BIS IN IDEM
Paulo Wainberg
Quando entrou na máquina do tempo para voltar ao passado e apertou o botão, não fazia a menor idéia do que iria acontecer.
Ficou cego devido ao clarão e quando a visão voltou viu-se entrando na máquina do tempo e apertar o botão.
Imediatamente ele viu-se olhando para as costas dele mesmo que entrava na máquina do tempo e apertava o botão.
Quando a grande sala estava repleta dele mesmo e ele já estava do lado de fora, percebeu que tinha que interromper a seqüência para acabar com a conseqüência.
Pois cada vez que ele entrava na máquina do tempo e apertava o botão voltava alguns segundos ao passado e ia para o último lugar da fila.
Durante os poucos segundos de reflexão ele já estava no jardim do grande edifício e logo em seguida do outro lado da calçada.
Ele tinha que se impedir de entrar na máquina do tempo e apertar o botão, isso era urgente, imprescindível, pensou, ao ver os setenta quilômetros de fila dele mesmo a sua frente.
Mas como fazer? - perguntou-se, percebendo que estava em outra cidade e, mal percebeu isso e já estava fora da outra cidade, no meio de campos sem fim.
Nenhuma idéia lhe ocorria quando sentiu uma coisa dura e fria às suas costas e, antes de se virar, viu que estava dentro da máquina do tempo e logo em seguida diante da porta por onde ele tentava entrar em vão.
Dera a volta no planeta e batera de costas com a sua frente, completando o ciclo e congelando o tempo.
Parou imediatamente de se reproduzir porque, de costas, impedia-se de entrar na máquina do tempo e apertar o botão. Não tinha como se mover, pois a máquina era estreita e não cabia dois, lado a lado. Ele do lado de fora não conseguia entrar, sem perceber que as costas dele mesmo trancavam a passagem.
Com grande esforço ele, do lado de dentro, conseguiu virar-se e ficou de frente com ele do lado de fora que se vendo do lado de dentro nada entendeu e teve uma crise de pânico.
Do lado de dentro ele disse para si mesmo, do lado de fora, que não entrasse na máquina do tempo nem apertasse o botão porque a coisa estava preta.
Do lado de fora ele controlou o pânico e compreendeu que ele já havia entrado na máquina do tempo e apertado o botão, causando uma sucessão sucessiva dele mesmo graças a uma ruptura inesperada no contínuo espaço-tempo sobre o qual a máquina do tempo operava.
Do lado de dentro ele explicou para si mesmo, do lado de fora, que ele ocupava a circunferência inteira do planeta sendo ele, do lado de dentro, o último dele mesmo e que ele, do lado de fora, era o primeiro.
O de lado de fora perguntou a si mesmo do lado de dentro qual seria a solução.
O do lado de dentro concluiu que só havia um modo de interromper o processo e que por isso ele, do lado de fora ia desobstruir a porta e ele do lado de dentro sairia pela porta de entrada, percorrendo o caminho inverso até que ele, do lado de fora fosse o primeiro da fila.
Ele do lado de fora compreendeu a idéia e deu um passo para o lado. Imediatamente ele, do lado de dentro, saiu da máquina do tempo e continuou caminhando de costas, seguido por ele do lado de dentro que foi seguido por ele do lado de dentro até que, doze anos depois ele, do lado de fora, viu-se diante da desbloqueada entrada da máquina do tempo, tendo-se atrás de si, o primeiro de frente encostado nas costas dele.
O tempo que ele levou caminhando de costas para dar outra volta na circunferência do trajeto, percorrendo caminho paralelo ao que percorrera na primeira vez, foi rápido, considerando o tamanho do planeta.
Ele, do lado de fora viu que ele, estava de costas, encostado na dura e fria parede da máquina do tempo, do lado de lá, e compreendeu que o círculo se fechara novamente.
Com um suspiro de alívio entrou na máquina do tempo e apertou dois botões ao mesmo tempo.
Imediatamente ele, do lado de fora, foi-se dissolvendo um a um e ele, do lado de dentro, foi o único que restou.
Saiu da máquina do tempo, consultou o indicador espaço-tempo e viu que estava de volta ao exato momento em que entrara na máquina do tempo e apertara o botão.
Pensativo dirigiu-se para a saída, algo ocasionara a ruptura do contínuo espaço-tempo, uma probabilidade e quinhentos trilhões de acontecer. Ia demorar até descobrir o defeito. Abriu a porta e estancou, ouvindo passos atrás de si.
Virou-se.
Ele saiu da máquina do tempo, consultou o indicador espaço-tempo e viu que estava de volta ao exato momento em que entrara na máquina do tempo e apertara o botão.
Segundos depois ele saiu da máquina do tempo, consultou o...
