SANCHO PANÇA
NUNCA MENTIU
Tanto El País como Le Monde elegeram Lula, no ano passado, como o personagem do ano. Ao conferir-lhe o título, estes prestigiosos jornais omitiram sua incultura, sua conivência com a corrupção e seu acobertamento de corruptos, desde a proteção a José Sarney e seu clã a sua leniência com mensaleiros e os ditos aloprados. Tampouco fazem qualquer alusão à desbragada corrupção familiar, quando um filho de Lula recebeu o aporte de R$ 5 milhões para sua empresa só porque era filho de Lula.
Quaisquer destes fatos manchariam irremediavelmente a reputação de qualquer dirigente europeu. Em Lula, sequer fazem mossa.
Tenho minha tese a respeito desta reverência incondicional ao Supremo Apedeuta. Os europeus sempre tiveram o coração à esquerda. Sempre acariciaram a idéia de um presidente operário. Là bas, loin de nous. Desde que não seja na Europa. Aconteceu com Lech Walesa, filho de um carpinteiro e mecânico de carros. Mas Polonia é Leste europeu, não é a boa Europa de cá. Operário na presidência na América Latina? Louvado seja. Se for operário, ipso facto é louvável, digno e justo. Mesmo que louve e apóie tiranos que os europeus abominam, como Castro, Chávez ou Ahmadnejad. Tudo vale a pena, quando a alma não é pequena.
El País enviou ao Brasil seu fundador e ex-diretor Juan Luis Cebrián, para uma entrevista com Lula. Que não veio, evidentemente, para colocar o entrevistado contra a parede. As perguntas que urgiam ser feitas não foram feitas.
O jornalista voltou a seu país saudando Lula como um Sancho Pança quando governador da Isla de Barataria. Que tinha este nome “pela barateza com que se lhe dera o governo”, como escreve Cervantes. Neste episódio, o autor do Quixote satiriza a nobreza espanhola, já que o humilde Sancho se mostra audaz e judicioso e impõe uma lição de cordura aos nobres ociosos e desonestos.
Ora, cá entre nós, o Sancho de Garanhuns, mal acedeu ao governo, adquiriu todos os vícios da “nobreza” tupiniquim: corporativismo, compadragem, leniência com o crime, proteção de corruptos. Na verdade, é um Sancho às avessas.
Se Cebrián quis homenagear Lula elevando-o à condição de Sancho, na verdade reduziu o Brasil à condição de Barataria.Isto é o de menos. O que surpreende é ver um jornalista com tal currículo aceitar como fatos as mentiras deslavadas de Lula. Como esta:- Minha trajetória, meu perfil político, minha vida no sindicato, a criação do PT, caracterizam-me, sem dúvida, como um esquerdista.
Mas o próprio PT é uma novidade na esquerda mundial. Nasceu contra todos os dogmas dos partidos marxistas-leninistas, que obedeciam fielmente à Rússia ou à China.Ora, o DNA do PT é marxista-leninista. O partido nasceu em 1980, nove anos antes da queda do Muro, onze anos antes da dissolução da União Soviética, quando nenhum partido de esquerda ousaria denunciar como tiranias os regimes de Pequim e Moscou. Foi constituído basicamente por egressos do marxismo e trotskismo e militantes da esquerda católica. A carta programática do PT foi originalmente socialista. Mesmo após a queda do Muro e o desmoronamento da URSS, não ouvimos de nenhum dirigente petista um único pio contra as tiranias comunistas. Silêncio obsequioso e total. O máximo que um petista ousa falar é em “desvios do stalinismo”, sempre preservando o sagrado nome de Lênin, outro assassino de mão cheia. Crimes do comunismo é expressão que jamais maculará os castos lábios de um petista.
Sancho Pança não mentia. Que Cebrián desconheça o DNA do PT até que se entende. Mais difícil é entender como um jornalista experiente possa imaginar que, antes do desmoronamento do comunismo, apparatchiks marxistas fizessem críticas à China ou Rússia.
Mas tudo fecha. Cebrián é jornalista que dedicou sua vida a combater Franco, o homem que salvou a Espanha e a Europa das garras de Stalin.Lula, por sua vez, pertence àquela estirpe que cria uma mentira e passa a nela acreditar. O apedeuta pode ser apedeuta, mas sabe muito bem que o PT não “nasceu contra todos os dogmas dos partidos marxistas-leninistas, que obedeciam fielmente à Rússia ou à China”. Pelo contrário, desde o berço o partido afirmou estes dogmas. Num passe de mágica, Lula muda a biografia do PT.Cebrián engoliu bonitinho a potoca. Todo jornalista brasileiro tem consciência desta inverdade, que aos céus clama desmentido. Mas nenhum ousou denunciá-la. Daqui pela frente, o PT passa a ser um partido que sempre lutou contra o comunismo.
VOLTAREMOS SEXTA-FEIRA
terça-feira, 11 de maio de 2010
segunda-feira, 10 de maio de 2010
CRÔNICAS IMPUDICAS
O ESPIRITO SANTO
João Eichbaum
Nunca entendi muito bem a história. Tem o Pai, tem o Filho, tem o Espírito Santo. Foi o que me ensinaram no catecismo.
Então são três deuses? Era a minha pergunta, era a pergunta de todos, era a pergunta até do padre.
Mas, o padre, ele mesmo, respondia: não, é apenas um deus, com três pessoas distintas.
Puxa, para a cabeça de uma criança era muita coisa, naquele tempo em que a gente vivia em função da religião: três em um.
Bom, hoje já é mais fácil, existem aparelhos que comportam até mais de três funções, mas é um só aparelho.
