REFLEXÕES PRÉ-ONÍRICAS
PAULO WAINBERG
O que será que as pessoas pensam no exato instante em que, com a cabeça no travesseiro, sentem o sono chegando e sabem que vão adormecer?
Ocorreu-me esta pergunta hoje de manhã, durante um engarrafamento homérico por causa de uma sinaleira estragada. Acho que foram as buzinas ultrapassando meus vidros fechados e abafando “um cantinho o violão” que tocava no rádio.
Acho que os rituais pré-berço são semelhantes, em condições privilegiadas de existência tais como: ter casa para morar, banheiro, água nas torneiras e, entre outras, cama e travesseiro. E cobertor para o frio. Porque as outras pessoas devem pensar apenas na sobrevivência, na comida de amanhã, no remédio para o filho e infelizmente são muitas. Talvez a maioria.
Volto aos privilegiados: Uns tomam banho, escovam os dentes, lavam o rosto, tiram a pintura, botam as redes no cabelo, depilam as sobrancelhas, desodorizam os sovacos, enfiam pijamas, camisolas ou tiram tudo, coçam atrás das orelhas, assoam o nariz, usam chinelas e chambres, tiram lentes de contato, lavam os óculos, assoam o nariz de novo, trocam o OB, penteiam os cabelos, lustram as carecas, arrotam por cima e por baixo, esfregam a barriga, examinam a zona do agrião, ao vivo e no espelho, esfregam mais a barriga e vão para a cama. Há os que ficam lendo, há os que assistem televisão, tem a turma das palavras cruzadas, o pessoal que ouve rádio, casais conversam fundamentos vitais, ajustam contas (lato senso), tiram o filho da cama e levam para o berço, folheiam revistas, fazem alongamentos horizontais, voltam a levar o filho para o berço, queixam da vida, juram alguém de morte, prometem vinganças furiosas, morrem de medo da reunião ou do exame amanhã de manhã, trocam confidências, mentem, levam o neto para o berço, pedem desculpas e finalmente, viram de lado para dormir, não sem antes levar o filho ou neto para o berço mais uma vez ou enfiar um dedo no nariz.
Este é o momento que me interessa. Quando a criatura está com ela mesma, os olhos fechados no quarto escuro (ou semi-escuro, há os que têm medo do escuro), tentando relaxar, não há alternativa, o sono vem vindo, aí! Justamente aí, no que é que elas pensam?
Não vou me omitir e revelo sem pudor no que é que eu penso: em coisa boa. Por favor, não me pergunte o que eu entendo por “coisa boa”, não é justo e eu não vou dizer e, além do mais, o que é bom para um não é necessariamente bom para outro, muito embora nesse caso eu ache que sim, é.
Falando sério, os últimos pensamentos de cada um antes de dormir devem ser fascinantes, de uma riqueza assim intensa que no dia seguinte, ao acordar, esqueceu-se totalmente de tudo.
É ou não é? Pergunte ao primeiro que passar no que foi que ele pensou ontem, antes de adormecer. Aposto que ele não lembra.
Posso imaginar alguns pensamentos pré-oníricos, por exemplo, o que fazer com o dinheiro da mega-sena, onde levá-la quando ela aceitar seu convite, arrumar as malas e nunca mais por os pés nesta casa, quando será que este guri vai tomar jeito? (pai), será que ela usa camisinha? (mãe), até quando vou agüentar essa gozação? (gremista), por que tudo dá errado comigo? (garota de quinze anos), eu tenho que comer alguém, eu tenho que comer alguém (garoto de treze anos) e assim por diante. São milhares, bilhões, os pensamentos que se pode ter logo antes de pegar no sono e todos eles relevantes, importantes, decisivos, fundamentais, cruciais, essenciais, dramáticos, hilariantes mas nenhum a valer, de verdade, com conseqüência prática no dia seguinte.
Porque antes de adormecer queremos adormecer e nada mais. Que o sono venha e nos desligue por algumas horas, nos deixe a mercê de sonhos que sejam mais ou menos salubres. E, que ninguém duvide, uma das melhores sensações que existe é despertar de um pesadelo e verificar que todo aquele horror não passou de um sonho. Também é horrível acordar exatamente na hora em que o beijo ia ser dado....
Conversa vai, conversa vem, acabei ampliando minha curiosidade para os pensamentos pré-momentos decisivos: Entro ou não entro neste avião? Será que este lago é fundo? Não se preocupe, estou com a corda bem amarrada... Acho que ainda cabe mais um copo na bandeja... Mais uma dose não vai fazer mal... Agora não dá para parar para enfiar a camisinha...Se ele se jogou eu também posso...Assino ou não assino como fiador?... Compro ou não compro, dou ou não dou, etc, etc, etc, dúvidas que surgem em forma de pensamento e que, dependendo da sua resposta, leva você para um lado ou para o outro, quase sempre o outro, que é o pior.
Já aprendi, após longas horas de meditação que, em caso de dúvida não devo escolher. Entrego minha sorte ao acaso e, ao contrário de muitos, não estabeleço uma relação de causa e efeito preliminar, recordando cada gesto antes praticado que pode levar a tal ou qual infortúnio.
Por isso aposto sempre os mesmos números porque, conforme uma lei da economia que inventei há alguns anos, a única forma de ter certeza do resultado é comprar na alta e vender na baixa. É infalível.
E antes de dormir revelo, em respeito à sua insistência, que sempre penso que vou conseguir aquela coisa gostosa que eu quero tanto e jamais movi um rinoceronte para conseguir.
domingo, 20 de julho de 2008
sexta-feira, 18 de julho de 2008
COLUNA DO MÁRIO SIMON
OS PADRES NÃO TÊM MUITOS AMIGOS
Crônica de Mário Simon
A morte não é um desenho da vida, e pode ser muito mais um acontecimento social do que a perda insolúvel de um ente querido, insubstituível quanto a sua individualidade e quase sempre irreparável no que significam os dons que se vão com ela, a “indesejada das gentes”, como diz Manuel Bandeira.
