Crônicas Silentes
SILENCIOSAMENTE
Paulo Wainberg
O som mais horripilante é o ... silêncio. Quando não te respondem, não te enfrentam, não te retornam
O silêncio é o grito estridente da indiferença, o agudo interminável do escárnio.
O silêncio é a pavorosa constatação da tua insignificância, de não estares na ordem das coisas, de teres ido além de ti mesmo e, compreendido ou não, não seres, simplesmente, assunto que valha à pena.
Odeio o som do silêncio aos meus clamores, vindos de meus clãs, de meus amores, dos meus élans, dos meus temores.
Lamartine, poeta do romantismo francês, escreveu o poema O Lago, “Le Lac” onde, qual iluminado fabulista, atribui à portentosa massa de água isolada entre montanhas, atributos, defeitos e sentimentos humanos, mais do que uma metáfora, quase uma parábola.
E concluiu o poema com uma frase transcendental e enigmática, coisa rara no romantismo francês: “Só o silêncio é grande, todo o resto é fraqueza”.
Talvez. O adjetivo “grande” é utilizado pelo poeta como uma qualidade superior do silêncio. Acho que, assim dito, o silêncio pode ser grande para quem cala e justamente porque produz efeito devastador em quem escuta. Ou quer escutar.
Não trato, aqui, do sentido da audição, longe disto. Estou falando mesmo é do miserável espólio, dos restos, dos trapos, dos frangalhos de alma de quem quer respostas e recebe, tonitroantemente afrontoso, o silêncio.
Nos infinitos universos onde oscilam as auto-estimas, acostumadas a ir de cem a zero em um segundo, o silêncio é rei, soberano absoluto, ditador impiedoso a divertir-se, como se tivesse vontade própria, com a crueldade e, no nível rés-do-chão, com a cara de bobo transfigurada de angústia de quem o recebe, qual dez mil bofetadas, oito chicotadas e um beliscão.
Diante do grandioso silêncio o que resta mesmo é fraqueza, nisso o poeta tinha razão.
Dependendo do lado que estiver, você será grande ou fraco.
Eu decidi, depois de tantos silêncios, mudar de lado e não fazer mais perguntas. Abandonei as esperas e dedico meus dias a me atrasar. E não respondo, também. Elevo-me na grandiosidade de meu silêncio que é para você saber com quem está lidando, até mesmo se você não tiver o menor interesse em saber.
Porque, como li num livro ou vi num filme, tem a hora na vida em que você decide se é um rato ou outra coisa qualquer.
É a famosa hora agá, que irá determinar se você passa o resto de seus dias atrás de queijo ou vai comer outra coisa qualquer, mesmo que sejam nabos ou rabanetes.
O bom de ser outra coisa qualquer e não apenas um rato é que você não fica proibido de comer queijo também, ou seja, você entra numa dimensão superior da existência em que deixa de procurar coisas e transforma-se na coisa a ser procurada. É o plano em que você se desinteressa pelas respostas e passa você mesmo a fornecê-las, ao seu bel-prazer, independentemente de terem ou não lhe perguntado alguma coisa.
Se você errar o pênalti jogando em casa, prepare-se para o silêncio ensurdecedor. Mas se errar o mesmo pênalti na casa do adversário, a gritaria ensandecida não perfurará a invencível barreira de silêncio interior que se erro produzirá.
Portanto aceite meu conselho: não cobre pênaltis, deixe a tarefa para outro, escape, sempre que puder, do silêncio que de um jeito ou de outro reduzirá você a uma minhoca rastejante, implorando para não servir de isca nem ser cortado ao meio por um guri de maus bofes.
Quantos já sucumbiram ao silêncio desdenhoso da mulher amada?
Hein?
Quantos esgotam suas vidas catando sinais que substituam o arrogante silêncio divino?
Quantos já se enfureceram ou se envergonharam diante do silêncio altaneiro de um desafeto?
Pessoalmente prefiro uma única resposta, quando peço alguma coisa: sim.
É uma coisa minha, sei lá, questão de gosto talvez, coisa genética, de personalidade ou de caráter.
Mas este sou eu e quem sou eu para ser mais do que apenas isso, eu?
Como alternativa, aceito um “talvez” e só em último caso, mas ultissimo caso mesmo, um “não”. E olhe lá, diante de um não, costumo espernear, puxar os cabelos e bater com as mãos na parede. Abertas, que não sou burro de me machucar dando socos em coisa dura.
Mas o silêncio, faça-me o favor, o silêncio me devora. – Me dá isso aí – peço eu. Então me diga sim, talvez ou não, nunca fique em silêncio. O seu silêncio me deixa à espera, me dá esperança, me faz sonhar com a possibilidade de ser um sim e o que vou fazer daí em diante.
O seu silêncio nunca me leva ao não e, mesmo que você o mantenha até o fim dos tempos, estarei esperando o sim.
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
COLUNA DO PAULO WAINBERG
NEM SEI O QUE DIZER...
Paulo Wainberg
Junte um monte de cores. Não importa quais, vermelho, roxo, amarelo, azul, preto, âmbar, bege, rosa e berinjela. Olhe o conjunto e você terá um caleidoscópio. Sabe o que é um caleidoscópio? Um monte de cores misturadas.
Para que serve? Para nada. Você fecha um olho e abre o outro, no tubo do caleidoscópio e fica maravilhado com o conjunto de cores que se misturam, criam formas, agrupam-se, dissolvem-se e voltam a se misturar, umas com as outras e tudo isto serve para você exclamar que maravilha! Olha que lindo! Magnífico e largar o tubo na mesa com a sensação agradável de ter visto uma coisa bonita.
Quanta bobagem, quanta ilusão!
Arte é ilusão, meu confrade, arte é pura perda de tempo meu camarada, companheiro, pelego ou rato de auditório, não perca seu tempo, a questão é pragmática: como ganhar mais, como ingressar no mercado, como ter carteira assinada, como ser camelô e escapar da fiscalização, como juntar, ajuntar, ter mais, ganhar, ganhar.
Faça o que fizer, sonhe o que sonhar, deseje o que desejar, não será um conjunto de cores harmonicamente misturadas que realizará você, neste mundo moderno das abreviações cibernéticas, das adaptações teatrais e da limpeza dos monumentos públicos que fará de você uma pessoa melhor, um ser social definido, politicamente correto e conhecedor das investigações profiláticas da polícia federal.
Não!
O mundo do sucesso exige fotos de atrizes de pernas abertas e sem calcinhas! Homens musculosos de cabelos frondosos e olhares travessos, adolescentes de saias curtas desfilando as modas e cronistas de ocasião, falando da ocasião, como este que vos fala!
Não!