Então cheguei à conclusão de que o padre queria dizer que era um só deus, com três funções distintas, ou seja uma tripla personalidade. O Pai é o cara aquele que gosta de sangue, que gosta de judiar das pessoas, bota uma árvore no paraíso, mas proíbe as pessoas de tocarem nela, de comer do fruto que aquela árvore dá. Ele gosta de sangue porque quis que Abraão matasse o filho, o Isaac, para oferecê-lo em sacrifício.
Depois disse para o Abraão, que não era nada disso, que era brincadeira: não esquenta, cara!
Mas que ele gostava de sangue, isso gostava. E o pessoal matava pombinhos, cordeiros, etc, porque o que ele mais gostava era de sangue.
Então mandou o Filho, o tal de Jesus para a terra, para ele ser sacrificado tal como o cordeiro pascal: queria sangue, nem que fosse um pouco e se contentou com o sangue que saiu das mãos, dos pés e do peito do Filho Jesus, com a desculpa de que queria salvar a humanidade.
Só que a humanidade não foi salva de porra nenhuma até hoje, nem do Lula, nem do Chaves, nem do Fidel Castro, e ainda está aturando o Obama.
Bom, mas, e o Espírito Santo, afinal, qual era o papel dele?
Pelo que me ensinaram no catecismo, a principal missão do Espírito Santo foi emprenhar a Virgem Maria, deixando o José, noivo da dita Maria, com uma sensação de cornice que até hoje não teve explicação.
Mas a missão secundária do Espírito Santo é “inspirar” a Igreja, quer dizer, o papa, os cardeais, os bispos, os monsenhores, os padres, enfim, todos os que se dizem “representantes de Deus”.
Só que, num cômputo geral, o Espírito Santo não tem se dado bem. A história do papado não serve de exemplo para ninguém. E no particular também. Vejam, por exemplo, esse bispo de Porto Alegre: tiraram a enxada das mãos dele e lhe botaram livros no lugar dela. Agora ele não sabe o que fazer com o que aprendeu nos livros e só diz bobagens, pega a metralhadora da sua ignorância e sai atirando: “sociedade é pedófila”.
Ele se esqueceu de que faz parte da sociedade, ou está se confessando pedófilo, como Jesus Cristo, que pediu: “deixai vir a mim as criancinhas”?
Se o Espírito Santo é o inspirador de tanta bobagem, está na hora de ser substituído. Já se passaram mais de dois mil anos de história do cristianismo, o mundo não melhorou, e o que mais diverte o povo são os escândalos dos papas, dos cardeais, dos padres e dos bispos, como esse de Porto Alegre, que só abre a boca pra dizer asneiras.
Tudo isso pega mal pro Espírito Santo.
João Eichbaum
Nunca entendi muito bem a história. Tem o Pai, tem o Filho, tem o Espírito Santo. Foi o que me ensinaram no catecismo.
Então são três deuses? Era a minha pergunta, era a pergunta de todos, era a pergunta até do padre.
Mas, o padre, ele mesmo, respondia: não, é apenas um deus, com três pessoas distintas.
Puxa, para a cabeça de uma criança era muita coisa, naquele tempo em que a gente vivia em função da religião: três em um.
Bom, hoje já é mais fácil, existem aparelhos que comportam até mais de três funções, mas é um só aparelho.
Então cheguei à conclusão de que o padre queria dizer que era um só deus, com três funções distintas, ou seja uma tripla personalidade. O Pai é o cara aquele que gosta de sangue, que gosta de judiar das pessoas, bota uma árvore no paraíso, mas proíbe as pessoas de tocarem nela, de comer do fruto que aquela árvore dá. Ele gosta de sangue porque quis que Abraão matasse o filho, o Isaac, para oferecê-lo em sacrifício.
Depois disse para o Abraão, que não era nada disso, que era brincadeira: não esquenta, cara!
Mas que ele gostava de sangue, isso gostava. E o pessoal matava pombinhos, cordeiros, etc, porque o que ele mais gostava era de sangue.
Então mandou o Filho, o tal de Jesus para a terra, para ele ser sacrificado tal como o cordeiro pascal: queria sangue, nem que fosse um pouco e se contentou com o sangue que saiu das mãos, dos pés e do peito do Filho Jesus, com a desculpa de que queria salvar a humanidade.
Só que a humanidade não foi salva de porra nenhuma até hoje, nem do Lula, nem do Chaves, nem do Fidel Castro, e ainda está aturando o Obama.
Bom, mas, e o Espírito Santo, afinal, qual era o papel dele?
Pelo que me ensinaram no catecismo, a principal missão do Espírito Santo foi emprenhar a Virgem Maria, deixando o José, noivo da dita Maria, com uma sensação de cornice que até hoje não teve explicação.
Mas a missão secundária do Espírito Santo é “inspirar” a Igreja, quer dizer, o papa, os cardeais, os bispos, os monsenhores, os padres, enfim, todos os que se dizem “representantes de Deus”.
Só que, num cômputo geral, o Espírito Santo não tem se dado bem. A história do papado não serve de exemplo para ninguém. E no particular também. Vejam, por exemplo, esse bispo de Porto Alegre: tiraram a enxada das mãos dele e lhe botaram livros no lugar dela. Agora ele não sabe o que fazer com o que aprendeu nos livros e só diz bobagens, pega a metralhadora da sua ignorância e sai atirando: “sociedade é pedófila”.
Ele se esqueceu de que faz parte da sociedade, ou está se confessando pedófilo, como Jesus Cristo, que pediu: “deixai vir a mim as criancinhas”?
Se o Espírito Santo é o inspirador de tanta bobagem, está na hora de ser substituído. Já se passaram mais de dois mil anos de história do cristianismo, o mundo não melhorou, e o que mais diverte o povo são os escândalos dos papas, dos cardeais, dos padres e dos bispos, como esse de Porto Alegre, que só abre a boca pra dizer asneiras.