A morte é insolúvel porque o homem, no resumo dos resumos, e fixando-se a si mesmo no mais profundo de seu ser, não obtém uma resposta clara de sua presença que aponta inexorável para ele mesmo. Ninguém se demora no fatalismo do “Memento homo quia es pulvis et in pulverem reverteris”, palavras latinas que os sacerdotes proferem na quarta-feira de cinzas, depois do carnaval, e que significam “Lembra-te, homem, de que és pó e em pó te hás de tornar”. Duras palavras que voam como borboletas descompromissadas. A morte sempre é a dos outros, não a nossa. E como me dizia um amigo pra lá de espirituoso, “claro que sempre a morte é a dos outros: por acaso tu podes ver a tua própria morte”? Piada de péssimo ânimo!
Mas por que tenho essa introdução nada simpática com tanto assunto para abordar? A morte sempre foi um tema do qual o homem foge como as lebres do incêndio do campo. A resposta vem do título acima, também nada animoso e muito enigmático. Eu digo!
Ele nascera em Espumoso, no distante 1928. Filho de colonos italianos, e seu destino poderia ser o de todos os colonos, ou dos colonos que migraram para a indústria, ou dos colonos que optaram pelo comércio. E hoje estaria por aí, cheio de filhos, netos, poderoso ou não, respeitado ou não, mas com uma história de família própria e descendência generosa. Ou, então, como milhares de filhos de colonos que, nascidos em berço religioso, buscaram nos severos bancos dos seminários os caminhos do sacerdócio e as experiências profundas da fé e do saber teológico, secundados pela opção suprema por uma vida dedicada ao bem-estar dos outros, ao consolo dos que sofrem, ao desvelo dos que erram e se arrependem, à luz que ilumina os possuídos em transes de amargura e insegurança. A dor de todos será também a dor dele. E nessa opção extraordinária estão contidas a abnegação no seu sentido mais amplo e a plena doação sem volta, aquela doação que é perene e tem mão única, isto é, não imagina que se lhe sejam retribuídas suas renúncias e dedicação.
Pois, de certa forma, essa mão única que trilha quem se doa inteiramente a outrem, de certa forma o isola e o empurra para pequenas ou grandes solidões só superadas na alegria inefável da fé e na crença da ventura celeste. Não se trata da alegria do dever cumprido, mas de uma realização íntima, superior só entendida entre as grandes almas e o Criador.
Ela nascera em Espumoso, já disse. Faleceu em Santo Ângelo há poucos dias. Seu nome, Leoclydes Cláudio Basso. Um andarilho do Evangelho, como ele mesmo dizia de si ao referir-se que servira a um grande número de paróquias nas dioceses de Uruguaiana, Santo Ângelo e Cruz Alta nos seus 54 anos de trabalho, sem clemência para si e com muita piedade para os outros. No entardecer da vida, estava em Santo Ângelo, próximo aos seus familiares, doente, sem as forças de que necessitava para ir até o fim com o dinamismo que sempre o acompanhou. Mesmo assim, o sorriso ainda prendia os poucos amigos que lhe restavam. Mas quem sabia disso tudo?
Quando Deus lhe disse, “basta, vem comigo”, ele estava pronto há muito tempo. E foi. E eu estava lá na sua última missa, ele com apenas o corpo presente, e estava lá quando o fecharam na tumba para sempre. Ouvia rezas que ele não ouviria mais e nem mais poderia sentir a tristeza que havia no ar, pois que aquele que doou toda sua vida para tantos milhares de pessoas, descia à terra rodeado de um punhado de amigos, familiares e poucos fiéis.
É, a doação, a verdadeira doação é um caminho de mão única, e por isso doador e beneficiados não se cruzam mais. A esperança é o encontro na vida eterna.
Crônica de Mário Simon
A morte não é um desenho da vida, e pode ser muito mais um acontecimento social do que a perda insolúvel de um ente querido, insubstituível quanto a sua individualidade e quase sempre irreparável no que significam os dons que se vão com ela, a “indesejada das gentes”, como diz Manuel Bandeira.
A morte é insolúvel porque o homem, no resumo dos resumos, e fixando-se a si mesmo no mais profundo de seu ser, não obtém uma resposta clara de sua presença que aponta inexorável para ele mesmo. Ninguém se demora no fatalismo do “Memento homo quia es pulvis et in pulverem reverteris”, palavras latinas que os sacerdotes proferem na quarta-feira de cinzas, depois do carnaval, e que significam “Lembra-te, homem, de que és pó e em pó te hás de tornar”. Duras palavras que voam como borboletas descompromissadas. A morte sempre é a dos outros, não a nossa. E como me dizia um amigo pra lá de espirituoso, “claro que sempre a morte é a dos outros: por acaso tu podes ver a tua própria morte”? Piada de péssimo ânimo!
Mas por que tenho essa introdução nada simpática com tanto assunto para abordar? A morte sempre foi um tema do qual o homem foge como as lebres do incêndio do campo. A resposta vem do título acima, também nada animoso e muito enigmático. Eu digo!
Ele nascera em Espumoso, no distante 1928. Filho de colonos italianos, e seu destino poderia ser o de todos os colonos, ou dos colonos que migraram para a indústria, ou dos colonos que optaram pelo comércio. E hoje estaria por aí, cheio de filhos, netos, poderoso ou não, respeitado ou não, mas com uma história de família própria e descendência generosa. Ou, então, como milhares de filhos de colonos que, nascidos em berço religioso, buscaram nos severos bancos dos seminários os caminhos do sacerdócio e as experiências profundas da fé e do saber teológico, secundados pela opção suprema por uma vida dedicada ao bem-estar dos outros, ao consolo dos que sofrem, ao desvelo dos que erram e se arrependem, à luz que ilumina os possuídos em transes de amargura e insegurança. A dor de todos será também a dor dele. E nessa opção extraordinária estão contidas a abnegação no seu sentido mais amplo e a plena doação sem volta, aquela doação que é perene e tem mão única, isto é, não imagina que se lhe sejam retribuídas suas renúncias e dedicação.
