quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

HEMORRÓIDAS

Ptolomeu em 150 d.C. falava que a terra era o centro do universo e que tudo girava em torno dela, foram precisos cerca de 1400 anos para esta teoria ser rebatida por Nicolau Copérnico provando para a humanidade que o Sol sim era o centro.
Eu, simplesmente eu, descobri em apenas três dias, após 56 anos, que ambos estavam redondamente enganados: o centro do universo é o cú. Isso mesmo, o cú!
Operei das hemorróidas em caráter de urgência algumas semanas atrás. No domingo à noitinha, o que achava que seria um singelo peidinho, quase me virou do avesso.
É difícil, mas vamos ver se reverte, falou meu médico.
Reverteu merda nenhuma, era mais fácil o Lula aceitar que sabia do mensalão do que aquela lazarenta bolinha (?) dar o toque de recolher.
Foram quase 2 horas de cirurgia e confesso não senti nadica de nada, nem se me enrabaram durante minha letargia!Dois dias de hospital, passei bem embora tenham tentado me afogar com tanto soro que me aplicaram, foram litros e litros; recebi alta e fui repousar em casa.
Passados os efeitos anestésicos e analgésicos, vem a primeira vez. PUTA QUI PARIU!!! Parece que você ta cagando um croquete de figo da Índia, casca de abacaxi, concha de ostra e arame farpado. É um auto-flagelo.
Parece que você tá cagando uma briga de 5 gatos, sai arranhando tudo.
Caguei de pé, pois sentado achei que o cú ia junto...Por uns três dias dói tanto que você não imagina uma coisinha tão pequena e com um nome tão reduzido (cú) possa doer tanto. O tamanho da dor não é proporcional ao tamanho do nome, neste caso, cú deveria chamar dobrovosky, tegulcigalpa, nabucodonosor.
Passam pela cabeça soluções mágicas:
- Usar um ventilador! Só se for daqueles túneis aerodinâmicos.
- Gelo! Só se eu fosse escorregar pelado por uma encosta do Monte Everest.
- Esguichinho dagua! Tem que ser igual a da Praça da Matriz, névoa seguida de jatos intercalados.
Descobri também que somos descendentes diretos do bugio, porque você fica andando como macaco e com o cú vermelho; qualquer tosse, movimento inesperado, virada mais brusca o cú dói, e como!Para melhorar as idas à privada, recomenda-se dieta na base de fibras, foi o que fiz: comi cinco vassouras piaçaba, um tapete de sisal e sete metros de corda. Agora sei o sentido daquela frase: quem tem medo de cagar não come!
Tudo valeu, agora já estou bem, cagando como manda o figurino, não preciso pensar para peidar, o cú ficou afinado em ré menor, uma beleza!

O NÉRIO SABE DAS COISAS

Ainda bem que não cheguei a tanta dor e pagar os pecados não cometidos.

Meu câncer de próstata foi descoberto no ano passado, num prosaico toque retal do meu médico, " dedo fino" , urologista. Santo dedo. Pois os exames de PSA e que tais dava tudo bem. Não tinha nada. Aí o médico, desconfiou e no dito exame de rotina, fazia de seis em meses, total estou com 72 anos e já meio encagaçado de tanto ouvir falar da tal de próstata e ja perdi alguns amigos. Pois, descoberto cedo, o dito câncer danado, lá bem no mol da próstata como diz o gáucho. Aliás o gaúcho diz "prosta". Biópsia, com um revólver de plástico enfiado no meu rabo, e dando tiros, sim, tiros, tipo espingarda de caçar passarinho, mas não doeu. Só aquele trombolho enfiado no rabo e dando tiros. Colhia material para o exame de biópsia. Anátomo-Patológico. Viu só que nome difícil. Náo deu outra. Câncer. Fiz 50 sessões de rádioterapia no ótima hospital da Santa Cara, o Santa Rita, que gente boa, que máquina fantástica dos americanos, que manda elétrons adoidados deste a haste de metal, parece que é césio, lá dentro da máquina. Fiquei curado. Os médicos me deram alta curado. Me garantiram, da próstata você não morre mais. Grandes e notáveis médicos.
Agora, feitos exames de volta com meu urologista, o famoso "dedo-fino" me disse que não encontrou mais próstata. Se foi a dita próstata e com ela se foi o câncer. Veja só. Que sorte. Santo "dedo-fino".

