quarta-feira, 12 de novembro de 2008

COLUNA DO PAULO WAINBERG

AIAIAIUIUIUI
Paulo Wainberg



Você aí que anda em busca de grandes momentos na vida, pode parar e experimente pensar um pouco.
Sim, é com você mesmo que estou falando, você que ainda não entendeu que ilusões não existem e, portanto, não podem ser perdidas. Você que acha que apenas o grandioso é o que vale e não consegue aproveitar nada da vida porque, em busca da “elevação superior” da alma ou do espírito, despreza as conquistas feitas e abre mão das verdadeiras emoções que, ao fim e ao cabo, são verdadeiras porque você foi capaz de senti-las.
Ouça um bom conselho, como já propôs Chico Buarque de Holanda, e reconsidere tudo, desde o início.
Vou dar alguns exemplos para ajudar nesta reflexão.
O último ganhador do Prêmio Nobel da Paz: ganhou a maior honraria do universo, atingiu o ápice da glória pessoal e do reconhecimento. Foi saudado em discursos grandiloqüentes, recebeu uma polpuda grana, participou de um jantar comemorativo com as maiores celebridades, foi ovacionado e depois de tudo para onde ele foi?
Pense, para onde ele foi? Foi para casa dormir. Talvez até tenha comido um pedaço de salame italiano na cozinha, com um refrigerante e pão. Tomou um banho, quem sabe. Conversou com a mulher sobre um filho problemático, doeram-lhe as costas e demorou a adormecer, preocupado com alguma coisa que deixou para fazer amanhã como, por exemplo, levar o carro na oficina.
Coisas semelhantes aconteceram com os convivas da festa e, provavelmente com você, depois de um bom dia de trabalho ou de uma festa maravilhosa ou de uma formatura chata.
Claro que ambicionar um prêmio Nobel é muito bom. E ganhá-lo também. Mas o bom mesmo é depois, quando você está abrigado no seu próprio mundo, conhecendo de cor e salteado o seu ambiente e as pessoas que convivem com você.
A fama e a glória, meu amigo, só têm graça se você puder exibi-la entre os seus amigos, a sua família, os seus gostares.
Já vi muita celebridade assediada por garotas deslumbradas, pedindo autógrafos em cadernos escolares. O famoso lasca um garrancho no caderno e continua o assunto com quem realmente interessa, isto é, com quem tem algo a compartilhar.
Pessoalmente – não me envergonho de admitir – já passei duras penas nessa busca por algo superior que me deixava permanentemente insatisfeito, como se nada que me acontecesse fosse suficiente, grande o bastante para a minha “grandeza”.
Ledo (ivo) engano que cometi e que me custou caro, muito caro. As moedas com que paguei foram sofrimento, perda de oportunidades, referências distorcidas.
Um dia, escovando os dentes, olhei para minha boca cheia de dentifrício e me ocorreu: olha só que coisa maravilhosa este gostinho e a sensação de limpeza em minha boca. Entrei no banho e senti cada pingo de água tépida acariciando minha pele, os cabelos, o corpo inteiro... experimentei sensações grandiosas.
E assim, de gosto em gosto, de sabor em sabor, aquele dia revelou que minha vida era repleta de grandes momentos, recheada de reuniões monumentais, jantares soberbos, glórias inesquecíveis e homenagens incomparáveis como, por exemplo, o abraço de um amigo, o beijo de uma prima, um encontro de família para cantar as canções melhores e mais bonitas de todos os tempos, com muito riso, cerveja e sanduíches.
Você aí, que ainda não entendeu, não se desespere. O primeiro passo é não se considerar assim tão especial que o torne credor de todos os favores do mundo nem que todas as mulheres ou homens estão ao seu dispor. O passo seguinte é não achar que, indo ao cinema, está perdendo a balada ou que, indo à balada, está perdendo um concerto e que, indo ao concerto, está perdendo o futebol e que indo ao futebol está perdendo uma transa e que, indo transar está deixando de transar com outra e... e... e...
Conseguindo dar esses dois passos será mais fácil aceitar que você não é obrigado a gostar de ópera ou de artes plásticas. E compreenderá também que, se gostar, isto não o torna melhor do que ninguém.
Aliás, quando você se der conta de que, na essência, ninguém é melhor do que ninguém, você ficará perplexo ao perceber que, como corolário, ninguém é pior do que ninguém.
Então você poderá conversar com o garçom, a lavadeira, a empregada doméstica, o maior maestro do mundo, o presidente da república ou Pelé do mesmo modo, sem sentir-se superior, sem sentir-se inferior.
Finalmente, diante da velha, surrada, renovada e sempre invocada poeira dos tempos, você será mais um invisível grão que será lembrado pelo que foi e não pelo que quis ser.
Até ser esquecido e nem isso terá mais importância.
Ouça um bom conselho, você aí: aproveite o que tem, tente conseguir o que deseja e não perca seu tempo com ais e uis inócuos.
Use-os para o sexo, minha filha, meu garoto.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

