ACREDITE: JÁ FOI PIOR
João Eichbaum
Para você, certamente, como para mim, em tempos idos, Frei Caneca não passava de um nome de rua. Alguma coisa ouvimos sobre ele, nas aulas de história do Brasil, mas como simples personagem, sem muito importância, longe do papel principal.
O papel principal sempre esteve com D. Pedro I, o proclamador da independência, às margens plácidas do Ipiranga, que ouviram, “ao som do mar e à luz do céu profundo”o grito de “independência e morte”. Para nós, alunos da história do Brasil, e talvez até para a nossa professora, o verdadeiro herói era somente D.Pedro I, que teve a “coragem” de nos libertar de Portugal.
Mas, não foi bem assim, gente. Hoje, o Laurentino Gomes, nos desvenda melhor a história, em seus livros 1808 e 1822.
Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, ou simplesmente Frei Caneca, assim como José Bonifácio de Andrada e Silva, foi um dos homens que começaram a fazer, a executar, a tornar realidade a verdadeira independência do Brasil. A diferença entre um e outro residia nas idéias: José Bonifácio queria um império constitucional, Frei Caneca, uma república.
Mas, as idéias de Frei Caneca lhe custaram a vida. Como um dos líderes da Confederação do Equador, que pregava a desvinculação com a monarquia e a separação de Pernambuco, frei Caneca foi preso e condenado à morte, por enforcamento.
Conta Laurentino Gomes que “Caneca dormia profundamente quando o capelão foi chamá-lo na cela em que estava recolhido. Antes de subir ao patíbulo, submeteu-se a um ritual humilhante de destituição das ordens sacras”: paramentaram-no, como se fosse celebrar missa, mas em seguida foi despido das vestes sacerdotais por dois padres. Foi levado para o alto do patíbulo, “de onde pendia a corda da forca”, mas não foi executado. A ingrata missão foi recusada pelos carrascos. Então, por ordem de Francisco Lima e Silva, pai do futuro Duque de Caxias, foi fuzilado.
Fuzilado por ter idéias republicanas, assim como Tiradentes fora esquartejado por ter idéias de libertação.
Era assim que se fazia política. Era assim que os governantes se livravam da oposição.
As asneiras que o Lula diz, as patacoadas do PT e a eleição de uma comunista para presidir um país capitalista, não são coisas tão inomináveis, como as praticadas pelo príncipe D.Pedro, mulherengo e tarado, que até uma freira levou para a cama, e que nunca demonstrou remorso pelo que fez contra sua mulher, a princesa Leopoldina. Grávida, Leopoldina foi agredida por ele, com um pontapé na barriga, porque se negara a participar de uma cerimônia na qual estava presente a amante oficial do príncipe. A consequência da agressão foi um aborto, que lhe causou a morte.
Conclusões: a independência se consolidou com sangue e não com “brados heróicos”; a política, no Brasil, já foi pior do que é.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
COM A PALAVRA, JANER CRISTALDO
JORNALISTA ANALFABETO ACUSA ATEUS PELOS MALES DO MUNDO
Um apresentador de televisão, truculento e analfabeto, o tal de José Luiz Datena, andou afirmando em julho passado que crime é coisa de pessoas que não acreditam em Deus. “Porque o sujeito que é ateu, na minha modesta opinião, não tem limites, é por isso que a gente vê esses crimes aí”. E continuou em seu discurso sem nexo: “É por isso que o mundo está essa porcaria. Guerra, peste, fome e tudo mais, entendeu? São os caras do mal. Se bem que tem ateu que não é do mal, mas, é ..., o sujeito que não respeita os limites de Deus, é porque não sei, não respeita limite nenhum”.
O pronunciamento do bronco vem agora à tona porque o Ministério Público Federal (MPF) ajuizou ação civil pública obrigando a TV Bandeirantes exibir uma mensagem de retratação de declarações ofensivas aos ateus durante seu programa.
Para o Procurador Regional dos Direitos do Cidadão Jefferson Aparecido Dias, autor da ação, ao veicular as declarações preconceituosas contra pessoas que não compartilham o mesmo modo de pensar do apresentador, a emissora descumpriu a finalidade educativa e informativa, com respeito aos valores éticos e sociais da pessoa, prestou um desserviço para a comunicação social, uma vez que encoraja a atuação de grupos radicais de perseguição de minorias, podendo, inclusive, aumentar a intolerância e a violência contra os ateus. “Evidentemente, houve atitudes extremamente preconceituosas uma vez que as declarações do apresentador e do repórter ofenderam a honra e a imagem das pessoas atéias. O apresentador e o repórter ironizaram, inferiorizaram, imputaram crimes, 'responsabilizaram' os ateus por todas as 'desgraças do mundo'”, afirma o procurador. O procurador revelou-se tão analfabeto quanto o estúpido apresentador. Conhecesse um pouco de história da literatura, teria de processar Dostoievski. E também Sartre, que distorceu o pensamento de Dostoievski. Mais a novel presidenta, que participa do mesmo analfabetismo.
Já comentei, comento de novo. No início deste ano, pretendendo posar de intelectual, Dilma Rousseff, ao falar sobre religião, mencionou os romances de Fiódor Dostoiévski, permeados do conceito de que, "se Deus não existe, tudo é permitido".
A ex-terrorista dificilmente terá lido Dostoievski. Esta frase, atribuída ao escritor russo, é mais uma daquelas bobagens recorrentes – semelhante àquela outra, de que Guernica, de Picasso, tem algo a ver com o suposto bombardeio da cidade basca – que são repetidas ad nauseam por jornalistas. Dona Dilma, na verdade, ouviu o galo cantar, mas não sabe onde.
Os católicos ocidentais adoram empunhar esta deturpação do pensamento do escritor católico ortodoxo. Querem colocar Deus como fundamento de toda ética, como se não pudesse existir ética sem a crença em Deus. Esta frase estaria em Os Irmãos Karamazov. Ora, Dostoievski jamais escreveu isto. Foi Sartre quem lhe atribuiu esta frase. Quem a menciona são geralmente pessoas que nunca leram Dostoievski e o citam de ouvir falar. Há algum tempo atrás, me dei ao trabalho de reler Os Irmãos Karamazov para ver se Dostoievski havia realmente escrito tal bobagem. Não encontrei. O mais próximo que existe é isto: - Ivan Fiodorovitch ajuntou entre parênteses que lá está toda a lei natural, de maneira que se você destrói no homem a fé na sua imortalidade, não somente o amor nele perecerá, mas também a força de continuar a vida no mundo. Mais ainda, não existiria nada mais que fosse imoral; tudo será autorizado, mesmo a antropofagia. E não é tudo: ele acaba afirmando que para todo indivíduo que não crê em Deus nem em sua própria imortalidade, a lei moral da natureza deveria imediamente tornar-se o inverso absoluto da precedente lei religiosa; que o egoísmo, mesmo levado ao crime, deveria não somente ser autorizado, mas reconhecido como uma solução necessária, a mais razoável e quase a mais nobre. Após um tal paradoxo, julgai, senhores, julgai o que nosso caro e excêntrico Ivan Fiodorovitch julga bom proclamar e suas eventuais intenções.
Mais adiante, Mitia se pergunta: - Mas então, que se tornaria o homem, sem Deus e a imortalidade? Tudo é permitido e, conseqüentemente, tudo é lícito? (...) Que fazer, se Deus não existe, se Rakitine tem razão ao pretender que é uma idéia forjada pela humanidade? Neste caso, o homem seria o rei da terra, do universo. Muito bem! Mas como ele seria virtuoso sem Deus?
Ou seja, a pergunta não é exatamente sobre Deus, mas sobre Deus e a imortalidade. Imortalidade significa punições e recompensas. Os teístas querem ver nos personagens de Dostoievski a impossibilidade de uma ética sem Deus. No entanto, o que o autor empunha é a promessa de céu... ou de inferno. O fundamento de sua moral - ou da de Ivan Karamazov, como quisermos - não é exatamente Deus, mas a esperança ou o medo.
O tal de Datena, como a novel presidenta, também ouviu o galo cantar, mas tampouco sabe onde. O promotor muito menos. Os ateus, que certamente estão por trás de tal ação, idem. Qualquer dia ainda pedem a proibição de Os Irmãos Karamazov. Há ateus que estão transformando o ateísmo em religião e se pretendem discriminados. Mais um pouco e pedirão cotas na universidade.
