A CASA DA GOVERNADORA NA BOCA DO POVO
João Eichbaum
A casa que a senhora Ieda Crusius, depois de eleita governadora do Rio Grande do Sul, adquiriu, por setecentos e cinqüenta mil reais é um assunto que parece estar divertindo a platéia.
Não se deveria mais falar nisso, se fosse uma coisa simples. Bastariam as palavras dela e do seu excelentíssimo consorte: sim, compramos com o nosso dinheiro e ninguém tem nada ver com isso.
Mas, ao que tudo indica, a questão não é tão fácil assim. Tanto que ela teve que contratar advogado para dar explicações. Um grande advogado, por sinal, meu dileto amigo Paulo Olímpio Gomes de Souza.
Pelo que dizem os jornais, foram vários os documentos apresentados pelo ilustre causídico, para provar, através de uma equação com várias incógnitas, que a governadora e seu marido tinham esse dinheirão todo, para comprar o imóvel. Para isso, segundo as notícias, eles teriam vendido uma casa em Brasília, uma casa na praia, aqui no Rio Grande do Sul, e um automóvel. Mas as notícias não fornecem os valores desses imóveis, nem dão quaisquer características deles, para que o leitor possa avaliar, sacudir a cabeça, babar e dizer consigo mesmo: é verdade, eu é que sou pobre.
Hoje, o que se sabe é que a governadora ganha, quando muito, oito mil reais por mês, para administrar este Estado cheio de machões e de grandes industrialistas, nadando no sucesso financeiro, sem falar nos jogadores e técnicos de futebol, para quem oito mil não passa de merrecas. Sim, isso ela ganha, mas de seu marido ninguém sabe coisa alguma. Não se sabe sequer se ele trabalha, ou se ostenta, pura e simplesmente, a condição de marido de governadora, ficando a cargo dele as lides domésticas do Piratini.
Agora o PSOL resolveu botar mais lenha na fogueira, apresentando uma proposta de compra, assinada unilateralmente pelo suposto comprador, na qual esse oferecia a importância de um milhão de reais pela bela casa que acabou sendo adquirida pela senhora Ieda Crusius por duzentos e cinqüenta mil reais a menos.
Como é que a tal proposta foi aparecer na revista Veja, não se sabe. Se a proposta foi, realmente, oferecida, quem deveria estar de posse dela seria o proprietário da casa, que tem um sobrenome muito significativo: Laranja.
Só que até agora esse senhor Laranja ainda não apareceu no túnel, nem para ser vaiado, nem para ser aplaudido pela torcida. Ficou na moita. E as notícias que se tem dele é que estava apertado de dinheiro, teve que vender a casa, porque responde a dois processos movidos por instituições financeiras.
É ou não é uma novela, ou melhor, um dramalhão, cheio de mistérios, de personagens, de heróis e vilões, desses que passam nos picadeiros de pequenos circos, esse caso do doce lar da governadora?
Bem, lá dentro do circo o drama pode ser instigante e emocionante. Mas do lado de fora da lona, tem muita gente que nem quer saber se existe honestidade na política ou se tudo não passa de vã filosofia: bom mesmo é ver o circo pegar fogo.
terça-feira, 29 de julho de 2008
COLUNA DO PAULO WAINBERG
Crônicas mas hein!
REFLEXÕES PRÉ-ONÍRICAS
PAULO WAINBERG
O que será que as pessoas pensam no exato instante em que, com a cabeça no travesseiro, sentem o sono chegando e sabem que vão adormecer?
Ocorreu-me esta pergunta hoje de manhã, durante um engarrafamento homérico por causa de uma sinaleira estragada. Acho que foram as buzinas ultrapassando meus vidros fechados e abafando “um cantinho o violão” que tocava no rádio.
Acho que os rituais pré-berço são semelhantes, em condições privilegiadas de existência tais como: ter casa para morar, banheiro, água nas torneiras e, entre outras, cama e travesseiro. E cobertor para o frio. Porque as outras pessoas devem pensar apenas na sobrevivência, na comida de amanhã, no remédio para o filho e infelizmente são muitas. Talvez a maioria.
Volto aos privilegiados: Uns tomam banho, escovam os dentes, lavam o rosto, tiram a pintura, botam as redes no cabelo, depilam as sobrancelhas, desodorizam os sovacos, enfiam pijamas, camisolas ou tiram tudo, coçam atrás das orelhas, assoam o nariz, usam chinelas e chambres, tiram lentes de contato, lavam os óculos, assoam o nariz de novo, trocam o OB, penteiam os cabelos, lustram as carecas, arrotam por cima e por baixo, esfregam a barriga, examinam a zona do agrião, ao vivo e no espelho, esfregam mais a barriga e vão para a cama. Há os que ficam lendo, há os que assistem televisão, tem a turma das palavras cruzadas, o pessoal que ouve rádio, casais conversam fundamentos vitais, ajustam contas (lato senso), tiram o filho da cama e levam para o berço, folheiam revistas, fazem alongamentos horizontais, voltam a levar o filho para o berço, queixam da vida, juram alguém de morte, prometem vinganças furiosas, morrem de medo da reunião ou do exame amanhã de manhã, trocam confidências, mentem, levam o neto para o berço, pedem desculpas e finalmente, viram de lado para dormir, não sem antes levar o filho ou neto para o berço mais uma vez ou enfiar um dedo no nariz.
Este é o momento que me interessa. Quando a criatura está com ela mesma, os olhos fechados no quarto escuro (ou semi-escuro, há os que têm medo do escuro), tentando relaxar, não há alternativa, o sono vem vindo, aí! Justamente aí, no que é que elas pensam?
Não vou me omitir e revelo sem pudor no que é que eu penso: em coisa boa. Por favor, não me pergunte o que eu entendo por “coisa boa”, não é justo e eu não vou dizer e, além do mais, o que é bom para um não é necessariamente bom para outro, muito embora nesse caso eu ache que sim, é.
Falando sério, os últimos pensamentos de cada um antes de dormir devem ser fascinantes, de uma riqueza assim intensa que no dia seguinte, ao acordar, esqueceu-se totalmente de tudo.
É ou não é? Pergunte ao primeiro que passar no que foi que ele pensou ontem, antes de adormecer. Aposto que ele não lembra.
Posso imaginar alguns pensamentos pré-oníricos, por exemplo, o que fazer com o dinheiro da mega-sena, onde levá-la quando ela aceitar seu convite, arrumar as malas e nunca mais por os pés nesta casa, quando será que este guri vai tomar jeito? (pai), será que ela usa camisinha? (mãe), até quando vou agüentar essa gozação? (gremista), por que tudo dá errado comigo? (garota de quinze anos), eu tenho que comer alguém, eu tenho que comer alguém (garoto de treze anos) e assim por diante. São milhares, bilhões, os pensamentos que se pode ter logo antes de pegar no sono e todos eles relevantes, importantes, decisivos, fundamentais, cruciais, essenciais, dramáticos, hilariantes mas nenhum a valer, de verdade, com conseqüência prática no dia seguinte.
Porque antes de adormecer queremos adormecer e nada mais. Que o sono venha e nos desligue por algumas horas, nos deixe a mercê de sonhos que sejam mais ou menos salubres. E, que ninguém duvide, uma das melhores sensações que existe é despertar de um pesadelo e verificar que todo aquele horror não passou de um sonho. Também é horrível acordar exatamente na hora em que o beijo ia ser dado....
Conversa vai, conversa vem, acabei ampliando minha curiosidade para os pensamentos pré-momentos decisivos: Entro ou não entro neste avião? Será que este lago é fundo? Não se preocupe, estou com a corda bem amarrada... Acho que ainda cabe mais um copo na bandeja... Mais uma dose não vai fazer mal... Agora não dá para parar para enfiar a camisinha...Se ele se jogou eu também posso...Assino ou não assino como fiador?... Compro ou não compro, dou ou não dou, etc, etc, etc, dúvidas que surgem em forma de pensamento e que, dependendo da sua resposta, leva você para um lado ou para o outro, quase sempre o outro, que é o pior.
Já aprendi, após longas horas de meditação que, em caso de dúvida não devo escolher. Entrego minha sorte ao acaso e, ao contrário de muitos, não estabeleço uma relação de causa e efeito preliminar, recordando cada gesto antes praticado que pode levar a tal ou qual infortúnio.