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
PRA QUEM AINDA ACREDITA EM PAPAI NOEL, CEGONHA E JUSTIÇA
STF considera legal prorrogar grampos sobre Medina
O Supremo Tribunal Federal (STF) confirmou que são legais as sucessivas prorrogações de grampos telefônicos autorizadas pelo ministro Cezar Peluso para apurar um esquema de venda de sentenças judiciais. Gravações feitas pela Polícia Federal, obtidas com autorização judicial, apontam Virgílio Medina, irmão do ministro Paulo Medina, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), negociando o pagamento de R$ 1 milhão para a concessão de uma liminar liberando o funcionamento de 900 máquinas caça-níqueis em Niterói, no Rio de Janeiro. Paulo Medina é apontado pelos policiais como a pessoa central no esquema. -O que o Poder Judiciário não suporta é a perda de sua credibilidade - opinou Cezar Peluso, relator do pedido de denúncia contra o ministro Paulo Medina.
STF acaba com a prisão de depositários infiéis
- O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu ontem que ninguém poderá ser preso por ter uma dívida e se desfazer do bem que foi dado como garantia ao empréstimo. Com a decisão, o STF acabou na prática com a prisão civil dos chamados depositários infiéis. Por maioria de votos, o Supremo concluiu na sua decisão que esse tipo de prisão somente pode ocorrer nos casos de dívida de pensão alimentícia, mas nunca em contratos como leasing, por exemplo. Durante o julgamento, os ministros do STF fizeram questão de deixar claro que a Constituição Federal prevê como um dos direitos fundamentais a liberdade e não se deve privar um ser humano dessa garantia por causa de uma dívida. Ou seja, para eles, a prisão de uma pessoa não resolve o problema do pagamento da dívida.
STF: Ex-marido terá que dividir 20 bilhões de cruzeiros sonegados em partilha de bens
A Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça manteve decisão que determinou a sobrepartilha de 20 bilhões de cruzeiros que foram sonegados por ex-marido durante processo de separação amigável de casamento realizado em regime de comunhão universal de bens.O valor devido deve ser atualizado monetariamente até a data do seu efetivo pagamento. O cruzeiro foi moeda nacional no período de março de 1990 a julho de 1993
Suspenso julgamento sobre divisão de precatórios para pagamento de honorários advocatícios
A ministra Ellen Gracie pediu vista e interrompeu o julgamento do Recurso Extraordinário (RE) 564132 impetrado pelo estado do Rio Grande do Sul. Na ação, o estado quer impedir que advogados consigam fracionar o valor da execução de precatórios, manobra que permite o pagamento de honorários antes mesmo de o valor principal ser pago. Entidades que representam a categoria dos advogados defendem a execução autônoma dos honorários, independentemente do valor principal a ser recebido pelo cliente. Antes do pedido de vista, os ministros Eros Grau (relator), Menezes Direito, Cármen Lúcia, Ricardo Lewandowski e Carlos Ayres Britto foram favoráveis aos argumentos dos advogados e negaram provimento ao recurso do RS, por concordarem que os honorários advocatícios são autônomos, ou seja, não têm a mesma natureza do pagamento principal da ação e não precisam ser vinculados a ele. Na visão dos representantes da categoria, como o honorário advocatício não é um dinheiro que pertence diretamente ao cliente, não deve ser considerado verba acessória do processo.
O Supremo Tribunal Federal (STF) confirmou que são legais as sucessivas prorrogações de grampos telefônicos autorizadas pelo ministro Cezar Peluso para apurar um esquema de venda de sentenças judiciais. Gravações feitas pela Polícia Federal, obtidas com autorização judicial, apontam Virgílio Medina, irmão do ministro Paulo Medina, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), negociando o pagamento de R$ 1 milhão para a concessão de uma liminar liberando o funcionamento de 900 máquinas caça-níqueis em Niterói, no Rio de Janeiro. Paulo Medina é apontado pelos policiais como a pessoa central no esquema. -O que o Poder Judiciário não suporta é a perda de sua credibilidade - opinou Cezar Peluso, relator do pedido de denúncia contra o ministro Paulo Medina.
STF acaba com a prisão de depositários infiéis
- O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu ontem que ninguém poderá ser preso por ter uma dívida e se desfazer do bem que foi dado como garantia ao empréstimo. Com a decisão, o STF acabou na prática com a prisão civil dos chamados depositários infiéis. Por maioria de votos, o Supremo concluiu na sua decisão que esse tipo de prisão somente pode ocorrer nos casos de dívida de pensão alimentícia, mas nunca em contratos como leasing, por exemplo. Durante o julgamento, os ministros do STF fizeram questão de deixar claro que a Constituição Federal prevê como um dos direitos fundamentais a liberdade e não se deve privar um ser humano dessa garantia por causa de uma dívida. Ou seja, para eles, a prisão de uma pessoa não resolve o problema do pagamento da dívida.