Ateus, se Datena e dona Dilma não sabem, também têm ética. Mais ainda, nossa ética é gratuita e não depende de recompensas no Além. O crente, ao manter um comportamento ético, busca o conforto na imortalidade. Nós, que não cremos nessas patacoadas, não esperamos o paraíso por sermos honestos nem tememos o inferno por não sermos honestos. Somos éticos porque julgamos ser esta a melhor fórmula de conviver com nossos semelhantes.
O analfabetismo, ao que tudo indica, invadiu não apenas o jornalismo, mas também o universo jurídico.
Um apresentador de televisão, truculento e analfabeto, o tal de José Luiz Datena, andou afirmando em julho passado que crime é coisa de pessoas que não acreditam em Deus. “Porque o sujeito que é ateu, na minha modesta opinião, não tem limites, é por isso que a gente vê esses crimes aí”. E continuou em seu discurso sem nexo: “É por isso que o mundo está essa porcaria. Guerra, peste, fome e tudo mais, entendeu? São os caras do mal. Se bem que tem ateu que não é do mal, mas, é ..., o sujeito que não respeita os limites de Deus, é porque não sei, não respeita limite nenhum”.
O pronunciamento do bronco vem agora à tona porque o Ministério Público Federal (MPF) ajuizou ação civil pública obrigando a TV Bandeirantes exibir uma mensagem de retratação de declarações ofensivas aos ateus durante seu programa.
Para o Procurador Regional dos Direitos do Cidadão Jefferson Aparecido Dias, autor da ação, ao veicular as declarações preconceituosas contra pessoas que não compartilham o mesmo modo de pensar do apresentador, a emissora descumpriu a finalidade educativa e informativa, com respeito aos valores éticos e sociais da pessoa, prestou um desserviço para a comunicação social, uma vez que encoraja a atuação de grupos radicais de perseguição de minorias, podendo, inclusive, aumentar a intolerância e a violência contra os ateus. “Evidentemente, houve atitudes extremamente preconceituosas uma vez que as declarações do apresentador e do repórter ofenderam a honra e a imagem das pessoas atéias. O apresentador e o repórter ironizaram, inferiorizaram, imputaram crimes, 'responsabilizaram' os ateus por todas as 'desgraças do mundo'”, afirma o procurador. O procurador revelou-se tão analfabeto quanto o estúpido apresentador. Conhecesse um pouco de história da literatura, teria de processar Dostoievski. E também Sartre, que distorceu o pensamento de Dostoievski. Mais a novel presidenta, que participa do mesmo analfabetismo.
Já comentei, comento de novo. No início deste ano, pretendendo posar de intelectual, Dilma Rousseff, ao falar sobre religião, mencionou os romances de Fiódor Dostoiévski, permeados do conceito de que, "se Deus não existe, tudo é permitido".
A ex-terrorista dificilmente terá lido Dostoievski. Esta frase, atribuída ao escritor russo, é mais uma daquelas bobagens recorrentes – semelhante àquela outra, de que Guernica, de Picasso, tem algo a ver com o suposto bombardeio da cidade basca – que são repetidas ad nauseam por jornalistas. Dona Dilma, na verdade, ouviu o galo cantar, mas não sabe onde.
Os católicos ocidentais adoram empunhar esta deturpação do pensamento do escritor católico ortodoxo. Querem colocar Deus como fundamento de toda ética, como se não pudesse existir ética sem a crença em Deus. Esta frase estaria em Os Irmãos Karamazov. Ora, Dostoievski jamais escreveu isto. Foi Sartre quem lhe atribuiu esta frase. Quem a menciona são geralmente pessoas que nunca leram Dostoievski e o citam de ouvir falar. Há algum tempo atrás, me dei ao trabalho de reler Os Irmãos Karamazov para ver se Dostoievski havia realmente escrito tal bobagem. Não encontrei. O mais próximo que existe é isto: - Ivan Fiodorovitch ajuntou entre parênteses que lá está toda a lei natural, de maneira que se você destrói no homem a fé na sua imortalidade, não somente o amor nele perecerá, mas também a força de continuar a vida no mundo. Mais ainda, não existiria nada mais que fosse imoral; tudo será autorizado, mesmo a antropofagia. E não é tudo: ele acaba afirmando que para todo indivíduo que não crê em Deus nem em sua própria imortalidade, a lei moral da natureza deveria imediamente tornar-se o inverso absoluto da precedente lei religiosa; que o egoísmo, mesmo levado ao crime, deveria não somente ser autorizado, mas reconhecido como uma solução necessária, a mais razoável e quase a mais nobre. Após um tal paradoxo, julgai, senhores, julgai o que nosso caro e excêntrico Ivan Fiodorovitch julga bom proclamar e suas eventuais intenções.
Mais adiante, Mitia se pergunta: - Mas então, que se tornaria o homem, sem Deus e a imortalidade? Tudo é permitido e, conseqüentemente, tudo é lícito? (...) Que fazer, se Deus não existe, se Rakitine tem razão ao pretender que é uma idéia forjada pela humanidade? Neste caso, o homem seria o rei da terra, do universo. Muito bem! Mas como ele seria virtuoso sem Deus?
Ou seja, a pergunta não é exatamente sobre Deus, mas sobre Deus e a imortalidade. Imortalidade significa punições e recompensas. Os teístas querem ver nos personagens de Dostoievski a impossibilidade de uma ética sem Deus. No entanto, o que o autor empunha é a promessa de céu... ou de inferno. O fundamento de sua moral - ou da de Ivan Karamazov, como quisermos - não é exatamente Deus, mas a esperança ou o medo.
O tal de Datena, como a novel presidenta, também ouviu o galo cantar, mas tampouco sabe onde. O promotor muito menos. Os ateus, que certamente estão por trás de tal ação, idem. Qualquer dia ainda pedem a proibição de Os Irmãos Karamazov. Há ateus que estão transformando o ateísmo em religião e se pretendem discriminados. Mais um pouco e pedirão cotas na universidade.
Ateus, se Datena e dona Dilma não sabem, também têm ética. Mais ainda, nossa ética é gratuita e não depende de recompensas no Além. O crente, ao manter um comportamento ético, busca o conforto na imortalidade. Nós, que não cremos nessas patacoadas, não esperamos o paraíso por sermos honestos nem tememos o inferno por não sermos honestos. Somos éticos porque julgamos ser esta a melhor fórmula de conviver com nossos semelhantes.
O analfabetismo, ao que tudo indica, invadiu não apenas o jornalismo, mas também o universo jurídico.
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
MEMÓRIA DO JUDICIÁRIO
O "Juiz" de Porto Murtinho
Por Vladimir Passos de Freitas
Belmonte e Amaraí, dois grandes cantores da boa e velha música caipira, com a voz modulada cantavam "Pé de Cedro", e assim começavam "Foi no belo Mato Grosso, há vinte anos atrás, naqueles tempos queridos, que não voltam nunca mais".
Assim também começa a coluna desta semana. No belo Mato Grosso, só que 52 anos atrás. Mais precisamente, em Porto Murtinho, nas barrancas do rio Paraguai, fronteira com a nação hermana, em outubro de 1958.
O estado de Mato Grosso era um só. Enorme, um gigante adormecido. Seus limites iam do Pará, ao norte, ao Paraguai, no sul. Cuiabá, sua capital, era uma distante e provinciana cidade com menos de 60.000 habitantes.
Porto Murtinho dela ficava cerca de 1.050 km, em estrada sem pavimento. Sua população talvez não chegasse a 5.000 habitantes. A viagem era longa e cansativa, sempre a depender das condições do tempo. Era rotina o uso de correntes nas rodas dos carros, balsas para a travessia de rios e animais na pista.
Naquele tempo os candidatos ao cargo de Juiz de Direito eram poucos. Os vencimentos modestos e o isolamento em pequenas cidades desestimulavam os pretendentes. Em muitas comarcas, quem exercia a jurisdição era o Juiz de Paz, leigo em Direito.
É neste panorama que, em 20 de outubro de 1958, chega à cidade de Porto Murtinho Salvador Pacheco. Homem educado, pouco mais de 30 anos de idade, estatura média, moreno, cabelos negros lisos repartidos do lado direito e um bigode à la Carlos Gardel, típico da época.