Por isso aposto sempre os mesmos números porque, conforme uma lei da economia que inventei há alguns anos, a única forma de ter certeza do resultado é comprar na alta e vender na baixa. É infalível.
E antes de dormir revelo, em respeito à sua insistência, que sempre penso que vou conseguir aquela coisa gostosa que eu quero tanto e jamais movi um rinoceronte para conseguir.
REFLEXÕES PRÉ-ONÍRICAS
PAULO WAINBERG
O que será que as pessoas pensam no exato instante em que, com a cabeça no travesseiro, sentem o sono chegando e sabem que vão adormecer?
Ocorreu-me esta pergunta hoje de manhã, durante um engarrafamento homérico por causa de uma sinaleira estragada. Acho que foram as buzinas ultrapassando meus vidros fechados e abafando “um cantinho o violão” que tocava no rádio.
Acho que os rituais pré-berço são semelhantes, em condições privilegiadas de existência tais como: ter casa para morar, banheiro, água nas torneiras e, entre outras, cama e travesseiro. E cobertor para o frio. Porque as outras pessoas devem pensar apenas na sobrevivência, na comida de amanhã, no remédio para o filho e infelizmente são muitas. Talvez a maioria.
Volto aos privilegiados: Uns tomam banho, escovam os dentes, lavam o rosto, tiram a pintura, botam as redes no cabelo, depilam as sobrancelhas, desodorizam os sovacos, enfiam pijamas, camisolas ou tiram tudo, coçam atrás das orelhas, assoam o nariz, usam chinelas e chambres, tiram lentes de contato, lavam os óculos, assoam o nariz de novo, trocam o OB, penteiam os cabelos, lustram as carecas, arrotam por cima e por baixo, esfregam a barriga, examinam a zona do agrião, ao vivo e no espelho, esfregam mais a barriga e vão para a cama. Há os que ficam lendo, há os que assistem televisão, tem a turma das palavras cruzadas, o pessoal que ouve rádio, casais conversam fundamentos vitais, ajustam contas (lato senso), tiram o filho da cama e levam para o berço, folheiam revistas, fazem alongamentos horizontais, voltam a levar o filho para o berço, queixam da vida, juram alguém de morte, prometem vinganças furiosas, morrem de medo da reunião ou do exame amanhã de manhã, trocam confidências, mentem, levam o neto para o berço, pedem desculpas e finalmente, viram de lado para dormir, não sem antes levar o filho ou neto para o berço mais uma vez ou enfiar um dedo no nariz.
Este é o momento que me interessa. Quando a criatura está com ela mesma, os olhos fechados no quarto escuro (ou semi-escuro, há os que têm medo do escuro), tentando relaxar, não há alternativa, o sono vem vindo, aí! Justamente aí, no que é que elas pensam?
Não vou me omitir e revelo sem pudor no que é que eu penso: em coisa boa. Por favor, não me pergunte o que eu entendo por “coisa boa”, não é justo e eu não vou dizer e, além do mais, o que é bom para um não é necessariamente bom para outro, muito embora nesse caso eu ache que sim, é.
Falando sério, os últimos pensamentos de cada um antes de dormir devem ser fascinantes, de uma riqueza assim intensa que no dia seguinte, ao acordar, esqueceu-se totalmente de tudo.
É ou não é? Pergunte ao primeiro que passar no que foi que ele pensou ontem, antes de adormecer. Aposto que ele não lembra.
Posso imaginar alguns pensamentos pré-oníricos, por exemplo, o que fazer com o dinheiro da mega-sena, onde levá-la quando ela aceitar seu convite, arrumar as malas e nunca mais por os pés nesta casa, quando será que este guri vai tomar jeito? (pai), será que ela usa camisinha? (mãe), até quando vou agüentar essa gozação? (gremista), por que tudo dá errado comigo? (garota de quinze anos), eu tenho que comer alguém, eu tenho que comer alguém (garoto de treze anos) e assim por diante. São milhares, bilhões, os pensamentos que se pode ter logo antes de pegar no sono e todos eles relevantes, importantes, decisivos, fundamentais, cruciais, essenciais, dramáticos, hilariantes mas nenhum a valer, de verdade, com conseqüência prática no dia seguinte.
Porque antes de adormecer queremos adormecer e nada mais. Que o sono venha e nos desligue por algumas horas, nos deixe a mercê de sonhos que sejam mais ou menos salubres. E, que ninguém duvide, uma das melhores sensações que existe é despertar de um pesadelo e verificar que todo aquele horror não passou de um sonho. Também é horrível acordar exatamente na hora em que o beijo ia ser dado....
Conversa vai, conversa vem, acabei ampliando minha curiosidade para os pensamentos pré-momentos decisivos: Entro ou não entro neste avião? Será que este lago é fundo? Não se preocupe, estou com a corda bem amarrada... Acho que ainda cabe mais um copo na bandeja... Mais uma dose não vai fazer mal... Agora não dá para parar para enfiar a camisinha...Se ele se jogou eu também posso...Assino ou não assino como fiador?... Compro ou não compro, dou ou não dou, etc, etc, etc, dúvidas que surgem em forma de pensamento e que, dependendo da sua resposta, leva você para um lado ou para o outro, quase sempre o outro, que é o pior.
Já aprendi, após longas horas de meditação que, em caso de dúvida não devo escolher. Entrego minha sorte ao acaso e, ao contrário de muitos, não estabeleço uma relação de causa e efeito preliminar, recordando cada gesto antes praticado que pode levar a tal ou qual infortúnio.
Por isso aposto sempre os mesmos números porque, conforme uma lei da economia que inventei há alguns anos, a única forma de ter certeza do resultado é comprar na alta e vender na baixa. É infalível.
E antes de dormir revelo, em respeito à sua insistência, que sempre penso que vou conseguir aquela coisa gostosa que eu quero tanto e jamais movi um rinoceronte para conseguir.
segunda-feira, 28 de julho de 2008
COLUNA DO MÁRIO SIMON
AO RÉS DO CHÃO
Mário Simon
A bem da verdade, eu nunca dormi com ela. Não é como dizem por aí, que tivemos um caso, que deitamos e rolamos. Não. Eu ficava ali, olho aceso no más, ouvido atento. A cama não era lá esses coisas e havia um cheiro de mofo que me fazia espirrar. Alergia, você sabe! Ah, sim, e tinha o revólver. Desse ela não gostava.
- Pra que duas armas, Fininho? - me dizia com malícia.
Não sei qual das “armas” ela mais temia. O que sei é que eu odiava aquele “Fininho”. De onde subtraíra esse nome que não me cabia de jeito nenhum? Seria uma referência caluniosa a minha “arma”? Essa não, pois que de fininho era só a cabelama das adjacências, segundo meu entendimento.
Mas ninguém nunca compreendeu o que é que eu fazia na cama dela toda santa noite. Dois meses, para ser mais preciso. Esquentar a megera é que não haveria de ser. Homem que é homem não esquenta: mete a brasa.
Hoje eu digo. Nem esquentava e nem metia a brasa. Mas quem acreditar há de? Não era eu lá um macho de trepar primeiro e depois perguntar se queria? Até corria a fama que, de uma feita... mas aí eu perco o fio da meada.
Dizia, pernoitei na cama, junto, ali, no bafo, dois meses. E não que fosse na marra. Ia porque ia, livre, por conta e risco. Só não vão me entender é o porquê alertava aquelas cobertas de lã mofadas. Dava minhas duas ou três espirradas - saúde - e dormia. Já disse, alergia!
O caso é que, naquela época, as coisas foram se parando feias e eu andava como galinha que cisca não por frescura, mas por precisão. Qualquer minhoca dava um bife. Não havia trabalho nem para um vivente em pé de morrer. Foi miséria da braba. Tinha vindo da roça, fazia o quê, um mês?
Pois eu digo! Foi que, um dia, saí disposto a pegar serviço nem que fosse no cu do mundo. Fome, tchê, dói. Um pé de galinha dava um assado. Aí que dei na casa de
- Hermosa, mas pode me chamar de Mosa.