STF: Ex-marido terá que dividir 20 bilhões de cruzeiros sonegados em partilha de bens
A Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça manteve decisão que determinou a sobrepartilha de 20 bilhões de cruzeiros que foram sonegados por ex-marido durante processo de separação amigável de casamento realizado em regime de comunhão universal de bens.O valor devido deve ser atualizado monetariamente até a data do seu efetivo pagamento. O cruzeiro foi moeda nacional no período de março de 1990 a julho de 1993
Suspenso julgamento sobre divisão de precatórios para pagamento de honorários advocatícios
A ministra Ellen Gracie pediu vista e interrompeu o julgamento do Recurso Extraordinário (RE) 564132 impetrado pelo estado do Rio Grande do Sul. Na ação, o estado quer impedir que advogados consigam fracionar o valor da execução de precatórios, manobra que permite o pagamento de honorários antes mesmo de o valor principal ser pago. Entidades que representam a categoria dos advogados defendem a execução autônoma dos honorários, independentemente do valor principal a ser recebido pelo cliente. Antes do pedido de vista, os ministros Eros Grau (relator), Menezes Direito, Cármen Lúcia, Ricardo Lewandowski e Carlos Ayres Britto foram favoráveis aos argumentos dos advogados e negaram provimento ao recurso do RS, por concordarem que os honorários advocatícios são autônomos, ou seja, não têm a mesma natureza do pagamento principal da ação e não precisam ser vinculados a ele. Na visão dos representantes da categoria, como o honorário advocatício não é um dinheiro que pertence diretamente ao cliente, não deve ser considerado verba acessória do processo.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
COLUNA DO PAULO WAINBERG
O MUNDO É O BASTANTE
Paulo Wainberg
Nos anos Oitenta fui de uma importância fundamental para as grandes empresas. Não havia reunião de diretoria em que meu nome não fosse citado, enaltecido e recomendado.
Foi uma época esplendorosa da minha vida quando, diariamente, eu recebia telefonemas e visitas de vendedores de consórcios, enciclopédias, túmulos, ações, investimentos financeiros, títulos patrimoniais de dezenas de clubes.
Eles se anunciavam dizendo, para meu orgulho e glória, que a diretoria havia recomendado meu nome, fato que me dava uma sensação de importância magnífica.
Enciclopédias eu comprei, uma sobre bichos e outra em inglês, visto que, como recomendado pela diretoria editorial, aquelas obras seriam extremamente importantes para uma adequada formação de meus filhos que, sinceramente, não poderiam ser privados do acesso à cultura e à informação.
Estão lá em casa até hoje. Minha filha nunca abriu um único volume. Nem eu. Nem ninguém da minha família.
Porém, como poderia eu recusar a oferta, vinda assim de tão altos escalões corporativos? E, egoisticamente recusar à minha filha tão transcendental oportunidade?
Adquiri também um consórcio para um carro que, todos os meses eu poderia receber, ou por lance ou por sorteio. Não fui sorteado e não dei lance. No terceiro mês agi por conta própria, comprei o carro que eu queria e dei o consórcio como entrada.
O sucesso excessivo, a fama explícita e o reconhecimento das diretorias empresariais exagerado produziram em mim o desejo de voltar à antiga obscuridade, enfarado que fiquei de tamanha visibilidade.
Não foi fácil, mas consegui convencer minha secretária da época a não me passar mais ligações de ofertadores, por mais que insistissem e invocassem a grandeza da honra que suas diretorias me conferiam.
Voltei ao anonimato e, por muitos e muitos anos, as diretorias mercantis esqueceram que eu existia.
Malgrado certa sensação de abandono, sucedeu que, assim ignorado, voltei às minhas anteriores práticas de comprar o que eu queria, quando eu queria, onde eu queria. Tive algumas dificuldades iniciais, pois já me acostumara a ter meus desejos definidos pelas diretorias empresarias.
Você sabe como as escolhas em geral são difíceis.
Felizmente me acostumei com a renovada realidade e ao longo dos anos seguintes minhas compras obedeceram a três critérios imutáveis que cumpri de forma intransigente, sem concessões e em rigorosa ordem: impulso, vontade e necessidade.
Com a pertinácia que me é peculiar comprei na Colômbia, pela bagatela de cem dólares, três pedras de cristal, informado que fui pela vendedora, dos efeitos energéticos positivos dos cristais; fiz um enxoval completo dois números menores do que o meu porque iria – e ainda vou – emagrecer. Troquei vários aparelhos de som, automóveis, adquiri uns posters pornográficos num brique, enfim, fui fiel às minhas prioridades, com prudência e parcimônia, baseado no universal princípio econômico segundo o qual, quem não deve teme. Eu, para não temer, devo.
Não é que ontem, pelas quatro da tarde, minha secretária me passa a ligação de um senhor chamado Charles. Imaginei tratar-se de Charles Kieffer, patrono da Feira do Livro, único Charles que conheço, querendo me convidar para alguma homenagem ou coisa assim. Disse-me o Charles ao telefone, literalmente:
- O seu nome foi selecionado e recomendado por nossa diretoria para uma oferta maravilhosa de um consórcio.
Quase caí da cadeira: estou recuperando minha antiga importância? Disfarcei e disse:
- Que ótimo. Consórcio do que, mesmo?
- Para o que senhor desejar, doutor. Imóveis, carros, eletrodomésticos...
- Para divórcio tem? – interrompi.
- Como?
- Divórcio. Aqui em nosso escritório elaboramos um plano de consórcio para divórcio. Se o senhor aderir, poderá se divorciar por lance ou por sorteio, são dois divórcios por mês, ou então no final do plano. Com uma vantagem adicional: o senhor pode transferir o plano para quem quiser, algum amigo, sua mãe e até mesmo para sua mulher.