Tudo isso pega mal pro Espírito Santo.
sexta-feira, 7 de maio de 2010
VARIAÇÕES EM TORNO DO TEMA FIADASPUTAS
OS ARTISTAS
João Eichbaum
Primeiro foi o Luiz Inácio com o seu “Lula, o Filho do Brasil”, indo para as telas, à procura de multidões. Mas as multidões não vieram, e o filme ficou entregue às moscas, nos cinemas. Inventaram até uma promoção para “sindicalizados”, a preço de banana, mas nem essa turma estava a fim.
O único a lucrar com o filme foi o Fábio Barreto, que embolsou alguns milhões, graças à magnanimidade de alguns “empresários”, os patrocinadores da aventura no celulóide.
Agora foi a vez do Sarney.
Em meados de abril, a TV Senado – que é sustentada com o nosso dinheiro, o dinheiro que o fisco nos suga durante o ano todo – exibiu “José Sarney: Um Nome na História”.
Como certamente ninguém viu o filme (levante o dedo aí quem costuma ligar o seu aparelho - adquirido em módicas e longas prestações - na TV Senado), o negócio foi distribuir o DVD para os parlamentares – ou picaretas, como dizia o Lula antes de se enturmar.
Vocês sabem quem bancou a farra do filme e dos DVDs?
Bom, primeiro: R$ 650.000,00 foram embolsados graças à lei da renúncia fiscal. Quer dizer, em vez de ir direto para o fisco, o dinheiro fez a curva e parou nos bolsos dos vivaldinos que fizeram o filme. Segundo: a Eletrobrás forneceu quase um terço da grana do valor do filme. E, para encerrar: quem autorizou esse magnânimo patrocínio da Eletrobrás foi ninguém menos do que um afilhado político do Sarney, o Aloísio Vasconcelos, então presidente da estatal.
E adianta berrar, gente? E adianta dizer que a biografia do Sarney está borrada com todos os proveitos que ele aufere do nosso trabalho, do nosso suor, pela via irreversível dos impostos?
Nós podemos até gritar aqui no sul, mas o povinho do Sarney, lá no norte, e o do Lula, no nordeste, não ta nem aí pros nossos berros.
João Eichbaum
Primeiro foi o Luiz Inácio com o seu “Lula, o Filho do Brasil”, indo para as telas, à procura de multidões. Mas as multidões não vieram, e o filme ficou entregue às moscas, nos cinemas. Inventaram até uma promoção para “sindicalizados”, a preço de banana, mas nem essa turma estava a fim.
O único a lucrar com o filme foi o Fábio Barreto, que embolsou alguns milhões, graças à magnanimidade de alguns “empresários”, os patrocinadores da aventura no celulóide.
Agora foi a vez do Sarney.
Em meados de abril, a TV Senado – que é sustentada com o nosso dinheiro, o dinheiro que o fisco nos suga durante o ano todo – exibiu “José Sarney: Um Nome na História”.
Como certamente ninguém viu o filme (levante o dedo aí quem costuma ligar o seu aparelho - adquirido em módicas e longas prestações - na TV Senado), o negócio foi distribuir o DVD para os parlamentares – ou picaretas, como dizia o Lula antes de se enturmar.
Vocês sabem quem bancou a farra do filme e dos DVDs?
Bom, primeiro: R$ 650.000,00 foram embolsados graças à lei da renúncia fiscal. Quer dizer, em vez de ir direto para o fisco, o dinheiro fez a curva e parou nos bolsos dos vivaldinos que fizeram o filme. Segundo: a Eletrobrás forneceu quase um terço da grana do valor do filme. E, para encerrar: quem autorizou esse magnânimo patrocínio da Eletrobrás foi ninguém menos do que um afilhado político do Sarney, o Aloísio Vasconcelos, então presidente da estatal.
E adianta berrar, gente? E adianta dizer que a biografia do Sarney está borrada com todos os proveitos que ele aufere do nosso trabalho, do nosso suor, pela via irreversível dos impostos?
Nós podemos até gritar aqui no sul, mas o povinho do Sarney, lá no norte, e o do Lula, no nordeste, não ta nem aí pros nossos berros.
quinta-feira, 6 de maio de 2010
COM A PALAVRA, PAULO MARINHO
SUSPEITO
Paulo Marinho
- Documentos.
- Como?
- Documentos.
- Pra quê documentos?
- Ora, pra quê! Porque sim.
- Não estou entendendo.
- Olha aqui, malandro, não está vendo que somos da polícia? Não notou a farda? O revólver?
- Claro que notei. Só não entendi porque eu. Estou aqui numa boa, vendo o movimento.
- Pois por isso mesmo.
- Ué? E desde quando ver o movimento é crime?
- É esta sua atitude.
- Que atitude?
- Atitude suspeita.
- Cada vez entendo menos.
- Este seu jeito de ver o movimento. Não sei, não. Esse olhar. As mãos no bolso, esta pastinha aí debaixo do braço.
- Que é que tem a pastinha? Ganhei no amigo secreto do pessoal da firma. É de couro e...
- Olha aí, ó. Já tá mudando de assunto.
- Foi o senhor quem falou na pastinha.
- Não queira me confundir. Vocês são assim mesmo.
- Vocês quem?
- Os suspeitos.
- Ih, agora virei suspeito. Antes estava só em atitude suspeita. Agora já sou suspeito. Qual é o critério de vocês?
- Qual é o quê?!
- O critério.
- Não vem com esta de falar bonito pra cima da gente. Que critério é esse?
- Epa. Não vale, eu perguntei primeiro.
- Perguntou o quê?
- Do critério. Como é que vocês saem assim, pedindo documentos para o primeiro cidadão que encontram olhando o movimento?
- Qualquer um, não. Só para os suspeitos. Documentos.
- De suspeito?
- Como assim de suspeito?
- Ué, eu não sou suspeito?
- É.