VARIAÇÕES EM TORNO DO TEMA FIADASPUTAS

OS MINISTROS VÃO ÀS COMPRAS e OS ASSESSORES CARREGAM PACOTES

João Eichbaum

Lula está na bela Itália. Foi lá beijar a mão do Papa e levar seus ministros para fazer turismo. Noticiam os jornais que os ministros aproveitaram o tempo para conferir as liquidações das luxuosas lojas de Roma e para visitar cenários onde Fellini gravou filmes como “Roma” e “La Dolce Vita”.
Ah, sim, “dolce vita” é mesmo com Lula e seus ministros.
O senhor Nelson Jobim, ministro da Defesa (o que é que ele foi fazer lá, mesmo?) aproveitou uma tarde de céu limpo e a temperatura agradável desse fim de outono na Itália para passear pelas praças e ruas históricas da bela Roma, levando a tiracolo cinco sacolas de compras. Ele esteve na loja Salvatore Ferrano, uma das mais luxuosas grifes da Itália, que ficou famosa por fabricar sapatos e bolsas para atrizes como Marilyn Monroe, Audrey Hepburn e Nicole Kidmann.
A ministra chefe da Casa Civil, Dilma Roussef esquerdista de mão cheia, socialista mais do que convicta, também foi às compras, deslumbrada com o comunismo italiano, certamente. Segundo noticiam os jornais ela só apareceu no Hotel Raphael, onde se hospeda a luzidia comitiva do Lula, no final da tarde. Trazia consigo três sacolas, uma delas da loja Marvin &Friends. Ao ver repórteres na entrada do hotel, ela se desvencilhou dos pacotes e os atirou no colo de um assessor, entrando sem nada nas mãos no elevador.
Nessa comitiva do Lula há um ingrediente básico, ingrediente esse que não poderia faltar: mulher bonita. O Lula sabe que italiano gosta de mulher bonita. De modo que, diante da obrigação de levar a Dilma Roussef, para equilibrar levou também a deputada Cida Borghetti, do Paraná que, segundo muito boas línguas, é uma mulher lindíssima.
Não noticiam os jornais que a linda Cida Borghetti tenha ido às compras como os demais membros da comitiva, esquerdistas, comunistas, socialistas (nenhum capitalista). Certamente, ela não precisou comprar nada.
Isso é que é vida, meus amigos! Vida de esquerdista, de ex-sindicalista, ex-terrorista (terrorista pode ser ex?), tudo pago com o nosso dinheiro, até os assessores que têm colo para carregar os pacotes da Dilma.
Ou vocês não sabem que os ministros e seus assessores, quando estão a “serviço” da República ganham diárias?
Sem mais comentários.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