Isso foi quando perguntei qual era sua graça. Mas já estava dentro de casa, nem sei como me adentraram. Só dei em mim quando, no relance de umas cortinas de franjinha, umas mesas de bar no lusquefusque de umas luzinhas de cor, vi que era casa de putedo.
- Não quer sentar?
Daquela sentada até umas horas depois não tive tempo de dizer sim nem não. A dona Mosa botou preço e condição. Cama e comida, no sentido bilateral dessas palavras. Meio resvalento, pensava. E mais uns cruzados meio tipo um mínimo, por aí. E deu no que deu. Obrigação minha era deitar na cama dela, com ela ou sem ela. Fazia, ali, um serviço de desobrigação para a pobre, na verdade. Freguês que arrastava a asa pra banda da Mosa, ela já dizia:
- Não dá, meu bem, ele está aí...
Esse ele era eu. Mas tem umas voltas por esse emprego de emergência que até me custa acreditar e é ruim de revelar. Pela manhã, meu serviço era recolher os penicos dos quartos das putas e esvaziar o conteúdo deles numa latrina que havia no fundo do pátio. Danado, demais, tchê. Houve uma vez que jurei procurar o oco do mundo e mandar tudo a puta que o pariu, já que ali, com perdão da palavra, era isso que eu era.
Mas o caso não tinha por que terminar. Mermava a raiva, você me entende. Cão danado dá em agosto, dizem. Até que, duma feita, me emborrachei de cachaça, perdi as estribeiras e me pelei na sala dando uns vexames dos diabos. Atentei uma garrafada num cuera, mas o puterio me empurrou pro quarto antes que apanhasse. Fiquei lá, o forro rodeando feio, a cama ladeando e o revólver ali, frio, aquele jeito quietão.
Então resolvi. E quando resolvo, sai da frente. Hermosa chegou pra deitar, se pelou toda, a pelanca um saco velho, os peitos beirando o umbigo murcho, a bunda uma plasta solta.
- Que tá olhando, Fininho?
Pensei, se pensei: merda meia, merda toda. Meti o revólver no meio dos peitos e babei:
- Me dá o rabo!
Pois desgraça das desgraças, ela deu. Olha, tchê, que tem muito homem aqui dentro. Mas já que estava naquela, fui. Não costumo pedir pra depois não aceitar. No entretanto, já que ninguém nos ouve, não fiz. Não pude! Olhei pra baixo e vi que o Fininho era fininho mesmo e, caído assim, um dedo minguinho entortado. Me lembro, agora, que mirei o revólver, mas, tchê, é brabo. Quem nasce pra cisco acaba sempre nos cantos. Me agachei, peguei o pinico debaixo da cama e fui virar lá fora, que a Mosa não dormia com urina no quarto.
Mário Simon
A bem da verdade, eu nunca dormi com ela. Não é como dizem por aí, que tivemos um caso, que deitamos e rolamos. Não. Eu ficava ali, olho aceso no más, ouvido atento. A cama não era lá esses coisas e havia um cheiro de mofo que me fazia espirrar. Alergia, você sabe! Ah, sim, e tinha o revólver. Desse ela não gostava.
- Pra que duas armas, Fininho? - me dizia com malícia.
Não sei qual das “armas” ela mais temia. O que sei é que eu odiava aquele “Fininho”. De onde subtraíra esse nome que não me cabia de jeito nenhum? Seria uma referência caluniosa a minha “arma”? Essa não, pois que de fininho era só a cabelama das adjacências, segundo meu entendimento.
Mas ninguém nunca compreendeu o que é que eu fazia na cama dela toda santa noite. Dois meses, para ser mais preciso. Esquentar a megera é que não haveria de ser. Homem que é homem não esquenta: mete a brasa.
Hoje eu digo. Nem esquentava e nem metia a brasa. Mas quem acreditar há de? Não era eu lá um macho de trepar primeiro e depois perguntar se queria? Até corria a fama que, de uma feita... mas aí eu perco o fio da meada.
Dizia, pernoitei na cama, junto, ali, no bafo, dois meses. E não que fosse na marra. Ia porque ia, livre, por conta e risco. Só não vão me entender é o porquê alertava aquelas cobertas de lã mofadas. Dava minhas duas ou três espirradas - saúde - e dormia. Já disse, alergia!
O caso é que, naquela época, as coisas foram se parando feias e eu andava como galinha que cisca não por frescura, mas por precisão. Qualquer minhoca dava um bife. Não havia trabalho nem para um vivente em pé de morrer. Foi miséria da braba. Tinha vindo da roça, fazia o quê, um mês?
Pois eu digo! Foi que, um dia, saí disposto a pegar serviço nem que fosse no cu do mundo. Fome, tchê, dói. Um pé de galinha dava um assado. Aí que dei na casa de
- Hermosa, mas pode me chamar de Mosa.
Isso foi quando perguntei qual era sua graça. Mas já estava dentro de casa, nem sei como me adentraram. Só dei em mim quando, no relance de umas cortinas de franjinha, umas mesas de bar no lusquefusque de umas luzinhas de cor, vi que era casa de putedo.
- Não quer sentar?
Daquela sentada até umas horas depois não tive tempo de dizer sim nem não. A dona Mosa botou preço e condição. Cama e comida, no sentido bilateral dessas palavras. Meio resvalento, pensava. E mais uns cruzados meio tipo um mínimo, por aí. E deu no que deu. Obrigação minha era deitar na cama dela, com ela ou sem ela. Fazia, ali, um serviço de desobrigação para a pobre, na verdade. Freguês que arrastava a asa pra banda da Mosa, ela já dizia:
- Não dá, meu bem, ele está aí...
Esse ele era eu. Mas tem umas voltas por esse emprego de emergência que até me custa acreditar e é ruim de revelar. Pela manhã, meu serviço era recolher os penicos dos quartos das putas e esvaziar o conteúdo deles numa latrina que havia no fundo do pátio. Danado, demais, tchê. Houve uma vez que jurei procurar o oco do mundo e mandar tudo a puta que o pariu, já que ali, com perdão da palavra, era isso que eu era.
Mas o caso não tinha por que terminar. Mermava a raiva, você me entende. Cão danado dá em agosto, dizem. Até que, duma feita, me emborrachei de cachaça, perdi as estribeiras e me pelei na sala dando uns vexames dos diabos. Atentei uma garrafada num cuera, mas o puterio me empurrou pro quarto antes que apanhasse. Fiquei lá, o forro rodeando feio, a cama ladeando e o revólver ali, frio, aquele jeito quietão.
Então resolvi. E quando resolvo, sai da frente. Hermosa chegou pra deitar, se pelou toda, a pelanca um saco velho, os peitos beirando o umbigo murcho, a bunda uma plasta solta.
- Que tá olhando, Fininho?
Pensei, se pensei: merda meia, merda toda. Meti o revólver no meio dos peitos e babei:
- Me dá o rabo!
Pois desgraça das desgraças, ela deu. Olha, tchê, que tem muito homem aqui dentro. Mas já que estava naquela, fui. Não costumo pedir pra depois não aceitar. No entretanto, já que ninguém nos ouve, não fiz. Não pude! Olhei pra baixo e vi que o Fininho era fininho mesmo e, caído assim, um dedo minguinho entortado. Me lembro, agora, que mirei o revólver, mas, tchê, é brabo. Quem nasce pra cisco acaba sempre nos cantos. Me agachei, peguei o pinico debaixo da cama e fui virar lá fora, que a Mosa não dormia com urina no quarto.
sexta-feira, 25 de julho de 2008
COLUNA DO PAULO WAINBERG
Crônicas explicativas
POR QUE? POR QUE MEU DEUS?
Paulo Wainberg
O mundo cibernético é, para mim, um mistério tubular no pior sentido da palavra.
Por que digo isto? Para você não me escrever mais perguntando de onde eu conheço você, como é que seu e-mail veio parar em minhas mãos, por que eu envio crônicas para o seu computador, o que eu quero com você e, principalmente, para me pedir para cair fora, não me conhece, não quer me conhecer, não gosta do que escrevo e que é muita ousadia minha, para não dizer cara de pau, ficar desse jeito, amolando sua paciência, enchendo seu saco e sua caixa de correspondência.
