DEMAGOGIA IRRESPONSÁVEL
João Eichbaum
Político nunca foi e nem será jamais sinônimo de administrador. Democracia é a maior balela que se impinge ao povo, para beneficiar uns poucos políticos e sua companheirada. E se confunde democracia com demagogia.
A partir dessa premissa, outra não pode ser a conclusão: enquanto o país for “administrado” por políticos, essa espécie de “democracia” vai continuar imperando, para beneficiar os aproveitadores
O Brasil está cheio de crianças mendigando pelas ruas, pedindo nas sinaleiras, se oferecendo para “dar uma olhada no carro”, dormindo ao relento. Na parte sul, a prostituição infantil é mascarada, mas nos estados do nordeste chega a ser quase institucionalizada, sendo um item que atrai tarados com as carteiras recheadas de dólares e que são pomposamente chamados de “turistas”.
Ao invés de educar a população pobre, criando nela a responsabilidade paterna, o atual governo, que tem à testa um operário, migrante do nordeste, - pessoa que nunca administrou sequer uma tendinha de cachorro quente – incentiva a proliferação de crianças, através de um engodo social chamado “bolsa-família”. Quanto mais filhos tiverem os pobres, maiores serão os benefícios que irão auferir. Partindo exatamente de quem nunca administrou coisa alguma, o benefício do “bolsa-família” em nada ajuda na formação das pessoas, no incentivo para a busca de um emprego. É simplesmente um dinheiro tirado do contribuinte para que o partido do governo faça esmola com ele, dando lições de “democracia”.
Depois do “bolsa-família”, não poderia vir coisa melhor, e tudo pode acontecer. Como aconteceu com a recente promulgação da lei que veda o emprego de doméstica para menores de quatorze anos.
Então, menor de quatorze anos não pode ser doméstica, ter carteira assinada, contribuir para a Previdência Social, investindo na segurança para sua velhice ou para uma eventual incapacidade. Mas pode ser prostituta, pode se entregar às drogas, porque esse mesmo governo “democrático” nada faz para impedi-lo. O que ele impede, pura e simplesmente, é que se lhes dê emprego.
Por que tudo isso? Ora, por que! As meninas já tem o “bolsa-família”, não precisam trabalhar. O trabalho, na concepção desse governo, não dignifica as pessoas, o que as dignifica é a esmola oficial, que lhes incentiva a preguiça.
A admissão de uma empregada doméstica é assunto interno, da família. Governo nenhum tem o direito de limitar a administração de um lar. Muitas vezes, a companhia que exige uma criança é outra criança. Tudo depende do critério dos pais: ao invés de contratarem, como “babá”, alguém já viciado, com defeitos perigosos, é claro que preferirão, em muitos casos, meninas sem vícios, a quem poderão educar, nos padrões éticos da família.
A grande marca da “democracia” do governo petista é a proibição: a Lei Seca, o desarmamento, o fumo em lugares públicos, e agora essa a dignidade do emprego no seio de uma família. É mais cômodo, não dá trabalho algum proibir. O que dá trabalho, que é tirar as meninas da mendicância e da prostituição, ah, isso o governo petista não faz. Se o fizesse, faltaria dinheiro para a companheirada.
terça-feira, 30 de setembro de 2008
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
COLUNA DO PAULO WAINBERG
MAIS DESÍGNIOS DA PAIXÃO
Paulo Wainberg
Paixão é coisa traiçoeira que domina você de repente, sem dar tempo para suas defesas entrarem em ação.
Um simples olhar, um aperto de mão, uma frase dita ao acaso e lá está você, a mercê de uma emoção que vai controlar sua vida, gerar expectativas, fabricar sonhos e, como é inevitável, encher você de medo.
A paixão tira a sua naturalidade e aquilo que você diria normalmente adquire forte carga de significado e tudo o que você ouviria normalmente passa a ser correspondência, porque o apaixonado deseja, mais do que qualquer outra coisa, que o objeto de sua paixão esteja também apaixonado.
As paixões proibidas são as de melhor qualidade, uma espécie de lei seca que faz com que aquele que nunca ingeriu bebida alcoólica beba, pelo simples prazer de transgredir.
O que é paixão proibida? É quando você se apaixona por quem não deveria, no dizer da moral religiosa predominante.
É quando você se apaixona pela mulher ou pelo marido de um amigo, de uma amiga. É quando você se apaixona pela freira ou pelo padre, pela mulher bem mais jovem, pelo homem bem mais velho, por uma tia ou um cunhado.
É quando você sabe que, se realizar a paixão, vai provocar sofrimento, rupturas, é quando você tem certeza que realizar tal paixão vai mudar sua vida de modo definitivo e irrevogável.
E é justamente essa paixão que você mais deseja, com a qual você sonha mas nunca tem coragem de admitir nem de permitir porque você não quer se complicar, você que organizou sua vida e está contente com ela, disposto a encerrar seu ciclo usufruindo as conquistas afetivas e, ai de mim, morrer em paz.
Porém, por mais que tenha construído essa imagem, você não é de ferro, seu coração bate forte e sua respiração, às vezes, se acelera por isto ou aquilo, nem que seja um gol do seu time no último segundo da prorrogação.
A paixão faz você sofrer, prezado telespectador, por causa do medo, da dúvida, da incerteza e, sobre todas as coisas, acima do mais elevado pico gelado do Everest, de revelar-se e mostrar-se ridiculamente ao mundo como alguém mínimo, um reles mau caráter que não respeita ninguém, o passado e seus princípios.
O que fazer com a paixão, senhor apaixonado? Como lidar com ela? Como revelar seu sentimento, sua nuclear e atômica emoção, sem correr o risco do linchamento público?
Honestamente, não sei.
Acho que precisa contar com a sorte, que a pessoa por quem você se apaixonou seja sensível e compreensiva, que trate de corresponder à sua paixão ou, caso contrário, entenda o que você sinta e mantenha a revelação no limite de vocês dois, tratando de perdoar a ousadia e poupar você da degradação pública.