Pois, de certa forma, essa mão única que trilha quem se doa inteiramente a outrem, de certa forma o isola e o empurra para pequenas ou grandes solidões só superadas na alegria inefável da fé e na crença da ventura celeste. Não se trata da alegria do dever cumprido, mas de uma realização íntima, superior só entendida entre as grandes almas e o Criador.
Ela nascera em Espumoso, já disse. Faleceu em Santo Ângelo há poucos dias. Seu nome, Leoclydes Cláudio Basso. Um andarilho do Evangelho, como ele mesmo dizia de si ao referir-se que servira a um grande número de paróquias nas dioceses de Uruguaiana, Santo Ângelo e Cruz Alta nos seus 54 anos de trabalho, sem clemência para si e com muita piedade para os outros. No entardecer da vida, estava em Santo Ângelo, próximo aos seus familiares, doente, sem as forças de que necessitava para ir até o fim com o dinamismo que sempre o acompanhou. Mesmo assim, o sorriso ainda prendia os poucos amigos que lhe restavam. Mas quem sabia disso tudo?
Quando Deus lhe disse, “basta, vem comigo”, ele estava pronto há muito tempo. E foi. E eu estava lá na sua última missa, ele com apenas o corpo presente, e estava lá quando o fecharam na tumba para sempre. Ouvia rezas que ele não ouviria mais e nem mais poderia sentir a tristeza que havia no ar, pois que aquele que doou toda sua vida para tantos milhares de pessoas, descia à terra rodeado de um punhado de amigos, familiares e poucos fiéis.
É, a doação, a verdadeira doação é um caminho de mão única, e por isso doador e beneficiados não se cruzam mais. A esperança é o encontro na vida eterna.
quarta-feira, 16 de julho de 2008
PORQUE NÃO ACREDITO NA JUSTIÇA
ESSE CIRCO CHAMADO JUSTIÇA
João Eichbaum
Viu só, no que deu? Concurso de beleza no Judiciário. Prende e solta, solta e prende. E não podia faltar o “sabe com quem tá falando?”
O juiz de carreira, concursado, Fausto de Sanctis, que leva seu sobrenome literalmente no ablativo plural, foi linchado, funcionalmente, em público, pelo juiz Gilmar Mendes, que correu por fora, não prestou concurso e se transformou em magistrado, de uma hora para outra, por ser amigo do Fernando Henrique Cardoso.
Mas a coisa não ficou por isso mesmo. O Gilmar também levou o dele: foi linchado moralmente pelo público brasileiro, por ter libertado um “colarinho branco” cheio da grana.
Para justificar sua atitude diz o Gilmar que “temos estrutura constitucional, e cabe ao Supremo guardar e velar pela Constituição em última instância. Ele erra e acerta por último”.
Então quer dizer que o senhor Gilmar, que não prestou concurso para juiz, tá se achando? Ele se acha o “Supremo”? Ele, pessoa física, acha que uma entidade abstrata encarnou nele, tal como uma juíza aí do interior que se chamou de “Justiça Federal”?
Para que você não fique achando que ele é o “Supremo”, como ele se acha, vou lhe explicar. O “Supremo”, a que ele se refere é o chamado Supremo Tribunal Federal uma entidade abstrata, como se disse acima, que só tem voz definitiva com o voto da maioria de seus membros. Um tribunal não é uma pessoa. Uma pessoa que pertence a um tribunal é simplesmente um juiz e ele não se confunde com o tribunal.
O senhor Gilmar Mendes não tem competência jurisdicional para decidir “em nome do Supremo”. Tanto que sua decisão, essa que botou na rua um cara cheio da grana, só terá eficácia se o Supremo, pela maioria dos componentes da Turma e, posteriormente, se recurso houver, pela maioria dos componentes do Tribunal, a mantiver.
Por enquanto, o senhor Gilmar decidiu por conta própria, por razões de foro inteiramente pessoal. Ele não é a “última instância” a que se referem suas palavras, na explicação que teve que dar para a imprensa e para o povo brasileiro. Sua decisão é provisória, e todas as pedradas que ele levou não se dirigem ao Supremo Tribunal Federal.
Ah, sim, o Supremo. O Supremo é a “suprema” aspiração dos bacharéis em direito deste país, inventado por portugueses. O cara entra lá, ganha uma grana federal e carrega na frente do nome, para sempre, a palavra “ministro”. O ministro do Supremo sabe tudo, “acerta e erra por último”, como diz o Mendes – não aquele da Brigada, nem o outro do Juventude, o carrasco do Inter, mas o Mendes do Supremo.
O ministro do Supremo está acima do bem e do mal – foi essa a intenção do Mendes, quando encheu a boca pra dizer que o Supremo “acerta e erra por último”. E para chegar lá, como ministro, o cara não precisa de concurso, nem prática de advocacia. Basta ser amigo, ou amigo dos amigos do Presidente da República. Aí, qualquer um serve e passa a ter um “cérebro iluminado”. Nem precisa pagar IPTU. Tudo dentro do esquema, para que, mesmo enrabada, a nação pareça feliz, pensando que é efeito do elixir parigórico.
João Eichbaum
Viu só, no que deu? Concurso de beleza no Judiciário. Prende e solta, solta e prende. E não podia faltar o “sabe com quem tá falando?”
O juiz de carreira, concursado, Fausto de Sanctis, que leva seu sobrenome literalmente no ablativo plural, foi linchado, funcionalmente, em público, pelo juiz Gilmar Mendes, que correu por fora, não prestou concurso e se transformou em magistrado, de uma hora para outra, por ser amigo do Fernando Henrique Cardoso.
Mas a coisa não ficou por isso mesmo. O Gilmar também levou o dele: foi linchado moralmente pelo público brasileiro, por ter libertado um “colarinho branco” cheio da grana.
Para justificar sua atitude diz o Gilmar que “temos estrutura constitucional, e cabe ao Supremo guardar e velar pela Constituição em última instância. Ele erra e acerta por último”.