Como o raio da radioterapia passa pelo intestino, pois a próstata está ai a danada, logo após intestino, na parte final, no famoso reto, então, sempre o raio queima e deixa alguma lesão na parede do intestino.

Então, meu proctologista, grande Dr. Gilberto Saute, agora, no mes passado, fez o que tinha que fazer, de rotina, de cinco em cinco anos, que venho fazendo - a colonoscopia. Você toma um laxante, fantástico, muito mais forte do que o óleo de rícino que eu era obrigado a tomar quando criança em Antonio Prado - costume italiano que o Mussolini enfiava guela abaixo dos inimigos do seu fascismo - um litro de óleo de rícino e mandava o cara para casa. Não dava outra, na primeira esquina, o cara parava, se encostava na parede e se cagava todo, perna abaixo. Esse era o sentido básico da tortura romântica do Mussolini. Meta óleo de rícino nos inimigos. Ninguém briga cagado.

Esse costume era antigo entre os italianos. Lá em casa, todos nós, cinco irmãos, chegava um dia, tinha que tomar uma dose de óleo de rícino para limpar os intestinos, curar os vermes, as lombrigas. Ficava deitado, só cagando, correndo para a patente. Náo ia nem na aula.

Foi uma pena que nós brasileiros não tivemos esta luz de meter óleo de rícino na turma "da esquerda" e que brigou com os militares e agora a Maria do Rosário, muito chata por sinal, com aquela vóz de lata rachad, mas ministra de estado e só pensa naquilo - a Comissão da Verdade e tem que enfrentar o Dep. Jair Bolsonaro - e vivem brigando agora devido a Ditadura e quem torturou quem e se o cara foi torturado de verdade para receber o Bolsa Ditadura. Baita grana. Sabemos que muita gente entrou nessa e ficou rico e não levou porrada. Nem pau de arara, nem caldo, nem choque elétrico nos testículos. Mas muita gente, deu de brasileiro, e entrou no Bolsa Ditadura e receberam uma grana entaipada e ficaram ricos, compraram carro novo. Apto. novo e amplo e ainda tem dinheiro na poupança. Rendeu ser de esquerda naqueles tempos. O Carlinhos Araujo, ex-Dilma, morando aqui na beira do rio Guaiba, na Vila Bairro Assunção disse que não pediu o bolsa ditadura, pois, estava numa guerra e perdeu a guerra. Coisas do meu ex-colega de Direito, nos anos 60 quando o notável e culto Carlinhos Araujo - líder estudantil máximo - dono da politica estudantil, estava duzentos anos à nossa\ frente - se incorporou no agreste de Pernambuco com as ligas camponesas do Francisco Julião e abandonou o Direito.

Tivessem os militares daquele tempo adotado o uso do óleo de rícino como fazia El Ducce - não teríamos hoje que suportar a Maria do Rosário, nem o Bolsonaro, nem o Cel Brilhane Ustra e tantos outros, neste embate bem brasileiro, macuanima, da Comissão da Verdade.

O ruim da colonoscopia é a diarréia total antes do exame, pois, você tem que chegar para o exame cagando só água. Intestino limpo. Aí você é anestesiado com o mesmo remédio que o médico americano receitava para o Michael Jackson, - propofol - uma beleza, você dorme, não sente nada, acorda numa boa, se sentido bem, leve e nem quer sair da mesa. Mas levam você para a sala de recuperação e aí começa tudo de novo. Dor aqui, dor alí, pois estou na fase do condor. Sabe como é - e o meu zumbido nos ouvidos. Enquano estive deitado na mesa da cirurgia nada senti e até passou o chato do zumbido nos ouvidos (24 hs. por dia,não cessa nunca) Pois eu tive a felicidade de passar algum tempo sem zumbido., Que felicidade. Por isto que o dito Propofol vicia mesamo e rei do Pop americano queria doses e mais doses e chegava a tomar tres vezes ao dia. Daí que podia comprar só com receita e o médico cobrava parece que 1.500 dólares, e por isso acabou condenado.

O médico me deu o laudo e me disse que cauterizou na hora tres pólipos ( que se deixados eles se transformam em câncer) e que a zona da parede do intestino - que foi atingida pelos raios do tratamento da próstata, ele também, cauterizou, ertc.etc...e que está bem.

Portanto, embora não respeitaram nem o rabo do Magistrado, em verdade, vos confesso, que não senti nada.

