Morreu o Daniel
Paulo Marinho
Estou de luto. Semana passada morreu um ente meu, muito próximo, o Daniel Boone. Bem, não ele propriamente, mas o ator americano Fess Parker, que encarnou o personagem nos anos 60 e 70 num seriado na tevê. A gente falava Daniel Bum. Não importa. Quem tem menos de 35 não vai lembrar-se dele mesmo. No entanto, quem tem mais, haverá de se recordar do grande Daniel Bum. Para os padrões de hoje, política e ecologicamente super corretos, ele seria demonizado. Primeiro, porque viveu boa parte da vida vendendo peles de animais, principalmente gordos castores, os quais caçava habilmente com armadilhas dentuças. Depois, porque não podia ver um índio, que já ia metendo, sem pestanejar, uma bala na testa, com um espingardão de um metro e meio de cano. Nós, os meninos de doze, treze, a-do-rá-va-mos. Aliás, quando ele não matava uma meia dúzia de shawnees ou pelava uma renca de castores, o seriado não tinha graça. O Bum era bruto. Tão bruto que na abertura do programa (ecologistas, respirem fundo) já ia rachando pelo meio um pinheiro em pé, com uma machadada precisa, bem no miolo da árvore.
O Bum real, verdadeiro, foi um herói americano, daqueles típicos: lutou pela independência, ajudou a colonizar o país, além de dizimar com esmero a fauna, a flora e a indiada. Tudo o que faz americano lamber os beiços. Mas, quem disse que nos importávamos? O que queríamos era ter uma machadinha daquelas, o trabuco, um amigo índio (sim, no seriado ele tinha um fiel companheiro, o Mingo, um índio Cherokee educadíssimo, a cara da Baby Consuelo, só que sem botox) e um chapéu de pelos. Pausa para o chapéu de pelos. Vou confessar: uma das minhas maiores frustrações é nunca ter tido – além de um colete de couro malhado que o Tarcísio Meira usava na novela Irmãos coragem – um chapéu igual ao do Bum. O adereço era um mão-pelada praticamente inteiro enfiado na cabeça dele, completamente morto, diga-se, com o focinho para frente, bigodinhos incluídos e o rabo bicolor, balançando nas costas. Coisa linda. Tenho certeza que aquele chapéu foi o sonho de consumo de uma geração inteira, como é hoje um X-box.
Agora eu, já velhusco, fuçando na semiótica, aprendo os sistemas de significação dos fenômenos culturais, o que me faz entender que o seriado, como todos os seriados naquele tempo, aliás, era pura propaganda do americano bastantão e tale cosa. O que quer dizer que nós, os guris vidrados, acotovelados na frente da tevê para ver o Bum e o Mingo não passávamos de um bando de sórdidos ratazanos de laboratório. Felicíssimos, claro, torcendo avidamente para o Daniel, com seu chapéu de mão-pelada. Já nem sei se havia algo educativo naquilo tudo, embora o Mingo se saísse de vez em quando com frases a la Paulo Coelho, como “a paciência é uma virtude”, enquanto escalpelava um desafeto.
Os singelos seriados terminaram. Todavia, desconfio que a exportação televisiva de ideologias continue. Principalmente da idiotia coletiva via dos realities shows, como o Big Brother. E eu duvido, honestamente, que daqui a 30 anos alguém vá se lembrar de algum destes “heróis” modernos, como a eles se refere aquele cascarrento do Pedro Bial. Ignorância por ignorância, prefiro as dubladas. E fico com a ampla e contundente simbologia da machadinha do falecido Bum. O gosto podia ser duvidoso, mas a gente engolia sem remorso.
Acadêmico de Direito PUC-GO
dogmaetabu@hotmail.com
quarta-feira, 31 de março de 2010
terça-feira, 30 de março de 2010
CRÔNICAS DE AMORES PERDIDOS
PEQUENO CONTO DE OUTONO
Paulo Wainberg
Mil-folhas!
Acordou com um desejo alucinado de comer mil-folhas. Sentou na cama, desnorteado pelo sono.
Eram cinco da madrugada e ele precisava comer um mil-folhas.
Ligou para Jurema, atendeu um homem com voz de sono, intrigado quando pediu para falar com a Jurema, naquela hora. Escutou ruídos típicos de quem acorda, tosses leves, suspiros e gemidos... e ela atendeu:
– Quem é?
– Sou eu Jurema, o Alípio, lembra de mim?
– Alípio! Onde você anda? Aconteceu alguma coisa? Ligando a essa hora, são cinco da manhã!
– Jurema, você lembra de uma confeitaria onde a gente ia comer mil-folhas?
– Alípio, tu tá louco?
– Jurema, pelo amor de Deus, você lembra?
– Claro que lembro, Alípio, ficava ali na esquina da rua 5 com a Avenida 3!