Então quer dizer que o senhor Gilmar, que não prestou concurso para juiz, tá se achando? Ele se acha o “Supremo”? Ele, pessoa física, acha que uma entidade abstrata encarnou nele, tal como uma juíza aí do interior que se chamou de “Justiça Federal”?
Para que você não fique achando que ele é o “Supremo”, como ele se acha, vou lhe explicar. O “Supremo”, a que ele se refere é o chamado Supremo Tribunal Federal uma entidade abstrata, como se disse acima, que só tem voz definitiva com o voto da maioria de seus membros. Um tribunal não é uma pessoa. Uma pessoa que pertence a um tribunal é simplesmente um juiz e ele não se confunde com o tribunal.
O senhor Gilmar Mendes não tem competência jurisdicional para decidir “em nome do Supremo”. Tanto que sua decisão, essa que botou na rua um cara cheio da grana, só terá eficácia se o Supremo, pela maioria dos componentes da Turma e, posteriormente, se recurso houver, pela maioria dos componentes do Tribunal, a mantiver.
Por enquanto, o senhor Gilmar decidiu por conta própria, por razões de foro inteiramente pessoal. Ele não é a “última instância” a que se referem suas palavras, na explicação que teve que dar para a imprensa e para o povo brasileiro. Sua decisão é provisória, e todas as pedradas que ele levou não se dirigem ao Supremo Tribunal Federal.
Ah, sim, o Supremo. O Supremo é a “suprema” aspiração dos bacharéis em direito deste país, inventado por portugueses. O cara entra lá, ganha uma grana federal e carrega na frente do nome, para sempre, a palavra “ministro”. O ministro do Supremo sabe tudo, “acerta e erra por último”, como diz o Mendes – não aquele da Brigada, nem o outro do Juventude, o carrasco do Inter, mas o Mendes do Supremo.
O ministro do Supremo está acima do bem e do mal – foi essa a intenção do Mendes, quando encheu a boca pra dizer que o Supremo “acerta e erra por último”. E para chegar lá, como ministro, o cara não precisa de concurso, nem prática de advocacia. Basta ser amigo, ou amigo dos amigos do Presidente da República. Aí, qualquer um serve e passa a ter um “cérebro iluminado”. Nem precisa pagar IPTU. Tudo dentro do esquema, para que, mesmo enrabada, a nação pareça feliz, pensando que é efeito do elixir parigórico.
terça-feira, 15 de julho de 2008
COLUNA DO PAULO WAINBERG
Crônicas crônicas
TESTE PARAPSICOLÓGICO
Paulo Wainberg
No intuito de contribuir com as angústias, aspirações, desejos ocultos, ambições, desvios de conduta, espíritos de porco, imperativos morais e manifestações atípicas, esta educativa coluna propõe - a partir de observações acuradas e reflexões esquizofrênicas de e sobre o cotidiano dos famosos - o teste abaixo, um dos mais complexos e completos dentre tantos outros que se propõem a definir personalidades e caráter de quem quer que seja.
O jornal de domingo publica entrevistas com famosos, uma seção que gosto muito de ler. Em geral são artistas, cantores, personalidades que se destacam e as perguntas pretendem obter um perfil do cotidiano dessas pessoas.
Meu proverbial espírito pesquisador não ia ficar imune à natureza das respostas dadas e por isso sistematizei a coisa, criando dois grandes grupos de respostas.
O primeiro deles, que denominei de “falsos” abrange respostas pedantes, eruditas, estilosas, fazendo gênero e vendendo imagem. O segundo, que denominei de semi falsos contem as respostas politicamente corretas, o cara se mostrando ajeitadinho, certinho, arrumadinho e bem comportadinho.
Para satisfazer sua imensa curiosidade a respeito deste tema, curiosidade que vem corroendo seus dias e suas noites, mostro agora o fruto deste trabalho exaustivo que me ocupou nos últimos anos com a mesma intensidade da investigação que fiz sobre o sistema reprodutivo das tatuiras, aquele bichinho que se enterra nas areias da praia. As respostas “a” são as falsas, as “b” são as semi falsas e as “c” são as minhas que é, eu sei, o que você quer mesmo saber.
1) Qual a sua idéia de um domingo perfeito?
a) Caminhar de manhã, almoço com a família, ler um bom livro (ninguém lê um mau livro, impressionante) escutando qualquer obra de Corelli ou Gounaud, cinema ou teatro no fim do dia.
b) Dormir até as dez, brincar com as crianças, almoço com a família, levar os filhos ao parque, ler um bom livro, pegar um cineminha ou ir ao teatro.
c) Quando acabarem com a segunda-feira!
2) O que dispara o seu lado consumista?
a) Lojas de música, livrarias, antiguidades, galerias de arte.
b) Lojas de música, livrarias, antiguidades, galerias de arte e roupas de griffe.
c) Cartões de crédito e saldo bancário.
3) Que filme você sempre quer rever?
a) Morangos Mofados, Cria Cuervos e todos do Orson Welles.
b) Qualquer um do Woody Allen
c) Nenhum.
4) Que música não sai de sua cabeça?
a) Sinfonia número um em fá menor de Shostakowsky
b) As Quatro Estações de Vivaldi, pagode e Rolling Stones.
c) Bossa Nova
5) Um gosto inusitado?
a) Tomar daikiri estendido na rede lendo poemas de Ezdra Pound no original.
b) Comer aipim frito com feijão, arroz e carne de panela.
c) Vestir cuecas limpas todos os dias.
6) Um hábito de que você não abre mão.
a) Fazer tricô para relaxar.
b) Brincar com meus filhos
c) Dormir pelado no verão.
7) Um hábito de que você quer se livrar
a) Tomar remédios para dormir
b) Parar de fumar
c) Nenhum
8) Qual a sua maior qualidade?
a) Ser intransigentemente honesto. Não negocio honestidade.
b) Lealdade com minha família e meus amigos
c) A modéstia.