COLUNA DO PAULO WAINBERG

PENA DE MORTE
Paulo Wainberg


Hoje venho declarar que sou favorável à pena de morte como punição possível aplicável para determinados crimes e deferida por Júri Popular em votação unânime.
O Ditador, qualquer um e em qualquer circunstância, é um criminoso que pode ser condenado à morte e, na maioria dos casos, deve.
Estupradores em geral que, na prática, são executados pelos demais presos, nas prisões.
Terroristas de qualquer facção, credo ou corrente.
Alguns tipos de homicidas.
Latrocínio, o assassinato praticado com a finalidade de roubar.
A minha sugestão é que, caso a caso, o autor de um desses crimes possa ser condenado à morte, se assim entender a unanimidade dos jurados. Caso contrário, as penas de prisão seriam aplicadas pelo Juiz.
Surpreendo-me com esta declaração porque durante a vida inteira fui contra a pena de morte, jamais aceitei o “homicídio institucional”, muito mais por uma questão de valor, de repugnância com a idéia de tirar a vida de alguém do que por qualquer tipo de pensamento lógico.
Entretanto, como na maioria das coisas, a realidade modifica a teoria e as teorias no Direito Penal são inúmeras, variáveis e conflitantes.
O que é a pena e para que ela serve? A sociedade organizada tem o direito de vingar-se, de satisfazer o desejo comum de ser reparada pelo ato criminoso? A vingança é um conceito juridicamente aceitável no Direito Penal?
Sobre a pena em geral há os que defendem a teoria da recuperação do criminoso, transformando-o num agente útil à sociedade. É respeitável essa posição, mas a realidade demonstrou ser ela absolutamente impraticável.
Na minha opinião só é recuperável um criminoso se ele for condenado à conviver com pessoas inseridas no contexto social, para que possa conhecer e apreender os valores éticos civilizados, os princípios jurídicos que os sustentam contaminando-se assim de conceitos positivos e percebendo que o crime e a atividade criminosa rompem dramaticamente a ordem social e são assim inaceitáveis.
No entanto os criminosos condenados são confinados com outros condenados e, de tal confinamento, resulta a exacerbação transgressora e criminosa.
Não é à toa que os presídios são conhecidos como “escolas do crime” porque o convívio entre criminosos produz, como é óbvio, troca das experiências ilícitas, aperfeiçoamento de práticas ilegais com a indução necessariamente imposta à continuação criminosa, nem que seja um modo de pertencer minimamente a um grupo.
Outra corrente teórica entende que a pena é essencialmente punição, um castigo imposto ao criminoso, pura e simplesmente, sem qualquer conotação mais elevada do que a punição em si mesma.
Entretanto a realidade demonstra que a punição por si só não atinge seus objetivos pois o preso, além de gozar da ociosidade, tem garantia de alimentação, moradia, tratamentos de saúde, visitas de familiares, práticas desportivas e nenhum tipo de restrição, salvo a liberdade. Teoricamente tem também proteção policial para a segurança pessoal e integridade física. Teoricamente.
Os milhares de presos encarcerados constituem mão de obra ociosa, custando fortunas ao Estado e a assim denominada punição resta inócua, onerando a sociedade sem beneficiá-la em absolutamente nada porque, para cada criminoso preso existem centenas soltos.