Não perca seu tempo com romantismo barato, não use palavras anacrônicas como “amor”, “encanto” e, a pior de todas, “poesia”, para marcar seu território no mundo dos negócios, da alta roda e do sucesso maniqueísta que, ao redor do mundo, explode nas telas da TV à cabo mostrando como se conquista um emprego na agência de publicidade, como se perde um milhão no Big Brother e como se consegue casar com um milionário solteirão sendo bonita, gostosa e vestindo pouca roupa!
Não!
Não diga à sua amada que você adora “Luzes da Ribalta” porque ela não conhecerá “essa música”. Não revele ao seu amor que você leu O Vermelho e o Negro porque ele nunca ouviu falar nesse gibi!
Conquiste o corpo que você deseja falando na novela das oito, no Show do Milhão e nos livros maravilhosos de auto-ajuda que mudaram sua vida.
Nunca revele sua alma!
Nunca fale palavras “bonitas” como luar, olhos profundos, amor ardente ou mãos dadas.
Não!
Diga que quer ficar, fale em gata gostosa, mencione bíceps volumosos e proponha transar! Quer perder a garota, quer ver o rapaz a léguas de você? Fale que seu maior sonho é fazer amor com ela, com ele. Diga que estar junto é uma emoção superior, fale em alma e paixão, declame um poema, assobie Only You, recite alguma coisa em francês..
Não, ladies and gentlmen, o mundo não está para madame et messieur, não há espaço para o idílico, para o toque subversivo do dorso de mão, para um leve e excitante roçar de joelho no joelho.
Não!
O mundo é pegação, carne à vontade, sandálias e tênis, filas de balada e... doces emoções?, nem pensar!
Um aqui, outra ali, o sábado à noite não termina em declarações apaixonadas, promessas insensatas, beijos alucinados na porta de casa ou no ponto mais alto, a cidade aos teus pés, iluminada e linda, dentro do carro.
Lamento dizer mas o mundo é em inglês, árido e rápido, pega lá dá cá, sem tempo para a ilusão da arte, para a beleza do belo, para o arroubo e para a declaração gaguejante de um amor eterno.
Não acredita? Estou exagerando? Sou saudosista?
Faça um teste. Se você tiver um caleidoscópio em casa, feche um olho e, com o outro, misture as cores.
Depois me diga.
Paulo Wainberg
Junte um monte de cores. Não importa quais, vermelho, roxo, amarelo, azul, preto, âmbar, bege, rosa e berinjela. Olhe o conjunto e você terá um caleidoscópio. Sabe o que é um caleidoscópio? Um monte de cores misturadas.
Para que serve? Para nada. Você fecha um olho e abre o outro, no tubo do caleidoscópio e fica maravilhado com o conjunto de cores que se misturam, criam formas, agrupam-se, dissolvem-se e voltam a se misturar, umas com as outras e tudo isto serve para você exclamar que maravilha! Olha que lindo! Magnífico e largar o tubo na mesa com a sensação agradável de ter visto uma coisa bonita.
Quanta bobagem, quanta ilusão!
Arte é ilusão, meu confrade, arte é pura perda de tempo meu camarada, companheiro, pelego ou rato de auditório, não perca seu tempo, a questão é pragmática: como ganhar mais, como ingressar no mercado, como ter carteira assinada, como ser camelô e escapar da fiscalização, como juntar, ajuntar, ter mais, ganhar, ganhar.
Faça o que fizer, sonhe o que sonhar, deseje o que desejar, não será um conjunto de cores harmonicamente misturadas que realizará você, neste mundo moderno das abreviações cibernéticas, das adaptações teatrais e da limpeza dos monumentos públicos que fará de você uma pessoa melhor, um ser social definido, politicamente correto e conhecedor das investigações profiláticas da polícia federal.
Não!
O mundo do sucesso exige fotos de atrizes de pernas abertas e sem calcinhas! Homens musculosos de cabelos frondosos e olhares travessos, adolescentes de saias curtas desfilando as modas e cronistas de ocasião, falando da ocasião, como este que vos fala!
Não!
Não perca seu tempo com romantismo barato, não use palavras anacrônicas como “amor”, “encanto” e, a pior de todas, “poesia”, para marcar seu território no mundo dos negócios, da alta roda e do sucesso maniqueísta que, ao redor do mundo, explode nas telas da TV à cabo mostrando como se conquista um emprego na agência de publicidade, como se perde um milhão no Big Brother e como se consegue casar com um milionário solteirão sendo bonita, gostosa e vestindo pouca roupa!
Não!
Não diga à sua amada que você adora “Luzes da Ribalta” porque ela não conhecerá “essa música”. Não revele ao seu amor que você leu O Vermelho e o Negro porque ele nunca ouviu falar nesse gibi!
Conquiste o corpo que você deseja falando na novela das oito, no Show do Milhão e nos livros maravilhosos de auto-ajuda que mudaram sua vida.
Nunca revele sua alma!
Nunca fale palavras “bonitas” como luar, olhos profundos, amor ardente ou mãos dadas.
Não!
Diga que quer ficar, fale em gata gostosa, mencione bíceps volumosos e proponha transar! Quer perder a garota, quer ver o rapaz a léguas de você? Fale que seu maior sonho é fazer amor com ela, com ele. Diga que estar junto é uma emoção superior, fale em alma e paixão, declame um poema, assobie Only You, recite alguma coisa em francês..
Não, ladies and gentlmen, o mundo não está para madame et messieur, não há espaço para o idílico, para o toque subversivo do dorso de mão, para um leve e excitante roçar de joelho no joelho.
Não!
O mundo é pegação, carne à vontade, sandálias e tênis, filas de balada e... doces emoções?, nem pensar!
Um aqui, outra ali, o sábado à noite não termina em declarações apaixonadas, promessas insensatas, beijos alucinados na porta de casa ou no ponto mais alto, a cidade aos teus pés, iluminada e linda, dentro do carro.
Lamento dizer mas o mundo é em inglês, árido e rápido, pega lá dá cá, sem tempo para a ilusão da arte, para a beleza do belo, para o arroubo e para a declaração gaguejante de um amor eterno.
Não acredita? Estou exagerando? Sou saudosista?
Faça um teste. Se você tiver um caleidoscópio em casa, feche um olho e, com o outro, misture as cores.
Depois me diga.
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
OS OSSINHOS DO VAALENTÃO
João Eichbaum
Li ontem no jornal Zero Hora que o “Grupo Santanense de Cavalgada”, de Santana de Livramento, vai fazer nada menos do que 590,7 quilômetros, em cima de lombo de cavalo, para transportar a “urna com os restos mortais de David Canabarro”, de Porto Alegre para a dita cidade de Santana do Livramento. Antes de seguir a cavalgada para o referido município, o grupo vai dar uma chegadinha em São Leopoldo para acender uma centelha da “chama crioula”, afim de levá-la junto. Ah, antes que me esqueça, com esse grupo cavalga também o prefeito do município de Livramento.