O grande drama do apaixonado é que ele vive de indícios, de demonstrações casuais que, para ele, assumem significados sublimes: um olhar mais demorado, um aperto de mão prolongado, um gesto de carinho sutil, como cruzar os dedos, um e-mail com reticências... e o apaixonado se crê correspondido e, ainda que não revele explicitamente sua paixão, alimenta-se por dias e noites, principalmente noites, de fantasias inebriantes de felicidade máxima onde os beijos e os abraços imaginários são fogueiras de emoção e embalam o sono e os sonhos.
O apaixonado vive no mundo virtual da fantasia e se, por ventura, a fantasia transformar-se em realidade, será ele um dos raros (mas não poucos) a compreender o verdadeiro significado da vida.
Jogos de sedução, frases de duplo sentido, apertos de mão socialmente aceitáveis e ricas em significados e as pequenas confidências cotidianas fazem parte do “pode ser”, no imaginário do apaixonado que se alimenta dos possíveis indicativos como quem sorve a última gota de água.
Estar apaixonado é viver em dúvida, pisar em ovos, caminhar em terreno minado e, acima de tudo, torcer pelo final feliz, pelo momento sublime da realização da paixão.
Imagino que quando isto ocorre, quando o apaixonado está finalmente com sua paixão, pronto a desfrutar as emoções contidas, a deflagrar a intensidade da sua paixão, o sagrado faz sentido e neste momento a idéia de “divino” torna-se compreensível.
O encontro de dois apaixonados é sagrado e divino, para sempre e para a eternidade.
Felizes são os que se permitem, mesmo que contra tudo e contra todos, sentir tal imensurável intensidade de emoção.
Paulo Wainberg
Paixão é coisa traiçoeira que domina você de repente, sem dar tempo para suas defesas entrarem em ação.
Um simples olhar, um aperto de mão, uma frase dita ao acaso e lá está você, a mercê de uma emoção que vai controlar sua vida, gerar expectativas, fabricar sonhos e, como é inevitável, encher você de medo.
A paixão tira a sua naturalidade e aquilo que você diria normalmente adquire forte carga de significado e tudo o que você ouviria normalmente passa a ser correspondência, porque o apaixonado deseja, mais do que qualquer outra coisa, que o objeto de sua paixão esteja também apaixonado.
As paixões proibidas são as de melhor qualidade, uma espécie de lei seca que faz com que aquele que nunca ingeriu bebida alcoólica beba, pelo simples prazer de transgredir.
O que é paixão proibida? É quando você se apaixona por quem não deveria, no dizer da moral religiosa predominante.
É quando você se apaixona pela mulher ou pelo marido de um amigo, de uma amiga. É quando você se apaixona pela freira ou pelo padre, pela mulher bem mais jovem, pelo homem bem mais velho, por uma tia ou um cunhado.
É quando você sabe que, se realizar a paixão, vai provocar sofrimento, rupturas, é quando você tem certeza que realizar tal paixão vai mudar sua vida de modo definitivo e irrevogável.
E é justamente essa paixão que você mais deseja, com a qual você sonha mas nunca tem coragem de admitir nem de permitir porque você não quer se complicar, você que organizou sua vida e está contente com ela, disposto a encerrar seu ciclo usufruindo as conquistas afetivas e, ai de mim, morrer em paz.
Porém, por mais que tenha construído essa imagem, você não é de ferro, seu coração bate forte e sua respiração, às vezes, se acelera por isto ou aquilo, nem que seja um gol do seu time no último segundo da prorrogação.
A paixão faz você sofrer, prezado telespectador, por causa do medo, da dúvida, da incerteza e, sobre todas as coisas, acima do mais elevado pico gelado do Everest, de revelar-se e mostrar-se ridiculamente ao mundo como alguém mínimo, um reles mau caráter que não respeita ninguém, o passado e seus princípios.
O que fazer com a paixão, senhor apaixonado? Como lidar com ela? Como revelar seu sentimento, sua nuclear e atômica emoção, sem correr o risco do linchamento público?
Honestamente, não sei.
Acho que precisa contar com a sorte, que a pessoa por quem você se apaixonou seja sensível e compreensiva, que trate de corresponder à sua paixão ou, caso contrário, entenda o que você sinta e mantenha a revelação no limite de vocês dois, tratando de perdoar a ousadia e poupar você da degradação pública.
O grande drama do apaixonado é que ele vive de indícios, de demonstrações casuais que, para ele, assumem significados sublimes: um olhar mais demorado, um aperto de mão prolongado, um gesto de carinho sutil, como cruzar os dedos, um e-mail com reticências... e o apaixonado se crê correspondido e, ainda que não revele explicitamente sua paixão, alimenta-se por dias e noites, principalmente noites, de fantasias inebriantes de felicidade máxima onde os beijos e os abraços imaginários são fogueiras de emoção e embalam o sono e os sonhos.
O apaixonado vive no mundo virtual da fantasia e se, por ventura, a fantasia transformar-se em realidade, será ele um dos raros (mas não poucos) a compreender o verdadeiro significado da vida.
Jogos de sedução, frases de duplo sentido, apertos de mão socialmente aceitáveis e ricas em significados e as pequenas confidências cotidianas fazem parte do “pode ser”, no imaginário do apaixonado que se alimenta dos possíveis indicativos como quem sorve a última gota de água.
Estar apaixonado é viver em dúvida, pisar em ovos, caminhar em terreno minado e, acima de tudo, torcer pelo final feliz, pelo momento sublime da realização da paixão.
Imagino que quando isto ocorre, quando o apaixonado está finalmente com sua paixão, pronto a desfrutar as emoções contidas, a deflagrar a intensidade da sua paixão, o sagrado faz sentido e neste momento a idéia de “divino” torna-se compreensível.
O encontro de dois apaixonados é sagrado e divino, para sempre e para a eternidade.
Felizes são os que se permitem, mesmo que contra tudo e contra todos, sentir tal imensurável intensidade de emoção.
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
JURISTAS: UMA ESPÉCIE EM EXTINÇÃO
OS JUÍZES DO HOJE
João Eichbaum
Vou declinar o nome dele: foi o Paulo Wainberg. Outro dia, ou melhor, outra noite, entre um chope e outro, no Barranco, ele me olhou firme, como é do seu feitio, e sentenciou: João, o modelo de juiz que tu buscas já não existe mais.