– Será que ela ainda existe, Jurema? A gente ia lá de madrugada, lembra? Saía do motel e ia comer mil-folhas recém saído do forno...
– Lembro sim, Alípio, até que você não apareceu mais...
– Eu sei Jurema, nunca te expliquei o que aconteceu, mas foi grave, pode acreditar.
– Não tão grave assim, pois você ainda está vivo, canalha!
Ouviu a voz do homem, querendo saber quem era e o que estava acontecendo. Jurema mandou ele ficar quieto.
– Jurema, vamos lá agora, vamos comer mil-folhas juntos.
– Você está louco, Alípio, nunca mais comerei mil-folhas com você, nunca mais quero falar com você, nunca mais quero ver você!
– Jurema, ainda é possível, nós podemos recuperar o tempo perdido, os sonhos, projetos, nosso futuro.
– Alípio, eu sou casada e tenho três filhos. Adeus.
Ouviu o clique do telefone sendo desligado.Permaneceu com o fone no ouvido, o sinal de ocupado gritando o seu fracasso.
Então era isso, então era assim.
Evocou as manhãs nascendo, o ar doce e semi-frio do outono, o recheio do mil-folhas desmanchando em sua boca, o riso feliz de Jurema e os beijos trocados “para sentir o gosto de doce na boca do outro”.
Provavelmente a confeitaria não existe mais, tanto tempo passou, ele passou do tempo, e Jurema, como estaria sendo mãe de três filhos, o tempo também a castigara? Ela era feliz?
“Bobagem”, pensou, “quem se preocupa com felicidade, nesta altura da vida?”.
Por que mesmo abandonara Jurema? Ele gostava dela, disso tinha certeza. Mas um dia sumiu, não deixou recado e não atendeu aos chamados dela. Por que? Eles se amavam, tinham a vida diante deles, o futuro para comemorar, dez mil manhãs de outono para usufruir.
Jamais entendeu o medo que o consumia, diante de decisões definitivas que a vida lhe cobrava.
Se ele não tivesse sumido, com toda certeza a confeitaria onde comiam mil-folhas ainda existiria, os confeiteiros seriam os mesmos, a aguardá-los nas madrugadas outonais, uma tarefa agradável e obrigatória da profissão.
A confeitaria dos mil-folhas não ousaria fechar, caso ele não houvesse abandonado Jurema.
Nunca mais comeu mil-folhas.
Esquecera.
E agora, passado tanto tempo, desperta na madrugada de outono com o desejo, lembranças de Jurema, vontade de voltar ao passado.
E se, por milagre, a confeitaria ainda existir? Cinco da madrugada, o horário exato em que os primeiros mil-folhas saiam do forno. E se ele fosse até lá? Sim, se ele fosse até aquela esquina, olhasse para o prédio e sentisse o aroma de sempre, na madrugada de outono?
Levantou da cama, mas não se vestiu. Caminhou em direção a cozinha, sabendo que perdera seu tempo, que perdera seu espaço e que sua velocidade, há muito, não era a mesma.
“Uma equação de Einstein”, pensou, amargurado.
Abriu a porta da geladeira: uma garrafa de vodca pela metade e um pedaço de salame italiano.
Hesitou por segundos, cogitando ainda de ir em busca da confeitaria. E sucumbiu a si mesmo, pois não tinha energia nem vontade. Seria uma busca inútil, mesmo que a encontrasse.
Jurema não estaria com ele, não a Jurema que ele amara e abandonara.
Colocou a garrafa de vodca sobre a mesa e segurou, pela ponta, o um quarto de salame italiano restante, inadequadamente gelado.
Sentou, com um suspiro encheu o copo de vodca e, bebericando e mordiscando, consumiu ambos, a vodca e o salame.
Ligeiramente embriagado, voltou à cama vazia, puxou o cobertor e dormiu.
Paulo Wainberg
Mil-folhas!
Acordou com um desejo alucinado de comer mil-folhas. Sentou na cama, desnorteado pelo sono.
Eram cinco da madrugada e ele precisava comer um mil-folhas.
Ligou para Jurema, atendeu um homem com voz de sono, intrigado quando pediu para falar com a Jurema, naquela hora. Escutou ruídos típicos de quem acorda, tosses leves, suspiros e gemidos... e ela atendeu:
– Quem é?
– Sou eu Jurema, o Alípio, lembra de mim?
– Alípio! Onde você anda? Aconteceu alguma coisa? Ligando a essa hora, são cinco da manhã!
– Jurema, você lembra de uma confeitaria onde a gente ia comer mil-folhas?
– Alípio, tu tá louco?
– Jurema, pelo amor de Deus, você lembra?
– Claro que lembro, Alípio, ficava ali na esquina da rua 5 com a Avenida 3!