Então, eu pergunto para o povo em geral: não há nada mais a fazer pela cidade e pelo município de Livramento? Não haverá problemas sociais, questões de moradia, saúde, segurança, educação, a serem resolvidos por lá?
Se o prefeito se dá ao desfrute de colar o traseiro, durante dias e dias, no lombo de um cavalo pelo simples e inexplicável motivo de acompanhar “os restos mortais” de David Canabarro, deixando o município navegar em suas próprias águas sem precisar de timoneiro, é porque a coisa lá anda muito boa e nem o prefeito, nem o grupo de cavalarianos tem mais o quê fazer na vida.
O que significa levar numa caixinha um montinho de ossos, a única coisa que sobrou de um primata, de quem só se sabe que gostava de fazer revolução, isto é, de matar, de exterminar, de remover, a qualquer preço, tudo o que lhe contrariasse os objetivos?
Eu não sei. Não sei em que esse montinho de ossos poderá ajudar para o progresso, para a saúde, para a ciência, para a cultura de Santana do Livramento.
David Canabarro, pelo que me lembro do meu tempo de escola, é um dos valentões, chamados “heróis” farroupilhas, uma turma que andou fazendo revolução, uma revolução que chamam de “guerra dos farrapos”, feita em nome de uma pretendida independência do Rio Grande do Sul, que estaria sendo maltratado pelo governo central. Ao que me lembre, um dos motivos era o excesso de impostos, sem o correspondente retorno em obras e investimentos aqui nesta terrinha cheia de gaúchos valentes. E naquele tempo não havia mensalão, nem cartões corporativos.
Pelo que sei e todos nós sabemos, não adiantou de nada a tal de “guerra dos farrapos”, nada mudou, foi em vão todo e qualquer esforço dos gaúchos, no sentido de fazer a sua república, a sua independência, ou pelo menos no sentido de melhorar um pouco a vida desta gente dos pampas.
A coisa continua a mesma. Nem mesmo Getúlio Vargas, gaúcho metido a facão sem cabo como o Canabarro, que também fez revolução, conseguiu alguma coisa. Conseguiu, sim, mas para a gente dele, o Brizola, o Jango e todo esse pessoalzinho do PTB de antigamente. Nem com a ditadura Getúlio conseguiu melhorar o Rio Grande do Sul.
Se é por ser maltratado, hoje, mais do que nunca, o Rio Grande do Sul continua na mesma. Pagamos impostos escorchantes e não temos saúde, segurança, educação, estradas, transporte, nada disso.
De que adiantou fazer revolução? Para que serviram, mesmo, os “heróis farroupilhas”? Esses “heróis” que saquearam, degolaram, pintaram e bordaram pra nada?
Herói, para mim, é o cara que se arrisca para conseguir – e consegue – algo positivo, algo aproveitável, algo de que se possa dizer muito e por muito tempo. Para mim, não é herói quem, ao fim e ao cabo, acaba se entregando, em troca de anistia ou de benesses, como os atuais “heróis” da esquerda que se abeberam de felpudas indenizações, às nossas custas, sem que ninguém venha fazer revolução por nós, por causa do mensalão e dos cartões corporativos, por exemplo.
Assar a bunda em lombo de cavalo, de Porto Alegre a Santana do Livramento, carregando o resto dos ossinhos de um marmanjo que nem conheci? Me poupem! Prefiro calabreza, com borda de catupiry e um chope bem gelado. Em companhia de mulher, é claro, não de bombachudo.
Li ontem no jornal Zero Hora que o “Grupo Santanense de Cavalgada”, de Santana de Livramento, vai fazer nada menos do que 590,7 quilômetros, em cima de lombo de cavalo, para transportar a “urna com os restos mortais de David Canabarro”, de Porto Alegre para a dita cidade de Santana do Livramento. Antes de seguir a cavalgada para o referido município, o grupo vai dar uma chegadinha em São Leopoldo para acender uma centelha da “chama crioula”, afim de levá-la junto. Ah, antes que me esqueça, com esse grupo cavalga também o prefeito do município de Livramento.
Então, eu pergunto para o povo em geral: não há nada mais a fazer pela cidade e pelo município de Livramento? Não haverá problemas sociais, questões de moradia, saúde, segurança, educação, a serem resolvidos por lá?
Se o prefeito se dá ao desfrute de colar o traseiro, durante dias e dias, no lombo de um cavalo pelo simples e inexplicável motivo de acompanhar “os restos mortais” de David Canabarro, deixando o município navegar em suas próprias águas sem precisar de timoneiro, é porque a coisa lá anda muito boa e nem o prefeito, nem o grupo de cavalarianos tem mais o quê fazer na vida.
O que significa levar numa caixinha um montinho de ossos, a única coisa que sobrou de um primata, de quem só se sabe que gostava de fazer revolução, isto é, de matar, de exterminar, de remover, a qualquer preço, tudo o que lhe contrariasse os objetivos?
Eu não sei. Não sei em que esse montinho de ossos poderá ajudar para o progresso, para a saúde, para a ciência, para a cultura de Santana do Livramento.
David Canabarro, pelo que me lembro do meu tempo de escola, é um dos valentões, chamados “heróis” farroupilhas, uma turma que andou fazendo revolução, uma revolução que chamam de “guerra dos farrapos”, feita em nome de uma pretendida independência do Rio Grande do Sul, que estaria sendo maltratado pelo governo central. Ao que me lembre, um dos motivos era o excesso de impostos, sem o correspondente retorno em obras e investimentos aqui nesta terrinha cheia de gaúchos valentes. E naquele tempo não havia mensalão, nem cartões corporativos.
Pelo que sei e todos nós sabemos, não adiantou de nada a tal de “guerra dos farrapos”, nada mudou, foi em vão todo e qualquer esforço dos gaúchos, no sentido de fazer a sua república, a sua independência, ou pelo menos no sentido de melhorar um pouco a vida desta gente dos pampas.
A coisa continua a mesma. Nem mesmo Getúlio Vargas, gaúcho metido a facão sem cabo como o Canabarro, que também fez revolução, conseguiu alguma coisa. Conseguiu, sim, mas para a gente dele, o Brizola, o Jango e todo esse pessoalzinho do PTB de antigamente. Nem com a ditadura Getúlio conseguiu melhorar o Rio Grande do Sul.