Não tinha a menor idéia de como isso acontece, de aparecer endereços desconhecidos no meu “catálogo”.
Até há pouco tempo eu achava que tinha um “dom”, um “poder” extra-sensorial que eu classificava, romanticamente, de telecárdio, uma espécie de conexão à distância do meu coração com vários outros conectáveis por aí.
Desfez-se minha ilusão quando a filha de um primo meu, que tem sete anos de idade, me disse: - Tio, quando tu respondes um e-mail que tem o nome de várias pessoas, o teu catálogo captura os endereços, é por isso.
Você sabe o que é uma menina de sete anos falando “captura”? é incrível. Entretanto a pobrezinha, sem saber, destruiu minhas aptidões metafísicas e reduziu-me ao nível mais elementar das artes informáticas, propondo implicitamente que eu pare de brincar com coisas que não entendo como por exemplo, um celular novo que ganhei e que exige que eu seja especialista em matérias diversas, todas em inglês, para ligar para alguém ou para saber onde apertar quando alguém me liga e trate de fazer cursos sobre cérebros eletrônicos, ondas sinodeais, reflexões magnéticas, fibras óticas e sintéticas, relações espaço-tempo e neurologia robótica. E, acima de tudo, principalmente e como pré-requisito, a Teoria Geral dos Radianos, nem que seja para principiantes.
O inglês nunca foi minha língua preferida. Sempre fui ligado ao francês, ao italiano e ao espanhol, nessa ordem, como línguas estrangeiras preferidas. São idiomas suaves, poéticos, líricos e românticos.
O inglês é duro, pragmático, pé no chão, dia a dia, rápido e rasteiro, “time is money” soa de um jeito, “le temps c’est l’argent” de outro. Em inglês significa realmente que o tempo é dinheiro. Em francês significa que o tempo é prata, prata existe, prata é belo, prata é jóia, dinheiro se faz com papel, entendeu?
Fazendo os cursos mencionados estarei apto a compreender o funcionamento de um byte?
É o que me pergunto e não me respondo.
Honestamente, não vejo nenhuma razão para surpresas cibernéticas a não ser que, como eu, você simplesmente cuida para não apertar teclas erradas.
Ora, minha senhora, como é que eu fui entrar no seu computador com uma crônica? Raciocine um pouco, cavalheiro, deixe de lado idéias pré-concebidas que me atribuem qualidades mágicas ou super-cibernéticas, como se eu tivesse inventado um método exotérico-informático de descobrir seu e-mail. A explicação é simples, tão simples como quando a gente descobre o truque do mágico.
Um sujeito entra por uma porta e sai instantaneamente por outra, colocada a dez metros de distância. Ou ele tem o poder da desmaterialização (como em Jornada das Estrelas) ou aquele que entra é um e aquele que sai é outro, sósia ou irmão gêmeo.
A garota levita mesmo ou está sobre uma barra metálica hidráulica, invisível aos olhos da platéia?
Eu atraio o endereço do seu e-mail através de conjurações midiáticas ou alguém me forneceu ou, como aprendi, ele foi capturado pelo meu computador quando respondi “a todos” e não apenas “ao remetente”?
Tão simples quanto uma galinha botar um ovo frito.
Você faz parte da imensa minoria dos que não querem receber minhas crônicas? Pode resolver o problema com um simples “exclua-me”, poupando-me de perguntas tão infantis que só as crianças sabem responder: como é que o meu e-mail foi parar no seu catálogo?
Exclua-me está mais do que bom, você pede e eu excluo e nunca mais falamos no assunto.
Mas pense bem para não se arrepender depois e não vir, todo sem jeito, pedindo por favor para voltar.
Porque as leis da natureza são imutáveis enquanto não mudam, o calor dilata os corpos tanto quanto a matéria atrai matéria não razão direta do quadrado dos catetos elevados a ene potências, resultando da equação nada mais, nada menos do que ele, o infinito.
Raciocínios como esse é que me deixaram em segunda-época em Física, como já contei.
Sou Libra com ascendente em Aquário, minha gente, por favor não esqueçam disso. Minha cabeça vive no ar assim como todo o resto do meu eu, do meu teu e do meu nosso.
Sou homem do conjunto, não do detalhe. Vejo o todo e ignoro suas partes salvo na hora de passar a mão. É um dos raros momentos em que as partes sobressaem ao todo que, não obstante, reassume meu ponto de vista logo depois, fumando um cigarro.
Eis-me o homem, quase segundo Platão.
Em caso de dúvidas, consulte um de nossos atendentes.
E, para não passar em branco, fui assistir ao Cirque du Soleil, Muito bonito, muito técnico, engraçado às vezes e com pouquíssima emoção. Não tem globo da morte, atirador de facas, elefantes e cães amestrados, os trapezistas tem rede embaixo e a dança nas alturas não esconde a cordinha, tirando toda e qualquer expectativa de uma possível queda da bailarina, estraçalhando-se no chão.
Alguns bons números dos atletas olímpicos são o máximo de paroxismo que atinge o espetáculo.
Bonito mesmo de ver é a multidão em paz, divertindo-se em conjunto, aplaudindo ao ritmo da música, além das crianças maravilhadas e suas gargalhadas gostosas.
Nada é mais lindo do que milhares de pessoas expressando o mesmo sentimento de alegria e prazer mesmo que tenham pago uma fortuna para isso.
Não imagino que os patrocinadores da temporada tenham reservado um espetáculo beneficente para crianças de rua ou moradoras de vilas populares. Nem que fosse para estampar um pouco de alegria naqueles rostinhos maltratados, alguns sorrisos maravilhados nas caras pré-envelhecidas, um pingo de esperança para vidas tão sofridas.
Os patrocinadores, que pagam a conta, falam em inglês, embora a língua oficial do grupo seja o francês canadense.
Time is moneynicas explicativas
POR QUE? POR QUE MEU DEUS?
Paulo Wainberg
O mundo cibernético é, para mim, um mistério tubular no pior sentido da palavra.
Por que digo isto? Para você não me escrever mais perguntando de onde eu conheço você, como é que seu e-mail veio parar em minhas mãos, por que eu envio crônicas para o seu computador, o que eu quero com você e, principalmente, para me pedir para cair fora, não me conhece, não quer me conhecer, não gosta do que escrevo e que é muita ousadia minha, para não dizer cara de pau, ficar desse jeito, amolando sua paciência, enchendo seu saco e sua caixa de correspondência.
Não tinha a menor idéia de como isso acontece, de aparecer endereços desconhecidos no meu “catálogo”.
Até há pouco tempo eu achava que tinha um “dom”, um “poder” extra-sensorial que eu classificava, romanticamente, de telecárdio, uma espécie de conexão à distância do meu coração com vários outros conectáveis por aí.
Desfez-se minha ilusão quando a filha de um primo meu, que tem sete anos de idade, me disse: - Tio, quando tu respondes um e-mail que tem o nome de várias pessoas, o teu catálogo captura os endereços, é por isso.
Você sabe o que é uma menina de sete anos falando “captura”? é incrível. Entretanto a pobrezinha, sem saber, destruiu minhas aptidões metafísicas e reduziu-me ao nível mais elementar das artes informáticas, propondo implicitamente que eu pare de brincar com coisas que não entendo como por exemplo, um celular novo que ganhei e que exige que eu seja especialista em matérias diversas, todas em inglês, para ligar para alguém ou para saber onde apertar quando alguém me liga e trate de fazer cursos sobre cérebros eletrônicos, ondas sinodeais, reflexões magnéticas, fibras óticas e sintéticas, relações espaço-tempo e neurologia robótica. E, acima de tudo, principalmente e como pré-requisito, a Teoria Geral dos Radianos, nem que seja para principiantes.
O inglês nunca foi minha língua preferida. Sempre fui ligado ao francês, ao italiano e ao espanhol, nessa ordem, como línguas estrangeiras preferidas. São idiomas suaves, poéticos, líricos e românticos.
O inglês é duro, pragmático, pé no chão, dia a dia, rápido e rasteiro, “time is money” soa de um jeito, “le temps c’est l’argent” de outro. Em inglês significa realmente que o tempo é dinheiro. Em francês significa que o tempo é prata, prata existe, prata é belo, prata é jóia, dinheiro se faz com papel, entendeu?