– Será que ela ainda existe, Jurema? A gente ia lá de madrugada, lembra? Saía do motel e ia comer mil-folhas recém saído do forno...
– Lembro sim, Alípio, até que você não apareceu mais...
– Eu sei Jurema, nunca te expliquei o que aconteceu, mas foi grave, pode acreditar.
– Não tão grave assim, pois você ainda está vivo, canalha!
Ouviu a voz do homem, querendo saber quem era e o que estava acontecendo. Jurema mandou ele ficar quieto.
– Jurema, vamos lá agora, vamos comer mil-folhas juntos.
– Você está louco, Alípio, nunca mais comerei mil-folhas com você, nunca mais quero falar com você, nunca mais quero ver você!
– Jurema, ainda é possível, nós podemos recuperar o tempo perdido, os sonhos, projetos, nosso futuro.
– Alípio, eu sou casada e tenho três filhos. Adeus.
Ouviu o clique do telefone sendo desligado.Permaneceu com o fone no ouvido, o sinal de ocupado gritando o seu fracasso.
Então era isso, então era assim.
Evocou as manhãs nascendo, o ar doce e semi-frio do outono, o recheio do mil-folhas desmanchando em sua boca, o riso feliz de Jurema e os beijos trocados “para sentir o gosto de doce na boca do outro”.
Provavelmente a confeitaria não existe mais, tanto tempo passou, ele passou do tempo, e Jurema, como estaria sendo mãe de três filhos, o tempo também a castigara? Ela era feliz?
“Bobagem”, pensou, “quem se preocupa com felicidade, nesta altura da vida?”.
Por que mesmo abandonara Jurema? Ele gostava dela, disso tinha certeza. Mas um dia sumiu, não deixou recado e não atendeu aos chamados dela. Por que? Eles se amavam, tinham a vida diante deles, o futuro para comemorar, dez mil manhãs de outono para usufruir.
Jamais entendeu o medo que o consumia, diante de decisões definitivas que a vida lhe cobrava.
Se ele não tivesse sumido, com toda certeza a confeitaria onde comiam mil-folhas ainda existiria, os confeiteiros seriam os mesmos, a aguardá-los nas madrugadas outonais, uma tarefa agradável e obrigatória da profissão.
A confeitaria dos mil-folhas não ousaria fechar, caso ele não houvesse abandonado Jurema.
Nunca mais comeu mil-folhas.
Esquecera.
E agora, passado tanto tempo, desperta na madrugada de outono com o desejo, lembranças de Jurema, vontade de voltar ao passado.
E se, por milagre, a confeitaria ainda existir? Cinco da madrugada, o horário exato em que os primeiros mil-folhas saiam do forno. E se ele fosse até lá? Sim, se ele fosse até aquela esquina, olhasse para o prédio e sentisse o aroma de sempre, na madrugada de outono?
Levantou da cama, mas não se vestiu. Caminhou em direção a cozinha, sabendo que perdera seu tempo, que perdera seu espaço e que sua velocidade, há muito, não era a mesma.
“Uma equação de Einstein”, pensou, amargurado.
Abriu a porta da geladeira: uma garrafa de vodca pela metade e um pedaço de salame italiano.
Hesitou por segundos, cogitando ainda de ir em busca da confeitaria. E sucumbiu a si mesmo, pois não tinha energia nem vontade. Seria uma busca inútil, mesmo que a encontrasse.
Jurema não estaria com ele, não a Jurema que ele amara e abandonara.
Colocou a garrafa de vodca sobre a mesa e segurou, pela ponta, o um quarto de salame italiano restante, inadequadamente gelado.
Sentou, com um suspiro encheu o copo de vodca e, bebericando e mordiscando, consumiu ambos, a vodca e o salame.
Ligeiramente embriagado, voltou à cama vazia, puxou o cobertor e dormiu.
segunda-feira, 29 de março de 2010
VARIAÇÕES EM TORNO DO TEMA FIADASPUTAS
UM CASO DE CALAMIDADE PÚBLICA
João Eichbaum
A notícia está na página política, mas bem que poderia estar numa coluna de humor.
A cidade de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, que se gaba de ter uma das maiores universidades do país, a UNISINOS, tem como prefeito um desses políticos que gostam de posar de arautos da decência. Currículo dele: Ari Vanazzi, político de profissão. Ele pertence ao PT, partido que, como qualquer outro da linha populista, quando está poder, se vale do maior multiplicador de votos que se conhece, chamado empreguismo. É uma mina, pois atrás de cada companheiro empregado existe, no mínimo, uma família: mulher ou marido, pais, irmãos, avós, tios, primos, etc.
Preparando a eleição de sua sucessora em São Leopoldo, o prefeito quis continuar usando o mesmo método, que o reelegeu, mas dessa vez se deu mal: a lei municipal que ele bolou, criando centenas de “cargos em comissão” foi denotada no Tribunal de Justiça, porque tava bichada: inconstitucional.