Se é por ser maltratado, hoje, mais do que nunca, o Rio Grande do Sul continua na mesma. Pagamos impostos escorchantes e não temos saúde, segurança, educação, estradas, transporte, nada disso.
De que adiantou fazer revolução? Para que serviram, mesmo, os “heróis farroupilhas”? Esses “heróis” que saquearam, degolaram, pintaram e bordaram pra nada?
Herói, para mim, é o cara que se arrisca para conseguir – e consegue – algo positivo, algo aproveitável, algo de que se possa dizer muito e por muito tempo. Para mim, não é herói quem, ao fim e ao cabo, acaba se entregando, em troca de anistia ou de benesses, como os atuais “heróis” da esquerda que se abeberam de felpudas indenizações, às nossas custas, sem que ninguém venha fazer revolução por nós, por causa do mensalão e dos cartões corporativos, por exemplo.
Assar a bunda em lombo de cavalo, de Porto Alegre a Santana do Livramento, carregando o resto dos ossinhos de um marmanjo que nem conheci? Me poupem! Prefiro calabreza, com borda de catupiry e um chope bem gelado. Em companhia de mulher, é claro, não de bombachudo.
terça-feira, 26 de agosto de 2008
COLUNA DO PAULO WAINBERG
DETALHES TÃO PEQUENOS DE NÓS DOIS
Paulo Wainberg
Mildríades resfolegou diante e um corcel vermelho, ano 73, tala larga e roda de magnésio.
Era obcecada por carros, dos mais antigos aos mais modernos e resfolegar era seu exercício respiratório preferido.
E assim, resfolegando, aproximou-se do motorista e sem sequer perguntar pela família logo indagou: - Quer vender? - E o motorista: - Não.
--
Acordou de manhã com a palavra na cabeça. Tomou banho e a palavra não saia de sua cabeça. Durante o café sujou os dedos com manteiga por causa da palavra que não saia de sua cabeça. Tentou ler o jornal mas a palavra não saia de sua cabeça e não conseguiu se concentrar.
Ligou o carro na garagem com a palavra martelando em sua cabeça. Deu marcha-ré e entrou na avenida, obrigando um Corsa a frear ruidosamente para evitar uma batida. O motorista do Corsa, indignado, gritou: - Olha por onde anda, imbecil! E a palavra finalmente saiu de sua cabeça quando respondeu, ultrajado: - Isto é um vilipêndio!
--
Mordeu com gosto a maçã e sentiu-se desfalecer: o dente da frente quebrou. Sentiu na boca a mistura da maça com o dente enquanto tentava, quase em desespero, separar uma do outro. A platéia à sua frente ouvia com atenção as palavras elogiosas do mediador, anunciando o currículo e a importância dele, o palestrante do dia. Conseguiu engolir o pedaço de maçã depois de colocar o dente quebrado sob a língua. Disfarçando, fingiu coçar a boca e empunhou o dente, colocando-o como quem não quer nada no bolso do colete. Quando o mediador passou-lhe a palavra ergueu-se, foi até o púlpito e, diante do microfone, abriu um sorriso desdentado e disse, sibilando, a ponta da língua escorregando pelo buraco entre os outros dois dentes, que a conferência estava adiada por um defeito no teclado. A platéia ovacionou aliviada e a maioria foi para o pátio da escola jogar futebol.
--
Ademir chegou cedo em casa e encontrou sua mulher na cama com Ademar, seu compadre. Sem alarde, saiu e foi para a casa de Ademar e lá chegando puxou a mulher dele, muito mais bonita do que a sua, para o quarto. Ela não resistiu e até sorriu. Enquanto tiravam a roupa Ademir concluiu, satisfeito, que naquela noite poderia assistir televisão em paz, depois do jantar.
--
Laurita deixou as crianças as sete no colégio como fazia, todas as manhãs. Voltou para casa, encheu a banheira de hidro-massagem e deitou-se na água tépida, sentindo a energia dos jatos massagearem-lhe o corpo. Abriu o livro na página trinta e seis e perdeu-se na leitura. Onze horas vestiu jeans, tênis e camiseta, foi ao supermercado e, meio-dia, apanhou as crianças no colégio. Depois do almoço levou as crianças para a escolinha e suspirou, aliviada. Finalmente podia descansar.
--
Carlão vendeu o último brinco de sua mãe e na esquina de sempre comprou uma dose de crack. Fumou e aliviou. Estava nervoso e preocupado com a prova de física do Vestibular, pois quase não tinha estudado. Será que ia levar pau?
--
Dom Pedro I terminou de fazer cocô, lavou-se na bacia e vestiu a túnica imperial. Entrou no gabinete, chamou seu ajudante de ordens e disse, entre um pigarro e outro, que tinha resolvido criar o poder moderador. – Avisa o Benjamim Constant hoje mesmo e ele que não me venha com teorias. O ajudante de ordens anotou tudo em seu bloco de notas e respondeu: - Pois não, Meu Rei.
--
Mildriades insistiu: - Quanto quer por ele? E o motorista: - Nada, minha senhora, não quero vender. Mildríades resfolegou e saiu rua afora, indignada.
--
Estou a fim de um boquete hoje, disse Clinton. – É pra já, meu Presidente – respondeu Mônica. – Então tranca a porta, minha ninfa.
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- Ordenança, tire as minhas botas! – ordenou Gengis Kahn. Na mesma hora sua barraca esvaziou. Gengis Kahn passou a mão pelos pés cansados e cortou a palma na ponta da unha do dedão. – Merda! Os chineses vão pagar caro por isso. E derrubou a Grande Muralha da China em busca de uma chinesa que lhe cortasse as unhas.
--
Ele sabia que, cedo ou tarde, teria que sair do banheiro. Amarrou o que pode, passou gel nos cabelos, refez a barba pela quinta-feira, tentou evacuar mas estava sem vontade, lavou novamente o rosto, escovou outra vez os dentes, ajustou o tope da gravata, alisou o colarinho, escovou o casaco, amarrou o cordão dos sapatos, tossiu e assoou o nariz. Quando novamente sua mulher gritou, lá do quarto, que estava na hora, a voz dela já irritada de tanto esperar, resignou-se. Foi lá, assumiu a presidência e acabou logo com aquilo.
--
Quando finalmente expeliu uma pedra no rim e as cólicas passaram, Einstein inventou a teoria da relatividade. Há anos não sentia um alívio tão grande.
--
Eu tenho horror de sair de baixo do chuveiro, no inverno.
Paulo Wainberg
Mildríades resfolegou diante e um corcel vermelho, ano 73, tala larga e roda de magnésio.
Era obcecada por carros, dos mais antigos aos mais modernos e resfolegar era seu exercício respiratório preferido.