Sendo assim, desejo me solidarizar com meu amigo tangueiro, de Sorocaba, Rogério de Moraes, dado que ao invés de ouvir seus tangos preferidos, teve que curtir esta dor medieval da tortura de operar as ditas hemorróidas. Mas, como disse, já passou a dor e voltou a cagar com dignidade. Ouvindo seus tangos e pesquisando sobre Gardel. Recebo de Sorocaba inúmeros emeisl sobre pesquisas do nosso ídolo maior, Calos Gardel. Nunca vamos parar de estudar a vida, a arte, o talento e a música de Gardel. Tudo o que se fizer por Gardel sempre será pouco. Nem falo do drama uruguaio se Gardel nasceu em Taquarembó, pois, a dúvida é tanta, e o drama se instala de tal forma agudo que pode o tangueiro ter um ataque repentino de hemorróidas como o descrito com detalhes pelo nosso amigo sorocabano, da velha cepa, cuja cidade, foi a grande feira das mulas que iam dos Setes Povos Missioneiros do RGS para depois serem revendidas para a zona mineira do ouro e da prata. E daí levados - ouro e prata - para os portos do Rio de Janeiro, Paraty e Santos exportar nossa riqueza para a Europa.

A felicidade do homem é não ter hemorróidas.

Nério "dei Mondadori" Letti.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

SOBRE A MORTE

Paulo Wainberg

Morreu Sócrates, o jogador de futebol. Morreu porque seu organismo foi destruido pelo álcool, do qual foi dependente por muitos anos.
Primeira coisa que pensei: Para ele o sofrimento acabou e para nós, não.
Com esta lógica fria, meu pensamento é relevante, isto é, a morte é o fim de todo o sofrimento. Funciona como uma falha na energia elétrica, neste instante há luz, no seguinte há escuridão.
Todas as angústias, medos, revezes, indignações e tristezas apagam, deixando aos vivos a árdua tarefa de entender e a fugaz sensação de saudades que o dia a dia trata de amortecer.
Porém, as coisas não são assim, tão friamente lógicas e há que pensar, nem que seja para continuar vivendo, que a morte apaga também as alegrias, as conquistas, os sonhos e o prazer. O falecido também perde esse manancial, deixa de aproveitar, sai de cena.
A fria lógica, inconformada, ataca novamente: O que é melhor para o falecido, deixar de sofrer ou deixar de aproveitar?
Minha resposta é definitiva para essa questão: Não sei.
Só conheço uma situação, durante a vida, em que ela vale à pena cem por cento que é quando se realiza plenamente a paixão.
Aí sim nós atingimos a plenitude da felicidade e parece que, yes!, é bom viver.
Mas… é tão fugaz, esse momento que se esgota em si mesmo e que o tempo se encarrega de amortecer que…
Bem, estou falando disto porque o Sócrates morreu e ele foi um cara importante e super conhecido. Entretanto tantos morreram na mesma hora que ele, e todos os dias, e a cada minuto do dia, que este assunto, sinceramente, nem devia ser mais assunto.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