- Então. O senhor quer documento de suspeito. De suspeito, não tenho.
- Você está querendo nos enganar. Esta tática é velha. Própria dos que andam em atitude suspeita. Queremos ver os documentos.
- Acho que não estamos nos entendendo. Que documentos afinal o senhor quer?
- Os de suspei... não. Péra aí. Viu? Você nos confundiu. Queremos ver os seus documentos. Carteira de identidade, CIC, estas coisas...
- Serve título de eleitor?
- Não. Título de eleitor só para votar.
- E preencher ficha.
- Que ficha?
- Ora, qualquer ficha. Nas lojas, por exemplo. Nas lojas pedem o título.
- É, mas a gente não é da loja. Somos da polícia.
- Eu sei. Vocês preenchem outras fichas.
- Que fichas, pelo amor de Deus?
- As fichas corridas.
- Ahá! Não disse? Você tem culpa no cartório.
- Cartório?
- É, no cartório. Só quem tem culpa no cartório é que tem ficha corrida.
- Mas eu não tenho ficha corrida!
- Ah, agora vai negar. Acabou de dizer que tem ficha corrida.
- Eu?! Eu disse que tenho culpa no cartório. Não! Ficha no cartório!
- Tá nervosinho, é?
- Claro. Vocês chegam assim, sem mais nem aquela e...
- Aquela quem?
- É uma maneira de dizer. O senhor está complicando.
- Você é que está complicado. Agora vai ter que explicar que história é essa de culpa no cartório.
- Ficha.
- Que seja. Que história é esta de ficha?
- Todo mundo tem ficha no cartório.
- Mas então é uma quadrilha.
- Que quadrilha?
- A dos que tem ficha no cartório. Pensa que não ouvimos?
- Mas até o senhor tem ficha no cartório.
- Eu?! Você tá ficando louco. Isso é uma acusação grave.
- Da ficha?
- Lógico. Em atitude suspeita, com uma pastinha só com um título de eleitor dentro, e nos acusando de ser da sua quadrilha. Você é muito suspeito.
- Olha aqui, eu estava só olhando o movimento.
- Viu? Entregou-se. Teje preso!
- Preso?
- Claro. Querendo enganar uma autoridade! Que movimento você tá olhando, se não tem movimento nenhum a esta hora, hein? Vamos pra delegacia.
- E qual é a acusação?
- Não interessa, espertinho. Com a ficha que você tem... tá preso e acabou. Vamos lá, e não esquece de trazer esta pastinha, que ela também é muito suspeita.
Paulo Marinho
- Documentos.
- Como?
- Documentos.
- Pra quê documentos?
- Ora, pra quê! Porque sim.
- Não estou entendendo.
- Olha aqui, malandro, não está vendo que somos da polícia? Não notou a farda? O revólver?
- Claro que notei. Só não entendi porque eu. Estou aqui numa boa, vendo o movimento.
- Pois por isso mesmo.
- Ué? E desde quando ver o movimento é crime?
- É esta sua atitude.
- Que atitude?
- Atitude suspeita.
- Cada vez entendo menos.
- Este seu jeito de ver o movimento. Não sei, não. Esse olhar. As mãos no bolso, esta pastinha aí debaixo do braço.
- Que é que tem a pastinha? Ganhei no amigo secreto do pessoal da firma. É de couro e...
- Olha aí, ó. Já tá mudando de assunto.
- Foi o senhor quem falou na pastinha.
- Não queira me confundir. Vocês são assim mesmo.
- Vocês quem?
- Os suspeitos.
- Ih, agora virei suspeito. Antes estava só em atitude suspeita. Agora já sou suspeito. Qual é o critério de vocês?
- Qual é o quê?!
- O critério.
- Não vem com esta de falar bonito pra cima da gente. Que critério é esse?
- Epa. Não vale, eu perguntei primeiro.
- Perguntou o quê?
- Do critério. Como é que vocês saem assim, pedindo documentos para o primeiro cidadão que encontram olhando o movimento?
- Qualquer um, não. Só para os suspeitos. Documentos.
- De suspeito?
- Como assim de suspeito?
- Ué, eu não sou suspeito?
- É.
- Então. O senhor quer documento de suspeito. De suspeito, não tenho.
- Você está querendo nos enganar. Esta tática é velha. Própria dos que andam em atitude suspeita. Queremos ver os documentos.
- Acho que não estamos nos entendendo. Que documentos afinal o senhor quer?
- Os de suspei... não. Péra aí. Viu? Você nos confundiu. Queremos ver os seus documentos. Carteira de identidade, CIC, estas coisas...
- Serve título de eleitor?
- Não. Título de eleitor só para votar.
- E preencher ficha.
- Que ficha?
- Ora, qualquer ficha. Nas lojas, por exemplo. Nas lojas pedem o título.
- É, mas a gente não é da loja. Somos da polícia.
- Eu sei. Vocês preenchem outras fichas.
- Que fichas, pelo amor de Deus?
- As fichas corridas.
- Ahá! Não disse? Você tem culpa no cartório.
- Cartório?
- É, no cartório. Só quem tem culpa no cartório é que tem ficha corrida.
- Mas eu não tenho ficha corrida!
- Ah, agora vai negar. Acabou de dizer que tem ficha corrida.
- Eu?! Eu disse que tenho culpa no cartório. Não! Ficha no cartório!
- Tá nervosinho, é?
- Claro. Vocês chegam assim, sem mais nem aquela e...
- Aquela quem?
- É uma maneira de dizer. O senhor está complicando.
- Você é que está complicado. Agora vai ter que explicar que história é essa de culpa no cartório.
- Ficha.
- Que seja. Que história é esta de ficha?
- Todo mundo tem ficha no cartório.
- Mas então é uma quadrilha.
- Que quadrilha?