- Sério?- perguntou Charles. Vocês têm mesmo esse plano? E quem for solteiro, como eu?
- Não tem problema nenhum. O senhor pode ingressar no plano especial de Divórcio Preventivo.
- Preventivo? Como é que funciona?
- É simples. Hoje o senhor é solteiro, mas um dia vai casar. Se você adquirir um plano de Divórcio Preventivo, quando casar já estará com seu divórcio assegurado.
Sem nenhum comentário Charles agradeceu e desligou o telefone.
Eu fiquei dividido entre dois sentimentos: orgulhoso por estar ocupando outra vez um lugar de destaque entre as diretorias das grandes empresas e temeroso de que venham condicionar e decidir sobre os meus ideais de consumo.
Estarão os velhos tempos de volta? Sou de novo uma celebridade entre os executivos?
Para me preservar resolvi responder ao ferro com ferro. Ofereçam-me um consórcio e devolverei em troca o consórcio de divórcio.
Aos mais afoitos advirto: já estou bolando outro plano consorcial, algo a ver com rolhas, tampas de garrafa e preservativos
Paulo Wainberg
Nos anos Oitenta fui de uma importância fundamental para as grandes empresas. Não havia reunião de diretoria em que meu nome não fosse citado, enaltecido e recomendado.
Foi uma época esplendorosa da minha vida quando, diariamente, eu recebia telefonemas e visitas de vendedores de consórcios, enciclopédias, túmulos, ações, investimentos financeiros, títulos patrimoniais de dezenas de clubes.
Eles se anunciavam dizendo, para meu orgulho e glória, que a diretoria havia recomendado meu nome, fato que me dava uma sensação de importância magnífica.
Enciclopédias eu comprei, uma sobre bichos e outra em inglês, visto que, como recomendado pela diretoria editorial, aquelas obras seriam extremamente importantes para uma adequada formação de meus filhos que, sinceramente, não poderiam ser privados do acesso à cultura e à informação.
Estão lá em casa até hoje. Minha filha nunca abriu um único volume. Nem eu. Nem ninguém da minha família.
Porém, como poderia eu recusar a oferta, vinda assim de tão altos escalões corporativos? E, egoisticamente recusar à minha filha tão transcendental oportunidade?
Adquiri também um consórcio para um carro que, todos os meses eu poderia receber, ou por lance ou por sorteio. Não fui sorteado e não dei lance. No terceiro mês agi por conta própria, comprei o carro que eu queria e dei o consórcio como entrada.
O sucesso excessivo, a fama explícita e o reconhecimento das diretorias empresariais exagerado produziram em mim o desejo de voltar à antiga obscuridade, enfarado que fiquei de tamanha visibilidade.
Não foi fácil, mas consegui convencer minha secretária da época a não me passar mais ligações de ofertadores, por mais que insistissem e invocassem a grandeza da honra que suas diretorias me conferiam.
Voltei ao anonimato e, por muitos e muitos anos, as diretorias mercantis esqueceram que eu existia.
Malgrado certa sensação de abandono, sucedeu que, assim ignorado, voltei às minhas anteriores práticas de comprar o que eu queria, quando eu queria, onde eu queria. Tive algumas dificuldades iniciais, pois já me acostumara a ter meus desejos definidos pelas diretorias empresarias.
Você sabe como as escolhas em geral são difíceis.
Felizmente me acostumei com a renovada realidade e ao longo dos anos seguintes minhas compras obedeceram a três critérios imutáveis que cumpri de forma intransigente, sem concessões e em rigorosa ordem: impulso, vontade e necessidade.
Com a pertinácia que me é peculiar comprei na Colômbia, pela bagatela de cem dólares, três pedras de cristal, informado que fui pela vendedora, dos efeitos energéticos positivos dos cristais; fiz um enxoval completo dois números menores do que o meu porque iria – e ainda vou – emagrecer. Troquei vários aparelhos de som, automóveis, adquiri uns posters pornográficos num brique, enfim, fui fiel às minhas prioridades, com prudência e parcimônia, baseado no universal princípio econômico segundo o qual, quem não deve teme. Eu, para não temer, devo.
Não é que ontem, pelas quatro da tarde, minha secretária me passa a ligação de um senhor chamado Charles. Imaginei tratar-se de Charles Kieffer, patrono da Feira do Livro, único Charles que conheço, querendo me convidar para alguma homenagem ou coisa assim. Disse-me o Charles ao telefone, literalmente:
- O seu nome foi selecionado e recomendado por nossa diretoria para uma oferta maravilhosa de um consórcio.
Quase caí da cadeira: estou recuperando minha antiga importância? Disfarcei e disse:
- Que ótimo. Consórcio do que, mesmo?
- Para o que senhor desejar, doutor. Imóveis, carros, eletrodomésticos...
- Para divórcio tem? – interrompi.
- Como?
- Divórcio. Aqui em nosso escritório elaboramos um plano de consórcio para divórcio. Se o senhor aderir, poderá se divorciar por lance ou por sorteio, são dois divórcios por mês, ou então no final do plano. Com uma vantagem adicional: o senhor pode transferir o plano para quem quiser, algum amigo, sua mãe e até mesmo para sua mulher.