Fazendo os cursos mencionados estarei apto a compreender o funcionamento de um byte?
É o que me pergunto e não me respondo.
Honestamente, não vejo nenhuma razão para surpresas cibernéticas a não ser que, como eu, você simplesmente cuida para não apertar teclas erradas.
Ora, minha senhora, como é que eu fui entrar no seu computador com uma crônica? Raciocine um pouco, cavalheiro, deixe de lado idéias pré-concebidas que me atribuem qualidades mágicas ou super-cibernéticas, como se eu tivesse inventado um método exotérico-informático de descobrir seu e-mail. A explicação é simples, tão simples como quando a gente descobre o truque do mágico.
Um sujeito entra por uma porta e sai instantaneamente por outra, colocada a dez metros de distância. Ou ele tem o poder da desmaterialização (como em Jornada das Estrelas) ou aquele que entra é um e aquele que sai é outro, sósia ou irmão gêmeo.
A garota levita mesmo ou está sobre uma barra metálica hidráulica, invisível aos olhos da platéia?
Eu atraio o endereço do seu e-mail através de conjurações midiáticas ou alguém me forneceu ou, como aprendi, ele foi capturado pelo meu computador quando respondi “a todos” e não apenas “ao remetente”?
Tão simples quanto uma galinha botar um ovo frito.
Você faz parte da imensa minoria dos que não querem receber minhas crônicas? Pode resolver o problema com um simples “exclua-me”, poupando-me de perguntas tão infantis que só as crianças sabem responder: como é que o meu e-mail foi parar no seu catálogo?
Exclua-me está mais do que bom, você pede e eu excluo e nunca mais falamos no assunto.
Mas pense bem para não se arrepender depois e não vir, todo sem jeito, pedindo por favor para voltar.
Porque as leis da natureza são imutáveis enquanto não mudam, o calor dilata os corpos tanto quanto a matéria atrai matéria não razão direta do quadrado dos catetos elevados a ene potências, resultando da equação nada mais, nada menos do que ele, o infinito.
Raciocínios como esse é que me deixaram em segunda-época em Física, como já contei.
Sou Libra com ascendente em Aquário, minha gente, por favor não esqueçam disso. Minha cabeça vive no ar assim como todo o resto do meu eu, do meu teu e do meu nosso.
Sou homem do conjunto, não do detalhe. Vejo o todo e ignoro suas partes salvo na hora de passar a mão. É um dos raros momentos em que as partes sobressaem ao todo que, não obstante, reassume meu ponto de vista logo depois, fumando um cigarro.
Eis-me o homem, quase segundo Platão.
Em caso de dúvidas, consulte um de nossos atendentes.
E, para não passar em branco, fui assistir ao Cirque du Soleil, Muito bonito, muito técnico, engraçado às vezes e com pouquíssima emoção. Não tem globo da morte, atirador de facas, elefantes e cães amestrados, os trapezistas tem rede embaixo e a dança nas alturas não esconde a cordinha, tirando toda e qualquer expectativa de uma possível queda da bailarina, estraçalhando-se no chão.
Alguns bons números dos atletas olímpicos são o máximo de paroxismo que atinge o espetáculo.
Bonito mesmo de ver é a multidão em paz, divertindo-se em conjunto, aplaudindo ao ritmo da música, além das crianças maravilhadas e suas gargalhadas gostosas.
Nada é mais lindo do que milhares de pessoas expressando o mesmo sentimento de alegria e prazer mesmo que tenham pago uma fortuna para isso.
Não imagino que os patrocinadores da temporada tenham reservado um espetáculo beneficente para crianças de rua ou moradoras de vilas populares. Nem que fosse para estampar um pouco de alegria naqueles rostinhos maltratados, alguns sorrisos maravilhados nas caras pré-envelhecidas, um pingo de esperança para vidas tão sofridas.
Os patrocinadores, que pagam a conta, falam em inglês, embora a língua oficial do grupo seja o francês canadense.
Time is moneynicas explicativas
quarta-feira, 23 de julho de 2008
VARIAÇÕES EM TORNO DO TEMA FIADASPUTAS
“ISSO TEM QUE TER FIM!”
João Eichbaum
Convidado a dar entrevista sobre os efeitos da chamada “Lei Seca”, para a Zero Hora que adotou, em campanha publicitária, o “slogan” “Isso tem que ter fim”, o ministro Tarso Genro se mostrou satisfeito e - porque não dizer? - vitorioso, já que o, digamos assim, governo Lula escolheu os bêbados como a melhor opção para acabar com as mortes por acidentes de trânsito (para as mortes de quem espera pelo SUS, por enquanto, os bêbados não são culpados) e foi aplaudido pela mesma empresa de comunicação, que fatura muito às custas dos cofres públicos para os quais contribuímos.
Ontem, infelizmente, a realidade mostrou que os bêbados não são os únicos culpados pelos acidentes de trânsito. Treze pessoas morreram, em conseqüência de choque entre uma carreta e um ônibus, na BR 386, causando uma comoção só comparável ao trágico vôo da TAM, há pouco mais de um ano.
Em crônica publicada há poucos dias este escriba denunciava o “inventário” feito com o dinheiro dos bêbados, entre a Brigada, a União e os órgãos municipais, responsáveis pelo trânsito.
Feita a repartição, nem mesmo baldezinhos com piche para tapar buracos se vêm nas estradas e ruas esburacadas. Donde se conclui que o que importa, para o governo, seja ele qual for, é a arrecadação. Afinal quem é que vai pagar mensalão, cartões corporativos, bolsa-família, e sustentar a “ação entre amigos”, como a que se fez no Detran?
Quando a ganância é maior do que a inteligência, é assim que se age: pega-se o dinheiro dos bêbados e o resto que se lixe. Ao invés de aplicar nas estradas a arrecadação que seria especifica - pedágios, multas, IPVA, - o governo recolhe esse dinheiro e dele não presta contas. Notícias sobre tais arrecadações só aparecem através de “CPIs”, que fazem o gosto dos políticos. Mas o dinheiro desaparecido, ou repartido, nunca mais volta.
Fosse duplicado aquele trecho da BR 386, não teria ocorrido o fatal acidente de ontem, vidas e sofrimentos teriam sido poupados. Mas como o dinheiro arrecadado nos pedágios, no IPVA, e agora também nos bolsos dos bêbados desaparece, não há verba orçada para obras e, ao que parece, nem as concessionárias dos pedágios têm qualquer responsabilidade pela segurança das estradas. O que as concessionárias fazem, em primeiro lugar, é arrecadar. Em segundo lugar, tornar as estradas convidativas para a velocidade, sem qualquer segurança.
E as estradas que não estão sob concessão? Ah, dessas o governo nem toma conhecimento. E quando falo em governo falo em todos os políticos de nível municipal, estadual e federal.
Todo o mundo sabe, por exemplo, que Santa Maria tem três ministros no, digamos assim, governo Lula. Mas, o que fazem eles? Como chegam a Santa Maria eles e os deputados do PT que lá vão para “visitar as bases”? Ah, certamente, eles vêm pela “base” aérea. É por isso que não têm conhecimento do estado deplorável daquela coisa que alguns até chamam de rodovia, Santa Maria-Porto Alegre, via Santa Cruz, no trecho que não está entregue às folgadas concessionárias.
Isso, sim, tem que ter fim! Sim, tem que ter fim: a irresponsabilidade, a ganância, a corrupção, o aproveitamento pessoal do dinheiro público. Construam-se estradas com segurança, duplicadas, com pistas amplas, em primeiro lugar, depois saiam a caçar os bêbados, porque aí, sim, em estradas seguras, só eles mesmos serão responsáveis pelos acidentes.
João Eichbaum
Convidado a dar entrevista sobre os efeitos da chamada “Lei Seca”, para a Zero Hora que adotou, em campanha publicitária, o “slogan” “Isso tem que ter fim”, o ministro Tarso Genro se mostrou satisfeito e - porque não dizer? - vitorioso, já que o, digamos assim, governo Lula escolheu os bêbados como a melhor opção para acabar com as mortes por acidentes de trânsito (para as mortes de quem espera pelo SUS, por enquanto, os bêbados não são culpados) e foi aplaudido pela mesma empresa de comunicação, que fatura muito às custas dos cofres públicos para os quais contribuímos.