Apresentou-se no Fórum no dia seguinte e comunicou que pretendia tomar posse em ato solene. Educado e cerimonioso, terno de linho branco, às 15 horas daquele dia, reunidas as autoridades locais, todos trajados convenientemente, Salvador Pacheco apresentou-se como o novo juiz substituto. Recebeu os cumprimentos e lançou-se ao trabalho, demonstrando que não tinha ido a passeio.
Após alguns dias despachando os processos que, bem atrasados, se achavam nos dois cartórios da comarca, convocou o Tribunal do Júri e marcou o dia 24 de novembro para o julgamento de caso rumoroso. Logo se tornou conhecido como o novo juiz e os que com ele cruzavam, nas poucas e vazias ruas da pequena cidade de fronteira, cumprimentavam-no tirando o chapéu, em sinal de respeito.
No dia 30 daquele mês e ano, Salvador Pacheco resolveu ir à vizinha cidade de Jardim, distante algumas horas. Solicitou ao Comandante da Segunda Companhia de Fronteira do Exército uma viatura e motorista, sendo logo atendido. Ao Escrivão do Cartório do 1º ofício, pediu dois revólveres, um para si e outro para o motorista, para eventual necessidade no trajeto. E lá se foi pelas estradas empoeiradas que mais serviam às boiadas do que a veículos.
Em Jardim pediu ao Comandante do C.E.R.-3 outra viatura, para seguir viagem para Aquidauana. Mas daí a sorte abandonou-o.
O Dr. Adolpho Augusto de Barros, que era o Juiz de Direito de Aquidauana, ao tomar conhecimento da presença de Salvador Pacheco comunicou ao Promotor Cesar Froes, de Porto Murtinho: é um impostor. É que o “doutor” já havia feito o mesmo na comarca de Rio Brilhante, próxima de Dourados. A ordem de prisão foi imediata.
O Promotor Froes, no dia 31 de outubro, mandou um ofício ao Delegado de Polícia, Capitão Paulo Xavier, da Polícia Militar, requisitando inquérito policial. Este, no mesmo dia, nomeou Israel Jarbas Vicente Escrivão ad hoc, pois titular não havia. Em tempo recorde o inquérito policial foi enviado ao Fórum.
O representante do Ministério Público, que não devia estar nada contente, porque também foi um dos enganados, ofereceu denúncia no dia 4 de dezembro por usurpação de função pública e estelionato. O Juiz de Paz, na falta de Juiz de Direito despachou no mesmo dia com uma letra caprichada: N. A. a conclusão, ou seja, "nos autos, à conclusão". Todos queriam Justiça o mais rápido possível, certamente sentindo-se envergonhadas vítimas.
O "juiz substituto" foi preso em Nioaque. Com certeza não havia mandado de prisão, mas sim um telegrama. Colocaram-no, sob escolta, em um trem com destino a Campo Grande, que já era a maior cidade do sul do então estado de Mato Grosso.
Aí sobreveio o inesperado. A notícia chegou a Cuiabá e as autoridades previram o que viria depois: uma caçoada geral. Seria uma vergonha para todos os matogrossenses, especialmente ao Poder Judiciário, pois ficariam expostos ao riso de todo o Brasil.
Veio aí a solução, que segundo fontes fidedignas, teria sido dada pelo Dr. Heitor Medeiros, Secretário da Justiça, sugerindo que facilitassem a fuga do "magistrado".
Diz a lenda que a escolta levava Salvador de trem e em uma parada deixou o homem descer para fazer suas necessidades. Ele, ao ver-se sozinho, escapuliu. E o trem seguiu viagem. Concluíram todos que era melhor ele fugir, e o caso ser esquecido, do que ficar preso e expor ao ridículo a Justiça de Mato Grosso. E assim foi feito.
A Ação Penal prosseguiu, citado o réu por edital e ouvidas as oito testemunhas da denúncia, a maior parte delas funcionários do Fórum. Ao final foi julgada procedente, condenado o falso juiz. No entanto, a sentença nunca foi executada. Anos depois, mais exatamente em 5 de abril de 1974, decisão judicial declarava extinta a punibilidade da execução da pena, pela prescrição.
O estado se dividiu em 1 de janeiro de 1979, criou-se o Mato Grosso do Sul, Porto Murtinho cresceu, o mundo ficou pequeno e a internet ligou sua gente ao resto do planeta. O "juiz substituto" Salvador Pacheco tomou rumo ignorado e dele nunca mais se soube. No entanto, na memória do Judiciário do estado ele nunca será esquecido.
Fonte: Consultor Jurídico
Por Vladimir Passos de Freitas
Belmonte e Amaraí, dois grandes cantores da boa e velha música caipira, com a voz modulada cantavam "Pé de Cedro", e assim começavam "Foi no belo Mato Grosso, há vinte anos atrás, naqueles tempos queridos, que não voltam nunca mais".
Assim também começa a coluna desta semana. No belo Mato Grosso, só que 52 anos atrás. Mais precisamente, em Porto Murtinho, nas barrancas do rio Paraguai, fronteira com a nação hermana, em outubro de 1958.
O estado de Mato Grosso era um só. Enorme, um gigante adormecido. Seus limites iam do Pará, ao norte, ao Paraguai, no sul. Cuiabá, sua capital, era uma distante e provinciana cidade com menos de 60.000 habitantes.
Porto Murtinho dela ficava cerca de 1.050 km, em estrada sem pavimento. Sua população talvez não chegasse a 5.000 habitantes. A viagem era longa e cansativa, sempre a depender das condições do tempo. Era rotina o uso de correntes nas rodas dos carros, balsas para a travessia de rios e animais na pista.
Naquele tempo os candidatos ao cargo de Juiz de Direito eram poucos. Os vencimentos modestos e o isolamento em pequenas cidades desestimulavam os pretendentes. Em muitas comarcas, quem exercia a jurisdição era o Juiz de Paz, leigo em Direito.
É neste panorama que, em 20 de outubro de 1958, chega à cidade de Porto Murtinho Salvador Pacheco. Homem educado, pouco mais de 30 anos de idade, estatura média, moreno, cabelos negros lisos repartidos do lado direito e um bigode à la Carlos Gardel, típico da época.
Apresentou-se no Fórum no dia seguinte e comunicou que pretendia tomar posse em ato solene. Educado e cerimonioso, terno de linho branco, às 15 horas daquele dia, reunidas as autoridades locais, todos trajados convenientemente, Salvador Pacheco apresentou-se como o novo juiz substituto. Recebeu os cumprimentos e lançou-se ao trabalho, demonstrando que não tinha ido a passeio.
Após alguns dias despachando os processos que, bem atrasados, se achavam nos dois cartórios da comarca, convocou o Tribunal do Júri e marcou o dia 24 de novembro para o julgamento de caso rumoroso. Logo se tornou conhecido como o novo juiz e os que com ele cruzavam, nas poucas e vazias ruas da pequena cidade de fronteira, cumprimentavam-no tirando o chapéu, em sinal de respeito.
No dia 30 daquele mês e ano, Salvador Pacheco resolveu ir à vizinha cidade de Jardim, distante algumas horas. Solicitou ao Comandante da Segunda Companhia de Fronteira do Exército uma viatura e motorista, sendo logo atendido. Ao Escrivão do Cartório do 1º ofício, pediu dois revólveres, um para si e outro para o motorista, para eventual necessidade no trajeto. E lá se foi pelas estradas empoeiradas que mais serviam às boiadas do que a veículos.
Em Jardim pediu ao Comandante do C.E.R.-3 outra viatura, para seguir viagem para Aquidauana. Mas daí a sorte abandonou-o.
O Dr. Adolpho Augusto de Barros, que era o Juiz de Direito de Aquidauana, ao tomar conhecimento da presença de Salvador Pacheco comunicou ao Promotor Cesar Froes, de Porto Murtinho: é um impostor. É que o “doutor” já havia feito o mesmo na comarca de Rio Brilhante, próxima de Dourados. A ordem de prisão foi imediata.
O Promotor Froes, no dia 31 de outubro, mandou um ofício ao Delegado de Polícia, Capitão Paulo Xavier, da Polícia Militar, requisitando inquérito policial. Este, no mesmo dia, nomeou Israel Jarbas Vicente Escrivão ad hoc, pois titular não havia. Em tempo recorde o inquérito policial foi enviado ao Fórum.
