dias, na hora de dormir, você respira aliviado porque não foi hoje.
Ao contrário, as coisas boas em geral pegam você de surpresa, demoram tanto para acontecer que você nem esperava mais.
Então, para que fique bem claro e você não pensar que sou supersticioso, leio meu horóscopo todos os dias para dificultar o trabalho das coisas ruins e não para provocar o surgimento de coisas boas. Aí sim, seria superstição, compriende?
Entre as várias facetas da minha personalidade a de menor expressão é a originalidade, razão pela qual, por instinto de defesa, copio o que os outros dizem com a maior cara de pau, porém com honestidade.
Quando copio, eu digo.
E é copiando os grandes mestres da auto-ajuda que ouso dizer a V. Excelência que diante das coisas ruins, deveis lutar para melhorá-las e para conseguir as coisas boas, batalhai por elas sem esperar que elas vos caiam do céu, como caem granizo, aviões e cocô de pombas.
Meu horóscopo costumava dar conselhos, orientar meu dia e fazer previsões, gerais, é verdade, mas previsões.
“Você, libriano, se sente melhor no imaginário do que no real, mas às vezes é bom olhar para a terra.”
“Aquário, seu ascendente, influencia negativamente seu signo. É tempo de refletir mais, antes de agir.”
“Marte está sob a influência de Vênus, bom período para o amor. Já é hora de dar aquele telefonema que você vem adiando”.
“Excelente período para assinar papéis, assumir compromissos e adquirir a tão sonhada casa própria. Leituras favorecidas.”
Alguns vaticínios mais filosóficos:
“Não perca tempo com aquilo que você não compreende, entre o céu e a terra”.
“Se um é ruim, dois é bom e três é demais, não insista. Contente-se com o que tem e pare de cobiçar o que não tem.”
“A lua está em fase propícia, libriano. Liberte-se, solte as amarras que impedem você de voar.”
“Estão culpando você por tudo? Lembre-se, você não tem a missão de carregar o mundo nas costas. Avalie as possibilidades e deixe de lado o lixo do dia a dia.”
Conselhos mais diretos:
“Deixe de lado a tendência de querer ajudar os outros. Não esqueça que, para ajudar alguém você precisa primeiro ajudar a si mesmo.”
“Encucar-se não adianta, aja! Você só saberá o significado do sorriso que ela(e) lhe deu se for perguntar”.
“Não perca a oportunidade, marque logo aquele almoço, diga o que tem a dizer e verá que o retorno será imediato.”
Alguns até com alguma dose de ironia e bom-humor:
“O alinhamento astral é turbulento. Se eu fosse você não saia da cama, hoje.”
“Levante daí, Libriano, sacuda a poeira, dê a volta por cima. Mercúrio, no periélio, convida você para a aventura.”
Prognósticos, portanto, com os quais eu lido muito bem, não me causam sobressaltos, inclusive as metáforas astrais que, sem maior dificuldade, interpreto muito bem. Posso sair de casa tranqüilo e arremeter dia adentro, com força e com vontade.
Ultimamente, entretanto, meu horóscopo mudou o estilo e o foco, o que muito está me perturbando.
E o jornal não trocou o horoscopista, pelo menos o nome é o mesmo.
Meu horóscopo abandonou a linha do conselho, do prognóstico e da orientação e passou a me fazer perguntas:
“Um libriano normalmente desconhece a própria força. Você conhece a sua?”
Como assim? Não é ele quem tem que me dizer qual o tamanho da minha força? Qual força ele está falando, a física, a moral, a psíquica? Estará ele me sugerindo ir a uma academia de ginástica erguer halteres? Me desafiando a recusar dez milhões de Euros de propina? Propondo que eu leia pensamentos ou movimente objetos só com o olhar?
“Quando os conflitos vão ao extremo a razão cede e o impulso assume o controle. O que você vai fazer, quanto a isso?”
Você não imagina como eu fico quando, mastigando pão com manteiga e tomando um gole de café, leio uma coisa dessas escrita no meu horóscopo. Engasto, tusso, entra um farelo de pão pela faringe (ou laringe), espirro, meu cachorro fica louco (ele enlouquece com espirros), derramo café no pijama e queimo a perna, espirro de novo, tusso mais ainda, levo cinco minutos para escapar da apoplexia e respirar normalmente.