Fui ruminando a frase do Paulo e, quando cheguei em casa, dei a mão à palmatória. Realmente, o paradigma de magistrado foi para o espaço. Aqueles senhores sisudos, de poucas palavras e olhar penetrante, dominador, cuja presença era suficiente para impor respeito numa audiência, já não existem.
O que vemos hoje são meninas e meninos deslumbrados com o poder e com os altos vencimentos que ganham, que mal sabem redigir uma frase em vernáculo correto e contam com assessores, secretários e estagiários, que sabem muito menos, tanto de vernáculo como de direito, para lhes redigir despachos e sentenças.
E isso se deve, antes de mais nada, às inúmeras faculdades de direito que foram instaladas pelo país afora. Em qualquer recanto, em qualquer lugarejo existe uma faculdade de direito. Há cidades do interior, como Santa Maria, por exemplo, no Rio Grande do Sul, que possuem cinco faculdades de direito.
Os juízes e advogados de antigamente eram obrigados a disputar as poucas vagas que havia nas universidades públicas. O corpo docente dessas era composto por juristas de escol, pessoas de cultura invejável, como Pontes de Miranda, por exemplo. Com base numa cultura humanística sem igual, é evidente que os atraídos para o magistério eram pessoas sábias, de conhecimento respeitável. Depois começaram a surgir as universidades particulares, onde ingressavam professores que não prestavam concurso – o concurso que era exigido para a cátedra das universidades públicas. E como tais universidades eram, geralmente, ligadas às instituições católicas, a “conditio sine qua non” para a composição do corpo docente era, em primeiro lugar, a religiosidade do candidato a professor, e não a sua cultura, o peso de seus conhecimentos.
Por aí começou a “popularização” do direito, que acabou com a elite cultural. Atualmente, qualquer um pode ser professor, desde que seja bacharel em direito. Nem mesmo o concurso, exigido pela universidade pública, representa, hoje, a garantia de que o candidato a professor tenha uma bagagem cultural respeitável. Em primeiro lugar, porque a cultura está nivelada por baixo. Em segundo lugar porque, alunos formados em universidades particulares, tendo debaixo do braço um diploma de “mestre”, já são considerados respeitáveis e podem concorrer às vagas do magistério público.
E, em conseqüência, qualquer um pode ser juiz, por duas razões: por sorte, fazendo cruzinhas, e porque os examinadores dos concursos não avaliam os candidatos, mas se limitam a contar o número das cruzinhas certas.
Portanto, dou a mão à palmatória: juízes como antigamente, nunca mais. Para encerrar, eu poderia me gabar: para ser juiz, tive que começar, traduzindo a Eneida, de Virgílio. Mas, nem digo isso, porque muitos juízes e desembargadores, alguns ministros do STJ e do STF, poderiam pensar que, para ser juiz, eu tive que comer a mulher do Virgílio.
João Eichbaum
Vou declinar o nome dele: foi o Paulo Wainberg. Outro dia, ou melhor, outra noite, entre um chope e outro, no Barranco, ele me olhou firme, como é do seu feitio, e sentenciou: João, o modelo de juiz que tu buscas já não existe mais.
Fui ruminando a frase do Paulo e, quando cheguei em casa, dei a mão à palmatória. Realmente, o paradigma de magistrado foi para o espaço. Aqueles senhores sisudos, de poucas palavras e olhar penetrante, dominador, cuja presença era suficiente para impor respeito numa audiência, já não existem.
O que vemos hoje são meninas e meninos deslumbrados com o poder e com os altos vencimentos que ganham, que mal sabem redigir uma frase em vernáculo correto e contam com assessores, secretários e estagiários, que sabem muito menos, tanto de vernáculo como de direito, para lhes redigir despachos e sentenças.
E isso se deve, antes de mais nada, às inúmeras faculdades de direito que foram instaladas pelo país afora. Em qualquer recanto, em qualquer lugarejo existe uma faculdade de direito. Há cidades do interior, como Santa Maria, por exemplo, no Rio Grande do Sul, que possuem cinco faculdades de direito.
Os juízes e advogados de antigamente eram obrigados a disputar as poucas vagas que havia nas universidades públicas. O corpo docente dessas era composto por juristas de escol, pessoas de cultura invejável, como Pontes de Miranda, por exemplo. Com base numa cultura humanística sem igual, é evidente que os atraídos para o magistério eram pessoas sábias, de conhecimento respeitável. Depois começaram a surgir as universidades particulares, onde ingressavam professores que não prestavam concurso – o concurso que era exigido para a cátedra das universidades públicas. E como tais universidades eram, geralmente, ligadas às instituições católicas, a “conditio sine qua non” para a composição do corpo docente era, em primeiro lugar, a religiosidade do candidato a professor, e não a sua cultura, o peso de seus conhecimentos.
Por aí começou a “popularização” do direito, que acabou com a elite cultural. Atualmente, qualquer um pode ser professor, desde que seja bacharel em direito. Nem mesmo o concurso, exigido pela universidade pública, representa, hoje, a garantia de que o candidato a professor tenha uma bagagem cultural respeitável. Em primeiro lugar, porque a cultura está nivelada por baixo. Em segundo lugar porque, alunos formados em universidades particulares, tendo debaixo do braço um diploma de “mestre”, já são considerados respeitáveis e podem concorrer às vagas do magistério público.
E, em conseqüência, qualquer um pode ser juiz, por duas razões: por sorte, fazendo cruzinhas, e porque os examinadores dos concursos não avaliam os candidatos, mas se limitam a contar o número das cruzinhas certas.
Portanto, dou a mão à palmatória: juízes como antigamente, nunca mais. Para encerrar, eu poderia me gabar: para ser juiz, tive que começar, traduzindo a Eneida, de Virgílio. Mas, nem digo isso, porque muitos juízes e desembargadores, alguns ministros do STJ e do STF, poderiam pensar que, para ser juiz, eu tive que comer a mulher do Virgílio.