O representante do Ministério Público, que não devia estar nada contente, porque também foi um dos enganados, ofereceu denúncia no dia 4 de dezembro por usurpação de função pública e estelionato. O Juiz de Paz, na falta de Juiz de Direito despachou no mesmo dia com uma letra caprichada: N. A. a conclusão, ou seja, "nos autos, à conclusão". Todos queriam Justiça o mais rápido possível, certamente sentindo-se envergonhadas vítimas.
O "juiz substituto" foi preso em Nioaque. Com certeza não havia mandado de prisão, mas sim um telegrama. Colocaram-no, sob escolta, em um trem com destino a Campo Grande, que já era a maior cidade do sul do então estado de Mato Grosso.
Aí sobreveio o inesperado. A notícia chegou a Cuiabá e as autoridades previram o que viria depois: uma caçoada geral. Seria uma vergonha para todos os matogrossenses, especialmente ao Poder Judiciário, pois ficariam expostos ao riso de todo o Brasil.
Veio aí a solução, que segundo fontes fidedignas, teria sido dada pelo Dr. Heitor Medeiros, Secretário da Justiça, sugerindo que facilitassem a fuga do "magistrado".
Diz a lenda que a escolta levava Salvador de trem e em uma parada deixou o homem descer para fazer suas necessidades. Ele, ao ver-se sozinho, escapuliu. E o trem seguiu viagem. Concluíram todos que era melhor ele fugir, e o caso ser esquecido, do que ficar preso e expor ao ridículo a Justiça de Mato Grosso. E assim foi feito.
A Ação Penal prosseguiu, citado o réu por edital e ouvidas as oito testemunhas da denúncia, a maior parte delas funcionários do Fórum. Ao final foi julgada procedente, condenado o falso juiz. No entanto, a sentença nunca foi executada. Anos depois, mais exatamente em 5 de abril de 1974, decisão judicial declarava extinta a punibilidade da execução da pena, pela prescrição.
O estado se dividiu em 1 de janeiro de 1979, criou-se o Mato Grosso do Sul, Porto Murtinho cresceu, o mundo ficou pequeno e a internet ligou sua gente ao resto do planeta. O "juiz substituto" Salvador Pacheco tomou rumo ignorado e dele nunca mais se soube. No entanto, na memória do Judiciário do estado ele nunca será esquecido.
Fonte: Consultor Jurídico
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
COM A PALAVRA, HUGO CASSEL
AGUAS CALIENTES
A maior preocupação mundial, no momento, embora as medidas aparentemente não sejam levadas muito a sério por alguns segmentos da sociedade humana, é a falta da água. O drama da sede que a imprensa não destaca muito, mas que na Internet chega a arrepiar, podendo num futuro não muito distante liquidar com a vida no planeta. Água é vida. Sem ela nada sobrevive. A água em forma de gelo nas montanhas, está a cada ano menor. Em alguns países da Europa, onde o turismo depende da neve o do gelo, as autoridades estão chegando ao extremo de proteger o gelo com enormes coberturas de plástico para evitar que derretam. No Brasil dezenas de roteiros de turismo têm as águas como atração. Já imaginou o leitor caminhar no leito seco do amazonas? Nenhuma gota caindo das pedras nas cataratas de Iguaçu? Nenhuma gota para extrair do Aqüífero Guarani? Ficção científica ? Nem tanto. Água faz bem à saúde, em todas as suas formas, Gelo, neve, fria ou quente. Em boa hora, a ATHISC ,Associação de Turismo Hidro Mineral de Santa Catarina, desenvolve um programa de divulgação da potencialidade das Estâncias em nosso Estado, líder no Brasil de locais com “Águas Calientes”. Da mais alta qualificação. Vários workshops foram realizados em cidades como Curitiba, Porto Alegre, Gramado, Florianópolis, e Blumenau, destacando a estrutura dos estabelecimentos. O público ficou sabendo tudo de Termas da Guarda, Rio do Pouso, Gravatal, Santa Rosa de Lima, Santo Amaro da Imperatriz, ( a segunda melhor do mundo), Águas Mornas, Piratuba, Itá , Treze tílias, Águas de Chapecó, São Carlos , Palmitos, São João do Oeste e Quilombo, nas quatro regiões do Estado. É preciso porém que tais informações sejam completadas, com a participação de agentes de viagem, montando pacotes “turismo saúde” e mais ainda com Empresas de transporte, para que se saiba “Como Chegar”. Nem todo turista viaja de carro. Muitos , (principalmente idosos) preferem ônibus. O programa pode assim ser otimizado.
GUERRA DO RIO
Nunca antes neste país, como diz o “já vai tarde”, havia acontecido uma conjugação de esforços no sentido de tomar uma atitude drástica contra o desafio continuado da criminalidade, no Rio de Janeiro. Fica aqui o jornalista, a pensar, o que terá acontecido para que de repente, na repetição dos velhos desafios de queimar ônibus, atirar contra as delegacias, e determinar leis para as favelas, as autoridades tolerantes tenham mudado. Quem teria sido prejudicado? Vamos aguardar, pois não se imagine que com a prisão de dezenas de traficantes, apreensão das toneladas de drogas, motos, carros, e valores, o problema esteja resolvido em definitivo. Onde estão as centenas de jovens que fugiram? Vão fazer o que para sobreviver? Assaltos ? Arrastão nas praias? Limpar as favelas é uma medida profilática, temporária, pois o grande desafio se chama Educação e Trabalho, coisa que nenhum governo até agora conseguiu resolver, embora as mentiras dos últimos 8 anos do governo (des) Lula, que preferiu “encher a barriga “ dos pobres ao invés de “encher a cabeça” com educação. O caminho da primeira é o esgoto. Da segunda o sucesso na vida. É bom também lembrar que os chefetes das favelas, são “segundo escalão”, enquanto os verdadeiros chefes moram em São Conrado, Ipanema, Copacabana, e Barra. Continuem pois a ver na TV o ator dizer convictamente: Aqui tem Educação”!
LIXO
Consta que os autores de Novelas da Globo são gays. De todos os lixos que desfilam em horário nobre “Passione” bateu o recorde: Só tem escória moral e social.
A maior preocupação mundial, no momento, embora as medidas aparentemente não sejam levadas muito a sério por alguns segmentos da sociedade humana, é a falta da água. O drama da sede que a imprensa não destaca muito, mas que na Internet chega a arrepiar, podendo num futuro não muito distante liquidar com a vida no planeta. Água é vida. Sem ela nada sobrevive. A água em forma de gelo nas montanhas, está a cada ano menor. Em alguns países da Europa, onde o turismo depende da neve o do gelo, as autoridades estão chegando ao extremo de proteger o gelo com enormes coberturas de plástico para evitar que derretam. No Brasil dezenas de roteiros de turismo têm as águas como atração. Já imaginou o leitor caminhar no leito seco do amazonas? Nenhuma gota caindo das pedras nas cataratas de Iguaçu? Nenhuma gota para extrair do Aqüífero Guarani? Ficção científica ? Nem tanto. Água faz bem à saúde, em todas as suas formas, Gelo, neve, fria ou quente. Em boa hora, a ATHISC ,Associação de Turismo Hidro Mineral de Santa Catarina, desenvolve um programa de divulgação da potencialidade das Estâncias em nosso Estado, líder no Brasil de locais com “Águas Calientes”. Da mais alta qualificação. Vários workshops foram realizados em cidades como Curitiba, Porto Alegre, Gramado, Florianópolis, e Blumenau, destacando a estrutura dos estabelecimentos. O público ficou sabendo tudo de Termas da Guarda, Rio do Pouso, Gravatal, Santa Rosa de Lima, Santo Amaro da Imperatriz, ( a segunda melhor do mundo), Águas Mornas, Piratuba, Itá , Treze tílias, Águas de Chapecó, São Carlos , Palmitos, São João do Oeste e Quilombo, nas quatro regiões do Estado. É preciso porém que tais informações sejam completadas, com a participação de agentes de viagem, montando pacotes “turismo saúde” e mais ainda com Empresas de transporte, para que se saiba “Como Chegar”. Nem todo turista viaja de carro. Muitos , (principalmente idosos) preferem ônibus. O programa pode assim ser otimizado.