- Sério?- perguntou Charles. Vocês têm mesmo esse plano? E quem for solteiro, como eu?
- Não tem problema nenhum. O senhor pode ingressar no plano especial de Divórcio Preventivo.
- Preventivo? Como é que funciona?
- É simples. Hoje o senhor é solteiro, mas um dia vai casar. Se você adquirir um plano de Divórcio Preventivo, quando casar já estará com seu divórcio assegurado.
Sem nenhum comentário Charles agradeceu e desligou o telefone.
Eu fiquei dividido entre dois sentimentos: orgulhoso por estar ocupando outra vez um lugar de destaque entre as diretorias das grandes empresas e temeroso de que venham condicionar e decidir sobre os meus ideais de consumo.
Estarão os velhos tempos de volta? Sou de novo uma celebridade entre os executivos?
Para me preservar resolvi responder ao ferro com ferro. Ofereçam-me um consórcio e devolverei em troca o consórcio de divórcio.
Aos mais afoitos advirto: já estou bolando outro plano consorcial, algo a ver com rolhas, tampas de garrafa e preservativos
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
VARIAÇÕES EM TORNO DO TEMA FIADASPUTAS
E A MAIORIA AINDA ACHA QUE NÃO É MACACO
João Eichbaum
Lúcido e inteligente, meu colega Adair Philippsen publicou na ZH de ontem um excelente artigo, intitulado “Lições de Outros Animais”. Encabeça o texto uma citação de Ernesto Sabato: “os animais são melhores do que nós”.
Lendo o artigo de Adair Philippsen, não há como não lembrar de Charles Darwin e concluir com a mesma idéia de Ernesto Sabato: nós, os macacos humanos, somos os piores animais.
Em resumo, Philippsen discorre sobre o respeito que os outros animais têm pela natureza que os sustenta e sobre o equilíbrio que disso resulta para eles, equilíbrio esse demonstrado no pleno funcionamento do meio ambiente, sem necessidade de leis, de polícia, de governo, de deputados e juízes ou de advogados especializados em direito ambiental.
Mas o macaco chamado homem não age assim. Mesmo com polícia, leis, regulamentos, Ibama e tudo o mais, ele não respeita a natureza. O dinheiro sempre fala mais alto, a corrupção, que não existe entre os animais, se encarrega de facilitar o descumprimento das leis.
Os “grandes empreendimentos” imobiliários e a ânsia de exibir riqueza e poder estão acima de tudo e comandam as barbaridades: destroem-se florestas, rouba-se o espaço das águas, dinamita-se a montanha assentada na pedra milenar, sem falar na destruição pela química, em nome da tecnologia e do progresso.
Sim, o macaco homem é o pior, exatamente por ser o mais burro de todos os animais (com perdão da palavra “burro”, injustamente escolhida como antônimo de inteligência). Ele pensa que é “muito” inteligente, esquecendo-se de que carrega 98% da carga genética dos chimpanzés. E por ser burro, isto é, por não saber usar a sua inteligência, é que ele transa animalescamente, povoa animalescamente o mundo e depois tem que arranjar lugar para morar, comida para viver e ainda dar terras para o MST. Depois que desceu das árvores, abandonou a floresta e perdeu o rabo, tornou-se isso que aí está: pior do que qualquer outro macaco.
Se fosse inteligente, como pensa que é, o macaco homem seria diferente e não precisaria se enternecer com catástrofes que ele mesmo causa e que são transformadas em dinheiro pelos donos da grande imprensa.
João Eichbaum
Lúcido e inteligente, meu colega Adair Philippsen publicou na ZH de ontem um excelente artigo, intitulado “Lições de Outros Animais”. Encabeça o texto uma citação de Ernesto Sabato: “os animais são melhores do que nós”.
Lendo o artigo de Adair Philippsen, não há como não lembrar de Charles Darwin e concluir com a mesma idéia de Ernesto Sabato: nós, os macacos humanos, somos os piores animais.
Em resumo, Philippsen discorre sobre o respeito que os outros animais têm pela natureza que os sustenta e sobre o equilíbrio que disso resulta para eles, equilíbrio esse demonstrado no pleno funcionamento do meio ambiente, sem necessidade de leis, de polícia, de governo, de deputados e juízes ou de advogados especializados em direito ambiental.
Mas o macaco chamado homem não age assim. Mesmo com polícia, leis, regulamentos, Ibama e tudo o mais, ele não respeita a natureza. O dinheiro sempre fala mais alto, a corrupção, que não existe entre os animais, se encarrega de facilitar o descumprimento das leis.
Os “grandes empreendimentos” imobiliários e a ânsia de exibir riqueza e poder estão acima de tudo e comandam as barbaridades: destroem-se florestas, rouba-se o espaço das águas, dinamita-se a montanha assentada na pedra milenar, sem falar na destruição pela química, em nome da tecnologia e do progresso.