Ontem, infelizmente, a realidade mostrou que os bêbados não são os únicos culpados pelos acidentes de trânsito. Treze pessoas morreram, em conseqüência de choque entre uma carreta e um ônibus, na BR 386, causando uma comoção só comparável ao trágico vôo da TAM, há pouco mais de um ano.
Em crônica publicada há poucos dias este escriba denunciava o “inventário” feito com o dinheiro dos bêbados, entre a Brigada, a União e os órgãos municipais, responsáveis pelo trânsito.
Feita a repartição, nem mesmo baldezinhos com piche para tapar buracos se vêm nas estradas e ruas esburacadas. Donde se conclui que o que importa, para o governo, seja ele qual for, é a arrecadação. Afinal quem é que vai pagar mensalão, cartões corporativos, bolsa-família, e sustentar a “ação entre amigos”, como a que se fez no Detran?
Quando a ganância é maior do que a inteligência, é assim que se age: pega-se o dinheiro dos bêbados e o resto que se lixe. Ao invés de aplicar nas estradas a arrecadação que seria especifica - pedágios, multas, IPVA, - o governo recolhe esse dinheiro e dele não presta contas. Notícias sobre tais arrecadações só aparecem através de “CPIs”, que fazem o gosto dos políticos. Mas o dinheiro desaparecido, ou repartido, nunca mais volta.
Fosse duplicado aquele trecho da BR 386, não teria ocorrido o fatal acidente de ontem, vidas e sofrimentos teriam sido poupados. Mas como o dinheiro arrecadado nos pedágios, no IPVA, e agora também nos bolsos dos bêbados desaparece, não há verba orçada para obras e, ao que parece, nem as concessionárias dos pedágios têm qualquer responsabilidade pela segurança das estradas. O que as concessionárias fazem, em primeiro lugar, é arrecadar. Em segundo lugar, tornar as estradas convidativas para a velocidade, sem qualquer segurança.
E as estradas que não estão sob concessão? Ah, dessas o governo nem toma conhecimento. E quando falo em governo falo em todos os políticos de nível municipal, estadual e federal.
Todo o mundo sabe, por exemplo, que Santa Maria tem três ministros no, digamos assim, governo Lula. Mas, o que fazem eles? Como chegam a Santa Maria eles e os deputados do PT que lá vão para “visitar as bases”? Ah, certamente, eles vêm pela “base” aérea. É por isso que não têm conhecimento do estado deplorável daquela coisa que alguns até chamam de rodovia, Santa Maria-Porto Alegre, via Santa Cruz, no trecho que não está entregue às folgadas concessionárias.
Isso, sim, tem que ter fim! Sim, tem que ter fim: a irresponsabilidade, a ganância, a corrupção, o aproveitamento pessoal do dinheiro público. Construam-se estradas com segurança, duplicadas, com pistas amplas, em primeiro lugar, depois saiam a caçar os bêbados, porque aí, sim, em estradas seguras, só eles mesmos serão responsáveis pelos acidentes.
terça-feira, 22 de julho de 2008
COLUNA DO MÁRIO SIMON
O SILÊNCIO DA HONRA
Conto de Mário Simon
(Do livro Contos Missioneiros)
Enquanto encilhava do cavalo, repassou de cabeça tudo o que a mulher recomendara. Quem não sabe ler e nem escrever, pra burro não deve servir. Tem de ter cabeça. Sal, fósforo, farinha de trigo, linha, branca, porém, que a preta tá lá, de arrecém costurada a bombacha. Putana, tem otra cosa.
Não se lembrava. Por fim, atravessou no lombo do cavalo uma mala-de-garupa, dez quilos de feijão da cada lado. Deve de dá. Troco tudo pelas compra e sobra, deve sobrá um trago de canha ou mais. Café! Taí, sabia que não era erva. Cabeça!
Montou e meteu os calcanhares nas virilhas do baio velho e saiu a trote. E a trote foi cortando o campo, diminuindo o caminho. A estrada alongava o tempo numa demorada volta à procura de uma pontezinha atrás do capão, lá na várzea.
O gaúcho, no campo vasto, é dono do sentido da liberdade. Se está sozinho, no andar do cavalo, pensa. E pensando, até que dá pro gasto. Mais um ano e boto barriga na Vergínia, largo filho nesse mundo véio. Destino de home é esse mesmo. Cria tem que havê até pra companhia da gente. Tem o caso do gasto, mas na precisão, meto nos pila duas ou três cabeças. Um piá!
Uma perdiz deu seu prrrrrr traiçoeiro no focinho do cavalo e se foi. Acompanhando o vôo direto de bichinho, seu olhar vagueou pela barba-de-bode na direção da baixada. Foi então que avistou um brilho no meio da galharia, lá na boca da picada da ponte. Num instante divisou que era o sol batendo na lataria de um automóvel, parado. Intrigou-se com essa presença, que o patrão anda em viage pro Mato Grosso, ué. Quem poderá de ser?
Não parou. Seguiu descendo a coxilha como que engolido pela paisagem. Lá embaixo, fez alto. Que cuera será esse? E se desse uma bisolhada! Nunca que te facilite, tem gente pra tudo, a patroa sozinha, Vergínia nunca nada resolve. Tem muito tempo pro bolicho. Olhou o sol e deu volta ao cavalo.
Outra vez no alto da coxilha, divisou o automóvel deslocando-se na direção do rancho. La puta! Sou o home da casa, deve de ser comigo. Retornando, sumiu outra vez nas baixadas entre o curioso e apreensivo. No galope, alcançou a última colina já perto da casa. Do alto, divisou o carro à sombra da figueira, na frente dos galpões. Mas sem vivente algum por perto. La puta! Da até pra desconfiá. Nem os cusco se alarmaram. Tem coisa ali!
Ainda a cavalo, rodeou o automóvel. Nada. Desceu em frente a um moirão da cerca, enrolou as rédeas no arame e seguiu até a porta da frente da casa. Nem a cherenga tenho pra um caso qualquer, que em bolicho não se deve ir armado. Pelos fundos. Dou na cozinha e me armo. Então, com pé macio, atravessava o pátio quando, a meio caminho, mas isso é gemido de Vergínia de quando gosta de home nu penetrando os quentes lá dela… esquentada de gozo, prazer de mulher.
Estacou gelado. Nem sabia se um passo dava para frente ou para trás. Uma suspeita antiga, ainda do tempo do noivado. O contador! La puta! É de carro azul, o borrabosta, taí! Me arremeto, pego a faca e castro o fia da puta. É por isso que a Vergínia fica uma jararaca quando falo dele. Tudo verdade o dito do Juvêncio, borracho não mente: te cuide do contador, sou teu amigo, não me leva a mal. E eu caguei ele de pau por causa dessa cadela. Guampudo e não sabia! Me espera sair e chega que nem zorro ladrão! Capo já o cachorro de uma égua. E a arma que não tenho. Fugir e largar pro diabo o fato certo e claro? E a vergonha trancada depois?
Doído e quebrado, depois de momentos indecisos, voltou para o cavalo. Mirou o campo enorme que a pobreza é maior que isso aí. Parece tudo nuviado com essa incerteza, nunca não maginei isso de perto, aí no ouvido, tudo vago e certo, esse campo claro de sol, mas escuro de vista, fico loco de não saber onde está o fim do mundo, me enfio lá. E dói, muito, muito, muito. Quando se deu por si, já estava sobre o cavalo rumando para o bolicho.
O gado pastava perto das mangueiras e algumas vacas já esperavam a abertura do curral. Um bando de garças acompanhava o gado, beliscando aqui e ali o chão. O sol espichava as sombras quando ele estava outra vez apeando em frente à porteira. Trazia as encomendas dentro da mala-de-garupa e cheirava à cachaça. Isso aqui nunca foi tão triste e nem é pra home que se preza. O mundão é maior que tudo e haverá de tê um lugá pra gente limpa. Nunca matei nem nunca robei. A puta véia taí sem mais nem menos.