Agora, a Prefeitura terá que demitir todos os apadrinhados acoitados na folha de pagamento do município. São quase quatrocentos.
E o prefeito tá num rebolado nada gracioso. Quer declarar “estado de emergência”, anunciando, para quem quiser acreditar, que os serviços públicos vão entrar em colapso. E quer também “dialogar” com o Ministério Público e o Judiciário para saber, entre outras coisas, como deve ser feita uma lei de acordo com a Constituição.
Bom, a lista dos quase quatrocentos “cargos em comissão”, como bem dizem os números, é enorme. Mas vale apenas mencionar alguns dos “cargos” que exigem a decretação de “estado de emergência”: “diretores de diretoria” (sim, é como vocês estão lendo, não me enganei, não), assessores de tudo, inclusive de direito, (todo mundo sabe o que faz um “aspone”) diretores de “núcleo”, “chefes de equipe”, e por aí vai: só cacique. De índio o prefeitura não precisa. Ah, antes que me esqueça, dois cargos de “diretores” no gabinete da “primeira dama” (que deveria, na realidade, ser chamada de “quarta” dama, pelo número de mulheres que o extrovertido prefeito já emplacou no seu currículo).
A resposta que o Ministério Público dará ao prefeito, certamente, será essa: crie os cargos técnicos necessários para o funcionamento da máquina pública, a serem preenchidos por pessoas capazes, especialistas, com formação apropriada, através de concurso público; crie cargos de “assessores de direito”, que os mais capazes, escolhidos através de concurso, lhe ensinarão como se faz uma lei constitucional. Enquanto isso, os “companheiros bacharéis comissionados” deverão freqüentar um curso de alfabetização, para aprenderem a ler o art. 37, inc. V, da Constituição Federal.
De certa forma, concordo: mais do que “estado de emergência”, é de calamidade pública o caso do município de São Leopoldo, inundado por incompetência, semvergonhice, desperdício de dinheiro público e muita, muita, muita ignorância. O que, convenhamos, não combina com a cidade que se gaba de ter uma das “melhores universidades” do país.
João Eichbaum
A notícia está na página política, mas bem que poderia estar numa coluna de humor.
A cidade de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, que se gaba de ter uma das maiores universidades do país, a UNISINOS, tem como prefeito um desses políticos que gostam de posar de arautos da decência. Currículo dele: Ari Vanazzi, político de profissão. Ele pertence ao PT, partido que, como qualquer outro da linha populista, quando está poder, se vale do maior multiplicador de votos que se conhece, chamado empreguismo. É uma mina, pois atrás de cada companheiro empregado existe, no mínimo, uma família: mulher ou marido, pais, irmãos, avós, tios, primos, etc.
Preparando a eleição de sua sucessora em São Leopoldo, o prefeito quis continuar usando o mesmo método, que o reelegeu, mas dessa vez se deu mal: a lei municipal que ele bolou, criando centenas de “cargos em comissão” foi denotada no Tribunal de Justiça, porque tava bichada: inconstitucional.
Agora, a Prefeitura terá que demitir todos os apadrinhados acoitados na folha de pagamento do município. São quase quatrocentos.
E o prefeito tá num rebolado nada gracioso. Quer declarar “estado de emergência”, anunciando, para quem quiser acreditar, que os serviços públicos vão entrar em colapso. E quer também “dialogar” com o Ministério Público e o Judiciário para saber, entre outras coisas, como deve ser feita uma lei de acordo com a Constituição.
Bom, a lista dos quase quatrocentos “cargos em comissão”, como bem dizem os números, é enorme. Mas vale apenas mencionar alguns dos “cargos” que exigem a decretação de “estado de emergência”: “diretores de diretoria” (sim, é como vocês estão lendo, não me enganei, não), assessores de tudo, inclusive de direito, (todo mundo sabe o que faz um “aspone”) diretores de “núcleo”, “chefes de equipe”, e por aí vai: só cacique. De índio o prefeitura não precisa. Ah, antes que me esqueça, dois cargos de “diretores” no gabinete da “primeira dama” (que deveria, na realidade, ser chamada de “quarta” dama, pelo número de mulheres que o extrovertido prefeito já emplacou no seu currículo).
A resposta que o Ministério Público dará ao prefeito, certamente, será essa: crie os cargos técnicos necessários para o funcionamento da máquina pública, a serem preenchidos por pessoas capazes, especialistas, com formação apropriada, através de concurso público; crie cargos de “assessores de direito”, que os mais capazes, escolhidos através de concurso, lhe ensinarão como se faz uma lei constitucional. Enquanto isso, os “companheiros bacharéis comissionados” deverão freqüentar um curso de alfabetização, para aprenderem a ler o art. 37, inc. V, da Constituição Federal.