GUERRA DO RIO
Nunca antes neste país, como diz o “já vai tarde”, havia acontecido uma conjugação de esforços no sentido de tomar uma atitude drástica contra o desafio continuado da criminalidade, no Rio de Janeiro. Fica aqui o jornalista, a pensar, o que terá acontecido para que de repente, na repetição dos velhos desafios de queimar ônibus, atirar contra as delegacias, e determinar leis para as favelas, as autoridades tolerantes tenham mudado. Quem teria sido prejudicado? Vamos aguardar, pois não se imagine que com a prisão de dezenas de traficantes, apreensão das toneladas de drogas, motos, carros, e valores, o problema esteja resolvido em definitivo. Onde estão as centenas de jovens que fugiram? Vão fazer o que para sobreviver? Assaltos ? Arrastão nas praias? Limpar as favelas é uma medida profilática, temporária, pois o grande desafio se chama Educação e Trabalho, coisa que nenhum governo até agora conseguiu resolver, embora as mentiras dos últimos 8 anos do governo (des) Lula, que preferiu “encher a barriga “ dos pobres ao invés de “encher a cabeça” com educação. O caminho da primeira é o esgoto. Da segunda o sucesso na vida. É bom também lembrar que os chefetes das favelas, são “segundo escalão”, enquanto os verdadeiros chefes moram em São Conrado, Ipanema, Copacabana, e Barra. Continuem pois a ver na TV o ator dizer convictamente: Aqui tem Educação”!
LIXO
Consta que os autores de Novelas da Globo são gays. De todos os lixos que desfilam em horário nobre “Passione” bateu o recorde: Só tem escória moral e social.
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
COM A PALAVRA, JANER CRISTALDO
PERSONAL SEX TRAINER, A MAIS NOVA VIGARICE
Essa agora! Leio na Folha de São Paulo que existe no país uma nova e promissora profissão, a de personal sex trainer. Ou seja, uma profissional que, por módicos 500 reais, dá orientação por uma hora e meia ao casal, para fazer aquilo que se nasce sabendo. O preço da - como direi? – consultoria, pode chegar aos 2500 reais. Uma viagem de ida-e-volta a Paris.
Antes tínhamos sexólogos, vigaristas ao melhor estilo de astrólogos e psicanalistas, que pretendiam ensiná-lo como portar-se na cama. Agora, ao que tudo indica, temos um atendimento mais personalizado. Não sei bem como age a sex trainer, mas suponho que um bom atendimento só pode ser feito ao lado da cama, no momento dos acontecimentos. Agora você tira daqui e põe ali. Me passa um pouquinho isso aí, vou mostrar como se faz. Agora, ponha o dedinho aqui. Mais rápido, por favor. Não concebo de outra forma o exercício da novel profissão. Pelo que li, é mais uma moda que importamos dos States, o tal de sex coaching. Mais um pouco, e teremos sex trainer para cães e gatos. Cachorro também é gente.
Algo que nunca entendi foi a educação sexual nas escolas. Que se ensine a fisiologia do sexo, tudo bem, pouco conhecemos sobre nossos órgãos quando adolescentes. Prevenção contra doenças venéreas, ótimo. Daí a pretender ensinar o know how, me parece uma solene idiotice. Sexo é bom quando o descobrimos sem ter a mínima idéia de como seja, quando mergulhamos no desconhecido com medo e excitação. O grande sexólogo de minha geração foi Carlos Zéfiro, o dos catecismos. Os livrinhos suecos e a policromia roubaram seu mercado, mas suas revistas em quadrinhos foram os guias sexuais dos anos 50 e 60. Havia também A Nossa Vida Sexual, do Fritz Kahn, livro considerado obsceno na época, e que hoje faria morrer de rir um adolescente.
Outro “instrutor” daqueles dias foi Henry Miller. Livros como Trópico de Câncer e Trópico de Capricórnio faziam furor entre adolescentes. Já Primavera Negra, onde nada havia de sexo, pouco vendeu. Os Livros em Minha Vida, um belo ensaio sobre leituras, sequer foi traduzido no Brasil. Miller atribuía seu êxito literário à Segunda Guerra. Os soldados se muniam de seus livros quando iam para o front. Verdade que Miller não vendia apenas pelo erotismo. Além de erotismo, trazia o cotidiano de Paris. E sexo em Paris é sempre mais interessante que sexo em Dom Pedrito.
Sexo é coisa que se aprende sozinho. Por tentativa e erro. Basta um pouco de imaginação para se chegar a grandes achados. Dá prazer? Vamos lá. Na cama só não vale dedo no olho e mandar o parceiro para o hospital.
O repórter da Folha nos fala de uma sex trainer que foi visitar um casal, portando algemas e vibradores. Vibrador até que entendo, é infatigável e vem do fim dos tempos. Do Alto Paleolítico, segundo arqueólogos. Os dildos foram muito populares nas antigas Roma e Grécia. Mas algemas? Que me desculpem os adeptos da prática. Alguém precisa ser muito doente – ou muito idiota – para usar algemas na relação sexual. Não vejo nada de erótico em um parceiro subjugado. Tais práticas, a meu ver, são modas vendidas pelo cinema e televisão. O espectador passa a acreditar que aquilo é excitante. E acaba se excitando. Se lhe passarem a idéia de que uma banana é algo erótico, vai se excitar até em fruteiras.Certa noite, zapeando pela TV a cabo, vi no GNT reportagem sobre uma estranha modalidade sexual. Modalidade ianque, pra variar. Homens e mulheres, devidamente encilhados com selins e estribos, eram cavalgados por seus parceiros. Pode isso excitar alguém? A meu ver, o filme era publicidade disfarçada de artigos de couro. Compre couro e seja sexualmente feliz. Vestes de couro sempre excitam, sei lá porquê. Mas selins? Não entendi.
A nova profissão está provocando ciumeira no mercado. Segundo a reportagem, o papel de treinadores sexuais é questionado por sexólogos, em especial quando envolve aconselhamento de casais. "Elas dão conselhos sem ter nenhuma formação", critica Maria Luiza Macedo de Araújo, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana. A moça está dizendo que, para entender de sexo, é necessário formação. Preferentemente superior. Giacomo Casanova deve estar rindo em sua tumba."Nós lidamos com coisas muito mais complexas do que isso de "beija aqui, põe a mão ali", conselhos que qualquer amigo de bar dá", continua Maria Luiza. Com a diferença que o amigo de bar não cobra nada. E por isso sua orientação não é valorizada. As pessoas não valorizam o que recebem de graça. Apenas o que pagam. Tenho uma amiga que faz psicanálise e não dá valor algum ao que digo. Mas leva em conta o que lhe diz a analista, afinal ela a paga para isso. Mas atenção: a analista nada lhe diz. “Quanto menos ela fala, mais gosto da análise”. Ou seja, as pessoas estão pagando para serem ouvidas. Propus-lhe então que, quando nos encontrássemos, eu permaneceria em silêncio e ela pagava pelo menos o almoço. Não topou. Não tenho formação na área. Uma coisa é o silêncio do analista. Silêncio de leigo é o mesmo, mas não vale nada.
Segundo a psiquiatra Carmita Abdo, do Programa de Estudos em Sexualidade do Hospital das Clínicas, "o trabalho do personal pode ser interessante para casais que têm muita falta de percepção deles mesmos, mas se o problema é uma disfunção sexual ou um conflito psicológico, daí só o terapeuta é que pode resolver". É outra que está preocupada com reserva de mercado. Mais um pouco e a guilda do sexo exigirá formação superior para as consultorias eróticas.
O que me lembra uma colunista de auto-ajuda da Veja, Betty Milan. Sua coluna é feita de respostas a cartas obviamente forjadas, já que todos os missivistas têm o mesmo estilo. Ao relatarem seus problemas sexuais, invariavelmente recebem uma só resposta: procure um terapeuta. O que nos leva a uma pergunta: como conseguiu a humanidade sobreviver às épocas em que não existiam terapeutas, nem mesmo sex trainers?O Brasil é pródigo na criação de profissões inúteis. Somos um dos raros países do mundo onde existem ascensoristas. Como se quem toma um elevador não soubesse apertar um botão. Temos agora profissionais para nos ensinarem – mediante régio pagamento, é claro – a fazer o que nascemos sabendo fazer.