E assim, resfolegando, aproximou-se do motorista e sem sequer perguntar pela família logo indagou: - Quer vender? - E o motorista: - Não.
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Acordou de manhã com a palavra na cabeça. Tomou banho e a palavra não saia de sua cabeça. Durante o café sujou os dedos com manteiga por causa da palavra que não saia de sua cabeça. Tentou ler o jornal mas a palavra não saia de sua cabeça e não conseguiu se concentrar.
Ligou o carro na garagem com a palavra martelando em sua cabeça. Deu marcha-ré e entrou na avenida, obrigando um Corsa a frear ruidosamente para evitar uma batida. O motorista do Corsa, indignado, gritou: - Olha por onde anda, imbecil! E a palavra finalmente saiu de sua cabeça quando respondeu, ultrajado: - Isto é um vilipêndio!
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Mordeu com gosto a maçã e sentiu-se desfalecer: o dente da frente quebrou. Sentiu na boca a mistura da maça com o dente enquanto tentava, quase em desespero, separar uma do outro. A platéia à sua frente ouvia com atenção as palavras elogiosas do mediador, anunciando o currículo e a importância dele, o palestrante do dia. Conseguiu engolir o pedaço de maçã depois de colocar o dente quebrado sob a língua. Disfarçando, fingiu coçar a boca e empunhou o dente, colocando-o como quem não quer nada no bolso do colete. Quando o mediador passou-lhe a palavra ergueu-se, foi até o púlpito e, diante do microfone, abriu um sorriso desdentado e disse, sibilando, a ponta da língua escorregando pelo buraco entre os outros dois dentes, que a conferência estava adiada por um defeito no teclado. A platéia ovacionou aliviada e a maioria foi para o pátio da escola jogar futebol.
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Ademir chegou cedo em casa e encontrou sua mulher na cama com Ademar, seu compadre. Sem alarde, saiu e foi para a casa de Ademar e lá chegando puxou a mulher dele, muito mais bonita do que a sua, para o quarto. Ela não resistiu e até sorriu. Enquanto tiravam a roupa Ademir concluiu, satisfeito, que naquela noite poderia assistir televisão em paz, depois do jantar.
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Laurita deixou as crianças as sete no colégio como fazia, todas as manhãs. Voltou para casa, encheu a banheira de hidro-massagem e deitou-se na água tépida, sentindo a energia dos jatos massagearem-lhe o corpo. Abriu o livro na página trinta e seis e perdeu-se na leitura. Onze horas vestiu jeans, tênis e camiseta, foi ao supermercado e, meio-dia, apanhou as crianças no colégio. Depois do almoço levou as crianças para a escolinha e suspirou, aliviada. Finalmente podia descansar.
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Carlão vendeu o último brinco de sua mãe e na esquina de sempre comprou uma dose de crack. Fumou e aliviou. Estava nervoso e preocupado com a prova de física do Vestibular, pois quase não tinha estudado. Será que ia levar pau?
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Dom Pedro I terminou de fazer cocô, lavou-se na bacia e vestiu a túnica imperial. Entrou no gabinete, chamou seu ajudante de ordens e disse, entre um pigarro e outro, que tinha resolvido criar o poder moderador. – Avisa o Benjamim Constant hoje mesmo e ele que não me venha com teorias. O ajudante de ordens anotou tudo em seu bloco de notas e respondeu: - Pois não, Meu Rei.
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Mildriades insistiu: - Quanto quer por ele? E o motorista: - Nada, minha senhora, não quero vender. Mildríades resfolegou e saiu rua afora, indignada.
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Estou a fim de um boquete hoje, disse Clinton. – É pra já, meu Presidente – respondeu Mônica. – Então tranca a porta, minha ninfa.
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- Ordenança, tire as minhas botas! – ordenou Gengis Kahn. Na mesma hora sua barraca esvaziou. Gengis Kahn passou a mão pelos pés cansados e cortou a palma na ponta da unha do dedão. – Merda! Os chineses vão pagar caro por isso. E derrubou a Grande Muralha da China em busca de uma chinesa que lhe cortasse as unhas.
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Ele sabia que, cedo ou tarde, teria que sair do banheiro. Amarrou o que pode, passou gel nos cabelos, refez a barba pela quinta-feira, tentou evacuar mas estava sem vontade, lavou novamente o rosto, escovou outra vez os dentes, ajustou o tope da gravata, alisou o colarinho, escovou o casaco, amarrou o cordão dos sapatos, tossiu e assoou o nariz. Quando novamente sua mulher gritou, lá do quarto, que estava na hora, a voz dela já irritada de tanto esperar, resignou-se. Foi lá, assumiu a presidência e acabou logo com aquilo.
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Quando finalmente expeliu uma pedra no rim e as cólicas passaram, Einstein inventou a teoria da relatividade. Há anos não sentia um alívio tão grande.
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Eu tenho horror de sair de baixo do chuveiro, no inverno.
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
TEMAS JURÍDICOS
Magistratura em perigo, sociedade sem proteção!
por Antonio Sbano, Juiz de Direito
Secretário-geral da Anamages
A cada dia mais se atenta contra magistratura brasileira e mais se tenta exterminar com o Poder Judiciário, quando nada silenciá-lo.
Lei recente ordena que o juiz, antes de conceder liminar contra o governo, ouça-o. Vejamos um exemplo do quanto é nefasta a norma: um doente necessita de medicamentos que o governo tem o dever de fornecer e não o faz. O interessado vale-se da medida judicial, mas não pode esperar, sob pena de falecer e a medida se tornar ineficaz. O que fazer?
É estarrecedor, de um lado a letra fria da lei a atender interesses do governo; do outro uma vida humana clamando por proteção. Não nos esqueçamos que nenhuma lesão ao direito pode ser subtraída da apreciação do Poder Judiciário e o primeiro reclamo da parte é a urgência para seu pedido e que, interpretando a lei o juiz deve tender para o seu fim social. Mas, e daí, se deferir a liminar de plano um ministro (executivo) irá se rebelar e bater às portas do CNJ?
Dirá o leitor, absurdo!
Sim absurdo, mas acontece.
A Ministra Nilcéa Freire, segundo o jornal “O Globo”, edição do dia 16 pretérito, noticia que ela representou ao CNJ contra juízes que se negam a aplicar a Lei Maria da Penha por considerá-la inconstitucional. A mesma Ministra, dias passados, em trnasmissão pela TV, declarou que a culpa pela impunidade contra as mulheres se deve à lentidão da Justiça, defendendo que se atribua a Polícia o poder de decretar medidas cautelares, ou seja, até prisão.
Despreparo, má-fé ou simples jargão político?
Deixando ao largo a discussão doutrinária sobre a matéria, já remansosa, resta combater as duas afirmativas da Ministra.