9) E seu maior defeito?
a) Não sei se é um defeito mas não tolero quem descumpre a palavra dada.
b) Não dar toda a atenção que gostaria à minha família.
c) Nenhum.
10) Quem você gostaria de ser, se não fosse você mesmo?
a) Karl Marx, Beethoven ou Charles Chaplin.
b) Gosto muito do jeito que sou mas... seria ótimo poder ser... sei lá, José Saramago, talvez.
c) Um playboy internacional.
11) Daqui a dez anos você estará...
a) lendo, escrevendo, cantando, atuando.
b) Fazendo as mesmas coisas que faço, cuidando de minha família.
c) Fazendo 73 anos.
12)Eu sou...
a) Feliz comigo mesmo, meus gostos e com a vida que escolhi para mim.
b) Responsável, leal e sensível.
c) Bonito, charmoso, sensual, inteligente... e outras coisas que a modéstia me impede de revelar.
Bem, agora você já sabe como são os outros e como eu sou. Vai negar que sua vida ganhou outro sentido, um novo significado e, por que não dizer, um novo objetivo?
Não tenho nenhuma dúvida que abri um novo leque de opções para você, que andava por aí procurando sarna pra se coçar, problemas para resolver, coisas para se incomodar.
Em qual das opções você se enquadra? Reflita, não responda sem pensar, não cometa o erro da precipitação. Leia cuidadosamente cada uma das opções, faça um exame de consciência e decida, sem perder a noção de virtude inerente. Ao menos uma vez na vida, tenha coragem!
Depois, envie este e-mail para duzentos e setenta e seis conhecidos e verá que, cinco minutos depois, seus desejos mais sórdidos se realizarão.
Não interrompa o fluxo deste teste. Em 1936 um sargento da Brigada Militar não deu andamento ao teste e jamais foi promovido a Cabo. Guga interrompeu a corrente e deu no que deu. Justin de Gaillard enviou o teste apenas para duzentos e setenta e cinco conhecidos e seu romance Le Réfuge des Oiseaux não foi lido nem por sua mulher. Se tivesse incluído apenas mais uma pessoa e seria hoje o mais jovem ganhador do Premio Nobel de Literatura.
Um certo marchand simplesmente deletou a corrente e nunca mais vendeu um quadro.
Maria de Orós era faxineira. Enviou a corrente para duzentos e setenta e seis conhecidos e cinco minutos depois foi assediada pelo prefeito de sua cidade e hoje é fixa do maior industrial da região, morando no flat de luxo e tomando banho todos os dias.
Creia, meu amigo, minha amiga. As forças estão a seu favor portanto siga a corrente, nade a favor da correnteza, deslize morro abaixo e transforme sua vida embora, ao que me conste, não se tenha notícias ou comprovações oficiais de que a fé, alguma vez, tenha removido uma única montanha sequer.
TESTE PARAPSICOLÓGICO
Paulo Wainberg
No intuito de contribuir com as angústias, aspirações, desejos ocultos, ambições, desvios de conduta, espíritos de porco, imperativos morais e manifestações atípicas, esta educativa coluna propõe - a partir de observações acuradas e reflexões esquizofrênicas de e sobre o cotidiano dos famosos - o teste abaixo, um dos mais complexos e completos dentre tantos outros que se propõem a definir personalidades e caráter de quem quer que seja.
O jornal de domingo publica entrevistas com famosos, uma seção que gosto muito de ler. Em geral são artistas, cantores, personalidades que se destacam e as perguntas pretendem obter um perfil do cotidiano dessas pessoas.
Meu proverbial espírito pesquisador não ia ficar imune à natureza das respostas dadas e por isso sistematizei a coisa, criando dois grandes grupos de respostas.
O primeiro deles, que denominei de “falsos” abrange respostas pedantes, eruditas, estilosas, fazendo gênero e vendendo imagem. O segundo, que denominei de semi falsos contem as respostas politicamente corretas, o cara se mostrando ajeitadinho, certinho, arrumadinho e bem comportadinho.
Para satisfazer sua imensa curiosidade a respeito deste tema, curiosidade que vem corroendo seus dias e suas noites, mostro agora o fruto deste trabalho exaustivo que me ocupou nos últimos anos com a mesma intensidade da investigação que fiz sobre o sistema reprodutivo das tatuiras, aquele bichinho que se enterra nas areias da praia. As respostas “a” são as falsas, as “b” são as semi falsas e as “c” são as minhas que é, eu sei, o que você quer mesmo saber.
1) Qual a sua idéia de um domingo perfeito?
a) Caminhar de manhã, almoço com a família, ler um bom livro (ninguém lê um mau livro, impressionante) escutando qualquer obra de Corelli ou Gounaud, cinema ou teatro no fim do dia.
b) Dormir até as dez, brincar com as crianças, almoço com a família, levar os filhos ao parque, ler um bom livro, pegar um cineminha ou ir ao teatro.
c) Quando acabarem com a segunda-feira!
2) O que dispara o seu lado consumista?
a) Lojas de música, livrarias, antiguidades, galerias de arte.
b) Lojas de música, livrarias, antiguidades, galerias de arte e roupas de griffe.
c) Cartões de crédito e saldo bancário.
3) Que filme você sempre quer rever?
a) Morangos Mofados, Cria Cuervos e todos do Orson Welles.
b) Qualquer um do Woody Allen
c) Nenhum.
4) Que música não sai de sua cabeça?
a) Sinfonia número um em fá menor de Shostakowsky
b) As Quatro Estações de Vivaldi, pagode e Rolling Stones.
c) Bossa Nova
5) Um gosto inusitado?
a) Tomar daikiri estendido na rede lendo poemas de Ezdra Pound no original.
b) Comer aipim frito com feijão, arroz e carne de panela.
c) Vestir cuecas limpas todos os dias.
6) Um hábito de que você não abre mão.
a) Fazer tricô para relaxar.
b) Brincar com meus filhos
c) Dormir pelado no verão.