- A dos que tem ficha no cartório. Pensa que não ouvimos?
- Mas até o senhor tem ficha no cartório.
- Eu?! Você tá ficando louco. Isso é uma acusação grave.
- Da ficha?
- Lógico. Em atitude suspeita, com uma pastinha só com um título de eleitor dentro, e nos acusando de ser da sua quadrilha. Você é muito suspeito.
- Olha aqui, eu estava só olhando o movimento.
- Viu? Entregou-se. Teje preso!
- Preso?
- Claro. Querendo enganar uma autoridade! Que movimento você tá olhando, se não tem movimento nenhum a esta hora, hein? Vamos pra delegacia.
- E qual é a acusação?
- Não interessa, espertinho. Com a ficha que você tem... tá preso e acabou. Vamos lá, e não esquece de trazer esta pastinha, que ela também é muito suspeita.
quarta-feira, 5 de maio de 2010
COM A PALAVRA JANER CRISTALDO
NA INGLATERRA, CITAR BÍBLIA JÁ VIROU CRIME
Mais cedo ou mais tarde iria ocorrer. Um pregador britânico foi preso depois de ter dito durante sermão na rua que homossexualismo é um pecado. Segundo o jornal britânico The Daily Telegraph, Dale McAlpine foi acusado de causar "alarme, intimidação e angústia" depois que um policial comunitário ouviu o pastor batista mencionar vários "pecados" citados na Bíblia, inclusive blasfêmia, embriaguez e relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo. Segundo o Daily Mail, o policial Sam Adams avisou o pregador, que distribuía folhetos e conversava com as pessoas nas ruas, que ele estava violando a lei. Mas ele continuou pregando e foi levado para a prisão, onde permaneceu por sete horas.
McAlpine prega nas ruas de Wokington, no noroeste da Inglaterra há anos, e disse que não mencionou homossexualismo quando fazia o sermão do alto de uma pequena escada, mas admitiu ter dito a uma pessoa que acreditava ser a prática contrária aos ensinamentos de Deus.
Se está falando do Deus cristão, lhe sobra razão. “Não te deitarás com varão, como se fosse mulher; é abominação”, lemos já no Levítico. Curiosamente, o Livro não tem nada contra mulher com mulher."
Eu me sinto profundamente chocado e humilhado por ter sido preso em minha própria cidade e tratado como um criminoso comum na frente de pessoas que eu conheço" – disse o pregador. Eu também. Mas por outras razões. É a primeira vez que ouço falar, no Ocidente, por ter repetido algo que consta do livro que embasa a cristianismo. Se a autoridade policial quiser ser coerente, terá de apreender também a Bíblia.Longe de mim condenar comportamentos sexuais. Muito menos condenar aqueles a quem homossexualismo escandaliza. Vivemos em uma sociedade onde não falta quem condene qualquer prática sexual antes do casamento. Para começar, a Igreja Católica, tão tolerante com seus ministros pedófilos, e tão intransigente com os leigos que querem bem gozar seus dias.Qualquer dia, ainda surge por aí algum fanático querendo proibir citar II Samuel, onde se fala das concubinas do sábio rei Davi. Ou I Reis, onde são enumeradas as 700 mulheres e 300 concubinas do sábio rei Salomão. Se bem que qualquer restrição ao heterossexualismo é bem-vinda. O que não mais se pode é não gostar de homossexualismo. Ser homossexual virou partido. Uma militância agressiva criminaliza quem quer que deles não goste.
Só acho que não será fácil criminalizar a Bíblia. A condenação ao homossexualismo, no Livro, é café pequeno diante das incitações dos antigos profetas ao ódio racial, genocídio, extermínio de nações, do qual não se excluí mulheres e crianças, nem mesmo animais. Se Jeová autoriza aniquilar amorreus, heteus, perizeus, cananeus, heveus e jebuseus, isso não autoriza um católico a sair matando evangélicos, espíritas, macumbeiros. Se Moisés – ou quem quer que tenha escrito o Levítico – condena o homossexualismo, nem por isso vamos proibir este livro ou proibir citá-lo.
Sam Adams, em pleno século XXI, agiu como fundamentalista que ainda não descobriu que, desde há séculos, no Ocidente, a Igreja separou-se do Estado. Agiu como muçulmano, que considera o Corão como constituição. A aguerrida tribo dos homossexuais está virando seita fanática.
Mais um pouco e a moda chega até nós.
Mais cedo ou mais tarde iria ocorrer. Um pregador britânico foi preso depois de ter dito durante sermão na rua que homossexualismo é um pecado. Segundo o jornal britânico The Daily Telegraph, Dale McAlpine foi acusado de causar "alarme, intimidação e angústia" depois que um policial comunitário ouviu o pastor batista mencionar vários "pecados" citados na Bíblia, inclusive blasfêmia, embriaguez e relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo. Segundo o Daily Mail, o policial Sam Adams avisou o pregador, que distribuía folhetos e conversava com as pessoas nas ruas, que ele estava violando a lei. Mas ele continuou pregando e foi levado para a prisão, onde permaneceu por sete horas.
McAlpine prega nas ruas de Wokington, no noroeste da Inglaterra há anos, e disse que não mencionou homossexualismo quando fazia o sermão do alto de uma pequena escada, mas admitiu ter dito a uma pessoa que acreditava ser a prática contrária aos ensinamentos de Deus.
Se está falando do Deus cristão, lhe sobra razão. “Não te deitarás com varão, como se fosse mulher; é abominação”, lemos já no Levítico. Curiosamente, o Livro não tem nada contra mulher com mulher."