De certa forma, concordo: mais do que “estado de emergência”, é de calamidade pública o caso do município de São Leopoldo, inundado por incompetência, semvergonhice, desperdício de dinheiro público e muita, muita, muita ignorância. O que, convenhamos, não combina com a cidade que se gaba de ter uma das “melhores universidades” do país.
sexta-feira, 26 de março de 2010
COM A PALAVRA, JANER CRISTALDO
CADÊ A PAPISA JOANA?
A cortesã mais famosa do Vaticano foi certamente Lucrécia Bórgia, amante do pai, o papa Alexandre VI, e também de seu irmão, o cardeal César Bórgia.
Rodrigo de Bórgia, como se chamava o pontífice eleito em 1492, graças à compra dos votos dos cardeais, foi quem patrocinou o famoso baile das castanhas, em que sessenta prostitutas nuas dançaram para os cardeais no Vaticano. Foram jogadas castanhas ao chão, e as bailarinas tinham de apanhá-las. Mas não com as mãos, diga-se de passagem. Foram concedidos prêmios aos homens que copulassem com mais mulheres naquela noite memorável.
Se o leitor quiser uma abordagem ficcional sobre Alexandre VI, pode procurar nas locadoras o belíssimo filme Contos Imorais, de 1974, do cineasta polonês Walerian Borowczyk. Enquanto Savonarola queima na fogueira, por ter denunciado os hábitos libertinos do Vaticano, uma Lucrécia nua (interpretada pela radiante Florence Bellamy), espichada sobre um corrimão do Vaticano, atende ao mesmo tempo o papa e o cardeal, estes devidamente paramentados com as vestes eclesiásticas. Tudo muito sacro e solene.
Isso sem falar no papado de Sérgio III, que inaugurou o período chamado pelos historiadores de pornocracia, como também de "reinado das prostitutas".
Mas o melhor da crônica é a história da papisa Joana. Segundo cronistas, no século IX uma mulher teria assumido a curul pontifícia, como sucessora do papa Leão IV, com o nome de João VIII. Originária da Alemanha, vestiu-se de homem e assumiu o nome de João da Inglaterra. Ficou na história como a papisa Joana. Em uma procissão da basílica de São Pedro até Latrão, acometido das dores do parto, o papa caiu do cavalo e fraturou o crânio, tendo morte imediata.A partir daí, as eleições papais exigiram a verificação do sexo do candidato. Antes da sagração, o eleito era instalado numa cadeira furada, o estercorário. O camerlengo passava então a mão pelo buraco, para examinar os documentos. Em caso positivo, proferia as palavras rituais: habemus papam.
Para a Igreja, tanto a papisa quanto o estercorário não passam de lenda, logo esta Igreja que considera como fato a virgindade de Maria e sua assunção aos céus. Si non è vero è ben trovato. Lenda ou fato, vale a imagem.
Falar nisso, está faltando um filme nas telas do Brasil. Ano passado, o cineasta alemão Sönke Wortmann filmou o romance histórico A Papisa Joana, de Donna Woolfolk Cross, publicado em 1996. O filme foi concluído em julho passado e entrou nas telas alemãs em outubro. Cá neste país, sempre apressado em lançar abacaxis politicamente corretos tipo Avatar, sequer se ouve falar do filme de Wortmann.
Para os leitores que quiserem mais informações, avanço alguns títulos. Devo ter mais em minha biblioteca, mas estes já dão uma boa idéia do assunto:Histoire de l'inquisition au Moyen Âge, de Henry Charles Lea, Paris, Robert Lafont, 2004 - um clássico, o precursor de toda a literatura sobre a Inquisição. 1458 páginas. Recomendo vivamente.Enciclopedia de los herejes y las herejías, de Leonard George, Barcelona, Ediciones Robinbook, 1998.La véritable histoire des papes, Jean Mathieux-Rosay, Paris, Jacques Grancher, 1991.La chair, le diable et le confesseur, de Guy Bechtel, Paris, Librairie Plon, 1994.The Female Pope, por Rosemary & Darroll Pardoe, Wellingorough, Crucible, 1988. Tradução ao espanhol: El Papa mujer - El misterio de la Papisa Juana, Barcelona, Ediciones Martinez Roca, 1990.La Papisa Juana, de Emmanuel Royidis, Buenos Aires, Editorial Sudamericana, 1973.
A cortesã mais famosa do Vaticano foi certamente Lucrécia Bórgia, amante do pai, o papa Alexandre VI, e também de seu irmão, o cardeal César Bórgia.
Rodrigo de Bórgia, como se chamava o pontífice eleito em 1492, graças à compra dos votos dos cardeais, foi quem patrocinou o famoso baile das castanhas, em que sessenta prostitutas nuas dançaram para os cardeais no Vaticano. Foram jogadas castanhas ao chão, e as bailarinas tinham de apanhá-las. Mas não com as mãos, diga-se de passagem. Foram concedidos prêmios aos homens que copulassem com mais mulheres naquela noite memorável.