Essa agora! Leio na Folha de São Paulo que existe no país uma nova e promissora profissão, a de personal sex trainer. Ou seja, uma profissional que, por módicos 500 reais, dá orientação por uma hora e meia ao casal, para fazer aquilo que se nasce sabendo. O preço da - como direi? – consultoria, pode chegar aos 2500 reais. Uma viagem de ida-e-volta a Paris.
Antes tínhamos sexólogos, vigaristas ao melhor estilo de astrólogos e psicanalistas, que pretendiam ensiná-lo como portar-se na cama. Agora, ao que tudo indica, temos um atendimento mais personalizado. Não sei bem como age a sex trainer, mas suponho que um bom atendimento só pode ser feito ao lado da cama, no momento dos acontecimentos. Agora você tira daqui e põe ali. Me passa um pouquinho isso aí, vou mostrar como se faz. Agora, ponha o dedinho aqui. Mais rápido, por favor. Não concebo de outra forma o exercício da novel profissão. Pelo que li, é mais uma moda que importamos dos States, o tal de sex coaching. Mais um pouco, e teremos sex trainer para cães e gatos. Cachorro também é gente.
Algo que nunca entendi foi a educação sexual nas escolas. Que se ensine a fisiologia do sexo, tudo bem, pouco conhecemos sobre nossos órgãos quando adolescentes. Prevenção contra doenças venéreas, ótimo. Daí a pretender ensinar o know how, me parece uma solene idiotice. Sexo é bom quando o descobrimos sem ter a mínima idéia de como seja, quando mergulhamos no desconhecido com medo e excitação. O grande sexólogo de minha geração foi Carlos Zéfiro, o dos catecismos. Os livrinhos suecos e a policromia roubaram seu mercado, mas suas revistas em quadrinhos foram os guias sexuais dos anos 50 e 60. Havia também A Nossa Vida Sexual, do Fritz Kahn, livro considerado obsceno na época, e que hoje faria morrer de rir um adolescente.
Outro “instrutor” daqueles dias foi Henry Miller. Livros como Trópico de Câncer e Trópico de Capricórnio faziam furor entre adolescentes. Já Primavera Negra, onde nada havia de sexo, pouco vendeu. Os Livros em Minha Vida, um belo ensaio sobre leituras, sequer foi traduzido no Brasil. Miller atribuía seu êxito literário à Segunda Guerra. Os soldados se muniam de seus livros quando iam para o front. Verdade que Miller não vendia apenas pelo erotismo. Além de erotismo, trazia o cotidiano de Paris. E sexo em Paris é sempre mais interessante que sexo em Dom Pedrito.
Sexo é coisa que se aprende sozinho. Por tentativa e erro. Basta um pouco de imaginação para se chegar a grandes achados. Dá prazer? Vamos lá. Na cama só não vale dedo no olho e mandar o parceiro para o hospital.
O repórter da Folha nos fala de uma sex trainer que foi visitar um casal, portando algemas e vibradores. Vibrador até que entendo, é infatigável e vem do fim dos tempos. Do Alto Paleolítico, segundo arqueólogos. Os dildos foram muito populares nas antigas Roma e Grécia. Mas algemas? Que me desculpem os adeptos da prática. Alguém precisa ser muito doente – ou muito idiota – para usar algemas na relação sexual. Não vejo nada de erótico em um parceiro subjugado. Tais práticas, a meu ver, são modas vendidas pelo cinema e televisão. O espectador passa a acreditar que aquilo é excitante. E acaba se excitando. Se lhe passarem a idéia de que uma banana é algo erótico, vai se excitar até em fruteiras.Certa noite, zapeando pela TV a cabo, vi no GNT reportagem sobre uma estranha modalidade sexual. Modalidade ianque, pra variar. Homens e mulheres, devidamente encilhados com selins e estribos, eram cavalgados por seus parceiros. Pode isso excitar alguém? A meu ver, o filme era publicidade disfarçada de artigos de couro. Compre couro e seja sexualmente feliz. Vestes de couro sempre excitam, sei lá porquê. Mas selins? Não entendi.
A nova profissão está provocando ciumeira no mercado. Segundo a reportagem, o papel de treinadores sexuais é questionado por sexólogos, em especial quando envolve aconselhamento de casais. "Elas dão conselhos sem ter nenhuma formação", critica Maria Luiza Macedo de Araújo, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana. A moça está dizendo que, para entender de sexo, é necessário formação. Preferentemente superior. Giacomo Casanova deve estar rindo em sua tumba."Nós lidamos com coisas muito mais complexas do que isso de "beija aqui, põe a mão ali", conselhos que qualquer amigo de bar dá", continua Maria Luiza. Com a diferença que o amigo de bar não cobra nada. E por isso sua orientação não é valorizada. As pessoas não valorizam o que recebem de graça. Apenas o que pagam. Tenho uma amiga que faz psicanálise e não dá valor algum ao que digo. Mas leva em conta o que lhe diz a analista, afinal ela a paga para isso. Mas atenção: a analista nada lhe diz. “Quanto menos ela fala, mais gosto da análise”. Ou seja, as pessoas estão pagando para serem ouvidas. Propus-lhe então que, quando nos encontrássemos, eu permaneceria em silêncio e ela pagava pelo menos o almoço. Não topou. Não tenho formação na área. Uma coisa é o silêncio do analista. Silêncio de leigo é o mesmo, mas não vale nada.
Segundo a psiquiatra Carmita Abdo, do Programa de Estudos em Sexualidade do Hospital das Clínicas, "o trabalho do personal pode ser interessante para casais que têm muita falta de percepção deles mesmos, mas se o problema é uma disfunção sexual ou um conflito psicológico, daí só o terapeuta é que pode resolver". É outra que está preocupada com reserva de mercado. Mais um pouco e a guilda do sexo exigirá formação superior para as consultorias eróticas.
O que me lembra uma colunista de auto-ajuda da Veja, Betty Milan. Sua coluna é feita de respostas a cartas obviamente forjadas, já que todos os missivistas têm o mesmo estilo. Ao relatarem seus problemas sexuais, invariavelmente recebem uma só resposta: procure um terapeuta. O que nos leva a uma pergunta: como conseguiu a humanidade sobreviver às épocas em que não existiam terapeutas, nem mesmo sex trainers?O Brasil é pródigo na criação de profissões inúteis. Somos um dos raros países do mundo onde existem ascensoristas. Como se quem toma um elevador não soubesse apertar um botão. Temos agora profissionais para nos ensinarem – mediante régio pagamento, é claro – a fazer o que nascemos sabendo fazer.
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
CRÔNICAS IMPUDICAS
HIPOCRISIA (II)
João Eichbaum
Todo mundo sabe que os políticos são hipócritas, enganadores, mentirosos, e muito se fala nisso. Embora, nem adiante falar, porque eles continuam sendo eleitos, dando tapinhas nas costas, vivendo uma boa vida, com tudo pago por quem trabalha, e não tão nem aí pras nossas críticas.
Mas há uma hipocrisia oficial de que poucos se dão conta e sobre a qual muito poucos têm coragem de falar. É a hipocrisia da Igreja Católica, Apostólica, Romana.
Como toda e qualquer religião, a Igreja Católica se aproveita da ignorância e do medo da morte, que domina a maioria absoluta dos seres humanos, para pregar suas idéias e impor suas mentiras, a fim de manter o “status” de seus dirigentes.
E uma das mentiras mais desmentidas é a da “castidade” do clero.
Não é necessário ser sábio, não é necessário ser versado profundamente em biologia para saber da importância que tem o sexo na vida animal. Sem sexo, não há vida. Sem vida, não há sexo.
O sexo tem uma função substancial no sistema fisiológico, é uma exigência biológica tão necessária, quanto a defecação, a expulsão da urina, a fome, a sede, etc. Nem mesmo seres animais com alguma deficiência se livram das exigências do sexo, que são funções precípuas da natureza para a preservação da espécie.
Apesar de todas as evidências, a Igreja Católica, desde priscas eras, teima em tapar o sol com a peneira. Tendo transformado a função sexual em “pecado”, com ameaça de danação ao inferno, se não for exercida dentro do casamento, pretendeu suprimir, pelo medo, essa exigência da natureza. E, não contente com isso, inventou o “voto de castidade”, para homens e mulheres que se querem dedicar à profissão de religiosos.