MORTE DE SÓCRATES

Janer Cristaldo

Ouvindo-o, Critão fez sinal ao menino que se encontrava mais perto. Este saiu e voltou pouco depois em companhia do encarregado de lhe dar o veneno, que já o trazia espremido na taça. Ao ver o homem, Sócrates perguntou-lhe:
- E agora, meu caro: já que entendes destas coisas, que precisarei fazer?
- Nada mais, respondeu, do que andar depois de beber, até sentires peso nas pernas, e em seguidas deitar-te. Assim o veneno atuará.
Depois dessas palavras, estendeu a Sócrates a taça, que a tomou das mãos dele com toda a tranquilidade, sem o menor tremor nem alteração da cor ou das feições.
Mirando por baixo o homem, com aquele seu olhar de touro, perguntou-lhe:
- Que me dizes? E se eu fizesse uma libação com um pouquinho disto aqui? É permitido ou não?
- Só preparamos, Sócrates, respondeu, a quantidade que nos parece suficiente.
- Compreendo, retrucou. Mas pelo menos é permitido, e até um dever, pedir aos deuses que façam feliz a passagem deste mundo para o outro. É o que peço. Prouvera que me atendam!
Depois de assim falar, levou a taça aos lábios e com toda a naturalidade, sem vacilar um nada, bebeu até à última gota. Até esse momento, quase todos tínhamos conseguido reter as lágrimas; porém quando o vimos beber e que havia bebido tudo, ninguém mais aguentou. Eu também não me contive: chorei à lágrima viva. Cobrindo a cabeça, lastimei o meu infortúnio; sim, não era por desgraça que eu chorava, mas a minha própria sorte, por ver de que espécie de amigo me veria privado. Critão levantou-se antes de mim, por não poder reter as lágrimas. Apolodoro, que desde o começo não havia parado de chorar, pôs-se a urrar, comovendo seu pranto e lamentações até o íntimo todos os presentes, com exceção do próprio Sócrates.
- Que é isso, gente incompreensível? perguntou. Mandei sair as mulheres, para evitar esses exageros. Sempre soube que só se deve morrer com palavras de bom agouro. Acalmai-vos! Sede homens!Ouvindo-o falar dessa maneira, sentimo-nos envergonhados e paramos de chorar.
E ele, sem deixar de andar, ao sentir as pernas pesadas, deitou-se de costas, como recomendara o homem do veneno. Este, a intervalos, apalpava-lhe os pés e as pernas. Depois, apertando com mais força os pés, perguntou se sentia alguma coisa. Respondeu que não. Em seguida, sem deixar de comprimir-lhe a perna, do artelho para cima, mostrou-nos que começava a ficar frio e a enrijecer. Apalpando-o mais uma vez, declarou-nos que no momento em que aquilo chegasse ao coração, ele partiria. Já se lhe tinha esfriado quase todo o baixo-ventre, quando, descobrindo o rosto – pois o havia tapado antes – disse, e foram suas últimas palavras:
- Critão, exclamou, devemos um galo a Asclépio. Não te esqueças de saldar essa dívida!
- Assim farei, respondeu Critão, vê se queres dizer mais alguma coisa.A essa pergunta, já não respondeu.
Decorrido mais algum tempo, deu um estremeção. O homem o descobriu; tinha o olhar parado. Percebendo isso, Critão fechou-lhe os olhos e a boca.
- Tal foi o fim do nosso amigo, Equécrates, do homem, podemos afirmá-lo, que entre todos os que nos foi dado conhecer, era o melhor e também o mais sábio e mais justo.
* In Fédon, de Platão

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

ANTES DO COMUNISMO ERA MELHOR

João Eichbaum


Antes, bem antes de Fidel Castro, Cuba era uma ilha paradisíaca, cheia de cassinos, mulheres bonitas e muitos lugares para se divertir. Um dos pontos altos desse paraíso era o Cabaret Tropicana.
Não, não fiquem imaginando coisas. Cabaré não é o que vocês estão pensando.
Cabaret, naqueles tempos, não era senão uma casa de espetáculos, com características de um grande bar. Um bar com palco, digamos assim. Sem suítes.
No palco se apresentavam vários artistas, entre os quais cantores e dançarinas.
Claro, quem ia ao Cabaret Tropicana queria mesmo era ver as dançarinas.
E valia a pena.
Eram mulheres exuberantes, cheias de carne, com muitos lugares para pegar. Eram coxudas, de cintura fina, sem barriga, sem celulite, de peitos grandes, naturais.
Não, não eram essas magrelas de hoje em dia, tipo Gisele Bündchen, que não tem onde pegar, são quase só osso.
Também não eram essas peitudas e bundudas de hoje em dia, feitas de silicone, essa matéria prima que não existia, no tempo em que Deus inventou a Eva.
Que o Cabaret Tropicana reunia a elite econômica, não resta dúvida. Mas trazia divisas para Cuba. Nele se apresentavam artistas internacionais, como, por exemplo, Nat King Cole, Carmen Miranda, Joan Crawoard. Artistas que custavam caro.
Enquanto isso, os que não tinham capacidade financeira para bancar uma noite no Tropicana, ficavam com os cabarés de porte menor, de acesso fácil, de mulheres baratas Mas ninguém deixava de se divertir em Cuba por falta de cabarés ou mulheres acessíveis.
Mas aí chegou o Fidel Castro com o seu comunismo. E terminou com o Tropicana, afugentou o capital estrangeiro e oficializou a prostituição barata.
Sim, essa é a finalidade do socialismo, um comunismo disfarçado: nivelar por baixo, fomentando a inveja contra quem tem dinheiro, promovendo a debandada de mulheres bonitas, para darem lugar às pobres, que se tornam feias, porque no comunismo é assim; todo mundo tem que ser igual. No caso das mulheres, todas feias e pobres. Menos as dos chefes, claro.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