Se o leitor quiser uma abordagem ficcional sobre Alexandre VI, pode procurar nas locadoras o belíssimo filme Contos Imorais, de 1974, do cineasta polonês Walerian Borowczyk. Enquanto Savonarola queima na fogueira, por ter denunciado os hábitos libertinos do Vaticano, uma Lucrécia nua (interpretada pela radiante Florence Bellamy), espichada sobre um corrimão do Vaticano, atende ao mesmo tempo o papa e o cardeal, estes devidamente paramentados com as vestes eclesiásticas. Tudo muito sacro e solene.
Isso sem falar no papado de Sérgio III, que inaugurou o período chamado pelos historiadores de pornocracia, como também de "reinado das prostitutas".
Mas o melhor da crônica é a história da papisa Joana. Segundo cronistas, no século IX uma mulher teria assumido a curul pontifícia, como sucessora do papa Leão IV, com o nome de João VIII. Originária da Alemanha, vestiu-se de homem e assumiu o nome de João da Inglaterra. Ficou na história como a papisa Joana. Em uma procissão da basílica de São Pedro até Latrão, acometido das dores do parto, o papa caiu do cavalo e fraturou o crânio, tendo morte imediata.A partir daí, as eleições papais exigiram a verificação do sexo do candidato. Antes da sagração, o eleito era instalado numa cadeira furada, o estercorário. O camerlengo passava então a mão pelo buraco, para examinar os documentos. Em caso positivo, proferia as palavras rituais: habemus papam.
Para a Igreja, tanto a papisa quanto o estercorário não passam de lenda, logo esta Igreja que considera como fato a virgindade de Maria e sua assunção aos céus. Si non è vero è ben trovato. Lenda ou fato, vale a imagem.
Falar nisso, está faltando um filme nas telas do Brasil. Ano passado, o cineasta alemão Sönke Wortmann filmou o romance histórico A Papisa Joana, de Donna Woolfolk Cross, publicado em 1996. O filme foi concluído em julho passado e entrou nas telas alemãs em outubro. Cá neste país, sempre apressado em lançar abacaxis politicamente corretos tipo Avatar, sequer se ouve falar do filme de Wortmann.
Para os leitores que quiserem mais informações, avanço alguns títulos. Devo ter mais em minha biblioteca, mas estes já dão uma boa idéia do assunto:Histoire de l'inquisition au Moyen Âge, de Henry Charles Lea, Paris, Robert Lafont, 2004 - um clássico, o precursor de toda a literatura sobre a Inquisição. 1458 páginas. Recomendo vivamente.Enciclopedia de los herejes y las herejías, de Leonard George, Barcelona, Ediciones Robinbook, 1998.La véritable histoire des papes, Jean Mathieux-Rosay, Paris, Jacques Grancher, 1991.La chair, le diable et le confesseur, de Guy Bechtel, Paris, Librairie Plon, 1994.The Female Pope, por Rosemary & Darroll Pardoe, Wellingorough, Crucible, 1988. Tradução ao espanhol: El Papa mujer - El misterio de la Papisa Juana, Barcelona, Ediciones Martinez Roca, 1990.La Papisa Juana, de Emmanuel Royidis, Buenos Aires, Editorial Sudamericana, 1973.
quinta-feira, 25 de março de 2010
APRESENTAÇÃO DESNECESSÁRIA
Este blog, a partir de hoje, está mais enriquecido. O estilo escorreito, a palavra fácil e o texto cativante (o leitor fica preso nele até a última linha) do Paulo Marinho me deslumbram há mais de uma década. Suas crônicas nos jornais do Grupo Sinos me imantaram de tal modo que não descansei, enquanto não o conheci pessoalmente. Ele é o tipo de escritor que desperta esse sentimento na gente: tenho que conhecer esse cara, pra ver se ele tem a cara das crônicas que escreve. Por isso, a desnecessidade de apresentação: as crônicas nos apresentam seu autor.
Quero repartir com meus amigos a alegria de lê-lo. De lá de Goiânia, onde se arranchou, Paulo Marinho vai nos divertir, nos fazer pensar e, quem sabe, até chorar.
Exéquias
Paulo Marinho
A carreata com o cadáver do doutor Cazuza descia a ladeira solenemente. O morto finara-se na tarde anterior, de uma insólita congestão de arroz de carreteiro. A viúva, madame Eurápia, cuidou para que o último e agonizante pedido dele – de que os amigos, à guisa de despedida, circundassem com ele a praça da cidade antes do enterro – fosse cumprido à risca.