De fato, Vergínia esperava-o na porta com a cuia do mate na mão. Os cabelos ainda úmidos indicavam que tomara banho recente. Ele desceu a mala-de-garupa largando-a na grama e iniciou a desencilhar o cavalo. Os cachorros cheiravam as compras, e o silêncio triste do campo ficava cada vez maior.
A mulher percebeu alguma diferença no marido, tão quieto. Não era assim de costume. Mas ele largou o cavalo no potreiro, pegou as compras e entrou na casa pelos fundos. Começava a escurecer.
- Você bebeu?
Não houve resposta. Ele tomava água numa caneca e olhava para fora pela janela.
- Você bebeu, eu disse!
- Bebi! Não posso?
Outro silêncio espreitoso, dessa vez da mulher que perdera um pouco a naturalidade esquecendo de oferecer o chimarrão. Ele pegou um balde e saiu em direção às estrebarias. Que mulher é fingidora, pensa que me engana, a vaca. Vai ver, vai ver…
A mesa estava posta, um feijão requentado, coberto de toucinho mal passado, um pedaço de pão e uma caneca de leite. Era tudo, além de um lamparina iluminando fraco na fumaça do óleo diesel. Vergínia esperou muito tempo, depois chamou-o, buscou-o no curral, chorou sozinha. Ele não mais voltou do vazio da noite.
Pela manhã, mal o sol dava o bom-dia ao mundo, via-se uma tropa conduzida por um cavaleiro como a preparar rodeio. Era ele. Mas a tropa foi tomando direção de uma estrada antiga, afastando-se cada vez mais em direção aos fundões do campo, até sumir de vez. E veio o dia total, e veio a tarde e veio a noite.
Na casa, nenhuma janela ou porta se abriu naquele dia. As vacas ficaram encerradas no curral. Os cachorros dormiam nas sombras. E nada mais se movimentou até o dia em que encontraram Vergínia caída ao lado da mesa, na boca ainda uma baba esverdeada, nos olhos, desmesuradamente abertos, o pavor do mundo, na cor, um azulado negro da pele inchada.
Dele, ninguém nunca mais soube.
Conto de Mário Simon
(Do livro Contos Missioneiros)
Enquanto encilhava do cavalo, repassou de cabeça tudo o que a mulher recomendara. Quem não sabe ler e nem escrever, pra burro não deve servir. Tem de ter cabeça. Sal, fósforo, farinha de trigo, linha, branca, porém, que a preta tá lá, de arrecém costurada a bombacha. Putana, tem otra cosa.
Não se lembrava. Por fim, atravessou no lombo do cavalo uma mala-de-garupa, dez quilos de feijão da cada lado. Deve de dá. Troco tudo pelas compra e sobra, deve sobrá um trago de canha ou mais. Café! Taí, sabia que não era erva. Cabeça!
Montou e meteu os calcanhares nas virilhas do baio velho e saiu a trote. E a trote foi cortando o campo, diminuindo o caminho. A estrada alongava o tempo numa demorada volta à procura de uma pontezinha atrás do capão, lá na várzea.
O gaúcho, no campo vasto, é dono do sentido da liberdade. Se está sozinho, no andar do cavalo, pensa. E pensando, até que dá pro gasto. Mais um ano e boto barriga na Vergínia, largo filho nesse mundo véio. Destino de home é esse mesmo. Cria tem que havê até pra companhia da gente. Tem o caso do gasto, mas na precisão, meto nos pila duas ou três cabeças. Um piá!
Uma perdiz deu seu prrrrrr traiçoeiro no focinho do cavalo e se foi. Acompanhando o vôo direto de bichinho, seu olhar vagueou pela barba-de-bode na direção da baixada. Foi então que avistou um brilho no meio da galharia, lá na boca da picada da ponte. Num instante divisou que era o sol batendo na lataria de um automóvel, parado. Intrigou-se com essa presença, que o patrão anda em viage pro Mato Grosso, ué. Quem poderá de ser?
Não parou. Seguiu descendo a coxilha como que engolido pela paisagem. Lá embaixo, fez alto. Que cuera será esse? E se desse uma bisolhada! Nunca que te facilite, tem gente pra tudo, a patroa sozinha, Vergínia nunca nada resolve. Tem muito tempo pro bolicho. Olhou o sol e deu volta ao cavalo.
Outra vez no alto da coxilha, divisou o automóvel deslocando-se na direção do rancho. La puta! Sou o home da casa, deve de ser comigo. Retornando, sumiu outra vez nas baixadas entre o curioso e apreensivo. No galope, alcançou a última colina já perto da casa. Do alto, divisou o carro à sombra da figueira, na frente dos galpões. Mas sem vivente algum por perto. La puta! Da até pra desconfiá. Nem os cusco se alarmaram. Tem coisa ali!
Ainda a cavalo, rodeou o automóvel. Nada. Desceu em frente a um moirão da cerca, enrolou as rédeas no arame e seguiu até a porta da frente da casa. Nem a cherenga tenho pra um caso qualquer, que em bolicho não se deve ir armado. Pelos fundos. Dou na cozinha e me armo. Então, com pé macio, atravessava o pátio quando, a meio caminho, mas isso é gemido de Vergínia de quando gosta de home nu penetrando os quentes lá dela… esquentada de gozo, prazer de mulher.
Estacou gelado. Nem sabia se um passo dava para frente ou para trás. Uma suspeita antiga, ainda do tempo do noivado. O contador! La puta! É de carro azul, o borrabosta, taí! Me arremeto, pego a faca e castro o fia da puta. É por isso que a Vergínia fica uma jararaca quando falo dele. Tudo verdade o dito do Juvêncio, borracho não mente: te cuide do contador, sou teu amigo, não me leva a mal. E eu caguei ele de pau por causa dessa cadela. Guampudo e não sabia! Me espera sair e chega que nem zorro ladrão! Capo já o cachorro de uma égua. E a arma que não tenho. Fugir e largar pro diabo o fato certo e claro? E a vergonha trancada depois?
Doído e quebrado, depois de momentos indecisos, voltou para o cavalo. Mirou o campo enorme que a pobreza é maior que isso aí. Parece tudo nuviado com essa incerteza, nunca não maginei isso de perto, aí no ouvido, tudo vago e certo, esse campo claro de sol, mas escuro de vista, fico loco de não saber onde está o fim do mundo, me enfio lá. E dói, muito, muito, muito. Quando se deu por si, já estava sobre o cavalo rumando para o bolicho.
O gado pastava perto das mangueiras e algumas vacas já esperavam a abertura do curral. Um bando de garças acompanhava o gado, beliscando aqui e ali o chão. O sol espichava as sombras quando ele estava outra vez apeando em frente à porteira. Trazia as encomendas dentro da mala-de-garupa e cheirava à cachaça. Isso aqui nunca foi tão triste e nem é pra home que se preza. O mundão é maior que tudo e haverá de tê um lugá pra gente limpa. Nunca matei nem nunca robei. A puta véia taí sem mais nem menos.
De fato, Vergínia esperava-o na porta com a cuia do mate na mão. Os cabelos ainda úmidos indicavam que tomara banho recente. Ele desceu a mala-de-garupa largando-a na grama e iniciou a desencilhar o cavalo. Os cachorros cheiravam as compras, e o silêncio triste do campo ficava cada vez maior.
A mulher percebeu alguma diferença no marido, tão quieto. Não era assim de costume. Mas ele largou o cavalo no potreiro, pegou as compras e entrou na casa pelos fundos. Começava a escurecer.
- Você bebeu?
Não houve resposta. Ele tomava água numa caneca e olhava para fora pela janela.
- Você bebeu, eu disse!
- Bebi! Não posso?
Outro silêncio espreitoso, dessa vez da mulher que perdera um pouco a naturalidade esquecendo de oferecer o chimarrão. Ele pegou um balde e saiu em direção às estrebarias. Que mulher é fingidora, pensa que me engana, a vaca. Vai ver, vai ver…
A mesa estava posta, um feijão requentado, coberto de toucinho mal passado, um pedaço de pão e uma caneca de leite. Era tudo, além de um lamparina iluminando fraco na fumaça do óleo diesel. Vergínia esperou muito tempo, depois chamou-o, buscou-o no curral, chorou sozinha. Ele não mais voltou do vazio da noite.