Ditadores são a pior espécie de criminosos. Exercem o poder absoluto, desfrutam de todos os privilégios, não prestam contas de seus atos e exercem o verdadeiro e único assim chamado Terrorismo de Estado, prendendo e matando os próprios cidadãos por dissidências, opiniões contrárias e demais “crimes de pensamento”. Com tal espécie de gente não tenho nenhuma transigência e não reconheço a validade de qualquer melhoria que promovam ao seu país, ao custo cobrado da opressão, perseguições, censura e falta de liberdade. Os avanços sociais e tecnológicos não necessitam de ditadores a promovê-los, ao contrário, ocorrem com clareza e maior rapidez na sociedade democrática.
Pena de morte a todos os ditadores!
Estupradores são irrecuperáveis e a natureza hedionda dos crimes que cometem, sobretudo quando a vítima é menor, também aconselha aplicação da pena de morte. Não há direito humano que sustente a permanência de um estuprador desde que, mesmo doente, reconheça a natureza criminosa do ato que pratica, condição absolutamente necessária para a punição de qualquer crime. É um crime insuportável até mesmo entre os demais criminosos que, invariavelmente, matam o estuprador, quando ele é preso.
Pena de morte aos estupradores!
Terroristas são abomináveis por definição. Aliás aproveito o momento para criticar fortemente a mídia, especialmente a imprensa, que aceita a qualificação política que o terrorista pretende dar ao terror. Nada, mas absolutamente nada justifica atentados contra pessoas indefesas. O terrorismo é crime difuso por natureza, atingindo vítimas de forma aleatória, que não se sentiam ameaçadas e, de surpresa, são estraçalhadas por bombas covardes. O terrorismo usa a mídia para justificar-se e a mídia aceita ser usada, dando amplitude e divulgando “os motivos” de tão cruel e obsceno crime.
Pena de morte aos terroristas!
Existem homicidas e homicidas. Para a grande maioria dos casos não é cabível a pena de morte. Mas em alguns, poucos felizmente, não vejo outra alternativa, quando praticado com requintes de crueldade a indicar que o assassino está incluído no rol dos irrecuperáveis.
Seqüestradores que matam suas vítimas devem também ser passíveis da opção da pena de morte. Quem, durante dias, mantém um refém, seja por qual motivo for, tem suficiente tempo para acalmar-se, esvair-se de um estado emocional caótico a comandar suas ações ou de perceber que está trocando uma vida humana por dinheiro. Se assassina a vítima, trata-se de um homicida hediondo, cruel, amoral, imprestável para a sociedade.
Para seqüestradores, pena de morte!
E, dos crimes comuns, o pior deles é o latrocínio, isto é, aquele que mata para roubar. É importante considerar a ordem dos fatos: o criminoso mata alguém para roubá-lo depois.
Atualmente o latrocínio é crime julgado por Juiz e não por Júri popular. Acho este um equívoco legal porque o autor de latrocínio merece a pena de morte.
Palavra de honra: relendo este texto estou perplexo com minhas palavras. Jamais achei que ira dizê-las e muito menos defendê-las.
Mas a barbárie está além da ponderação e a selvageria atingiu ao nível do incogitável.
Não acredito que a pena de morte solucione algo, mesmo a excepcionalmente aplicada. Mas estou convencido de que a sociedade merece satisfação e tem direito a vingar-se, sim senhor, nem que seja para que o sentimento de justiça, tão relegado à planos inferiores da consideração coletiva e individual, dê ar de presença, acalme as exaltações e alivie a insuportável ardência das feridas.
Para constar: O assunto de hoje era outro. Fica para amanhã.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