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
COLUNA DO PAULO WAINBERG
crônicas aparentes
SER E PARECER
Paulo Wainberg
Somos modernos, logo temos que parecer. Quasímodo era e não parecia, logo foi punido. Torquemada parecia mas não era, logo foi temido.
Entre ser e parecer há o abismo a ser transposto, das relações sociais, das convenções aparentes, do mostrar-se, exibir-se e tornar-se, por menos que seja, referência e padrão.
Quem é não precisa disso, basta-se em si mesmo, sabendo-se ser sem ostentar, sendo mais do que tendo e quando calha de ser e ter, transforma o ter em doar e o ser em abençoar.
Quem parece, perdoem-me os aparentes, não sente, mostra-se. Quem parece não conhece, exibe-se.
Quem parece tenta ser, mostrar-se como quem é, gostando do que não gosta, falando do que não sabe, unindo palavras vãs, pérolas literárias, vagalumes aos luar, mariposas do entardecer, flores a perfumar, metáforas simbióticas, refinadas na aparências, tênues como a palha a desmascarar supimpas pretensões, a esnobar peles refeitas, riqueza das frases feitas ocultando a descompaixão, a falta da amizade, o tudo pelo social.
Quem é erra, falha e se engana.
Quem parece acerta sempre porque nunca diz o que é.
Quem erra sofre, se angustia, se atormenta e cresce.
Quem parece ri e sempre pega leve. Salvo quando querem tirar algo seu. Aí se insurge, verte lágrimas aparentes porque já codificou o modo de, ali adiante, parecer o que sempre pareceu, acima de tudo parecer... e que ninguém desconfie que não é.
Quem é tem o que é.
Quem parece precisa ter ou deixa de parecer.
O que é melhor? Ser ou parecer?
Honestamente não sei. Há quem parece ser e há quem é sem parecer.
Ser e parecer ou parecer sem ser?
Rico e com saúde ou pobre e doente? Mil peixes no oceano ou um na panela?
Uma coisa é ser na vida, outra é ser no cotidiano.
Ser na vida é um resumo post-mortem, uma página no obituário, dez festejos dos cem anos de nascimento. Ou de morte. E uma placa de bronze. Ser no cotidiano é mil práticas relativas, lâmpadas a serem trocadas, contas a serem pagar, vazamentos a vedar, vasos sanitários a desentupir, dinheiro para ganhar e ter hora certa para chegar.
Parecer na vida é um olvido post-mortem. Talvez uma risadinha futura das bobagens proferidas. Parecer no cotidiano é proferir ufas admirados, vivas estabanados, pegar leve no sufoco e decorar marcas de vinhos.
Ser ou ter, eis a questão que nem o Bardo ousou questionar.
Quem é usufrui-se na solidão. Quem parece desfruta da multidão.
Ser ou parecer, eis a questão.
Conheço tantos que parecem e lutam por ser, lutam tanto que acabam sendo mas, para mal deles, não abdicam de parecer e por isso parece que não são.
Pois quem é não alardeia e concede caridosamente, a quem parece, a ilusão de ser.
Conheço tantos que são mas sucumbem à vaidade de parecer e tanto parecem que parecem que não são.
Quem é não parece, mas acaba aparecendo, cedo ou tarde.
Qual a importância desse assunto é coisa que também me pergunto.
Qual a diferença entre quem é e quem parece é pergunta que também me faço.
Mas suspeito que há uma semelhança entre ser e parecer. Suspeita assim, de leve, sem convicção e totalmente aberta à discussão.
Você não acha que aquele que é e aquele que parece que é estão à serviço da vaidade?
Eu acho, aí reside minha suspeita. E se eu estiver certo, pragmaticamente falando e considerando que a vaidade está posta em benefício alheio, quero dizer, o vaidoso (e quem não é?) quer a aprovação e o reconhecimento alheio, ser e parecer acabam servindo ao propósito egocêntrico, simultaneamente individual e coletivo, de ser admirado pelo outrem.
Quem é o outrem? Qualquer um que não seja você (ou eu).
No Encontro Final, quando quem é e quem parece atingem a linha de chegada, restará um nome de rua, um nome de praça, um relógio de despedida, um livro biográfico, um verbete no dicionário, meia página na enciclopédia, uma vaga lembrança de um neto, uma saudade passageira, uma lágrima compassiva, um adeus individual e uma foto na lápide.
SER E PARECER
Paulo Wainberg
Somos modernos, logo temos que parecer. Quasímodo era e não parecia, logo foi punido. Torquemada parecia mas não era, logo foi temido.
Entre ser e parecer há o abismo a ser transposto, das relações sociais, das convenções aparentes, do mostrar-se, exibir-se e tornar-se, por menos que seja, referência e padrão.
Quem é não precisa disso, basta-se em si mesmo, sabendo-se ser sem ostentar, sendo mais do que tendo e quando calha de ser e ter, transforma o ter em doar e o ser em abençoar.
Quem parece, perdoem-me os aparentes, não sente, mostra-se. Quem parece não conhece, exibe-se.
Quem parece tenta ser, mostrar-se como quem é, gostando do que não gosta, falando do que não sabe, unindo palavras vãs, pérolas literárias, vagalumes aos luar, mariposas do entardecer, flores a perfumar, metáforas simbióticas, refinadas na aparências, tênues como a palha a desmascarar supimpas pretensões, a esnobar peles refeitas, riqueza das frases feitas ocultando a descompaixão, a falta da amizade, o tudo pelo social.
Quem é erra, falha e se engana.
Quem parece acerta sempre porque nunca diz o que é.
Quem erra sofre, se angustia, se atormenta e cresce.
Quem parece ri e sempre pega leve. Salvo quando querem tirar algo seu. Aí se insurge, verte lágrimas aparentes porque já codificou o modo de, ali adiante, parecer o que sempre pareceu, acima de tudo parecer... e que ninguém desconfie que não é.
Quem é tem o que é.
Quem parece precisa ter ou deixa de parecer.
O que é melhor? Ser ou parecer?
Honestamente não sei. Há quem parece ser e há quem é sem parecer.
Ser e parecer ou parecer sem ser?
Rico e com saúde ou pobre e doente? Mil peixes no oceano ou um na panela?