Sem falar no trauma criado em milhões e milhões de pessoas que, na adolescência, eram obrigadas a reprimir suas funções fisiológicas, a Igreja oficializou sua hipocrisia, ao tentar fazer crer, que o clero, desde o papa ao mais ignoto irmão leigo, é uma casta superior às leis da biologia.
É claro que essa hipocrisia não durou e, desde que foi oficializada, até hoje, vem sendo desmascarada. Não só o atualíssimo livro “I papi ed il sesso”, de Eric Frattini, como muitas outras obras revelam a prática, não só de sexo, mas de orgias inomináveis de papas. À chamada “pedofilia” clerical, que hoje chegou ao conhecimento de todos, não tem como resistir a hipocrisia do “voto de castidade”. Poucos são os dias em que não são tornadas públicas patifarias sexuais de padres, que nem a sacristia respeitam para desafogar o ganso. E a história está cheia de “ilustres” padres que tinham vida sexual ativa, como qualquer homem.
Então, meus amigos, me respondam: essa hipocrisia combina com uma instituição que se diz fundada e protegida por um deus, chamado Jesus Cristo (tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela)?
João Eichbaum
Todo mundo sabe que os políticos são hipócritas, enganadores, mentirosos, e muito se fala nisso. Embora, nem adiante falar, porque eles continuam sendo eleitos, dando tapinhas nas costas, vivendo uma boa vida, com tudo pago por quem trabalha, e não tão nem aí pras nossas críticas.
Mas há uma hipocrisia oficial de que poucos se dão conta e sobre a qual muito poucos têm coragem de falar. É a hipocrisia da Igreja Católica, Apostólica, Romana.
Como toda e qualquer religião, a Igreja Católica se aproveita da ignorância e do medo da morte, que domina a maioria absoluta dos seres humanos, para pregar suas idéias e impor suas mentiras, a fim de manter o “status” de seus dirigentes.
E uma das mentiras mais desmentidas é a da “castidade” do clero.
Não é necessário ser sábio, não é necessário ser versado profundamente em biologia para saber da importância que tem o sexo na vida animal. Sem sexo, não há vida. Sem vida, não há sexo.
O sexo tem uma função substancial no sistema fisiológico, é uma exigência biológica tão necessária, quanto a defecação, a expulsão da urina, a fome, a sede, etc. Nem mesmo seres animais com alguma deficiência se livram das exigências do sexo, que são funções precípuas da natureza para a preservação da espécie.
Apesar de todas as evidências, a Igreja Católica, desde priscas eras, teima em tapar o sol com a peneira. Tendo transformado a função sexual em “pecado”, com ameaça de danação ao inferno, se não for exercida dentro do casamento, pretendeu suprimir, pelo medo, essa exigência da natureza. E, não contente com isso, inventou o “voto de castidade”, para homens e mulheres que se querem dedicar à profissão de religiosos.
Sem falar no trauma criado em milhões e milhões de pessoas que, na adolescência, eram obrigadas a reprimir suas funções fisiológicas, a Igreja oficializou sua hipocrisia, ao tentar fazer crer, que o clero, desde o papa ao mais ignoto irmão leigo, é uma casta superior às leis da biologia.
É claro que essa hipocrisia não durou e, desde que foi oficializada, até hoje, vem sendo desmascarada. Não só o atualíssimo livro “I papi ed il sesso”, de Eric Frattini, como muitas outras obras revelam a prática, não só de sexo, mas de orgias inomináveis de papas. À chamada “pedofilia” clerical, que hoje chegou ao conhecimento de todos, não tem como resistir a hipocrisia do “voto de castidade”. Poucos são os dias em que não são tornadas públicas patifarias sexuais de padres, que nem a sacristia respeitam para desafogar o ganso. E a história está cheia de “ilustres” padres que tinham vida sexual ativa, como qualquer homem.
Então, meus amigos, me respondam: essa hipocrisia combina com uma instituição que se diz fundada e protegida por um deus, chamado Jesus Cristo (tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela)?
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
COM A PALAVRA, JANER CRISTALDO
HABEAS FELICITATEM?
Primeiro, foi o Butão, aquele pequeno país isolado no Himalaia, cujo rei, Sua Majestade Jigme Singye Wangchuck – o primeiro marajá da dinastia dos Wangchuk a auto-intitular-se rei – decidiu abandonar os obsoletos índices de Produto Interno Bruto e substitui-lo por um índice de Felicidade Interna Bruta. Abaixo o PIB, viva a FIB. Sua jogada de marketing parece ter agradado às eternas e azedas esquerdas, que acham que PIB não quer dizer nada. Não que acreditem nisso, mas como o PIB das nações capitalistas sempre foi superior ao das socialistas, então o PIB “é do mal”.
Segundo pesquisa feita há quatro anos pelo economista britânico Richard Layard, em Happiness: Lessons From a New Science, a felicidade residiria no reino budista do Butão. Segundo Jigme Singye Wangchuck, quanto mais uma pessoa assiste televisão, menos feliz ela é. A solução então é simples: retire a televisão da sala e suas chances de ser feliz aumentarão. Sua Majestade parece ter conseguido vender ao Ocidente a idéia de que, para a felicidade geral das nações, é melhor renunciar ao presente e encerrar-se nas trevas do passado. Sob o repúdio à televisão, o livro esconde uma tese safada: informação é infelicidade. O PT, penhorado, agradece.
Agora é o Reino Unido, que pretende criar um índice que determinará o maior ou menor grau de felicidade dos súditos de Sua Majestade. Quinta-feira passada, foi lançada uma consulta pública para definir como fazer uma pesquisa para medir o grau de felicidade. O governo quer saber o que torna felizes os cidadãos britânicos. Dinheiro, emprego, saúde, bom relacionamento com amigos e parentes, sensação de que vive num lugar seguro, atividades culturais, meio ambiente preservado...
A universidade de Leicester já havia elaborado, há quatro anos, o que seria o primeiro mapa mundial da felicidade, em um estudo que reuniu 177 países. Segundo este, os dinamarqueses e os suíços são os mais felizes. Depois destes, vêm os cidadãos da Áustria, Islândia, Bahamas, Finlândia e Suécia. Zimbabuanos e burundineses estão nos postos mais baixos e os brasileiros em 81º lugar. Dentro de meu conceito, já não digo de felicidade, que é muito relativo, mas de bem-estar, parece-me um mapa sensato. Que a vida é agradável na Dinamarca e Suíça, disto estou ciente. Que deve ser dura no Zimbábue e Burundi, disto também estou ciente, mesmo sem jamais ter postos os pés naquelas plagas.
Por outro lado, a New Economics Foundation e a ONG Friends of Earth criaram o Happy Planet Index, segundo o qual a felicidade teria estabelecido sua morada no arquipélago de Vanuatu – 83 ilhas no Pacífico, com 209 mil habitantes, na maioria pescadores e agricultores que vivem numa economia pouco além do nível da subsistência. Os vanuatuenses tiveram a melhor média de três indicadores básicos: esperança de vida ao nascer, bem-estar humano e nível dos danos ambientais causados ao país.
Nesse índice, o Brasil ficou em 65º lugar, atrás da Colômbia, da Argentina, do Chile e do Paraguai – até de Bangladesh. Os Estados Unidos ficaram com o 150º lugar, um dos últimos entre 178 países. O Happy Planet Index quer evidenciar que "não é necessário esgotar os recursos naturais da Terra para se ter uma vida relativamente longa e feliz". Seus critérios são, no fundo, um panfleto contra tudo o que de bom o Ocidente oferece.
Os britânicos estão querendo medir o imensurável. Ora, tudo depende de ambições. Certa vez, eu conversava com uma balconista que servia cafezinho no terminal de Cumbica, na Praça da República. É um trabalho duro, oito ou mais horas em pé, no espaço exíguo da cafeteria. Ela estava feliz. “Adoro trabalhar aqui. Se não tivesse este trabalho, estaria no cabo da enxada, na roça”. É o tipo de trabalho que não me faria feliz, e muito menos o leitor. Para ela, era o paraíso.
Minha idéia de felicidade é um pouco mais ampla. Eu me sentiria terrivelmente deprimido se não pudesse ir a Paris quando quero ir a Paris. Conheço não pouca gente que se deprime por muito menos. Porque não tem casa na praia, porque não tem o carro do ano, Com perdão pela obviedade, felicidade é algo muito relativo.