VARIAÇÕES EM TORNO DO TEMA FIADASPUTAS

COM O PODER NA MÃO TODO MUNDO É VALENTE

João Eichbaum

Tempos houve em que o senhor Tarso Genro, que hoje leva, antes de seu nome, a palavra ministro, designado que foi pelo senhor Lula para cuidar dos Negócios da Justiça, esteve foragido. Ele e sua família. Fugiram, com medo do governo militar. Esquerdistas que eram, tanto ele como seus familiares, não tiveram coragem para manter seus discursos perante um governo ao qual se atribuía posição de direita. Então, pernas, para que vos quero?
Voltando do exílio, o senhor Tarso abriu uma banca de advocacia em Porto Alegre e vivia como um poeta bem comportado, dando pitacos em literatura, num Caderno do jornal Correio do Povo.
Quando ocorreu a chamada “abertura” aí ele soltou as asas, voltou a ser da esquerda, tornou a discursar sem temor e se elegeu prefeito de Porto Alegre. A partir daí, não ganhou mais nada em eleição, mas esteve sempre em todas as bocas do petê, esse partido que tem de tudo, menos de trabalhador. O Lula, há muito tempo não sabe o que é trabalho. O dito Tarso Genro sempre viveu de literatura e petições, sempre de terno e gravata e, ao contrário de mim, por exemplo, num teve que vestir um macacão para enfrentar o basquete.
Pois agora, arrotando poder, o senhor Tarso quer se vingar dos militares que o fizeram fugir com sua família. No seu dicionário, certamente, que deve ser um dicionário de sinônimos e antônimos, a palavra vingança é registrada como sinônimo de justiça. Ele, como ministro dessa coisa chamada Justiça, quer a punição dos “torturadores”, daqueles que faziam os esquerdistas se borrar pelas pernas, abrindo mão da coragem que é a marca dos verdadeiros machos.
Mas, “torturadores”, para o senhor Tarso, ex-literato e ex-poeta, são apenas aqueles que estavam do lado de lá, os que tinham o poder nas mãos. Os outros, os assaltantes de bancos, os seqüestradores de embaixadores, ah, esses não são torturadores, esses são vítimas, que estão recebendo polpudas indenizações.
Senhor Tarso, quem entra num Banco com um revólver na mão, acalma as pessoas? Não as tortura? Não lhes põe diante dos olhos o pavor da morte? E os que seqüestraram embaixadores, fizeram tudo numa legal, numa boa, sem armas, sem violência? Cárcere privado, senhor Tarso Genro, não é tortura?
Será que o senhor, que era poeta e literato, desaprendeu o abecê da humanística?
Não, senhor Tarso, não confunda Justiça com vingança. Se o senhor quer se vingar dos militares que o fizeram se borrar de medo, use de outros meios, faça-o por conta própria, aja como homem, pelo menos agora. Mas, se quiser fazer justiça, ah, então chame as duas partes perante os tribunais, ambos os torturadores, os da direita e os da esquerda. Aí eu até aplaudo, porque quero ver coleguinhas seus de idéias e de ministérios, respondendo pelos crimes que cometeram, torturando pessoas com armas e com cárcere privado.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