Aconteceu que na ladeira oposta, em igual formação, desciam os componentes de outro cortejo, festejando os recém casados Herculano e Eufrasina. Estes formavam séquito semelhante àquele que acompanhava o falecido Cazuza, a diferenciar-se somente pela barulheira que protagonizavam, com fogos e buzinações. Também vinham à indiana, embora mais desordenados.
Então, aconteceu: ambas as fileiras chegaram simultaneamente no cruzamento ali existente. Não se sabe se quem avançou a preferencial foi o carro com o esquife, por desatenção do funerário Argemiro, ou se foi o do noivo, Herculano, que estava mais preocupado em esfregar as coxas de Eufrasina, do que com o trajeto. O que se viu foram os automóveis embarafustando-se entre si, como nervosas formigas antes de um aguaceiro.
Depois de rodarem lado a lado, ultrapassando-se, cortando-se as frentes, a maioria rompeu para destinos opostos. Enquanto alguns dos convidados dos nubentes acostavam na capela mortuária, os vários tristonhos coevos do morto foram parar na sede social do Clube Comercial, preparado para a festa de casamento. Inclusive o defunto.
No Clube, os do velório, embora surpreendidos com o salão enfeitado, com a alegria reinante, principalmente com a bandinha tocando polcas, acabaram aceitando o chope, e colocaram-se ao lado do caixão (estrategicamente posicionado onde deveria estar o bifê) com sua melhor cara de enterro. Os do casório que lograram chegar ao lugar certo, ao verem a urna funerária, pensando se tratar de uma brincadeira, davam vivas à ocasião, rindo aos borbotões.
Na capela, os convidados para o casório, sem se dar conta da confusão, apearam dos carros e se perfilaram num corredor polonês, misturados entre parentes do morto, a espera dos noivos. Os do velório não entendiam a alegria destes, que esfregavam as mãos e se cutucavam a todo o instante, portando inexplicáveis e largos sorrisos. Entenderam muito menos quando a viúva, ao surgir choramingando, quase foi soterrada por uma chuva de grãos de arroz, o que para a coitada foi como falar de corda em casa de enforcado. Acometida de um ataque de fúria, a pobre investiu contra a turba, derrubando o bolo de casamento, que acabara de ser acomodado no estrado onde deveria estar o falecido. Ato contínuo, madrinhas da noiva se atracaram nas carpideiras.
No clube, primos do morto saíam aos socos com garçons. Abandonado, o doutor Cazuza jazia sem os sapatos, os quais rodavam para lá e para cá em meio ao caos, angariando fundos para a lua de mel dos pombinhos, que por sua vez, alheios a tudo, se amavam loucamente numa cova aberta no cemitério. Um horror, um horror.
Quero repartir com meus amigos a alegria de lê-lo. De lá de Goiânia, onde se arranchou, Paulo Marinho vai nos divertir, nos fazer pensar e, quem sabe, até chorar.
Exéquias
Paulo Marinho
A carreata com o cadáver do doutor Cazuza descia a ladeira solenemente. O morto finara-se na tarde anterior, de uma insólita congestão de arroz de carreteiro. A viúva, madame Eurápia, cuidou para que o último e agonizante pedido dele – de que os amigos, à guisa de despedida, circundassem com ele a praça da cidade antes do enterro – fosse cumprido à risca.
Aconteceu que na ladeira oposta, em igual formação, desciam os componentes de outro cortejo, festejando os recém casados Herculano e Eufrasina. Estes formavam séquito semelhante àquele que acompanhava o falecido Cazuza, a diferenciar-se somente pela barulheira que protagonizavam, com fogos e buzinações. Também vinham à indiana, embora mais desordenados.
Então, aconteceu: ambas as fileiras chegaram simultaneamente no cruzamento ali existente. Não se sabe se quem avançou a preferencial foi o carro com o esquife, por desatenção do funerário Argemiro, ou se foi o do noivo, Herculano, que estava mais preocupado em esfregar as coxas de Eufrasina, do que com o trajeto. O que se viu foram os automóveis embarafustando-se entre si, como nervosas formigas antes de um aguaceiro.
Depois de rodarem lado a lado, ultrapassando-se, cortando-se as frentes, a maioria rompeu para destinos opostos. Enquanto alguns dos convidados dos nubentes acostavam na capela mortuária, os vários tristonhos coevos do morto foram parar na sede social do Clube Comercial, preparado para a festa de casamento. Inclusive o defunto.
No Clube, os do velório, embora surpreendidos com o salão enfeitado, com a alegria reinante, principalmente com a bandinha tocando polcas, acabaram aceitando o chope, e colocaram-se ao lado do caixão (estrategicamente posicionado onde deveria estar o bifê) com sua melhor cara de enterro. Os do casório que lograram chegar ao lugar certo, ao verem a urna funerária, pensando se tratar de uma brincadeira, davam vivas à ocasião, rindo aos borbotões.