Pela manhã, mal o sol dava o bom-dia ao mundo, via-se uma tropa conduzida por um cavaleiro como a preparar rodeio. Era ele. Mas a tropa foi tomando direção de uma estrada antiga, afastando-se cada vez mais em direção aos fundões do campo, até sumir de vez. E veio o dia total, e veio a tarde e veio a noite.
Na casa, nenhuma janela ou porta se abriu naquele dia. As vacas ficaram encerradas no curral. Os cachorros dormiam nas sombras. E nada mais se movimentou até o dia em que encontraram Vergínia caída ao lado da mesa, na boca ainda uma baba esverdeada, nos olhos, desmesuradamente abertos, o pavor do mundo, na cor, um azulado negro da pele inchada.
Dele, ninguém nunca mais soube.
segunda-feira, 21 de julho de 2008
VARIAÇÕES EM TORNO DO TEMA FIADASPUTAS
QUEM SAI AOS SEUS NÃO DEGENERA
João Eichbaum
Não há outra alternativa. Ou você acredita na historinha da bíblia, segundo a qual Deus fez o homem de barro e lhe deu a vida através de um sopro, tirando-lhe uma costela para fazer a mulher ou, olhando aquela baranga ruiva e bigoduda com cara de travesti, que arrasta uma criança ranhenta, como se fosse uma mala com cordinha, se convence: Darwin está com a razão e não tem essa história de homem feito de barro e mulher feita de costela.
Na primeira hipótese, você há de admitir que o Deus, no qual você acredita, é um irresponsável. Sendo um onisciente, conhecendo o presente, o passado e o futuro, sabendo, portanto, que o homem ia comer (em qualquer sentido que se dê ao verbo) o fruto proibido e se tornar essa coisa que aí está, inventou-o, soprou-lhe a vida, tirou-lhe uma costela para fazer a mulher e o entregou à própria sorte.
Mas, se você for evolucionista, não será levado a cobrar, de quem quer que seja, a criação desse primata egoísta e forrado de hipocrisia. Você vai encará-lo com naturalidade porque, saindo donde saiu, não poderia ter melhorado muito, em apenas dois milhões de anos, segundo a conta feita por Geoffrey Blainey, em “ A very short history of the world”.
É a partir da constatação de Darwin que a gente fica sabendo por que razão os políticos são enganadores e corruptos. Sendo parentes próximos de bonobos e chimpanzés, eles não poderiam ser muito melhores do que são. Vejam o que diz Frans de Vaal, um dos mais respeitáveis primatólogos do mundo, no seu livro “ Our inner ape – A leading primatologist explains why we are who we are”, traduzido como “Eu, primata”, em edição brasileira: “ o chimpanzé, brutal e sedento de poder, contrasta com o pacato e erótico bonobo”. Quem conhece Fidel Castro e Bill Clinton (ou o Calheiros, uma versão brasileira do Clinton) não deixa de dar razão a Frans de Vaal, discípulo de Darwin.
Esse longo caminho entre a animalidade e a racionalidade, que marca a evolução do primata humano, ainda está em curso, desde que se considere a espécie como um todo: muitos primatas humanos ainda estão mais próximos da animalidade do que da racionalidade. Os que estão mais próximos da racionalidade são muito poucos e procuram não se misturar com os primeiros, salvo se for para tirar algum proveito. Donde se conclui que nem os racionais são melhores.
Esse misto de animalidade e racionalidade, com uma preponderando sobre a outra, numa proporção que varia de primata para primata, é que tem escrito a nossa história desde os antropóides até o Chaves, passando pelo Lula, pelo Getúlio Vargas, pelo FHC, pelo Clinton, pela Dilma Roussef, pelo Fidel Castro, pelo Sadam Hussein e outros menos lembrados.
A busca pelo poder é uma exigência da animalidade, cuja força centrífuga está no ego, e o homem usa a racionalidade (nas democracias) para satisfazê-la. Nos Estados tirânicos ou totalitários a animalidade se usa a si mesma como instrumento, representando a força que gera o medo e a conseqüente dominação.
Exemplos de animalidade e racionalidade, no comportamento do homem temos todos os dias diante dos olhos. Assim, a hipocrisia, que é fruto da racionalidade, inventa leis burras como o desarmamento, a intolerância ao fumo e ao álcool, e a tolerância às drogas (bêbado não pode dirigir, drogado, sim), enquanto, na outra ponta, a animalidade metralha criancinhas inocentes, em defesa de cuja vida a “Lei Seca” foi hipocritamente sancionada.
Como se vê, bonobos e chimpanzés continuam muito bem representados na espécie humana.
João Eichbaum
Não há outra alternativa. Ou você acredita na historinha da bíblia, segundo a qual Deus fez o homem de barro e lhe deu a vida através de um sopro, tirando-lhe uma costela para fazer a mulher ou, olhando aquela baranga ruiva e bigoduda com cara de travesti, que arrasta uma criança ranhenta, como se fosse uma mala com cordinha, se convence: Darwin está com a razão e não tem essa história de homem feito de barro e mulher feita de costela.
Na primeira hipótese, você há de admitir que o Deus, no qual você acredita, é um irresponsável. Sendo um onisciente, conhecendo o presente, o passado e o futuro, sabendo, portanto, que o homem ia comer (em qualquer sentido que se dê ao verbo) o fruto proibido e se tornar essa coisa que aí está, inventou-o, soprou-lhe a vida, tirou-lhe uma costela para fazer a mulher e o entregou à própria sorte.
Mas, se você for evolucionista, não será levado a cobrar, de quem quer que seja, a criação desse primata egoísta e forrado de hipocrisia. Você vai encará-lo com naturalidade porque, saindo donde saiu, não poderia ter melhorado muito, em apenas dois milhões de anos, segundo a conta feita por Geoffrey Blainey, em “ A very short history of the world”.
É a partir da constatação de Darwin que a gente fica sabendo por que razão os políticos são enganadores e corruptos. Sendo parentes próximos de bonobos e chimpanzés, eles não poderiam ser muito melhores do que são. Vejam o que diz Frans de Vaal, um dos mais respeitáveis primatólogos do mundo, no seu livro “ Our inner ape – A leading primatologist explains why we are who we are”, traduzido como “Eu, primata”, em edição brasileira: “ o chimpanzé, brutal e sedento de poder, contrasta com o pacato e erótico bonobo”. Quem conhece Fidel Castro e Bill Clinton (ou o Calheiros, uma versão brasileira do Clinton) não deixa de dar razão a Frans de Vaal, discípulo de Darwin.
Esse longo caminho entre a animalidade e a racionalidade, que marca a evolução do primata humano, ainda está em curso, desde que se considere a espécie como um todo: muitos primatas humanos ainda estão mais próximos da animalidade do que da racionalidade. Os que estão mais próximos da racionalidade são muito poucos e procuram não se misturar com os primeiros, salvo se for para tirar algum proveito. Donde se conclui que nem os racionais são melhores.
Esse misto de animalidade e racionalidade, com uma preponderando sobre a outra, numa proporção que varia de primata para primata, é que tem escrito a nossa história desde os antropóides até o Chaves, passando pelo Lula, pelo Getúlio Vargas, pelo FHC, pelo Clinton, pela Dilma Roussef, pelo Fidel Castro, pelo Sadam Hussein e outros menos lembrados.
A busca pelo poder é uma exigência da animalidade, cuja força centrífuga está no ego, e o homem usa a racionalidade (nas democracias) para satisfazê-la. Nos Estados tirânicos ou totalitários a animalidade se usa a si mesma como instrumento, representando a força que gera o medo e a conseqüente dominação.
Exemplos de animalidade e racionalidade, no comportamento do homem temos todos os dias diante dos olhos. Assim, a hipocrisia, que é fruto da racionalidade, inventa leis burras como o desarmamento, a intolerância ao fumo e ao álcool, e a tolerância às drogas (bêbado não pode dirigir, drogado, sim), enquanto, na outra ponta, a animalidade metralha criancinhas inocentes, em defesa de cuja vida a “Lei Seca” foi hipocritamente sancionada.
Como se vê, bonobos e chimpanzés continuam muito bem representados na espécie humana.
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