7) Um hábito de que você quer se livrar
a) Tomar remédios para dormir
b) Parar de fumar
c) Nenhum
8) Qual a sua maior qualidade?
a) Ser intransigentemente honesto. Não negocio honestidade.
b) Lealdade com minha família e meus amigos
c) A modéstia.
9) E seu maior defeito?
a) Não sei se é um defeito mas não tolero quem descumpre a palavra dada.
b) Não dar toda a atenção que gostaria à minha família.
c) Nenhum.
10) Quem você gostaria de ser, se não fosse você mesmo?
a) Karl Marx, Beethoven ou Charles Chaplin.
b) Gosto muito do jeito que sou mas... seria ótimo poder ser... sei lá, José Saramago, talvez.
c) Um playboy internacional.
11) Daqui a dez anos você estará...
a) lendo, escrevendo, cantando, atuando.
b) Fazendo as mesmas coisas que faço, cuidando de minha família.
c) Fazendo 73 anos.
12)Eu sou...
a) Feliz comigo mesmo, meus gostos e com a vida que escolhi para mim.
b) Responsável, leal e sensível.
c) Bonito, charmoso, sensual, inteligente... e outras coisas que a modéstia me impede de revelar.
Bem, agora você já sabe como são os outros e como eu sou. Vai negar que sua vida ganhou outro sentido, um novo significado e, por que não dizer, um novo objetivo?
Não tenho nenhuma dúvida que abri um novo leque de opções para você, que andava por aí procurando sarna pra se coçar, problemas para resolver, coisas para se incomodar.
Em qual das opções você se enquadra? Reflita, não responda sem pensar, não cometa o erro da precipitação. Leia cuidadosamente cada uma das opções, faça um exame de consciência e decida, sem perder a noção de virtude inerente. Ao menos uma vez na vida, tenha coragem!
Depois, envie este e-mail para duzentos e setenta e seis conhecidos e verá que, cinco minutos depois, seus desejos mais sórdidos se realizarão.
Não interrompa o fluxo deste teste. Em 1936 um sargento da Brigada Militar não deu andamento ao teste e jamais foi promovido a Cabo. Guga interrompeu a corrente e deu no que deu. Justin de Gaillard enviou o teste apenas para duzentos e setenta e cinco conhecidos e seu romance Le Réfuge des Oiseaux não foi lido nem por sua mulher. Se tivesse incluído apenas mais uma pessoa e seria hoje o mais jovem ganhador do Premio Nobel de Literatura.
Um certo marchand simplesmente deletou a corrente e nunca mais vendeu um quadro.
Maria de Orós era faxineira. Enviou a corrente para duzentos e setenta e seis conhecidos e cinco minutos depois foi assediada pelo prefeito de sua cidade e hoje é fixa do maior industrial da região, morando no flat de luxo e tomando banho todos os dias.
Creia, meu amigo, minha amiga. As forças estão a seu favor portanto siga a corrente, nade a favor da correnteza, deslize morro abaixo e transforme sua vida embora, ao que me conste, não se tenha notícias ou comprovações oficiais de que a fé, alguma vez, tenha removido uma única montanha sequer.
segunda-feira, 14 de julho de 2008
COLUNA DO MÁRIO SIMON
O DONO DA ESTRADA
Crônica de Mário Simon
- Olha, ele mandou você tomar no “óxla”!
- Quá-quá-quá! Fazia tempo que não ouvia essa expressão. Mas como é que sabes que ele me mandou tomar no “óxla”?
- Ele fez assim – e meu companheiro juntou a ponta do polegar com a ponta do indicador formando um famoso círculo altamente suspeito.
- Que nada, compadre! Ele quis dizer OK! Tudo OK, como fazem os americanos.
- Sei não! A posição da mão não indicava isso, e pela cara dele deve ter acompanhado com uns vapequetepe!
Balancei a cabeça e encolhi os ombros significando “não esquente”, “deixe pra lá”, “fique frio”. No entanto, eu sabia que por muito menos do que aquele gesto e aqueles palavrões, um bom número de motoristas donos da estrada já morreram – não por acidentes, mas com uma bala bem na testa.
Mas o que fiz eu para merecer o vapequetepe acompanhado do gesto tradicional redondinho que muito bem vislumbrei pelo retrovisor?
O que fiz foi andar atrás dele por não menos de seis quilômetros, mas também por não mais do que isso, a menos de 30 km/hora. Foi próximo a Passo Fundo, na BR 285, onze horas da manhã. De repente, aquela camioneta flamante na minha frente. Lenta, tão lenta que bem pude observar os dois dentro da cabina. Dois que pareciam um, tal o grude dos corpos, num “amasso” de soltar vapores de calor pelas janelas.
Subíamos em curva, longa faixa amarela dupla. Teimei em não ultrapassar, mesmo porque era proibido. Outros dois automóveis que vinham atrás passaram e sumiram. eu fiquei, um pouco saboreando a bela visão romântica, outro pouco me “lascando”, porque o cara do grude resolveu me dar uma lição. Tão logo o caminho permitiu a ultrapassagem, ele meteu o carro à esquerda, quase na contramão, de forma mais do que acintosa.
Então tentei, mesmo assim, passá-lo, mas ele fechou mais ainda e, por incrível que pareça, sem desgrudar da moça. Voltei à direita, ele voltou também. E como se deve fazer nesses casos quando a gente encontra o dono da estrada, - neste episódio, o dono da BR 285 -, comecei a rir.
- E você ainda ri? – surpreendeu-se meu companheiro de viagem.
- Compadre, eles estão trepando e, pelo jeito, já no finalzinho. Espere um pouco que eles desgrudam. Não há trepada que dure para sempre, quá-quá-quá.
Mas meu companheiro estava nervozinho. Meteu a mão na buzina, forte e brabo. Foi pior! O proprietário da estrada quase parou, e ficou olhando atento com um olho para nossos possíveis movimentos. Como não meto a mão em cumbuca, igualzinho a macaco velho, fiquei na retaguarda, abrindo cancha para que outros veículos passassem sem problemas. E seguimos, os dois, como veículos acompanhando enterro de rico.