O que é que eu vou fazer quanto a isso? Como é que eu vou saber, por Meu Pé de Laranja Lima?!!!!!! Estarei por acaso no Iraque? Alguém cortou a minha frente no trânsito? Os funcionários do meu escritório me esperam com escopetas, floretes e socos-ingleses? Algum magistrado me jurou de morte por causa de um recurso?
“As meias-medidas servem para obter apenas meias soluções. Você já é bastante grande para procurar soluções inteiras. Qual vai ser a sua atitude, daqui para frente?”
Isso lá e coisa que um horóscopo pergunte aos membros de um signo? Por acaso todos nós, nascidos em Libra com ascendente em Aquário estamos tão defasados, quanto às soluções?
Dia desses, assustado, fiz o que nunca faço em materia horoscopal e li os outros signos. Fiquei mais assustado pois meu temor se confirmou: Marte e Áries sabiam, com perfeita clareza, que o período não era recomendado para jogos de azar e apostas em geral. Os leoninos entravam no período da fecundidade e podiam fazer planos para aumentar a família ou iniciar uma. Todos os signos dentro da mais absoluta normalidade.
O que eu suspeitava se confirmou de forma aterrorizadora: era uma questão pessoal. Meu horóscopo está falando diretamente comigo, querendo saber de mim quais providências vou tomar para, no futuro incerto, merecer outra vez o que ele, por tanto tempo, tem me ofertado.
Vivo atormentado, posto diante de um dilema, sem saber qual atitude tomar: continuo a ler meu horóscopo e seus angustiantes questionamentos a me torturar? Ou paro de ler e afundo na onda de azar inevitável que sobre mim desabará?
Como, felizmente, não sou supersticioso, resolvi fazer o seguinte: comprei um pé de coelho, catei um trevo de quatro folhas num banhado lá perto de casa, guardei um dólar na carteira e pendurei ferraduras em todas as portas de minha casa.
E dei um tempo para o horóscopo que é para ele saber quem é que manda.
quarta-feira, 2 de julho de 2008
VARIAÇÕES EM TORNO DO TEMA FIADASPUTAS
MINISTÉRIO PÚBLICO X MST
João Eichbaum
O Ministério Público, até alguns anos atrás, era pouco conhecido. A gente, quando muito, ouvia falar do Promotor de Justiça. Mas, sobre o Ministério Público ninguém falava. E até não era das mais honrosas a fama dos promotores de justiça. Seu pareceres, muitas vezes, não passavam de um “nada a opor”. Ou, quando muito, “nada a opor, peço Justiça” – como se justiça não se faria sem o pedido do Promotor. O Promotor aparecia, isso sim, na tribuna do Júri. Grandes oradores ali se fizeram e houve até um Presidente da República que iniciou sua fama de orador como Promotor de Justiça, o Getúlio Vargas.
O Promotor de Justiça muitas vêzes não comparecia nas audiências. Então o juiz nomeava um “ Promotor ad hoc”. Qualquer pessoa podia ser nomeada “ Promotor ad hoc”, para que fosse cumprida a formalidade legal que exigia a presença do Promotor de Justiça.
Com a Constituição de 1988, mudou a feição do Ministério Público. A partir dela, praticamente desapareceu a figura do Promotor de Justiça, para aparecer o Ministério Público, espécie de Quarto Poder, com autonomia financeira e administrativa garantida na Constituição.
Hoje, o Ministério Público, com essa autonomia, não é propriamente um órgão do Poder Executivo e, muito menos do Judiciário. Não é um órgão de soberania, mas exerce funções soberanas, em todas as áreas da sociedade.
Hoje, o Ministério Público mete medo. Falou em Ministério Público, a turma treme, como se a mencionada instituição tivesse poderes iguais ou superiores aos do Judiciário. E graças a esse respeito que granjeou da sociedade, o Ministério Público, hoje, é como um deus: está em toda a parte. Fiscaliza hospitais, estádios de futebol, escolas, atividades públicas e privadas, anda atrás de máquinas caça-níqueis, se ocupa dos quiosques na praia, enfim, onde quer que haja uma atividade humana lá está o Ministério Público.