Em primeiro lugar, parece que S.Exa. ignora princípio básico da Constituição Federal de que prestar jurisdição é ato privativo do Poder Judiciário, não podendo ser colocado na esfera de órgão do Poder Executivo.
Sob outro vértice, ela não pode pretender que o CNJ aprecie e avalie disciplinarmente a prestação jurisdicional simplesmente porque tem entendimento diferente do seu. Decisão judicial, alguém precisa ensinar à Ministra, se ataca pela via recursal própria, prevista na lei e não com representações ao CNJ.
Entender de forma diversa é rasgar com o devido processo legal, com as garantias constitucionais, quebrando-se o princípio da independência e harmonia entre os Poderes, eis que se está admitindo a um membro do Poder Executivo avaliar, censurar e questionar ato jurisdicional praticado estritamente dentro dos parâmetros legais.
Enfim, não se pode sequer pensar que o CNJ, formado por pessoas com elevado saber jurídico, se curve a tal barbárie e receba as tais representações, cujo único destino possível é o indeferimento in limine, e perdoem-me o azedume da crítica, não por impossibilidade jurídica do pedido, mas sim por ser ele teratológico, estapafúrdio e ferir os mais elementares princípios do direito.
O que se vê atualmente é o engessamento da Justiça brasileira, algemada a súmulas vinculantes, pelo menos uma, a das algemas, de duvidosa constitucionalidade; a avocação de processos; supressão de instâncias e com o amordaçamento por leis editadas para atender aos interesses do governo e não do povo brasileiro e, agora, com uma enxurrada de representações e de projetos de lei colocando sob ameaça a independência do juiz, tudo pra reforçar o poder ditatorial de uma pequena elite governante e, como bem destacou o Presidente Elpidio Donizetti em discurso durante o I Congresso Jurídico em Belo Horizonte, dando inveja a ditadores como Vargas e Médici por não terem sabido usar dos mesmos mecanismos de opressão, ao que acrescento, Stalin, Mao e outros devem estar se remoendo na cova por não terem tido a competência de extirpar direitos com uma caneta, ao invés de usar a bodurna, tudo sob uma aparente legalidade.
por Antonio Sbano, Juiz de Direito
Secretário-geral da Anamages
A cada dia mais se atenta contra magistratura brasileira e mais se tenta exterminar com o Poder Judiciário, quando nada silenciá-lo.
Lei recente ordena que o juiz, antes de conceder liminar contra o governo, ouça-o. Vejamos um exemplo do quanto é nefasta a norma: um doente necessita de medicamentos que o governo tem o dever de fornecer e não o faz. O interessado vale-se da medida judicial, mas não pode esperar, sob pena de falecer e a medida se tornar ineficaz. O que fazer?
É estarrecedor, de um lado a letra fria da lei a atender interesses do governo; do outro uma vida humana clamando por proteção. Não nos esqueçamos que nenhuma lesão ao direito pode ser subtraída da apreciação do Poder Judiciário e o primeiro reclamo da parte é a urgência para seu pedido e que, interpretando a lei o juiz deve tender para o seu fim social. Mas, e daí, se deferir a liminar de plano um ministro (executivo) irá se rebelar e bater às portas do CNJ?
Dirá o leitor, absurdo!
Sim absurdo, mas acontece.
A Ministra Nilcéa Freire, segundo o jornal “O Globo”, edição do dia 16 pretérito, noticia que ela representou ao CNJ contra juízes que se negam a aplicar a Lei Maria da Penha por considerá-la inconstitucional. A mesma Ministra, dias passados, em trnasmissão pela TV, declarou que a culpa pela impunidade contra as mulheres se deve à lentidão da Justiça, defendendo que se atribua a Polícia o poder de decretar medidas cautelares, ou seja, até prisão.
Despreparo, má-fé ou simples jargão político?
Deixando ao largo a discussão doutrinária sobre a matéria, já remansosa, resta combater as duas afirmativas da Ministra.
Em primeiro lugar, parece que S.Exa. ignora princípio básico da Constituição Federal de que prestar jurisdição é ato privativo do Poder Judiciário, não podendo ser colocado na esfera de órgão do Poder Executivo.
Sob outro vértice, ela não pode pretender que o CNJ aprecie e avalie disciplinarmente a prestação jurisdicional simplesmente porque tem entendimento diferente do seu. Decisão judicial, alguém precisa ensinar à Ministra, se ataca pela via recursal própria, prevista na lei e não com representações ao CNJ.
Entender de forma diversa é rasgar com o devido processo legal, com as garantias constitucionais, quebrando-se o princípio da independência e harmonia entre os Poderes, eis que se está admitindo a um membro do Poder Executivo avaliar, censurar e questionar ato jurisdicional praticado estritamente dentro dos parâmetros legais.
Enfim, não se pode sequer pensar que o CNJ, formado por pessoas com elevado saber jurídico, se curve a tal barbárie e receba as tais representações, cujo único destino possível é o indeferimento in limine, e perdoem-me o azedume da crítica, não por impossibilidade jurídica do pedido, mas sim por ser ele teratológico, estapafúrdio e ferir os mais elementares princípios do direito.
O que se vê atualmente é o engessamento da Justiça brasileira, algemada a súmulas vinculantes, pelo menos uma, a das algemas, de duvidosa constitucionalidade; a avocação de processos; supressão de instâncias e com o amordaçamento por leis editadas para atender aos interesses do governo e não do povo brasileiro e, agora, com uma enxurrada de representações e de projetos de lei colocando sob ameaça a independência do juiz, tudo pra reforçar o poder ditatorial de uma pequena elite governante e, como bem destacou o Presidente Elpidio Donizetti em discurso durante o I Congresso Jurídico em Belo Horizonte, dando inveja a ditadores como Vargas e Médici por não terem sabido usar dos mesmos mecanismos de opressão, ao que acrescento, Stalin, Mao e outros devem estar se remoendo na cova por não terem tido a competência de extirpar direitos com uma caneta, ao invés de usar a bodurna, tudo sob uma aparente legalidade.
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
VARIAÇÕES EM TORNO DO TEMA FIADASPUTAS
EXECUTIVO, LEGISLATIVO e JUDICIÁRIO
João Eichbaum
Que país esse, hein! Senão, vejamos (como diria qualquer bacharel em direito, que pensa que escreve bem e que faz uso de um português castiço)
Mas, dizia eu, que país!