Pouco antes do primeiro acesso a Passo Fundo, ele abriu para o acostamento. Então passei, sem pressa, ao natural. Afinal, era o dono da BR 285 que eu estava ultrapassando e não qualquer porqueira. Tanto que ele ainda me cumprimentou com aquele amável sinal e dois ou três vapequetepe. Que mais eu queria de sua bondade? A manhã estava linda! De jeito nenhum iria tomar satisfações de um desqualificado.
Crônica de Mário Simon
- Olha, ele mandou você tomar no “óxla”!
- Quá-quá-quá! Fazia tempo que não ouvia essa expressão. Mas como é que sabes que ele me mandou tomar no “óxla”?
- Ele fez assim – e meu companheiro juntou a ponta do polegar com a ponta do indicador formando um famoso círculo altamente suspeito.
- Que nada, compadre! Ele quis dizer OK! Tudo OK, como fazem os americanos.
- Sei não! A posição da mão não indicava isso, e pela cara dele deve ter acompanhado com uns vapequetepe!
Balancei a cabeça e encolhi os ombros significando “não esquente”, “deixe pra lá”, “fique frio”. No entanto, eu sabia que por muito menos do que aquele gesto e aqueles palavrões, um bom número de motoristas donos da estrada já morreram – não por acidentes, mas com uma bala bem na testa.
Mas o que fiz eu para merecer o vapequetepe acompanhado do gesto tradicional redondinho que muito bem vislumbrei pelo retrovisor?
O que fiz foi andar atrás dele por não menos de seis quilômetros, mas também por não mais do que isso, a menos de 30 km/hora. Foi próximo a Passo Fundo, na BR 285, onze horas da manhã. De repente, aquela camioneta flamante na minha frente. Lenta, tão lenta que bem pude observar os dois dentro da cabina. Dois que pareciam um, tal o grude dos corpos, num “amasso” de soltar vapores de calor pelas janelas.
Subíamos em curva, longa faixa amarela dupla. Teimei em não ultrapassar, mesmo porque era proibido. Outros dois automóveis que vinham atrás passaram e sumiram. eu fiquei, um pouco saboreando a bela visão romântica, outro pouco me “lascando”, porque o cara do grude resolveu me dar uma lição. Tão logo o caminho permitiu a ultrapassagem, ele meteu o carro à esquerda, quase na contramão, de forma mais do que acintosa.
Então tentei, mesmo assim, passá-lo, mas ele fechou mais ainda e, por incrível que pareça, sem desgrudar da moça. Voltei à direita, ele voltou também. E como se deve fazer nesses casos quando a gente encontra o dono da estrada, - neste episódio, o dono da BR 285 -, comecei a rir.
- E você ainda ri? – surpreendeu-se meu companheiro de viagem.
- Compadre, eles estão trepando e, pelo jeito, já no finalzinho. Espere um pouco que eles desgrudam. Não há trepada que dure para sempre, quá-quá-quá.
Mas meu companheiro estava nervozinho. Meteu a mão na buzina, forte e brabo. Foi pior! O proprietário da estrada quase parou, e ficou olhando atento com um olho para nossos possíveis movimentos. Como não meto a mão em cumbuca, igualzinho a macaco velho, fiquei na retaguarda, abrindo cancha para que outros veículos passassem sem problemas. E seguimos, os dois, como veículos acompanhando enterro de rico.
Pouco antes do primeiro acesso a Passo Fundo, ele abriu para o acostamento. Então passei, sem pressa, ao natural. Afinal, era o dono da BR 285 que eu estava ultrapassando e não qualquer porqueira. Tanto que ele ainda me cumprimentou com aquele amável sinal e dois ou três vapequetepe. Que mais eu queria de sua bondade? A manhã estava linda! De jeito nenhum iria tomar satisfações de um desqualificado.
domingo, 13 de julho de 2008
VARIAÇÕES EM TORNO DO TEMA FIADASPUTAS
GILMAR MENDES NO FLAMENGO
João Eichbaum
É disso que o povo gosta, é isso que o povo quer – parafraseando a Berenice Azambuja. De um lado o Gilmar Mendes soltando um cara que tem uma grana altíssima, capaz de comprar qualquer imóvel ali na praça dos Três Poderes. Falei em imóvel, viu? Para que você tenha uma idéia do que seja o tamanho da grana do cara. O que você faria com um dinheiro desses, se estivesse preso, é coisa que só você mesmo pode resolver. Eu, de minha parte, tenho certeza, mofaria na cadeia, porque sou pobre que nem rato de sacristia.
Do outro lado, isto é, na outra página do jornal, a turma do Flamengo: quatro craques com oito mulheres “de má vida”, como diria o Santo Padre o Papa. Quero explicar, para que não ponham o Papa no meio, que eles não estavam reunidos em nome do Senhor, mas sim para curtir a maior farra, tipo duas por um, no mínimo. Até que, já alto do chão, certamente, um deles quis praticar o “crescei e multiplicai-vos” da mesma forma que o faziam Adão e Eva, isto é, para a finalidade específica de “ se multiplicarem”, sem os incômodos daquela matéria sintética que impede o “multiplicar-se”. Estão me entendendo? Ta bem, vou ser mais explícito: sem camisinha.
Só que a mina, profissional do ramo, não podia se arriscar a um acidente de trabalho. Sua consciência profissional não o permitia. Então, não deu outra: o pau comeu. Entendam, por favor, o que eu quero dizer: a mina levou uns petelecos do garanhão e, se não fosse a turma do deixa disso, a coisa teria sido pior. Só que piorou até o ponto em que o povo gosta. A mina foi na Delegacia da Mulher. E aí viu né. O cara que queria no ativo, acabou no passivo: si fu...Deu rebu, deu manchete, a mulher do cara, ou seja, a titular, que não queria saber de serviços de alcova terceirizados, lhe deu um baita ponta pé na bunda e bateu a porta.