Parece que custou muito, mas o Ministério Público, finalmente, descobriu o MST, chegando à conclusão de que não se trata de uma organização de freirinhas inocentes, mas de gente que organiza arruaças, desrespeita o direito de propriedade, usa crianças como escudos, destrói o patrimônio alheio, ocupa vias públicas, prejudica o ir e vir das pessoas e congrega gente entregue ao ócio, remunerado não se sabe por quem.
Até hoje ninguém havia reclamado das atividades do Ministério Público. Mas foi ele se meter com o MST, surgiram clamores de todos os lados, clamores esses orquestrados pela gente que se abebera nas tetas do partido que governa o país. De repente, lançou-se suspeição sobre o Ministério Público, por conta dessa República dos Coitadinhos, que acha que preguiça é virtude e que a pobreza autoriza a violência, a depredação, os crimes ambientais e por aí afora.
Agora é que vamos ver até onde vão os poderes e a verdadeira autonomia do Ministério Público, que deve ser a autonomia moral. Agora vamos ver se a força do Ministério Público está acima da gandaia política e se tudo o que fez até hoje não foi apenas para aparecer e fazer esquecer os tempos do “Promotor ad hoc”.
João Eichbaum
O Ministério Público, até alguns anos atrás, era pouco conhecido. A gente, quando muito, ouvia falar do Promotor de Justiça. Mas, sobre o Ministério Público ninguém falava. E até não era das mais honrosas a fama dos promotores de justiça. Seu pareceres, muitas vezes, não passavam de um “nada a opor”. Ou, quando muito, “nada a opor, peço Justiça” – como se justiça não se faria sem o pedido do Promotor. O Promotor aparecia, isso sim, na tribuna do Júri. Grandes oradores ali se fizeram e houve até um Presidente da República que iniciou sua fama de orador como Promotor de Justiça, o Getúlio Vargas.
O Promotor de Justiça muitas vêzes não comparecia nas audiências. Então o juiz nomeava um “ Promotor ad hoc”. Qualquer pessoa podia ser nomeada “ Promotor ad hoc”, para que fosse cumprida a formalidade legal que exigia a presença do Promotor de Justiça.
Com a Constituição de 1988, mudou a feição do Ministério Público. A partir dela, praticamente desapareceu a figura do Promotor de Justiça, para aparecer o Ministério Público, espécie de Quarto Poder, com autonomia financeira e administrativa garantida na Constituição.
Hoje, o Ministério Público, com essa autonomia, não é propriamente um órgão do Poder Executivo e, muito menos do Judiciário. Não é um órgão de soberania, mas exerce funções soberanas, em todas as áreas da sociedade.
Hoje, o Ministério Público mete medo. Falou em Ministério Público, a turma treme, como se a mencionada instituição tivesse poderes iguais ou superiores aos do Judiciário. E graças a esse respeito que granjeou da sociedade, o Ministério Público, hoje, é como um deus: está em toda a parte. Fiscaliza hospitais, estádios de futebol, escolas, atividades públicas e privadas, anda atrás de máquinas caça-níqueis, se ocupa dos quiosques na praia, enfim, onde quer que haja uma atividade humana lá está o Ministério Público.
Parece que custou muito, mas o Ministério Público, finalmente, descobriu o MST, chegando à conclusão de que não se trata de uma organização de freirinhas inocentes, mas de gente que organiza arruaças, desrespeita o direito de propriedade, usa crianças como escudos, destrói o patrimônio alheio, ocupa vias públicas, prejudica o ir e vir das pessoas e congrega gente entregue ao ócio, remunerado não se sabe por quem.
Até hoje ninguém havia reclamado das atividades do Ministério Público. Mas foi ele se meter com o MST, surgiram clamores de todos os lados, clamores esses orquestrados pela gente que se abebera nas tetas do partido que governa o país. De repente, lançou-se suspeição sobre o Ministério Público, por conta dessa República dos Coitadinhos, que acha que preguiça é virtude e que a pobreza autoriza a violência, a depredação, os crimes ambientais e por aí afora.
Agora é que vamos ver até onde vão os poderes e a verdadeira autonomia do Ministério Público, que deve ser a autonomia moral. Agora vamos ver se a força do Ministério Público está acima da gandaia política e se tudo o que fez até hoje não foi apenas para aparecer e fazer esquecer os tempos do “Promotor ad hoc”.
Assinar:
Postagens (Atom)