Sim, o macaco homem é o pior, exatamente por ser o mais burro de todos os animais (com perdão da palavra “burro”, injustamente escolhida como antônimo de inteligência). Ele pensa que é “muito” inteligente, esquecendo-se de que carrega 98% da carga genética dos chimpanzés. E por ser burro, isto é, por não saber usar a sua inteligência, é que ele transa animalescamente, povoa animalescamente o mundo e depois tem que arranjar lugar para morar, comida para viver e ainda dar terras para o MST. Depois que desceu das árvores, abandonou a floresta e perdeu o rabo, tornou-se isso que aí está: pior do que qualquer outro macaco.
Se fosse inteligente, como pensa que é, o macaco homem seria diferente e não precisaria se enternecer com catástrofes que ele mesmo causa e que são transformadas em dinheiro pelos donos da grande imprensa.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
COLABORAÇÃO DA VIVIAN PARA AUMENTAR O NÚMERO DOS FIADASPUTAS
MAIS PÉROLAS DO ÚLTIMO ENEM - EXAME NACIONAL DO ENSINO MÉDIO 'O sero mano tem uma missão...' (A minha, por exemplo, é ter que ler isso!) 'O Euninho já provocou secas e enchentes calamitosas. .' (Levei uns minutos para identificar o El Niño...) 'O problema ainda é maior se tratando da camada Diozanio!' (Eu não sabia que a camada tinha esse nome bonito) 'A situação tende a piorar: o madereiros da Amazônia destroem a Mata Atlântica da região.' (E além de tudo, viajam pra caramba, hein?) Não preserve apenas o meio ambiente e sim todo ele.' (Faz sentido) 'O grande problema do Rio Amazonas é a pesca dos peixes' (Achei que fosse a pesca dos pássaros.) 'É um problema de muita gravidez.' (Com certeza...se seu pai usasse camisinha, não leríamos isso!) 'A AIDS é transmitida pelo mosquito AIDES EGIPSIO.' (Sem comentário)'Já está muito de difíciu de achar os pandas na Amazônia' (Que pena. Também ursos e elefantes sumiram de lá) 'A natureza brasileira tem 500 anos e já esta quase se acabando'(Foi trazida nas caravelas, certo ?)'O cerumano no mesmo tempo que constrói, também destroi, pois nos temos que nos unir para realizarmos parcerias juntos.'(Não conte comigo) 'Na verdade, nem todo desmatamento é tão ruim. Por exemplo, o do Aeds Egipte seria um bom beneficácio para o Brasil' (Vamos trocar as fumaças pelas moto-serras) ... menos desmatamentos, mais florestas arborizadas. ' (Concordo! De florestas não arborizadas, basta o Saara!) 'Isso tudo é devido ao raios ultra-violentos que recebemos todo dia.' (Meu Deus... Haja pára-raio!) 'Tudo isso colaborou com a estinção do micro-leão dourado.'(Quem teria sido o fabricante? Compaq ? Apple? IBM?) 'Imaginem a bandeira do Brasil. O azul representa o céu , o verde representa as matas, e o amarelo o ouro. O ouro já foi roubado e as matas estão quase se indo. No dia em que roubarem nosso céu, ficaremos sem bandeira..' (Caraca! Ainda bem que temos aquela faixinha onde está escrito 'Ordem e Progresso'..) '... são formados pelas bacias esferográficas. ' (Imaginem as bacias da BIC.)'Eu concordo em gênero e número igual.' (Eu discordo!) 'Precisa-se começar uma reciclagem mental dos humanos, fazer uma verdadeira lavagem celebral em relação ao desmatamento, poluição e depredação de si próprio.' (Putz, que droga é essa?) 'O serigueiro tira borracha das árvores, mas não nunca derrubam as seringas. (Esse deve ter tomado uma na veia) 'Vamos deixar de sermos egoistas e pensarmos um pouco mais em nos mesmos.' (Que maravilha!) Vivian Gonçalves Dias__________________________________________________________
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
COLUNA DO PAULO WAINBERG
NON SENSE
Paulo Wainberg
Conheço dois tipos de pessoas: as que são assim e as que são assado. As assim gostam disto e daquilo e as assado não. As assim dizem que vão ou não vão, as assado, talvez.
As que são assim interagem na abstração e no eflúvio. As que são assado dissimulam no rasgo e na coragem.
As pessoas que são assim desenvolvem traços narcórios, capilares exumados e raras profundidades.
As pessoas que são assado perambulam e se fulminam entre azeitonas.
As que são assim freqüentam escalábrios, dormem em pantufagens e pandorgueiam, escorreitas.
As que são assado cometem glicerinas, praticam mao-tsé-tung em academias, lipoaspiram vaginas e mijam no seco.
Eu gostaria de conhecer outros tipos de pessoas, que fossem, sei lá, fulanas, beltranas e sicranas.
Teria com elas marmorices, gardolices e clarices. Passaria dias inteiros entre punções aquilinas, fermentando colos boçais até adormecer. Sonharia conquiquilhas e acordaria ensarrado, entre bugalhos, sovacos e avestruzes.
Mas não. Coube-me por destino conhecer apenas pessoas assim ou assado.
Pessoas assim fomentam, formatam, firminam e fuligem. Querem sempre um toma lá dá cá dialético rico em teores clitoráxicos, mas nenhum engodo fosforecente.