Ah, sim, o Gilmar Mendes. Não conheço esse senhor. Parece que até doutor é, formado na França. Sei que é servidor público – possivelmente concursado na AGU. Só não sei se foi advogado militante, por conta própria, alguma vez na vida. Duma coisa tenho certeza: juiz de direito ele nunca foi, porque não é qualquer um que passa nesses concursos.
O que sei é que ele mandou soltar um cara cheio grana, e o juiz que tinha mandado prender o dita cara ficou puto também da cara e prendeu de novo o endinheirado. E o Gilmar, também puto da cara, tornou a soltar o cidadão, que assim deve ser chamado porque “indivíduo” é só ladrão de galinha. Assim então ficou: o cara entrou, saiu, tornou a entrar e saiu de novo. Ou seja, o Gilmar Mendes levou um baita drible do juiz de primeiro grau, se levantou, “deu a volta por cima”, como dizem os boleiros e partiu pra outra.
Por esse drible, não sei se ele seria contratado pelo Flamengo, mas pela velocidade, ah, isso sim, ele faria um bom contrato. E eu que “sou Flamengo e tenho uma nega chamada Tereza”, o quero no rubro-negro. Nunca vi na minha vida alguém decidir com tamanha velocidade: de manhã o cara cheio da grana estava preso, de noite não estava mais. Ou vice-versa: da noite para o dia. Que preparo físico gente! Sim, tenho de acreditar que essa velocidade seja fruto do preparo físico do senhor Gilmar, porque os meus conhecimentos de foro e de justiça não me autorizam o contrário: não é crível que o dito senhor Gilmar tivesse sobre sua mesa de trabalho aquele único processo. Então, pela velocidade, ele tem que ser contratado pelo Flamengo, no lugar daqueles festeiros. Tenho certeza de que ele ficará satisfeito: bola na rede e bicho no bolso.
Mulheres e dinheiro! Que combinação! E isso é que dá manchete. É disso que o povo gosta. Porque chorar não adianta. A gente só tem que rir da cara deles, enquanto eles se divertem com o dinheiro da gente.
João Eichbaum
É disso que o povo gosta, é isso que o povo quer – parafraseando a Berenice Azambuja. De um lado o Gilmar Mendes soltando um cara que tem uma grana altíssima, capaz de comprar qualquer imóvel ali na praça dos Três Poderes. Falei em imóvel, viu? Para que você tenha uma idéia do que seja o tamanho da grana do cara. O que você faria com um dinheiro desses, se estivesse preso, é coisa que só você mesmo pode resolver. Eu, de minha parte, tenho certeza, mofaria na cadeia, porque sou pobre que nem rato de sacristia.
Do outro lado, isto é, na outra página do jornal, a turma do Flamengo: quatro craques com oito mulheres “de má vida”, como diria o Santo Padre o Papa. Quero explicar, para que não ponham o Papa no meio, que eles não estavam reunidos em nome do Senhor, mas sim para curtir a maior farra, tipo duas por um, no mínimo. Até que, já alto do chão, certamente, um deles quis praticar o “crescei e multiplicai-vos” da mesma forma que o faziam Adão e Eva, isto é, para a finalidade específica de “ se multiplicarem”, sem os incômodos daquela matéria sintética que impede o “multiplicar-se”. Estão me entendendo? Ta bem, vou ser mais explícito: sem camisinha.
Só que a mina, profissional do ramo, não podia se arriscar a um acidente de trabalho. Sua consciência profissional não o permitia. Então, não deu outra: o pau comeu. Entendam, por favor, o que eu quero dizer: a mina levou uns petelecos do garanhão e, se não fosse a turma do deixa disso, a coisa teria sido pior. Só que piorou até o ponto em que o povo gosta. A mina foi na Delegacia da Mulher. E aí viu né. O cara que queria no ativo, acabou no passivo: si fu...Deu rebu, deu manchete, a mulher do cara, ou seja, a titular, que não queria saber de serviços de alcova terceirizados, lhe deu um baita ponta pé na bunda e bateu a porta.
Ah, sim, o Gilmar Mendes. Não conheço esse senhor. Parece que até doutor é, formado na França. Sei que é servidor público – possivelmente concursado na AGU. Só não sei se foi advogado militante, por conta própria, alguma vez na vida. Duma coisa tenho certeza: juiz de direito ele nunca foi, porque não é qualquer um que passa nesses concursos.
O que sei é que ele mandou soltar um cara cheio grana, e o juiz que tinha mandado prender o dita cara ficou puto também da cara e prendeu de novo o endinheirado. E o Gilmar, também puto da cara, tornou a soltar o cidadão, que assim deve ser chamado porque “indivíduo” é só ladrão de galinha. Assim então ficou: o cara entrou, saiu, tornou a entrar e saiu de novo. Ou seja, o Gilmar Mendes levou um baita drible do juiz de primeiro grau, se levantou, “deu a volta por cima”, como dizem os boleiros e partiu pra outra.
Por esse drible, não sei se ele seria contratado pelo Flamengo, mas pela velocidade, ah, isso sim, ele faria um bom contrato. E eu que “sou Flamengo e tenho uma nega chamada Tereza”, o quero no rubro-negro. Nunca vi na minha vida alguém decidir com tamanha velocidade: de manhã o cara cheio da grana estava preso, de noite não estava mais. Ou vice-versa: da noite para o dia. Que preparo físico gente! Sim, tenho de acreditar que essa velocidade seja fruto do preparo físico do senhor Gilmar, porque os meus conhecimentos de foro e de justiça não me autorizam o contrário: não é crível que o dito senhor Gilmar tivesse sobre sua mesa de trabalho aquele único processo. Então, pela velocidade, ele tem que ser contratado pelo Flamengo, no lugar daqueles festeiros. Tenho certeza de que ele ficará satisfeito: bola na rede e bicho no bolso.
Mulheres e dinheiro! Que combinação! E isso é que dá manchete. É disso que o povo gosta. Porque chorar não adianta. A gente só tem que rir da cara deles, enquanto eles se divertem com o dinheiro da gente.
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