COLUNA DO PAULO WAINBERG

QUESTÕES MUNICIPAIS: UMA DIDÁTICA
Paulo Wainberg



Mildred, a governanta, tirou o seio esquerdo para fora e ofereceu-o para os beijos de Lord Cunnigham, o último sobrevivente da outrora poderosa dinastia de duques passistas da Escola de Samba Forever, sediada aos pés da santa cruz, no município de Milonga de Cima, arqui-rival de Milonga de Baixo.
Lord Cunnigham esbaforiu-se em lambidas úmidas de cuspe no bico excitado do seio esquerdo de Mildred que, gemendo, botava a língua para fora, como se fosse um tamanduá-bandeira, espécie em extinção na atribulada natureza deles dois.
Milonga de Cima ficava no sopé do morro e Milonga de Baixo no cume do mesmo morro. Os dois municípios eram inimigos mortais, inimizade que começou décadas antes quando, no concurso anual de masturbação masculina, o representante de Milonga de Baixo não aceitou a decisão da juíza, Rainha da Primavera de Milonga de Lado que fora eleita graças ao apoio dos eleitores de Milonga de Cima, no segundo turno.
A Rainha deixou de computar uma masturbada do representante de Milonga de Baixo, alegando que ela se completara com o instrumento flácido e que, flácido, não valia.
Foi uma zorra, o pau comeu solto e, desde então, os milonguenses de Baixo declararam guerra aos milonguenses de Cima.
Porém alguns milonguenses de Baixo concordaram com a decisão da Rainha e outros tantos de Cima discordaram e, assim, os dois municípios ficaram divididos entre si o que prejudicou de tal forma as decisões que, desde então, o concurso de masturbação deixou de ser realizado.
Milonga de Baixo era assim chamada porque seus habitantes, no cume do morro, olhavam para baixo quando queriam olhar Milonga de Cima. E vice-versa, isto é, os habitantes de Milonga de Cima tinham que olhar para cima quando queria olhar Milonga de Baixo.
Incapaz de conter a ansiedade, Lord Cunnigham puxou para fora o seio direito de Mildred e passou a lamber, beijar e mordiscar os dois mamilos, com rapidez e intensidade, para que Mildred tivesse a impressão que seus dois seios estavam sendo lambidos, beijados e mordiscados ao mesmo tempo.
As narinas de Mildred fumegavam como um vulcão em vias de acordar. Seu corpo tremia e, quase sem se dar conta, puxava a cabeça de Lord Cunnigham contra seus peitos a ponto de quase sufocar o indigitado que, para se ver livre do sufoco, enfiou a mão entre as coxas de Mildred, em busca de você sabe o que.
Como acontece nas grandes tragédias, o amor deles era proibido e por isso se encontravam naquele local, à sombra de um parreiral silvestre que ficava no território neutro entre as duas Milongas onde, por questões ideológicas, ninguém ia.
Desgraçadamente Mildred era milongueira de Baixo e Lord Cunnigham era milongueiro de Cima. E mesmo que ambos se declarassem pertencentes às respectivas facções dissidentes não tinham autorização das suas clãs para desenvolver o grande amor que sentiam, um pelo outro.
O mais interessante é que se conheceram por acaso em Milonga do Lado, que se beneficiava politicamente da rivalidade entre as duas Milongas, ora apoiando uma, ora outra, quando se tratava de decidir graves questões de interesse comunitário. Graças a isso Milonga do Lado era paparicada tanto por Milonga de Cima quanto por Milonga de Baixo e, numa dessas sessões de paparicação, Mildred e Lord Cunnigham puseram os olhos uma no outro e se quedaram irremediavelmente apaixonados.
Naquele momento Lord Cunnigham já massageava gostosamente as regiões, aquelas, de Mildred que correspondia, sôfrega e fogosa, uivando como um cachorro louco. O nobre homem preparava-se para o ato solene da introdução – visto que ela estava prontinha para a recepção – quando foi interrompido por uma voz masculina, irada e histriônica:
- Mas o quê que é isso, por todos os demônios do Inferno?!
Ainda com os joelhos no chão e a bunda branca para cima, Lord Cunnigham virou a cabeça em direção à voz e viu, horrorizado, que seu dono era nada mais nada menos que Wilfredo, o alfaiate de Milonga de Cima, inimigo mortal de Frédéric, o alfaiate de Milonga de Baixo.
- Fornicando a sombra do parreiral silvestre? Logo vós, Lord Cunnigham, o último sobrevivente de sua dinastia? O que ireis dizer aos vossos netos? – trovoou Wilfredo.
Com a dignidade que o momento conferia, Lord aprumou-se, deixando Mildred com as pernas abertas estendida no chão, ergueu as calças, puxou o zíper e apertou o cinto. Com voz calma, pausada e nobre, olhando Wilfredo nos olhos, afirmou em tom de censura:
- E não te avisei, Wilfredo, que estas calças estavam largas? Erraste novamente nas minhas medidas. Está decidido: a partir de hoje farei minhas roupas exclusivamente com Frédéric, o alfaiate de Milonga de Baixo.
Horrorizado com o que ouvira, Wilfredo disparou morro abaixo, rumo à Milonga de Cima onde, com notável rapidez, espalhou a notícia entre a população.
Aliviado, Lord Cunnigham voltou-se para sua amada que ali permanecia, repôs-se na posição anterior, reaqueceu e tratou de completar o serviço que, na opinião dos dois, foi muito bom.
Daquele dia em diante as relações entre as duas Milongas foram reatadas porque Frédéric, sabendo que ganhara um novo cliente, apressou-se a visitar Lord Cunnigham, carregando seus tecidos, revistas de moda, agulhas, tesouras, giz e réguas.
Mildred subiu o morro rumo a Milonga de Baixo e mal chegou em casa, recebeu um telefonema de Anastácia, decana de Milonga de Cima
querendo contratá-la como governanta de Nicolau, seu velho marido.
Em pouco tempo uma grande festa celebrou o fim da rivalidade entre as duas Milongas que, em conjunto, romperam relações com Milonga de Lado por quem, por tanto tempo, foram exploradas.
Naquele mesmo ano recomeçaram os concursos anuais de masturbação. O atual placar mostra uma leve vantagem de Milonga de Baixo sobre Milonga de Cima que promete reagir. Seu representante já iniciou a pré-temporada e afirma que chegará ao concurso na ponta dos dedos.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