O Presidente da República legisla. E quanto legisla! É medida provisória pra cá, medida provisória pra lá, medida provisória pra isso, medida provisória praquilo. Não sei quem foi, nem quero saber qual foi o “constituinte” ou o “constitucionalista” que inventou essa monstruosidade, essa excrescência, que autoriza o Poder Executivo da União a legislar. Sei que o Nelson Jobim andava por lá. E, se não me engano, também aquele que hoje é ministro do Supremo e que tem nome de sacanagem misturado com temperatura.
Você acha que não? Mas, me diga uma coisa: produtos “eróticos” não é coisa de sacanagem? Ou tais produtos estão rigorosamente dentro dos mandamentos da doutrina judaico-cristã, que manda “crescer e multiplicar-se”? E como é que se traduz o calor e o frio, como é que se chamam os coitados do Celsius e do Farenheit?
Pois bem, graças aos constituinte e “constitucionalistas” que tiraram um longo plantão bem remunerado, durante a feitura daquela colcha de retalhos que a maioria chama de Constituição Federal, o Poder Executivo legisla e os deputados só dizem amén.
Mas, os deputados o que fazem? Boa pergunta. E alguém pode fazer alguma coisa, comparecendo em Brasília apenas três dias na semana?
Sim, disse comparecendo em Brasília, porque seria uma ofensa a todos os trabalhadores do Brasil chamar de “trabalho” essa mamata de que se ocupam os deputados e os senadores deste país, que vive deitado eternamente num berço esplêndido,debaixo de um céu de anil, para rimar com Brasil.
Ah, sim, os deputados e senadores. Esses caminham pelos corredores do Congresso, beijam eleitoras, abraçam eleitores e formam comissões parlamentares que nunca servem pra nada, a não ser para acobertar corruptos.
E o Judiciário? Ah, o Judiciário cuida da saúde da população brasileira. Está doentinho, não paga plano de saúde e precisa de hospitalização? Vai no juiz, que ele resolve, ele manda dar um jeito e bota você no hospital. Ah, sim, no Brasil, quem decide pela baixa hospitalar são os juízes e não os médicos. Quer tirar essa coisa que está lhe incomodando no meio das pernas, essa coisa comprida e mole que não serve pra nada, só atrapalha? Vai no juiz que ele manda cortar o seu pinto inútil e você vira mulherzinha, tudo por conta do SUS. E se você tem plano de saúde, mas o tal de plano não cobre tratamento para sua doença, o juiz também resolve.
É assim que funciona a coisa neste país, meu amigo. E é para isso que você paga imposto: para remunerar a preguiça, a incompetência e a embriaguez provocada pelo poder. E foi por isso que a esquerda tanto lutou para chegar ao poder: os atos institucionais agora se chamam “medidas provisórias”, e a liberdade para fazer bobagens com o dinheiro do povo impera em todos os poderes.
João Eichbaum
Que país esse, hein! Senão, vejamos (como diria qualquer bacharel em direito, que pensa que escreve bem e que faz uso de um português castiço)
Mas, dizia eu, que país!
O Presidente da República legisla. E quanto legisla! É medida provisória pra cá, medida provisória pra lá, medida provisória pra isso, medida provisória praquilo. Não sei quem foi, nem quero saber qual foi o “constituinte” ou o “constitucionalista” que inventou essa monstruosidade, essa excrescência, que autoriza o Poder Executivo da União a legislar. Sei que o Nelson Jobim andava por lá. E, se não me engano, também aquele que hoje é ministro do Supremo e que tem nome de sacanagem misturado com temperatura.
Você acha que não? Mas, me diga uma coisa: produtos “eróticos” não é coisa de sacanagem? Ou tais produtos estão rigorosamente dentro dos mandamentos da doutrina judaico-cristã, que manda “crescer e multiplicar-se”? E como é que se traduz o calor e o frio, como é que se chamam os coitados do Celsius e do Farenheit?
Pois bem, graças aos constituinte e “constitucionalistas” que tiraram um longo plantão bem remunerado, durante a feitura daquela colcha de retalhos que a maioria chama de Constituição Federal, o Poder Executivo legisla e os deputados só dizem amén.
Mas, os deputados o que fazem? Boa pergunta. E alguém pode fazer alguma coisa, comparecendo em Brasília apenas três dias na semana?
Sim, disse comparecendo em Brasília, porque seria uma ofensa a todos os trabalhadores do Brasil chamar de “trabalho” essa mamata de que se ocupam os deputados e os senadores deste país, que vive deitado eternamente num berço esplêndido,debaixo de um céu de anil, para rimar com Brasil.
Ah, sim, os deputados e senadores. Esses caminham pelos corredores do Congresso, beijam eleitoras, abraçam eleitores e formam comissões parlamentares que nunca servem pra nada, a não ser para acobertar corruptos.
E o Judiciário? Ah, o Judiciário cuida da saúde da população brasileira. Está doentinho, não paga plano de saúde e precisa de hospitalização? Vai no juiz, que ele resolve, ele manda dar um jeito e bota você no hospital. Ah, sim, no Brasil, quem decide pela baixa hospitalar são os juízes e não os médicos. Quer tirar essa coisa que está lhe incomodando no meio das pernas, essa coisa comprida e mole que não serve pra nada, só atrapalha? Vai no juiz que ele manda cortar o seu pinto inútil e você vira mulherzinha, tudo por conta do SUS. E se você tem plano de saúde, mas o tal de plano não cobre tratamento para sua doença, o juiz também resolve.
É assim que funciona a coisa neste país, meu amigo. E é para isso que você paga imposto: para remunerar a preguiça, a incompetência e a embriaguez provocada pelo poder. E foi por isso que a esquerda tanto lutou para chegar ao poder: os atos institucionais agora se chamam “medidas provisórias”, e a liberdade para fazer bobagens com o dinheiro do povo impera em todos os poderes.
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
COLUNA DO PAULO WAINBERG
crônicas estomacais
DE PONTA CABEÇA
Paulo Wainberg
Um pedaço de mim guardei na saboneteira. Outro emoldurei na parede. O terceiro sobre a cama, embaixo das cobertas.
O resto, joguei na lixeira.
Que é o lugar do que não presta.
Na saboneteira foi a espuma de minhas mãos. Na parede o meu retrato. Sobre a cama, embaixo das cobertas, o meu sonho.
O resto, joguei na lixeira.
Depois peguei a saboneteira, o retrato e a lixeira e despejei sobre o meu corpo, embaixo das cobertas e desisti do meu sonho.
Ensaboado, emoldurado e acordado tirei meu corpo debaixo das cobertas e fui para a janela olhar, lá embaixo, o movimento.
O sonho era muito louco, nem valia a pena sonhar e, além do mais, não tenho saboneteira e nunca emoldurei meu retrato. As cobertas sim, pois o frio era de rachar e, lá embaixo, a rua estava deserta: não havia movimento.