A BÍBLIA LIDA PELO DIABO

João Eichbaum

NOÉ SOLTA UM CORVO E DEPOIS UMA POMBA

7 E soltou um corvo que saiu, indo e voltando, até que as águas se secaram de sobre a terra.

E tinha até corvo! O que é que o bicho comeu, esse tempo todo que ficou na arca? Só a sua corva?
Depois deve ter pirado total, com aquele montão de cadáveres de gente e de bicho que o dilúvio deixou apodrecendo sobre a terra. Nunca tinha visto tanta comida boa na vida.

8 Depois soltou uma pomba, a ver se as águas tinham minguado de sobre a face da terr. 9 A pomba porém não achou repouso para a planta de seu pé e voltou a ele para a arca, porque as águas estavam sobre a face de toda a terra; e ele estendeu a mão, e tomou-a e meteu-a consigo na arca.

Pelo visto, o corvo não voltou. Se fosse pombo-correio o Noé podia ter escrito um bilhetinho pro Velho: cumé, a gente pode dar o fora?
Mas, não era pombo correio: se mandou e não deu mais as caras. Agora vocês já sabem porque o pessoal fala em “viagem do corvo”, quando alguém diz “já volto” e,ó, nunca mais.
O que o Noé não queria era quebrar a cara. Além de não saber voar, certamente não sabia nadar também.
O Velho Javé tinha feito as coisas pela metade. Tinha trancado o pessoal na arca e, decerto, pensou consigo: “agora se virem”. Porque, convenhamos, o que é que custava dar um alô pro Noé, dizendo: “pode abrir a arca, cara, passou o dilúvio”.
É certo que mandou um vento, mas nem o Noé acreditou muito no tal de vento.
É preciso também não esquecer que Ele tinha fechado a arca por fora. Como é que o Noé conseguiu abrir a janela, para soltar um corvo tristonho e uma pomba fuleira, ninguém sabe, não está escrito em lugar nenhum.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