Já as assado exigem buscapés rosados, protásios firulentos, flibusteiros sem graça, bem aos moldes do comeu, não leu e sinodal.
Com todos os quiabos, polainas e borzeguins! Como isso me rita!
Jivago com meus tostões e pergunto: Quais eu restolho, estas ou aquelas? As assim ou as assado?
Respingo pronomes sulfurados, beatos e pernilongos e repolho: nem pum nem potro.
Será, quem sabe, hora de inverter os políbios? Depravar os arreios? Fenestrar ovos mastodontes?
Tristemente conluio: É lateralmente impossível encontrar um ambos, simulacramente assim e assado, um que não perceveja, que não confrade e muito menos chávena ou samovar.
Em van recorro ruas de arrabalde, vejo cocheiros e tamanduás e o que cobra é rouco, nenhum e quasimodo.
Em van confúcio os ecos, recorrecos e botecos, chinelando uma usura, pustulando uma prosódia e tudo o que macho é gente basculante, sem ver e sem gonha.
Em van relusco, refusco e etrusco, mas é ventil. Nada me contrafaz, nada me sobeja à seborréia.
Fresta-me uma falácia: Jamais cabrochar, seja assim, seja assado; jamais estuprar os que me desencarnam; jamais preliminar, nem aquiles nem alibaba.
Levarei a vitela deflorada e, qual aquarela doidivanas, irei aldrovando, dom casmurro e cortiço, rebosteando as traições.
E quando menos esporrearem, eu voltaren.
Paulo Wainberg
Conheço dois tipos de pessoas: as que são assim e as que são assado. As assim gostam disto e daquilo e as assado não. As assim dizem que vão ou não vão, as assado, talvez.
As que são assim interagem na abstração e no eflúvio. As que são assado dissimulam no rasgo e na coragem.
As pessoas que são assim desenvolvem traços narcórios, capilares exumados e raras profundidades.
As pessoas que são assado perambulam e se fulminam entre azeitonas.
As que são assim freqüentam escalábrios, dormem em pantufagens e pandorgueiam, escorreitas.
As que são assado cometem glicerinas, praticam mao-tsé-tung em academias, lipoaspiram vaginas e mijam no seco.
Eu gostaria de conhecer outros tipos de pessoas, que fossem, sei lá, fulanas, beltranas e sicranas.
Teria com elas marmorices, gardolices e clarices. Passaria dias inteiros entre punções aquilinas, fermentando colos boçais até adormecer. Sonharia conquiquilhas e acordaria ensarrado, entre bugalhos, sovacos e avestruzes.
Mas não. Coube-me por destino conhecer apenas pessoas assim ou assado.
Pessoas assim fomentam, formatam, firminam e fuligem. Querem sempre um toma lá dá cá dialético rico em teores clitoráxicos, mas nenhum engodo fosforecente.
Já as assado exigem buscapés rosados, protásios firulentos, flibusteiros sem graça, bem aos moldes do comeu, não leu e sinodal.
Com todos os quiabos, polainas e borzeguins! Como isso me rita!
Jivago com meus tostões e pergunto: Quais eu restolho, estas ou aquelas? As assim ou as assado?
Respingo pronomes sulfurados, beatos e pernilongos e repolho: nem pum nem potro.
Será, quem sabe, hora de inverter os políbios? Depravar os arreios? Fenestrar ovos mastodontes?
Tristemente conluio: É lateralmente impossível encontrar um ambos, simulacramente assim e assado, um que não perceveja, que não confrade e muito menos chávena ou samovar.
Em van recorro ruas de arrabalde, vejo cocheiros e tamanduás e o que cobra é rouco, nenhum e quasimodo.
Em van confúcio os ecos, recorrecos e botecos, chinelando uma usura, pustulando uma prosódia e tudo o que macho é gente basculante, sem ver e sem gonha.
Em van relusco, refusco e etrusco, mas é ventil. Nada me contrafaz, nada me sobeja à seborréia.
Fresta-me uma falácia: Jamais cabrochar, seja assim, seja assado; jamais estuprar os que me desencarnam; jamais preliminar, nem aquiles nem alibaba.
Levarei a vitela deflorada e, qual aquarela doidivanas, irei aldrovando, dom casmurro e cortiço, rebosteando as traições.
E quando menos esporrearem, eu voltaren.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
VARIAÇÕES EM TORNO DO TEMA FIADASPUTAS
POBRE NÃO DÁ LUCRO PARA AS AUTORIDADES
João Eichbaum
Os pobres não dão lucro direto para as autoridades. Portanto, ó, no deles.
Vocês viram dia desses uma manchete que dizia GOLPE CONTRA O TRANSPORTE CLANDESTINO?
O que é que vocês poderiam imaginar, lendo só a manchete? Vocês chegariam à conclusão de quê?
Só lendo o texto é que a gente fica sabendo: tem uma turminha, donos de Uno, Palio, Celta, Ka, Corsa Sedan e Tempra que leva o pessoal de Guaíba pra Porto, (hora do pico, naturalmente) a troco de merrecas, vale transporte, por exemplo.