Eu me sinto profundamente chocado e humilhado por ter sido preso em minha própria cidade e tratado como um criminoso comum na frente de pessoas que eu conheço" – disse o pregador. Eu também. Mas por outras razões. É a primeira vez que ouço falar, no Ocidente, por ter repetido algo que consta do livro que embasa a cristianismo. Se a autoridade policial quiser ser coerente, terá de apreender também a Bíblia.Longe de mim condenar comportamentos sexuais. Muito menos condenar aqueles a quem homossexualismo escandaliza. Vivemos em uma sociedade onde não falta quem condene qualquer prática sexual antes do casamento. Para começar, a Igreja Católica, tão tolerante com seus ministros pedófilos, e tão intransigente com os leigos que querem bem gozar seus dias.Qualquer dia, ainda surge por aí algum fanático querendo proibir citar II Samuel, onde se fala das concubinas do sábio rei Davi. Ou I Reis, onde são enumeradas as 700 mulheres e 300 concubinas do sábio rei Salomão. Se bem que qualquer restrição ao heterossexualismo é bem-vinda. O que não mais se pode é não gostar de homossexualismo. Ser homossexual virou partido. Uma militância agressiva criminaliza quem quer que deles não goste.
Só acho que não será fácil criminalizar a Bíblia. A condenação ao homossexualismo, no Livro, é café pequeno diante das incitações dos antigos profetas ao ódio racial, genocídio, extermínio de nações, do qual não se excluí mulheres e crianças, nem mesmo animais. Se Jeová autoriza aniquilar amorreus, heteus, perizeus, cananeus, heveus e jebuseus, isso não autoriza um católico a sair matando evangélicos, espíritas, macumbeiros. Se Moisés – ou quem quer que tenha escrito o Levítico – condena o homossexualismo, nem por isso vamos proibir este livro ou proibir citá-lo.
Sam Adams, em pleno século XXI, agiu como fundamentalista que ainda não descobriu que, desde há séculos, no Ocidente, a Igreja separou-se do Estado. Agiu como muçulmano, que considera o Corão como constituição. A aguerrida tribo dos homossexuais está virando seita fanática.
Mais um pouco e a moda chega até nós.
terça-feira, 4 de maio de 2010
CRÔNICAS IMPUDICAS
PAPAI e MAMÃE de MENTIRINHA
João Eichbaum
Agora é oficial e já pode: homem com homem, mulher com mulher. A Justiça decidiu e liberou geral, ao permitir a “adoção” de uma criança por um “casal” de lésbicas.
Fim do recato, meus amigos. Fim do machismo. O recato feminino, que sempre foi um dos atrativos do macho, perdeu a sua razão de ser, à medida que as mulheres vão para os jornais, para a televisão, para as revistas e para o rádio, anunciar, para quem quiser ler e ouvir, sem peias, que são lésbicas.
Elas podem agora, segundo decidiu o Superior Tribunal de Justiça, desempenhar o papel de casal, que é um fenômeno exclusivo da natureza, regra absoluta da biologia, em razão da qual nascem os bebês de qualquer primata.
Agora, deu pra natureza, às favas com a biologia. O que vale é o papel desempenhado pelo desvalor do ser humano, pela sua entrega às baixezas do sexo.
Fim do machismo também. O machismo já não pode ser causa de orgulho, porque deixou de ser o grande trunfo daqueles que produzem espermatozódes.
O homens perderam aquele direito que ainda era exclusividade deles: o de ser pai. Agora, com a decisão da justiça, o que lhes resta é alugar, para fins de procriação e para o deleite das lésbicas assumidas, aquela estrovenga que qual escorrega o líquido animal reprodutor do macho, a porra.
Mas, não é só isso. O que será dessa criança, “filha” de um “casal” de lésbicas, quando lhe perguntarem os coleguinhas de escola sobre seu pai? Terá essa criança absorvido já a idéia de que o macho é dispensável na relação de filiação, ou terá que suportar a humilhação de ser uma criatura apartada pelo preconceito que, quer queiram ou não, ainda haverá de dominar, enquanto existir um primata humano dotado de racionalidade sobre a face da terra?
Na última edição da Veja, lê-se uma frase antológica de André Petry, que calha como uma luva, na demonstração da real condição do primata humano: “o pensamento religioso, traduzido na idéia de que somos criaturas divinamente concebidas, tende a turvar a percepção de que nossa condição natural é miserável”.
E a conclusão é de que, à medida que a religião está perdendo suas forças, estão se depreciando também os valores morais do ser humano, devolvendo-o, sem a indumentária da dignidade, à sua verdadeira condição animal, muito bem adjetivada por André Petry.
Mas ainda falta o troco, que certamente será dado pelo Superior Tribunal de Justiça, permitindo aos machos que dispensem os óvulos femininos, para que possam também ser "mamães".
Quem viver, verá.
João Eichbaum
Agora é oficial e já pode: homem com homem, mulher com mulher. A Justiça decidiu e liberou geral, ao permitir a “adoção” de uma criança por um “casal” de lésbicas.
Fim do recato, meus amigos. Fim do machismo. O recato feminino, que sempre foi um dos atrativos do macho, perdeu a sua razão de ser, à medida que as mulheres vão para os jornais, para a televisão, para as revistas e para o rádio, anunciar, para quem quiser ler e ouvir, sem peias, que são lésbicas.
Elas podem agora, segundo decidiu o Superior Tribunal de Justiça, desempenhar o papel de casal, que é um fenômeno exclusivo da natureza, regra absoluta da biologia, em razão da qual nascem os bebês de qualquer primata.
Agora, deu pra natureza, às favas com a biologia. O que vale é o papel desempenhado pelo desvalor do ser humano, pela sua entrega às baixezas do sexo.
Fim do machismo também. O machismo já não pode ser causa de orgulho, porque deixou de ser o grande trunfo daqueles que produzem espermatozódes.
O homens perderam aquele direito que ainda era exclusividade deles: o de ser pai. Agora, com a decisão da justiça, o que lhes resta é alugar, para fins de procriação e para o deleite das lésbicas assumidas, aquela estrovenga que qual escorrega o líquido animal reprodutor do macho, a porra.