CHARLES DARWIN TINHA RAZÃO

OS “FENÔMENOS “ RELIGIOSOS

João Eichbaum

Nesse último final de semana tive o privilégio de conhecer um belo exemplar de criatura humana, a doutora Christina Mitiko Ferreira. Uma jovem linda, esbelta, ostentando no rosto meigo, que lembra porcelana, a maravilhosa beleza oriental. Mas seus encantos não ficam na beleza física. Vão mais longe, a ponto de me tornar embevecido com a sua cultura. Ilustre psiquiatra de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, docente em curso de Medicina naquela bela cidade, a doutora Mitiko – prefiro chamá-la assim, porque seus acentuados traços orientais fazem esquecer seu nome brasileiro – foi uma companhia que me fez esquecer o tempo e penetrar na madrugada, como se tudo não tivesse passado de um minuto.
Senti que minhas idéias despertaram seu interesse, quando lhe confessei que tenho um fascínio por antropologia e que tenho por dogmas, sem restrição alguma, os ensinamentos de Charles Darwin.
A partir dessa minha confissão, a doutora Mitiko me fez mergulhar num mar de conhecimentos sobre o ser humano e abateu, uma por uma, as últimas dúvidas que eu tinha sobre os chamados “fenômenos” religiosos.
Foi através dela que fiquei sabendo das várias manifestações da epilepsia, que a gente, normalmente, liga a pessoas que tombam, entram em convulsão, babam e parecem movidas a choques elétricos em todo o corpo. Depois de me explicar que nem todo o epiléptico é doente mental, a doutora Mitiko se deteve numa forte corrente de neurologia, segundo a qual a epilepsia é a responsável pelo desenlace de “fenômenos” religiosos e fantasiosas visões, a partir do lobo temporal epiléptico. A epilepsia desse lobo temporal, além de tornar doentio o sentimento de religiosidade, desenvolve nessas pessoas a capacidade de tornar reais suas fantasias, a ponto de gerarem os chamados “fenômenos”, dos quais se aproveitam as religiões para enganar os incautos.
Dentre esses fenômenos se podem destacar as “chagas” de Cristo que um padre italiano, recém declarado santo, conhecido como Padre Pio, exibia. Do mesmo modo, o fenômeno da levitação atribuído ao Padre Reus, cujo túmulo, em São Leopoldo, atrai milhares de crentes, é fruto da epilepsia do lobo temporal. Resumindo, tanto o Padre Pio como o Padre Réus eram pessoas epilépticas e não santos, como querem a Igreja Católica e seus adeptos.
Fascinado pelos ensinamentos da doutora Mitiko, saí a campo e deparei com outras manifestações, como, por exemplo, da doutora Elza Yacubian, neurologista especializada em epilepsia na Universidade Federal de São Paulo. E ela reafirma que “a epilepsia do lobo temporal provoca alucinações e induz à religiosidade: pessoas com lesões nele costumam desenvolver uma religiosidade extrema”.
A partir de tais constatações científicas, segundo a doutora Mitiko, há neurologistas crentes, deístas que, não tendo argumentos para refutar a tese, resolvem atribuir a “Deus” a epilepsia do lobo temporal, para que alguns privilegiados possam gozar da presença dessa “divindade”, através dos fenômenos causados pela doença.
Enfim, graças à ciência se desmistificam não somente os “santos” como também o espiritismo, uma área muito apropriada para os efeitos da epilepsia. E eu, graças à jovem, bela e culta doutora Mitiko, chego à conclusão de que somente pessoas inteligentes e sem epilepsia podem se dar ao luxo de dispensar deuses, espíritos e religiões. Tudo isso se soma à conclusão do doutor Richard Lynn, professor emérito e chefe do Departamento de Psicologia da universidade de Ulster, de que somente pessoas de QI mais alto tendem a questionar a existência de Deus.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

COLUNA DO PAULO WAINBERG

ATENÇÃO! PAULO WAINBERG ESTARÁ AUTOGRAFANDO NA FEIRA DO LIVRO AMANHÃ, ÀS 19,30!