Pois esse pessoal foi surpreendido por agentes do Departamento Estadual de Investigações Criminais e da Brigada Militar, que montaram duas barreiras, uma na Estrada do Conde e outra na Br 116, na saída do bairro Cohab Santa Rita. Um aparato policial, portanto. Enquanto alguns policiais faziam greve, outros armavam barreira para atacar, não delinqüentes, mas uns pobres diabos que se viram para ganhar um troquinho a mais.
O crime deles? Fazer concorrência para a empresa de Transporte Expresso Rio Guaíba.
Isso é crime, senhores! Um crime gravíssimo, que tira os policiais da greve, para ficarem de alerta, desde as cinco da matina. Outros crimes, como assaltos e tráfico de drogas são crimes de pequena monta, não fazem mal a ninguém, por isso os agentes não se preocupam com eles. Mas dar carona e levar um vale transporte, ah isso é crime contra a Fazenda Estadual!
Esse trabalho de investigação, segundo o jornal, já estava preparado há três meses, pois em agosto um grupo de policiais civis, militares e funcionários da Fundação Estadual de Planejamento Metropolitano e Regional começou a fazer o acompanhamento dos carros que eram usados no transporte clandestino de passageiros de Guaíba – as palavras não são minhas, são do jornal.
Transporte “clandestino”. Já pensaram? É possível transportar clandestinamente alguém, através de rodovias movimentadas, que todo o mundo enxerga? Por favor, jornalistas de meia tigela, vão procurar no dicionário o que significa “clandestino”.
Pois tudo isso, minha gente, foi feito para beneficiar uma empresa de transportes, que estava vendo diminuir o número de passageiros. Não foi para beneficiar uma população, uma comunidade, mas para beneficiar o dono da empresa. Para proteger os interesses dele, o Estado botou um batalhão de policiais na rua – armados até os dentes, certamente.
E agora vem a pergunta: e o que faz o Estado para melhorar o transporte coletivo? Por que é que o Estado não dá uma olhada nas paradas de ônibus onde os pobres se aglomeram, por longo tempo, à espera de um coletivo e, quando entram têm que ficar de pé, se apertando, se bolinando, suando e peidando “clandestinamente”?
A resposta é muito simples: pobre não dá lucro para as autoridades. E quem não dá lucro tem mais é que se ralar.
João Eichbaum
Os pobres não dão lucro direto para as autoridades. Portanto, ó, no deles.
Vocês viram dia desses uma manchete que dizia GOLPE CONTRA O TRANSPORTE CLANDESTINO?
O que é que vocês poderiam imaginar, lendo só a manchete? Vocês chegariam à conclusão de quê?
Só lendo o texto é que a gente fica sabendo: tem uma turminha, donos de Uno, Palio, Celta, Ka, Corsa Sedan e Tempra que leva o pessoal de Guaíba pra Porto, (hora do pico, naturalmente) a troco de merrecas, vale transporte, por exemplo.
Pois esse pessoal foi surpreendido por agentes do Departamento Estadual de Investigações Criminais e da Brigada Militar, que montaram duas barreiras, uma na Estrada do Conde e outra na Br 116, na saída do bairro Cohab Santa Rita. Um aparato policial, portanto. Enquanto alguns policiais faziam greve, outros armavam barreira para atacar, não delinqüentes, mas uns pobres diabos que se viram para ganhar um troquinho a mais.
O crime deles? Fazer concorrência para a empresa de Transporte Expresso Rio Guaíba.
Isso é crime, senhores! Um crime gravíssimo, que tira os policiais da greve, para ficarem de alerta, desde as cinco da matina. Outros crimes, como assaltos e tráfico de drogas são crimes de pequena monta, não fazem mal a ninguém, por isso os agentes não se preocupam com eles. Mas dar carona e levar um vale transporte, ah isso é crime contra a Fazenda Estadual!
Esse trabalho de investigação, segundo o jornal, já estava preparado há três meses, pois em agosto um grupo de policiais civis, militares e funcionários da Fundação Estadual de Planejamento Metropolitano e Regional começou a fazer o acompanhamento dos carros que eram usados no transporte clandestino de passageiros de Guaíba – as palavras não são minhas, são do jornal.
Transporte “clandestino”. Já pensaram? É possível transportar clandestinamente alguém, através de rodovias movimentadas, que todo o mundo enxerga? Por favor, jornalistas de meia tigela, vão procurar no dicionário o que significa “clandestino”.
Pois tudo isso, minha gente, foi feito para beneficiar uma empresa de transportes, que estava vendo diminuir o número de passageiros. Não foi para beneficiar uma população, uma comunidade, mas para beneficiar o dono da empresa. Para proteger os interesses dele, o Estado botou um batalhão de policiais na rua – armados até os dentes, certamente.
E agora vem a pergunta: e o que faz o Estado para melhorar o transporte coletivo? Por que é que o Estado não dá uma olhada nas paradas de ônibus onde os pobres se aglomeram, por longo tempo, à espera de um coletivo e, quando entram têm que ficar de pé, se apertando, se bolinando, suando e peidando “clandestinamente”?
A resposta é muito simples: pobre não dá lucro para as autoridades. E quem não dá lucro tem mais é que se ralar.
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