Mas, não é só isso. O que será dessa criança, “filha” de um “casal” de lésbicas, quando lhe perguntarem os coleguinhas de escola sobre seu pai? Terá essa criança absorvido já a idéia de que o macho é dispensável na relação de filiação, ou terá que suportar a humilhação de ser uma criatura apartada pelo preconceito que, quer queiram ou não, ainda haverá de dominar, enquanto existir um primata humano dotado de racionalidade sobre a face da terra?
Na última edição da Veja, lê-se uma frase antológica de André Petry, que calha como uma luva, na demonstração da real condição do primata humano: “o pensamento religioso, traduzido na idéia de que somos criaturas divinamente concebidas, tende a turvar a percepção de que nossa condição natural é miserável”.
E a conclusão é de que, à medida que a religião está perdendo suas forças, estão se depreciando também os valores morais do ser humano, devolvendo-o, sem a indumentária da dignidade, à sua verdadeira condição animal, muito bem adjetivada por André Petry.
Mas ainda falta o troco, que certamente será dado pelo Superior Tribunal de Justiça, permitindo aos machos que dispensem os óvulos femininos, para que possam também ser "mamães".
Quem viver, verá.
segunda-feira, 3 de maio de 2010
CRÔNICAS REPETITIVAS
RIMAR É BOM? RIMAR É RUIM?
Paulo Wainberg
Dom Cardume jurou de morte
Capo Dentinho,
chefe da família rival,
bandido sedutor e formoso
como nunca se viu igual.
Por ciúme.
Convocou Kid Legume,
seu capanga mais fiel,
violento e brutal,
sempre ansioso de passar o gume do punhal
em carnes nobres, de gente ou animal.
Dom Cardume amava Capitela,
a donzela com gosto de mel, motel
e sarapatel.
Quando estava com ela
sentia-se no céu
e longe do perfume dela
sofria de ciúme cruel.
Quando percebia Capo Dentinho,
com maroto jeitinho,
para Capitela arrastar a asa,
tinha assomos e chiliques,
desses de destruir a casa.
Além disso, o desafeto
dominava um território
que Dom Cardume
desejava ardentemente:
o Seleto Estuário,
xodó da comunidade,
onde o dinheiro fluía
abundantemente
para a aquisição do material
vendido à supina,
mas sem qualquer vergonha:
cocaína e maconha.
“Suprimindo o inimigo”,
pensava Cardume consigo,
“os negócios ficam todos comigo”.
Orgulhoso da própria finura
relatou o plano a Legume
sem omitir a mistura
e terminou, às gargalhadas:
– Mato um coelho com duas cajadadas.
Kid Legume sorriu azedo.
Um sorriso?
Não, um arremedo.
Seu punhal ia falar cedo,
muito cedo.
Entretanto Capitela,
de origem portuguesa,
cuidando da vida dela,
não dava sorte ao azar:
“Com um dos dois hei de ficaire,
afinal eu mereiço”
e para ambos dava trela,
levando a parelha no beiço.
Capo Dentinho,
que para bobo não servia,
também tinha seus segredos,
vislumbres e devaneios.
Dar cabo de Dom Cardume
era um dos meios para,
sem muita balela,
ficar com a donzela e
com aguda proficiência
eliminar a concorrência.
Convocou para a missão
Joe “Scare” Burburinho,
seu comparsa terminal,
homem cujos bofes maus,
famosos até em Macau,
jamais prestava socorro,
gato em árvore matava,
não tirava boi do morro
e nada achava mais lindo
do que o sangue,
quando jorrava.
Naquela noite fatídica,
Dom Cardume saiu do alfaiate
e foi para a boate.
E Capo Dentinho,
depois de tomar um mate,
foi para a mesma boate.
Capitela dançava o número dela:
strip-tease à capela.
Dom Cardume babava
e Capo Dentinho envesgava.
O corpo de Capitela,
por ambos frequentado,
era de não botar defeito,
de passar a mão com jeito,
de enlouquecer a clientela
do mais fino ao ordinário.
Cada homem ali presente,
mais ou menos perdulário,
suando no próprio bafo,
desejava ardentemente
nela passar o sarrafo ou,
como se diz no popular,
sem medo de vexame
ou de ser vulgar,
enfiar-lhe o salame .
Dom Cardume e Capo Dentinho,
olhando-se de soslaio,
imaginavam o outro
no fundo de um balaio
recheado com cimento,
duro, cinzento e frio,
em repouso e quietinho,
lá no fundo do rio.
Com o dedo indicador,
Dom Cardume deu a ordem
e Kid Legume avançou.
Com o dedo mindinho,
deu a ordem Capo Dentinho,
e Joe “Scare” Burburinho avançou.
Capitela lá no palco,
esfregando o mastro ou pau,
percebeu a calamidade
e amoleceu
tal qual mingau,
sabendo que era aquela
a hora da verdade.
Kid e Joe, frente a frente,
mostraram um ao outro
o que é ser cabra valente.
Caíram juntos no chão,
Kid com um tiro no peito,
Joe com o peito desfeito.
Ao seguir da confusão
um bafafá alarmante,
Cardume saiu por um lado,
Dentinho pelo outro,
para evitar o flagrante.
Naquela noite agitada,
quando quase não dormiu,
Dom Cardume tomou uma decisão
e na manhã seguinte,
bem cedinho
e apesar do frio,
convocou Capo Dentinho
para uma reunião.
Mal ele chegou
e sentou,
Dom Cardume depôs nele
um olhar gelado,
daqueles de tirar o brio.
Capo Dentinho devolveu
com um cinzento,
de causar calafrio.
Durante cinco minutos
se encararam,
em silêncio.