A minha gravata vermelha, lá de dentro do guarda-roupas, só faltava falar e estava manchada de gordura.
“Homem de Deus!” – berrou o despertador – “está na hora!”. E lá me fui pegar um copo de água na cozinha, para tomar o remédio.
Depois pensei: o que é melhor, semiótica ou metalinguagem?
Semiótica não é uma doença visual como, à primeira vista (ou semivista) pode parecer, sinteticamente falando ela não se refere aos caolhos. Não. Semiótica e o estudo da linguagem, de qualquer linguagem e qualquer linguagem, para a semiótica, são os signos – não zodiacais – sinais, entende? Há uma linguagem numa lâmpada acesa que, se você estudar bastante semiótica, vai entender e, com sorte, até falar.
A metalinguagem, por sua vez, é a linguagem usada para descrever algo sobre outra linguagem.
Teoricamente, você usa a metalinguagem para descrever a semiótica que, por sua vez, utiliza a metalinguagem para descrever a si própria.
Ou não.
Naquele quadro em que Salvador Dali pinta a si mesmo pintando Gala de costas diante de um espelho onde ele pinta a si mesmo de frente pintando Gala de frente é um exemplo perfeito de metalinguagem que só pode ser explicado através da semiótica, desde que você se utilize, previamente, da metalinguagem, resultando num teorema cibernético da mais fácil compreensão onde Um menos Miau é igual a Triz.
Outro exemplo a mostrar como é simples a metalinguagem: o autor do romance discutindo, ao vivo e diretamente com seu personagem: - Você, Heitor, é loiro e alto – diria Virgílio. – Não, não, poeta, sou moreno e baixo – responderia Heitor.
Uma coisa mais ou menos assim.
Refletindo, chutei meu gato de pelúcia contra a parede, gritei gol e decidi que semiótica e metalinguagem fossem solenemente para o inferno porque eu não gostava de nenhum dos dois.
E o telefone não toca, ninguém manda e-mail e há décadas não recebo um postal.
Algum doutor conhece um remédio para o fracasso? Uma pílula, gotinhas, topo até injeção na veia. Sabe o que é? Descobri que quem tem muito não tem nada, quem tem pouco não tem nada e quem não tem nada... esse é que não tem nada mesmo.
Nesse momento ouvi um motor, corri para a janela mas o carro já tinha passado. Continuei sem movimento para ver.
Peguei meu gato de pelúcia e pedi desculpas, coitado, chutado assim em vão.
Falando sério? Não tenho gato de pelúcia.
Estou mesmo é com saudade de sentir saudades.
Nada mais me dá saudades. Ninguém que eu queira rever, nada que eu queira comer de novo, nenhum livro para reler, nenhuma amada distante a me torturar.
Agora sim, um motor, luz de faróis, abro a janela, calculo, me jogo aqui de cima e caio bem no meio do caminhão do lixo.
Enfim sós.
DE PONTA CABEÇA
Paulo Wainberg
Um pedaço de mim guardei na saboneteira. Outro emoldurei na parede. O terceiro sobre a cama, embaixo das cobertas.
O resto, joguei na lixeira.
Que é o lugar do que não presta.
Na saboneteira foi a espuma de minhas mãos. Na parede o meu retrato. Sobre a cama, embaixo das cobertas, o meu sonho.
O resto, joguei na lixeira.
Depois peguei a saboneteira, o retrato e a lixeira e despejei sobre o meu corpo, embaixo das cobertas e desisti do meu sonho.
Ensaboado, emoldurado e acordado tirei meu corpo debaixo das cobertas e fui para a janela olhar, lá embaixo, o movimento.
O sonho era muito louco, nem valia a pena sonhar e, além do mais, não tenho saboneteira e nunca emoldurei meu retrato. As cobertas sim, pois o frio era de rachar e, lá embaixo, a rua estava deserta: não havia movimento.
A minha gravata vermelha, lá de dentro do guarda-roupas, só faltava falar e estava manchada de gordura.
“Homem de Deus!” – berrou o despertador – “está na hora!”. E lá me fui pegar um copo de água na cozinha, para tomar o remédio.
Depois pensei: o que é melhor, semiótica ou metalinguagem?
Semiótica não é uma doença visual como, à primeira vista (ou semivista) pode parecer, sinteticamente falando ela não se refere aos caolhos. Não. Semiótica e o estudo da linguagem, de qualquer linguagem e qualquer linguagem, para a semiótica, são os signos – não zodiacais – sinais, entende? Há uma linguagem numa lâmpada acesa que, se você estudar bastante semiótica, vai entender e, com sorte, até falar.
A metalinguagem, por sua vez, é a linguagem usada para descrever algo sobre outra linguagem.
Teoricamente, você usa a metalinguagem para descrever a semiótica que, por sua vez, utiliza a metalinguagem para descrever a si própria.
Ou não.
Naquele quadro em que Salvador Dali pinta a si mesmo pintando Gala de costas diante de um espelho onde ele pinta a si mesmo de frente pintando Gala de frente é um exemplo perfeito de metalinguagem que só pode ser explicado através da semiótica, desde que você se utilize, previamente, da metalinguagem, resultando num teorema cibernético da mais fácil compreensão onde Um menos Miau é igual a Triz.
Outro exemplo a mostrar como é simples a metalinguagem: o autor do romance discutindo, ao vivo e diretamente com seu personagem: - Você, Heitor, é loiro e alto – diria Virgílio. – Não, não, poeta, sou moreno e baixo – responderia Heitor.
Uma coisa mais ou menos assim.
Refletindo, chutei meu gato de pelúcia contra a parede, gritei gol e decidi que semiótica e metalinguagem fossem solenemente para o inferno porque eu não gostava de nenhum dos dois.
E o telefone não toca, ninguém manda e-mail e há décadas não recebo um postal.
Algum doutor conhece um remédio para o fracasso? Uma pílula, gotinhas, topo até injeção na veia. Sabe o que é? Descobri que quem tem muito não tem nada, quem tem pouco não tem nada e quem não tem nada... esse é que não tem nada mesmo.
Nesse momento ouvi um motor, corri para a janela mas o carro já tinha passado. Continuei sem movimento para ver.
Peguei meu gato de pelúcia e pedi desculpas, coitado, chutado assim em vão.
Falando sério? Não tenho gato de pelúcia.
Estou mesmo é com saudade de sentir saudades.
Nada mais me dá saudades. Ninguém que eu queira rever, nada que eu queira comer de novo, nenhum livro para reler, nenhuma amada distante a me torturar.
Agora sim, um motor, luz de faróis, abro a janela, calculo, me jogo aqui de cima e caio bem no meio do caminhão do lixo.
Enfim sós.
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