Há quem seja feliz com muito pouco. Há muitos anos, aqui em São Paulo, numa fria madrugada de agosto, vi um mendigo que ria sozinho, atirado na rua, apoiado em uma garrafa de cachaça. “Como eu sou feliz”, dizia. E não seria eu quem duvidaria de que ele fosse feliz. Há quem se sinta desgraçado quando seu time perde um campeonato. E isto ocorre até mesmo com pessoas sem nenhum problema econômico. FIB é relativa. Enquanto que o velho PIB é objetivo e nos dá bons indícios da FIB.
Diria que os britânicos seriam bem mais precisos se medissem os índices de infelicidade. Ser infeliz é algo bem mais preciso. É infeliz toda pessoa que porta doença grave, que está num hospital ou que perdeu amigos ou parentes. Ou que não tem emprego, ou vive acossado por dívidas, ou tem um filho drogado ou criminoso. Isso sem falar que felicidade ou infelicidade são estados cambiantes. Se hoje estou feliz, posso estar profundamente infeliz amanhã. Isso nem depende de condições econômicas, como de fatos totalmente aleatórios, como um acidente ou morte em família. Uma crise econômica pode tornar todo um país infeliz do dia para a noite. Que sentido tem então medir o que muda com os ventos?A moda, pelo jeito, veio para ficar. Segundo os jornais, a idéia foi sugerida pelo Nobel de Economia Joseph Stiglitz, que diz que os países precisam colocar menos ênfase em números de indústria e comércio e mais no efeito que isso provoca na sociedade. França e Canadá também estudam seu índice da felicidade. No Brasil, fomos mais longe. Tramita no Congresso uma proposta de emenda constitucional criando nada menos que o direito à felicidade, do senador Cristovam Buarque. O ócio é a mãe de todos os vícios, dizem as gentes. Tivessem os senadores trabalho com que se ocupar, certamente não estariam propondo bobagens. Se o direito à felicidade é algo garantido por lei, que recursos serão concedidos ao cidadão infeliz? Poderá entrar com um habeas felicitatem contra o Estado?
Primeiro, foi o Butão, aquele pequeno país isolado no Himalaia, cujo rei, Sua Majestade Jigme Singye Wangchuck – o primeiro marajá da dinastia dos Wangchuk a auto-intitular-se rei – decidiu abandonar os obsoletos índices de Produto Interno Bruto e substitui-lo por um índice de Felicidade Interna Bruta. Abaixo o PIB, viva a FIB. Sua jogada de marketing parece ter agradado às eternas e azedas esquerdas, que acham que PIB não quer dizer nada. Não que acreditem nisso, mas como o PIB das nações capitalistas sempre foi superior ao das socialistas, então o PIB “é do mal”.
Segundo pesquisa feita há quatro anos pelo economista britânico Richard Layard, em Happiness: Lessons From a New Science, a felicidade residiria no reino budista do Butão. Segundo Jigme Singye Wangchuck, quanto mais uma pessoa assiste televisão, menos feliz ela é. A solução então é simples: retire a televisão da sala e suas chances de ser feliz aumentarão. Sua Majestade parece ter conseguido vender ao Ocidente a idéia de que, para a felicidade geral das nações, é melhor renunciar ao presente e encerrar-se nas trevas do passado. Sob o repúdio à televisão, o livro esconde uma tese safada: informação é infelicidade. O PT, penhorado, agradece.
Agora é o Reino Unido, que pretende criar um índice que determinará o maior ou menor grau de felicidade dos súditos de Sua Majestade. Quinta-feira passada, foi lançada uma consulta pública para definir como fazer uma pesquisa para medir o grau de felicidade. O governo quer saber o que torna felizes os cidadãos britânicos. Dinheiro, emprego, saúde, bom relacionamento com amigos e parentes, sensação de que vive num lugar seguro, atividades culturais, meio ambiente preservado...
A universidade de Leicester já havia elaborado, há quatro anos, o que seria o primeiro mapa mundial da felicidade, em um estudo que reuniu 177 países. Segundo este, os dinamarqueses e os suíços são os mais felizes. Depois destes, vêm os cidadãos da Áustria, Islândia, Bahamas, Finlândia e Suécia. Zimbabuanos e burundineses estão nos postos mais baixos e os brasileiros em 81º lugar. Dentro de meu conceito, já não digo de felicidade, que é muito relativo, mas de bem-estar, parece-me um mapa sensato. Que a vida é agradável na Dinamarca e Suíça, disto estou ciente. Que deve ser dura no Zimbábue e Burundi, disto também estou ciente, mesmo sem jamais ter postos os pés naquelas plagas.
Por outro lado, a New Economics Foundation e a ONG Friends of Earth criaram o Happy Planet Index, segundo o qual a felicidade teria estabelecido sua morada no arquipélago de Vanuatu – 83 ilhas no Pacífico, com 209 mil habitantes, na maioria pescadores e agricultores que vivem numa economia pouco além do nível da subsistência. Os vanuatuenses tiveram a melhor média de três indicadores básicos: esperança de vida ao nascer, bem-estar humano e nível dos danos ambientais causados ao país.
Nesse índice, o Brasil ficou em 65º lugar, atrás da Colômbia, da Argentina, do Chile e do Paraguai – até de Bangladesh. Os Estados Unidos ficaram com o 150º lugar, um dos últimos entre 178 países. O Happy Planet Index quer evidenciar que "não é necessário esgotar os recursos naturais da Terra para se ter uma vida relativamente longa e feliz". Seus critérios são, no fundo, um panfleto contra tudo o que de bom o Ocidente oferece.
Os britânicos estão querendo medir o imensurável. Ora, tudo depende de ambições. Certa vez, eu conversava com uma balconista que servia cafezinho no terminal de Cumbica, na Praça da República. É um trabalho duro, oito ou mais horas em pé, no espaço exíguo da cafeteria. Ela estava feliz. “Adoro trabalhar aqui. Se não tivesse este trabalho, estaria no cabo da enxada, na roça”. É o tipo de trabalho que não me faria feliz, e muito menos o leitor. Para ela, era o paraíso.
Minha idéia de felicidade é um pouco mais ampla. Eu me sentiria terrivelmente deprimido se não pudesse ir a Paris quando quero ir a Paris. Conheço não pouca gente que se deprime por muito menos. Porque não tem casa na praia, porque não tem o carro do ano, Com perdão pela obviedade, felicidade é algo muito relativo.
Há quem seja feliz com muito pouco. Há muitos anos, aqui em São Paulo, numa fria madrugada de agosto, vi um mendigo que ria sozinho, atirado na rua, apoiado em uma garrafa de cachaça. “Como eu sou feliz”, dizia. E não seria eu quem duvidaria de que ele fosse feliz. Há quem se sinta desgraçado quando seu time perde um campeonato. E isto ocorre até mesmo com pessoas sem nenhum problema econômico. FIB é relativa. Enquanto que o velho PIB é objetivo e nos dá bons indícios da FIB.
Diria que os britânicos seriam bem mais precisos se medissem os índices de infelicidade. Ser infeliz é algo bem mais preciso. É infeliz toda pessoa que porta doença grave, que está num hospital ou que perdeu amigos ou parentes. Ou que não tem emprego, ou vive acossado por dívidas, ou tem um filho drogado ou criminoso. Isso sem falar que felicidade ou infelicidade são estados cambiantes. Se hoje estou feliz, posso estar profundamente infeliz amanhã. Isso nem depende de condições econômicas, como de fatos totalmente aleatórios, como um acidente ou morte em família. Uma crise econômica pode tornar todo um país infeliz do dia para a noite. Que sentido tem então medir o que muda com os ventos?A moda, pelo jeito, veio para ficar. Segundo os jornais, a idéia foi sugerida pelo Nobel de Economia Joseph Stiglitz, que diz que os países precisam colocar menos ênfase em números de indústria e comércio e mais no efeito que isso provoca na sociedade. França e Canadá também estudam seu índice da felicidade. No Brasil, fomos mais longe. Tramita no Congresso uma proposta de emenda constitucional criando nada menos que o direito à felicidade, do senador Cristovam Buarque. O ócio é a mãe de todos os vícios, dizem as gentes. Tivessem os senadores trabalho com que se ocupar, certamente não estariam propondo bobagens. Se o direito à felicidade é algo garantido por lei, que recursos serão concedidos ao cidadão infeliz? Poderá entrar com um habeas felicitatem contra o Estado?
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