Uma coisa é ser na vida, outra é ser no cotidiano.
Ser na vida é um resumo post-mortem, uma página no obituário, dez festejos dos cem anos de nascimento. Ou de morte. E uma placa de bronze. Ser no cotidiano é mil práticas relativas, lâmpadas a serem trocadas, contas a serem pagar, vazamentos a vedar, vasos sanitários a desentupir, dinheiro para ganhar e ter hora certa para chegar.
Parecer na vida é um olvido post-mortem. Talvez uma risadinha futura das bobagens proferidas. Parecer no cotidiano é proferir ufas admirados, vivas estabanados, pegar leve no sufoco e decorar marcas de vinhos.
Ser ou ter, eis a questão que nem o Bardo ousou questionar.
Quem é usufrui-se na solidão. Quem parece desfruta da multidão.
Ser ou parecer, eis a questão.
Conheço tantos que parecem e lutam por ser, lutam tanto que acabam sendo mas, para mal deles, não abdicam de parecer e por isso parece que não são.
Pois quem é não alardeia e concede caridosamente, a quem parece, a ilusão de ser.
Conheço tantos que são mas sucumbem à vaidade de parecer e tanto parecem que parecem que não são.
Quem é não parece, mas acaba aparecendo, cedo ou tarde.
Qual a importância desse assunto é coisa que também me pergunto.
Qual a diferença entre quem é e quem parece é pergunta que também me faço.
Mas suspeito que há uma semelhança entre ser e parecer. Suspeita assim, de leve, sem convicção e totalmente aberta à discussão.
Você não acha que aquele que é e aquele que parece que é estão à serviço da vaidade?
Eu acho, aí reside minha suspeita. E se eu estiver certo, pragmaticamente falando e considerando que a vaidade está posta em benefício alheio, quero dizer, o vaidoso (e quem não é?) quer a aprovação e o reconhecimento alheio, ser e parecer acabam servindo ao propósito egocêntrico, simultaneamente individual e coletivo, de ser admirado pelo outrem.
Quem é o outrem? Qualquer um que não seja você (ou eu).
No Encontro Final, quando quem é e quem parece atingem a linha de chegada, restará um nome de rua, um nome de praça, um relógio de despedida, um livro biográfico, um verbete no dicionário, meia página na enciclopédia, uma vaga lembrança de um neto, uma saudade passageira, uma lágrima compassiva, um adeus individual e uma foto na lápide.
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
COISAS DA VIDA
A CIÊNCIA E AS HISTÓRIAS MAL CONTADAS
João Eichbaum
À medida que a ciência avança, ou à medida que o primata homem se distancia mais e mais de seus ascendentes símios, a religião, que tem, entre seus líderes, primatas cuja inteligência também evolui, é obrigada a ceder terreno, procurando evitar bobagens homéricas como a que fez com Galileu Galilei.
Segundo matéria publicada na revista Veja, em 1950 o Papa Pio XII já dizia que não existem contradições entre a teoria de Charles Darwin e a doutrina cristã, no sentido de que uma não exclui a outra. Rafael Martinez, sacerdote espanhol e professor de história da ciência na Pontifícia Universidade da Santa Cruz, em Roma, afirma, para a referida revista, que “os primeiros mal-entendidos a respeito da aceitação da teoria da evolução pela doutrina católica referem-se a uma interpretação literal da narração bíblica da criação”.
É a explicação dada pela religião cristã para a incompatibilidade que existe, sim, mas ela não admite, entre o que está escrito no Gênesis e a constatação da ciência, a respeito da evolução do primata humano.
É claro que a historinha aquela, de que “Deus” apanhou um punhado de barro e com ele fez o homem, depois tirou a costela do homem e com ela fez a mulher, é completamente absurda, e não serve hoje nem para fazer as criancinhas dormirem. Até porque, com sua inteligência evoluída, as criancinhas hoje estão mais ligadas no computador do que na catequese.
Pelo que diz o padre Rafael Martinez, não se deve interpretar “literalmente” o que está escrito na Bíblia. Donde se infere que o que ali está escrito não está escrito.
Então, o que é que está escrito no Gênesis?
“Hoje sabemos que a sabedoria divina criou o mundo, utilizando as forças da natureza”, diz o referido padre, professor de História da Ciência.
Ah, bom! Então quer dizer que “as forças da natureza” já existiam e estavam sem serviço, sem proveito, sem fazer nada, razão pela qual “Deus” resolveu reciclar o material e com ele “criar o mundo”? Ou será que “Deus” construiu o seu LHG (grande acelerador de hádrons) e provocou o “Big-Bang”, só para passar o tempo (que na eternidade não passa nunca) e se divertir?
Se assim foi, ele deve ter feito isso e dito, ao mesmo tempo; “seja o que Eu quiser...”. E deu no que deu.
João Eichbaum
À medida que a ciência avança, ou à medida que o primata homem se distancia mais e mais de seus ascendentes símios, a religião, que tem, entre seus líderes, primatas cuja inteligência também evolui, é obrigada a ceder terreno, procurando evitar bobagens homéricas como a que fez com Galileu Galilei.
Segundo matéria publicada na revista Veja, em 1950 o Papa Pio XII já dizia que não existem contradições entre a teoria de Charles Darwin e a doutrina cristã, no sentido de que uma não exclui a outra. Rafael Martinez, sacerdote espanhol e professor de história da ciência na Pontifícia Universidade da Santa Cruz, em Roma, afirma, para a referida revista, que “os primeiros mal-entendidos a respeito da aceitação da teoria da evolução pela doutrina católica referem-se a uma interpretação literal da narração bíblica da criação”.
É a explicação dada pela religião cristã para a incompatibilidade que existe, sim, mas ela não admite, entre o que está escrito no Gênesis e a constatação da ciência, a respeito da evolução do primata humano.
É claro que a historinha aquela, de que “Deus” apanhou um punhado de barro e com ele fez o homem, depois tirou a costela do homem e com ela fez a mulher, é completamente absurda, e não serve hoje nem para fazer as criancinhas dormirem. Até porque, com sua inteligência evoluída, as criancinhas hoje estão mais ligadas no computador do que na catequese.