Então a ficha caiu
para os dois,
no mesmo momento.
Dom Cardume sorriu
e Capo Dentinho remexeu,
como se seus cabelos
estivessem
pelo vento agitados.
Perceberam que estavam
mutuamente apaixonados.
Ninguém sabe descrever
a loucura que seguiu:
abraços voluptuosos,
beijos linguados,
mãos nos lugares volumosos,
ofegos candentes,
uis e ais pungentes,
tremeliques, calafrios
e alucinantes desvarios.
Nunca mais brigaram
e em amorosa paz viveram
como um casal de sabiás
canoros,
enfeitando o crime organizado
com seu doce arrulhar
sonoro.
Capitela,
pobre dela,
ficou a ver navios.
Paulo Wainberg
Dom Cardume jurou de morte
Capo Dentinho,
chefe da família rival,
bandido sedutor e formoso
como nunca se viu igual.
Por ciúme.
Convocou Kid Legume,
seu capanga mais fiel,
violento e brutal,
sempre ansioso de passar o gume do punhal
em carnes nobres, de gente ou animal.
Dom Cardume amava Capitela,
a donzela com gosto de mel, motel
e sarapatel.
Quando estava com ela
sentia-se no céu
e longe do perfume dela
sofria de ciúme cruel.
Quando percebia Capo Dentinho,
com maroto jeitinho,
para Capitela arrastar a asa,
tinha assomos e chiliques,
desses de destruir a casa.
Além disso, o desafeto
dominava um território
que Dom Cardume
desejava ardentemente:
o Seleto Estuário,
xodó da comunidade,
onde o dinheiro fluía
abundantemente
para a aquisição do material
vendido à supina,
mas sem qualquer vergonha:
cocaína e maconha.
“Suprimindo o inimigo”,
pensava Cardume consigo,
“os negócios ficam todos comigo”.
Orgulhoso da própria finura
relatou o plano a Legume
sem omitir a mistura
e terminou, às gargalhadas:
– Mato um coelho com duas cajadadas.
Kid Legume sorriu azedo.
Um sorriso?
Não, um arremedo.
Seu punhal ia falar cedo,
muito cedo.
Entretanto Capitela,
de origem portuguesa,
cuidando da vida dela,
não dava sorte ao azar:
“Com um dos dois hei de ficaire,
afinal eu mereiço”
e para ambos dava trela,
levando a parelha no beiço.
Capo Dentinho,
que para bobo não servia,
também tinha seus segredos,
vislumbres e devaneios.
Dar cabo de Dom Cardume
era um dos meios para,
sem muita balela,
ficar com a donzela e
com aguda proficiência
eliminar a concorrência.
Convocou para a missão
Joe “Scare” Burburinho,
seu comparsa terminal,
homem cujos bofes maus,
famosos até em Macau,
jamais prestava socorro,
gato em árvore matava,
não tirava boi do morro
e nada achava mais lindo
do que o sangue,
quando jorrava.
Naquela noite fatídica,
Dom Cardume saiu do alfaiate
e foi para a boate.
E Capo Dentinho,
depois de tomar um mate,
foi para a mesma boate.
Capitela dançava o número dela:
strip-tease à capela.
Dom Cardume babava
e Capo Dentinho envesgava.
O corpo de Capitela,
por ambos frequentado,
era de não botar defeito,
de passar a mão com jeito,
de enlouquecer a clientela
do mais fino ao ordinário.
Cada homem ali presente,
mais ou menos perdulário,
suando no próprio bafo,
desejava ardentemente
nela passar o sarrafo ou,
como se diz no popular,
sem medo de vexame
ou de ser vulgar,
enfiar-lhe o salame .
Dom Cardume e Capo Dentinho,
olhando-se de soslaio,
imaginavam o outro
no fundo de um balaio
recheado com cimento,
duro, cinzento e frio,
em repouso e quietinho,
lá no fundo do rio.
Com o dedo indicador,
Dom Cardume deu a ordem
e Kid Legume avançou.
Com o dedo mindinho,
deu a ordem Capo Dentinho,
e Joe “Scare” Burburinho avançou.
Capitela lá no palco,
esfregando o mastro ou pau,
percebeu a calamidade
e amoleceu
tal qual mingau,
sabendo que era aquela
a hora da verdade.
Kid e Joe, frente a frente,
mostraram um ao outro
o que é ser cabra valente.
Caíram juntos no chão,
Kid com um tiro no peito,
Joe com o peito desfeito.
Ao seguir da confusão
um bafafá alarmante,
Cardume saiu por um lado,
Dentinho pelo outro,
para evitar o flagrante.
Naquela noite agitada,
quando quase não dormiu,
Dom Cardume tomou uma decisão
e na manhã seguinte,
bem cedinho
e apesar do frio,
convocou Capo Dentinho
para uma reunião.
Mal ele chegou
e sentou,
Dom Cardume depôs nele
um olhar gelado,
daqueles de tirar o brio.
Capo Dentinho devolveu
com um cinzento,
de causar calafrio.
Durante cinco minutos
se encararam,
em silêncio.
Então a ficha caiu
para os dois,
no mesmo momento.
Dom Cardume sorriu
e Capo Dentinho remexeu,
como se seus cabelos
estivessem
pelo vento agitados.
Perceberam que estavam
mutuamente apaixonados.
Ninguém sabe descrever
a loucura que seguiu:
abraços voluptuosos,
beijos linguados,
mãos nos lugares volumosos,
ofegos candentes,
uis e ais pungentes,
tremeliques, calafrios
e alucinantes desvarios.
Nunca mais brigaram
e em amorosa paz viveram
como um casal de sabiás
canoros,
enfeitando o crime organizado
com seu doce arrulhar
sonoro.
Capitela,
pobre dela,
ficou a ver navios.
Assinar:
Postagens (Atom)