POR TODA A SUA VIDA
Paulo Wainberg



Muito tempo depois de tudo terminado ele conseguiu enfrentar os dias fingindo que ela não existia. Conseguiu tirar da cabeça a premência constante em vê-la, de estar com ela, ouvir sua voz e dedicar-lhe a imensa paixão que guardava escondida e que justificara sua vida.
Com esforço, remédios e tratamento, recuperou o equilíbrio e a lucidez, aceitando finalmente que a vida não seria vivida com ela e, mesmo assim, merecia continuar. Aprendeu a valorizar o que tinha e sublimar o que não era possível ter. Chegou a ter grandes alegrias, satisfações e prazeres e, em muitos momentos, até mesmo duvidar que, algum dia, tivesse amado tanto.
Entretanto duas coisas teimavam em traí-lo e faziam recrudescer o amor e, nesses momentos, o amor parecia inesgotável.
Quando alguma dessas coisas acontecia, ou ambas, ele se via novamente prisioneiro da paixão e emergia em funda melancolia, a vida perdia a graça e só lhe ficava um imponderável desejo de chorar.
Durante horas, sem forças para reagir, a tragédia de seu amor provocava pensamentos desencontrados afetava-lhe o raciocínio e sentimentos conflitantes fulminavam suas emoções.
Lembranças, recordações, fantasias, desejos a flor da pele, ímpetos mal contidos de procurar por ela, falar-lhe nem que fosse ao telefone, só para ouvir a voz amada, mesmo que a voz amada nada dissesse e, se algo dizia, era como se nada jamais tivesse acontecido. Controlava o impulso mas algumas vezes sucumbia, atrás da conhecida emoção de ouvir-lhe voz, mesmo indiferente e corriqueira que lhe respondia do outro lado da linha.
O que ele desejava era um indício, uma tonalidade, uma palavra a dizer-lhe que ainda era recíproca a paixão, que o tempo não a desfizera em pó e que de algum jeito, mínimo que fosse, ele era ainda importante na vida dela.
Em vão.
Sempre que não resistiu e tentou obter alguma resposta, encontrou nela a firmeza impiedosa de quem não queria mais falar no assunto.
Ele morria.
Passadas as horas ele reunia suas últimas reservas e saia do estado catatônico, retomando a realidade e pondo a vida para frente até aprumar-se e até que uma das duas coisas acontecesse de novo.
A primeira coisa que gerava a confusão era quando, por acaso, encontrava com ela ou a via em algum lugar. Tinha direcionado sua vida para evitar esses encontros, sabendo o sofrimento que lhe causavam. Entretanto em algumas ocasiões era inevitável embora ele evitasse tanto quanto é possível evitar.
Bastava olhar para ela que perdia o jeito, ficava nervoso, gaguejava e era possuído de monumental ansiedade a ponto de faltar-lhe o ar.
Quando, eventualmente, era forçado a um cumprimento direto o mundo sumia sob seus pés. Sentia-se dentro de uma fogueira, o fogo dissolvendo cada pedaço de pele e osso e não imaginava onde conseguia forças para não abraçá-la ou para soltar sua mão, uma das partes dela que mais amava sentir.
Mas sempre conseguia, sempre consegue, amparado em sabe-se lá qual senso, qual instinto de defesa. De uma coisa ele tinha certeza e talvez fosse este o suporte maior que lhe assegurava um mínimo de comportamento quando se via diante dela: morria à simples idéia de fazê-la sofrer, de causar-lhe constrangimento ou qualquer mal estar.
Porque ela, como acontece nas vidas, por isto ou por aquilo, tinha par. Ás vezes um, às vezes outro, mas sempre tinha par.
E ele também.
Como declarar-se a ela apaixonadamente diante de pares assim presentes sem causar um buchincho, um banzé, o maior rolo?
E ele então controlava o ímpeto com o coração partido e corroído em ácido sulfúrico, secando com a mão as bagas de suor, fingindo um ataque de tosse e escapulindo rapidamente.
E de antemão sabendo que as próximas horas seriam de profunda catatonia amorosa, de certezas e dúvidas, teria o olhar dela dito alguma coisa? Teria ela deixado a mão na sua um pouco mais de tempo? Teria ela procurado o olhar dele e nele permanecido um tantinho a mais?
O outro fato que provocava o fenômeno era os sonhos. Ele sonhava muito e, quando acordava, lembrava dos sonhos. Sonhos com enredo, começo, meio e fim, personagens variados, cenários diferentes e tudo a cores. E na maioria desses sonhos ela era a personagem principal.
Nos sonhos a única constante era o enorme amor dele por ela. As variações iam desde a rejeição explícita, por parte dela, até os sentimentos de ciúmes mais devastadores ou a deliciosa correspondência dela ao amor dele.
Os sonhos eram vividos por ele com tanta intensidade que pareciam mais reais do que a própria realidade.
Numa noite ele sonhou que estava numa sala e ela estava sentada no sofá. Ele se aproximou, sentou-se e a abraçou. E foi tão bom aquele abraço, tão emocionante e rico que ele despertou, em plena madrugada, virando-se na cama e abraçando o travesseiro.
O vazio imediato foi aniquilante ao perceber que abraçava o travesseiro e que tamanha emoção não passara de um sonho.
E não conseguiu mais dormir, envolvido por mil sensações, lutando para não pensar nela mas, delicadamente, deixando-se envolver pela doce emoção do sonho que tivera, revivendo os momentos sublimes em que esteve mais uma vez nos braços de sua amada.
Os anos passaram e foram vividos por ele como se a vida fosse a famosa canção de Vinícius de Moraes.
E por toda a eternidade, enquanto viveu, acalentou o sonho de, um dia, finalmente estar com ela.