Pelo que diz o padre Rafael Martinez, não se deve interpretar “literalmente” o que está escrito na Bíblia. Donde se infere que o que ali está escrito não está escrito.
Então, o que é que está escrito no Gênesis?
“Hoje sabemos que a sabedoria divina criou o mundo, utilizando as forças da natureza”, diz o referido padre, professor de História da Ciência.
Ah, bom! Então quer dizer que “as forças da natureza” já existiam e estavam sem serviço, sem proveito, sem fazer nada, razão pela qual “Deus” resolveu reciclar o material e com ele “criar o mundo”? Ou será que “Deus” construiu o seu LHG (grande acelerador de hádrons) e provocou o “Big-Bang”, só para passar o tempo (que na eternidade não passa nunca) e se divertir?
Se assim foi, ele deve ter feito isso e dito, ao mesmo tempo; “seja o que Eu quiser...”. E deu no que deu.
terça-feira, 23 de setembro de 2008
COLUNA DO PAULO WAINBERG
SECULARES
Paulo Wainberg
Ao contrário do que se pensa, Maquiavel não foi um preconizador e sim um retratista.
Vivendo na Itália renascentista, protegido pelos Médici e abandonado pelos Borgia, sua obra prima, O Príncipe, é uma constatação do exercício do Poder e não uma apologia de doutrinas pedagógicas para alcançá-lo e mantê-lo.
Ao afirmar que o Príncipe deve ser capaz de toda a crueldade de uma só vez para alcançar o “bem comum”, distribuindo as benesses das conquistas ao poucos para que pudessem ser devidamente apreciadas, consagrou, como princípio, aquilo que simplesmente percebia na forma de agir dos governantes de seu tempo e dos que historicamente pesquisara: os fins justificam os meios.
Teve a coragem, como um observador imparcial, de separar a Ética da Política, colocando-as em planos distintos e incompatíveis entre si, como se uma fosse a contradição em termos da outra.
Aquilo que Maquiavel percebeu e descreveu é uma perfeita síntese do que chamamos de “sociedade organizada”, a metáfora perfeita para o exercício do cinismo e da hipocrisia dos governantes da circunstância, os poderosos da ocasião.
O todo poderoso do momento é o execrado na manhã seguinte, fugitivo e tratado como reles criminoso, assim que a roda da fortuna gira e o que estava no ápice chafurda na sarjeta.
Napoleão, da glória ao ostracismo. Stalin e Hitler, terroristas de Estado, do Poder Supremo à exemplos do nefasto, nefando e horrendo.
Ditadores pelo mundo, cuja vontade absoluta fazia tremer o mais poderoso general, fugindo esbaforidos para usufruirem, se possível, dos milhões amealhados no exterior.
Na sociedade religiosa a Ética estuda o Bem e o Mal, conceitos superiores que exigem personificação absoluta: Deus e Diabo.
Na sociedade humana a Ética estuda a prevenção, uma construção racional para fundamentar a Lei e o Direito em favor da defesa do benefício contra os ataques malignos da própria sociedade humana. O Bem e o Mal éticos pressupõem não divindades e demônios e sim o ser humano em conflito com ele mesmo.
É neste ponto que a contradição emerge de forma “maquiavélica”. Nessa linha de raciocínio o “bem comum” sobrepõe-se ao “bem individual”, o interesse coletivo sobrepuja o interesse do indivíduo que pode ser sacrificado em quantidade indefinida, desde que se proteja o “todo”.
Para o Direito Penal é preferível manter dez culpados soltos do que um inocente preso, numa aparente contradição pois esse princípio protege o indivíduo na sua contrapartida com a coletividade.
Ora, para a coletividade, é preferível prender os dez culpados mesmo que um inocente seja preso e aí reside o cinismo sem nenhuma metáfora que o sustente. Dez perigosos criminosos à solta fazem muito mais mal á sociedade do que um inocente preso,graças à um erro judiciário que, para o mundo ideal do Direito, é inconcebível.
É que o Direito, assim como a Ética, paira no plano ideal, isto é, no mundo das idéias que, quase sempre, está muito distante das realidades. Neste mundo ideal exige-se dez criminosos presos e todos os inocentes soltos, o triunfo permanente do Bem sobre o Mal, criando-se instrumentos idealizados para atingir tais desígnios, como os Tribunais, os Parlamentos e os Governos.
Ninguém foi tão cinicamente hipócrita quanto a sociedade americana, por exemplo, ao pregar em sua Constituição, a igualdade e, na prática, exercer a discriminação racial.
O contexto assim organizado conduz ao inevitável choque entre o plano das idéias e o plano da realidade: a corrupção.
Todo ato de corrupção parte de um mesmo princípio, aparentemente inocente e vestido de legalidade por todos os lados: promover o bem comum e, com isso, obter vantagens individuais.
Corruptos e corruptores acreditam que não estão prejudicando ninguém, que o resultado de seus atos beneficiará, trará proveitos, gerará riquezas e que não há mal algum em ganhar um pouco, em obter proveito próprio, afinal é trabalho e, como tal, merecer ser remunerado.
O corrupto institucional alega, em sua defesa, que não viu qualquer ilegalidade em seu ato e o corruptor manifesta firmeza de propósitos no sentido de beneficiar em geral, principalmente àqueles que precisam dos benefícios.
Estamos cansados de ouvir essas declarações nas CPIs e nos processos judiciais que, por força da corrupta sistemática processual, tornam-se fins em si mesmos, inócuos e inconseqüentes.
A corrupção, seja em que nível for, é uma violação ética, um afrouxamento dos conceitos de Bem e Mal, seja do ponto religioso, seja do ponto de vista humano.
Com idêntica lógica perversa repetem-se as campanhas anuais de solidariedade oficial. Campanha do agasalho é uma delas, ano a ano deflagrada em tempos de inverno e de frio. Os governos que se sucedem mantêm, em suas agendas, a busca por roupas quentes para distribuir aos pobres, mesmo as usadas, rasgadas, depauperadas e fora de moda. Porque o importante é que os pobres não sintam frio ou, ao menos, não sintam tanto frio quanto sentiriam, não fossem as providências de uma primeira dama, de um secretário de governo ou de um ministro de Estado.