PSICANALISTA, MARXISTA E, NATURALMENTE, BURRO

Janer Cristaldo

Pior que um psicanalista, só um psicanalista marxista. Verdade que as duas doutrinas são incompatíveis. Mas nestes dias que me foram dados viver, em que há católicos-marxistas, publicitários de esquerda, médicos espíritas e professores universitários que acreditam em Deus – e pior, orientam teses -, nada mais me espanta.
Em entrevista à Folha de São Paulo, o psicanalista britânico Adam Phillips não pede licença para proferir bobagens.
Folha - Em Monogamia, o senhor diz que não há nada mais escandaloso do que um casamento feliz. Por quê?
Adam Phillips - O que amamos e odiamos num casamento feliz é ver nossos primeiros desejos e medos acontecendo na vida real. Toda criança começa seu desenvolvimento em uma relação monogâmica, com a mãe. E a maioria passa os primeiros 11, 15 anos da vida muito conectada a mãe e ao pai. É uma espécie de monogamia bissexual. Crescer
é passar da necessidade de ter só uma pessoa para a necessidade de ter duas (mãe e pai) e a necessidade e a capacidade de se relacionar com várias.
Cá entre nós, que tem a ver relação com pai e mãe com monogamia bissexual? Como bom herdeiro de Freud, Phillips não consegue escapar à tese idiota de que toda relação de um filho ou filha com os pais está eivada de sexualidade. Não existe psicanálise sem o complexo de Édipo ou Electra. É um dogma tão fundamental para a doutrina como a virgindade de Maria para a Igreja. A repórter pergunta então se, diante das dificuldades da monogamia, a solução não seria a infidelidade.
Adam Phillips - Sim. E pode dar certo, mas sempre com conflito. Todo mundo tem ciúme sexual, ninguém suporta dividir seu parceiro de sexo. Alguns dizem que suportam, mas é impossível. Se amamos e desejamos alguém, não queremos dividi-lo com outros.
Parece que o celebrado psicanalista nasceu lá pelo século XIX. Até pode ser que ninguém suporte dividir seu parceiro de sexo, mas a verdade é que todo mundo – ou pelo menos uma significativa maioria – acaba dividindo. As mulheres até podem se manter mais ou menos – mas não muito – fiéis, mas os varões sempre acabam pulando a cerca. O que mais existe são relações polígamas sob uma aparência de monogamia.
Por outro lado, o conceito de infidelidade, tanto o expresso pela jornalista como o aceito pela psicanalista, é falso. Infidelidade não é ter relações com terceiros. Infidelidade é esconder essas relações do parceiro. Sempre fui polígamo e jamais me considerei infiel. Nunca escondi de minha mulher ou de minhas amigas minhas relações outras. Não se trata de apresentar um relatório detalhado, nada disso. Basta que a parceira – ou o parceiro – saiba que tais relações existem. Acho muito difícil, neste nosso mundo contemporâneo, manter relações monógamas. Difícil mas não impossível. Conheço algumas. Mas se contá-las nos dedos, me sobra um monte de dedos.
Mas o melhor – ou pior, conforme a ótica – vem adiante. A entrevistadora quer saber se a monogamia é uma experiência tão real quanto a traição. Responde o psicanalista:
As duas formas são construções sociais. O capitalismo trivializou a paixão, fez com que as pessoas se desiludissem em relação ao amor. Isso leva a pensar que as relações sexuais são algo que se compra no mercado só para levar a vida adiante. O capitalismo tenta dissuadir a criação de vínculos reais. E valoriza demais o prazer. E, para a psicanálise, o prazer é sempre um problema. Qualquer pessoa que te venda um prazer fácil está mentindo. Se o que queremos é prazer profundo, com troca entre pessoas, ele será difícil, cheio de conflitos.
Quando alguém condena o capitalismo, ipso facto está afirmando que na outra sociedade – a socialista – as coisas seriam diferentes. A deduzir-se de suas palavras, o amor só existe no mundo socialista. Como se no mundo socialista não houvesse sexo pago. O capitalismo tenta dissuadir a criação de vínculos reais? Mas que vínculos reais existiam no mundo socialista, que priorizava os vínculos com essa entidade abstrata, o Estado? O capitalismo valoriza demais o prazer? Ora, quem não valoriza o prazer? E, afinal, que há de mal em valorizar o prazer? Se para a psicanálise o prazer é um problema, este problema é dos psicanalistas. Phillips conclui suas sandices com uma chave de ouro: “se o que queremos é prazer profundo, com troca entre pessoas, ele será difícil, cheio de conflitos”.
Desde quando o tal de prazer profundo é difícil, cheio de conflitos? E por que há de ser difícil, cheio de conflitos? Adam Phillips é a mais viva demonstração de que, para um psicanalista, toda pessoa tem conflitos. Até mesmo quem tem prazeres profundos. Você está bem consigo mesmo? Não pode ser. Você deve estar cheio de conflitos. Ou então a psicanálise não teria sentido.
A entrevistadora quer saber “do que precisamos, afinal?”
De boas histórias que nos ajudem a viver. As únicas verdades úteis são as que nos ajudam a viver. Num relacionamento, o que você precisa é criar uma história na qual se sinta vivo com a outra pessoa.
Hoje, temos mais opções para criar essa história?
Não sei. A cultura liberal oferece mais escolhas do que havia antes. Mas o capitalismo cria a ilusão de que temos muitas escolhas, quando na verdade temos muito poucas.
Devo ser alguma espécie de monstro moral. Nunca precisei de boas histórias que me ajudassem a viver. Precisei, isto sim, de trabalho, de amigos e amigas. É o que dá algum sentido à vida, a esta vida que em si não tem sentido algum. Não consigo entender o conceito de verdades úteis. Verdade é verdade, seja útil ou inútil. Nunca precisei criar histórias para sentir-me vivo com outra pessoa. A outra pessoa me bastava, sem precisar de qualquer história.
Quanto a afirmar que no capitalismo temos poucas escolhas, isto é bobagem que nem merece ser comentada. No capitalismo, as escolhas são tantas que chegam a atordoar os pobres de espírito. Espanta ver a Folha dar tanto espaço a quem profere tantas bobagens.
PS - Falar nisso, trouxe de Paris dois livros sobre o embuste. Le Crépuscule d’une idole – l’affabulation freudienne, de Michel Onfray, e Le Livre noir de la psychanalyse – vivre, penser et aller mieux sans Freud, de vários autores, coordenados por Catherine Meyer. Provavelmente voltarei ao assunto.
Ou não.