Não tem importância nenhuma que os pobres vistam-se com andrajos, continuem pobres e que, ano que vem, ainda pobres, se beneficiem novamente da caridade institucional com a qual os governos compram as consciências da “sociedade civil”.
Por que não acabar com a pobreza? Por que não abdicar de conviver com a miséria, por que não dizer Basta! à desigualdade e proporcionar a todos os cidadãos a capacidade de agasalhar-se no inverno?
Porque os fins justificam os meios, simplesmente por isso. Porque é preciso ser cruel de uma só vez com alguns, em benefício de todos, como se alguns não pertencessem ao contingente de todos.
Porque a máquina contábil das oferendas e das distribuições de roupas e alimentos não pode ser interrompida, isso seria um fator menor de faturamento político, de alcance de votos e de projetos políticos antagônicos, a alardear a discrepância como se dela jamais tivessem feito parte.
Do Século XV de Maquiavel ao Século XXI de Bush, da Comunidade Européia, de Hugo Chaves, de Lula e de Osama Bin Laden, o Príncipe reina sem dó nem piedade, duela a quien duela, porque afinal de contas, disso sabemos todos, os fins justificam os meios.
O pior de tudo é: E adianta falar?
Paulo Wainberg
Ao contrário do que se pensa, Maquiavel não foi um preconizador e sim um retratista.
Vivendo na Itália renascentista, protegido pelos Médici e abandonado pelos Borgia, sua obra prima, O Príncipe, é uma constatação do exercício do Poder e não uma apologia de doutrinas pedagógicas para alcançá-lo e mantê-lo.
Ao afirmar que o Príncipe deve ser capaz de toda a crueldade de uma só vez para alcançar o “bem comum”, distribuindo as benesses das conquistas ao poucos para que pudessem ser devidamente apreciadas, consagrou, como princípio, aquilo que simplesmente percebia na forma de agir dos governantes de seu tempo e dos que historicamente pesquisara: os fins justificam os meios.
Teve a coragem, como um observador imparcial, de separar a Ética da Política, colocando-as em planos distintos e incompatíveis entre si, como se uma fosse a contradição em termos da outra.
Aquilo que Maquiavel percebeu e descreveu é uma perfeita síntese do que chamamos de “sociedade organizada”, a metáfora perfeita para o exercício do cinismo e da hipocrisia dos governantes da circunstância, os poderosos da ocasião.
O todo poderoso do momento é o execrado na manhã seguinte, fugitivo e tratado como reles criminoso, assim que a roda da fortuna gira e o que estava no ápice chafurda na sarjeta.
Napoleão, da glória ao ostracismo. Stalin e Hitler, terroristas de Estado, do Poder Supremo à exemplos do nefasto, nefando e horrendo.
Ditadores pelo mundo, cuja vontade absoluta fazia tremer o mais poderoso general, fugindo esbaforidos para usufruirem, se possível, dos milhões amealhados no exterior.
Na sociedade religiosa a Ética estuda o Bem e o Mal, conceitos superiores que exigem personificação absoluta: Deus e Diabo.
Na sociedade humana a Ética estuda a prevenção, uma construção racional para fundamentar a Lei e o Direito em favor da defesa do benefício contra os ataques malignos da própria sociedade humana. O Bem e o Mal éticos pressupõem não divindades e demônios e sim o ser humano em conflito com ele mesmo.
É neste ponto que a contradição emerge de forma “maquiavélica”. Nessa linha de raciocínio o “bem comum” sobrepõe-se ao “bem individual”, o interesse coletivo sobrepuja o interesse do indivíduo que pode ser sacrificado em quantidade indefinida, desde que se proteja o “todo”.
Para o Direito Penal é preferível manter dez culpados soltos do que um inocente preso, numa aparente contradição pois esse princípio protege o indivíduo na sua contrapartida com a coletividade.
Ora, para a coletividade, é preferível prender os dez culpados mesmo que um inocente seja preso e aí reside o cinismo sem nenhuma metáfora que o sustente. Dez perigosos criminosos à solta fazem muito mais mal á sociedade do que um inocente preso,graças à um erro judiciário que, para o mundo ideal do Direito, é inconcebível.
É que o Direito, assim como a Ética, paira no plano ideal, isto é, no mundo das idéias que, quase sempre, está muito distante das realidades. Neste mundo ideal exige-se dez criminosos presos e todos os inocentes soltos, o triunfo permanente do Bem sobre o Mal, criando-se instrumentos idealizados para atingir tais desígnios, como os Tribunais, os Parlamentos e os Governos.
Ninguém foi tão cinicamente hipócrita quanto a sociedade americana, por exemplo, ao pregar em sua Constituição, a igualdade e, na prática, exercer a discriminação racial.
O contexto assim organizado conduz ao inevitável choque entre o plano das idéias e o plano da realidade: a corrupção.
Todo ato de corrupção parte de um mesmo princípio, aparentemente inocente e vestido de legalidade por todos os lados: promover o bem comum e, com isso, obter vantagens individuais.
Corruptos e corruptores acreditam que não estão prejudicando ninguém, que o resultado de seus atos beneficiará, trará proveitos, gerará riquezas e que não há mal algum em ganhar um pouco, em obter proveito próprio, afinal é trabalho e, como tal, merecer ser remunerado.
O corrupto institucional alega, em sua defesa, que não viu qualquer ilegalidade em seu ato e o corruptor manifesta firmeza de propósitos no sentido de beneficiar em geral, principalmente àqueles que precisam dos benefícios.
Estamos cansados de ouvir essas declarações nas CPIs e nos processos judiciais que, por força da corrupta sistemática processual, tornam-se fins em si mesmos, inócuos e inconseqüentes.
A corrupção, seja em que nível for, é uma violação ética, um afrouxamento dos conceitos de Bem e Mal, seja do ponto religioso, seja do ponto de vista humano.
Com idêntica lógica perversa repetem-se as campanhas anuais de solidariedade oficial. Campanha do agasalho é uma delas, ano a ano deflagrada em tempos de inverno e de frio. Os governos que se sucedem mantêm, em suas agendas, a busca por roupas quentes para distribuir aos pobres, mesmo as usadas, rasgadas, depauperadas e fora de moda. Porque o importante é que os pobres não sintam frio ou, ao menos, não sintam tanto frio quanto sentiriam, não fossem as providências de uma primeira dama, de um secretário de governo ou de um ministro de Estado.
Não tem importância nenhuma que os pobres vistam-se com andrajos, continuem pobres e que, ano que vem, ainda pobres, se beneficiem novamente da caridade institucional com a qual os governos compram as consciências da “sociedade civil”.
Por que não acabar com a pobreza? Por que não abdicar de conviver com a miséria, por que não dizer Basta! à desigualdade e proporcionar a todos os cidadãos a capacidade de agasalhar-se no inverno?
Porque os fins justificam os meios, simplesmente por isso. Porque é preciso ser cruel de uma só vez com alguns, em benefício de todos, como se alguns não pertencessem ao contingente de todos.
Porque a máquina contábil das oferendas e das distribuições de roupas e alimentos não pode ser interrompida, isso seria um fator menor de faturamento político, de alcance de votos e de projetos políticos antagônicos, a alardear a discrepância como se dela jamais tivessem feito parte.
Do Século XV de Maquiavel ao Século XXI de Bush, da Comunidade Européia, de Hugo Chaves, de Lula e de Osama Bin Laden, o Príncipe reina sem dó nem piedade, duela a quien duela, porque afinal de contas, disso sabemos todos, os fins justificam os meios.
O pior de tudo é: E adianta falar?
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
VARIAÇÕES EM TORNO DO TEMA FIADASPUTAS
DONDE VEM ESSE DINHEIRO?
João Eichbaum
Já foi pior. Mas, mesmo assim, ainda incomoda. Falo da propaganda eleitoral. Agora, pelo menos, estamos livres de pixações, papéis grudados nos postes, faixas bestas se enroscando nos fios de luz, etc.
Mas ainda existem os malditos “carros de som” que nos ferem os ouvidos, atrapalham a nossa concentração, a nossa sesta, o sono das crianças.
E tem também as passeatas, essas que atrapalham o trânsito – já não chega o MST e outros “movimentos sociais” de gente preguiçosa, que nada tem a fazer na vida, senão perturbar a vida dos outros.
E até a tal de “Justiça Eleitoral” nos enche o saco, fazendo propaganda dela mesmo e nos impingindo lições de civismo, pintando todos os candidatos como potenciais criaturas honestas e competentes, quando todos nós sabemos que quem precisa trabalhar e é honesto não tem tempo para se dedicar à política.
Mas o que mais chama a atenção nestas eleições é a propaganda avassaladora dos candidatos do PT, em qualquer lugar. Há enormes diferenças entre a propaganda dos companheiros do Lula e a dos partidos que com eles não se alinham.
Alguém aí se lembra do PT, quando iniciou na política, para dar seguimento à carreira de ex-torneiro mecânico Lula? O PT não era nada, não tinha nada. Mas agora, depois de chegar ao poder, mudou completamente. É o partido que mais esbanja, porque tem mais dinheiro. E donde vem esse dinheiro? Foi algum Jesus Cristo que fez o milagre da multiplicação?
Será que o povo não se dá conta disso? Será que esse mistério não chama a atenção nem da imprensa? Por que ninguém questiona isso? Por que se ocupam de grampos e outras bobagens e não perguntam donde o PT tira tanto dinheiro?
Partido dos “Trabalhadores”. Mas trabalhador tem tanto dinheiro assim?
É esse o povo que faz a cara do Brasil: o povo que festeja o PT, elege o PT, se embriaga com o domínio dos “trabalhadores”, tudo graças ao “bolsa-família”, que faz a alegria dos preguiçosos, daqueles que em nada contribuem para que o tesouro nacional, guardado pelo PT, saia a distribuir por aí o nosso dinheiro.
João Eichbaum
Já foi pior. Mas, mesmo assim, ainda incomoda. Falo da propaganda eleitoral. Agora, pelo menos, estamos livres de pixações, papéis grudados nos postes, faixas bestas se enroscando nos fios de luz, etc.
Mas ainda existem os malditos “carros de som” que nos ferem os ouvidos, atrapalham a nossa concentração, a nossa sesta, o sono das crianças.
E tem também as passeatas, essas que atrapalham o trânsito – já não chega o MST e outros “movimentos sociais” de gente preguiçosa, que nada tem a fazer na vida, senão perturbar a vida dos outros.
E até a tal de “Justiça Eleitoral” nos enche o saco, fazendo propaganda dela mesmo e nos impingindo lições de civismo, pintando todos os candidatos como potenciais criaturas honestas e competentes, quando todos nós sabemos que quem precisa trabalhar e é honesto não tem tempo para se dedicar à política.
Mas o que mais chama a atenção nestas eleições é a propaganda avassaladora dos candidatos do PT, em qualquer lugar. Há enormes diferenças entre a propaganda dos companheiros do Lula e a dos partidos que com eles não se alinham.
Alguém aí se lembra do PT, quando iniciou na política, para dar seguimento à carreira de ex-torneiro mecânico Lula? O PT não era nada, não tinha nada. Mas agora, depois de chegar ao poder, mudou completamente. É o partido que mais esbanja, porque tem mais dinheiro. E donde vem esse dinheiro? Foi algum Jesus Cristo que fez o milagre da multiplicação?
Será que o povo não se dá conta disso? Será que esse mistério não chama a atenção nem da imprensa? Por que ninguém questiona isso? Por que se ocupam de grampos e outras bobagens e não perguntam donde o PT tira tanto dinheiro?
Partido dos “Trabalhadores”. Mas trabalhador tem tanto dinheiro assim?
É esse o povo que faz a cara do Brasil: o povo que festeja o PT, elege o PT, se embriaga com o domínio dos “trabalhadores”, tudo graças ao “bolsa-família”, que faz a alegria dos preguiçosos, daqueles que em nada contribuem para que o tesouro nacional, guardado pelo PT, saia a distribuir por aí o nosso dinheiro.
Assinar:
Postagens (Atom)