Na capela, os convidados para o casório, sem se dar conta da confusão, apearam dos carros e se perfilaram num corredor polonês, misturados entre parentes do morto, a espera dos noivos. Os do velório não entendiam a alegria destes, que esfregavam as mãos e se cutucavam a todo o instante, portando inexplicáveis e largos sorrisos. Entenderam muito menos quando a viúva, ao surgir choramingando, quase foi soterrada por uma chuva de grãos de arroz, o que para a coitada foi como falar de corda em casa de enforcado. Acometida de um ataque de fúria, a pobre investiu contra a turba, derrubando o bolo de casamento, que acabara de ser acomodado no estrado onde deveria estar o falecido. Ato contínuo, madrinhas da noiva se atracaram nas carpideiras.
No clube, primos do morto saíam aos socos com garçons. Abandonado, o doutor Cazuza jazia sem os sapatos, os quais rodavam para lá e para cá em meio ao caos, angariando fundos para a lua de mel dos pombinhos, que por sua vez, alheios a tudo, se amavam loucamente numa cova aberta no cemitério. Um horror, um horror.
quarta-feira, 24 de março de 2010
NÓS, PRIMATAS
FREIRAS EM CASA DE MASSAGEM
João Eichbaum
Ela não tinha segundo grau completo, nem profissão. Em compensação era dona de um belo corpo: esguio e bem traçado. No rosto claro, tendo como pano de fundo os cabelos negros, o que chamavam a atenção eram os olhos puxados.
Tocava-lhe administrar o parco orçamento da família, cuja receita era composta pelos proventos mínimos de aposentadoria do pai e das eventuais faxinas domésticas a cargo da mãe. Resultado: “déficit” mensal galopante.
Resolveu partir para a batalha então, botou casa de massagem.
Ah, antes que me esqueça, era noiva e o noivo, por motivos que nem é preciso explicar, não podia saber do tino dela para esse tipo de negócio. Para todos os efeitos iria trabalhar numa estética feminina. A fim de evitar flagrante do noivo, embora nem o endereço ele soubesse, foi com o nome de estética que montou o comércio das atividades ardentes sem roupa. E mais: fez convênio com salão de beleza, que não operava com massagens, para que lhe enviassem as damas necessitadas por estresse, dores na coluna, ou simples necessidade de relaxamento. Negócio fechado, à base de 50% de comissão.
Tudo com hora marcada, para não haver encontro de damas interessadas em massagem e machos interessados em sexo, na sala de espera. As “gurias” por ela contratadas tinham muitas horas de voo e sabiam encenar, ao receber as pessoas: ficavam com os machos e mandavam para ela as moças e senhoras.
Como hoje em dia não há mulheres inocentes em matéria de sexo, porque as novelas ensinam tudo, os gemidos ardentes na sala do lado, ligeiramente abafados pela música de fundo, não provocavam a mínima reação das clientes.
Até que um dia o salão de beleza encaminhou para massagem um grupo de freiras de uma escola.
Aí, sim, a coisa enroscou. As gurias não podiam gemer, nem sinalizar, com decibéis ardentes, os orgasmos profissionais. Quando os homens abriam a boca para reclamar, elas estavam orientadas a lhes colocar carinhosamente a mão ou outra coisa na boca, para que eles calassem, enquanto se divertiam, tal e qual se faz com uma criança que ameaça chorar.
Enquanto isso, na sala ao lado, separada por “divisórias”, as freirinhas, nuas, mostrando os seios durinhos, os corpos branquinhos, mas sarados, nenhuma balofa com jeito de madre superiora, se entregavam aos toques mágicos das mãos dela, suspiravam com ingênuo prazer, algumas até cochilavam, quem sabe sonhando com aquilo que o Espírito Santo fez na Virgem Maria.
Aos poucos, porém, os machos foram sabendo da massagem paralela e, à medida que o sabiam, se afastavam. Não só o sexo sem conteúdo, isto é, sem gemidos, como a possibilidade de baterem de cara com alguma amiga de sua mulher ou com a freira diretora da escola, os foram afastando da casa. Eles iam lá à procura de coisas diferentes, mas não tão diferentes assim, como o sexo abafado, sem os rumores pertinentes, que exige esforço quase sobrenatural.
Desgostosas com a grana magra que começou a pintar, as “gurias”, aos poucos, foram abandonando o barco. No fim, ficou só ela para atender freiras e machos, e enfrentou o maior dilema: não podia dispensar as freiras para atender só os machos, mas não podia também dispensar os machos para atender só as freiras. Quando se deu por conta, estava também estressada, pisando em ovos, por medo que a farsa fosse descoberta.
Fechou a casa e foi vender “empréstimos” para aposentados. É possível que você, algum dia, seja abordado por ela. Então, tenha compaixão e faça um empréstimo, que será descontado dos seus proventos de aposentadoria.
João Eichbaum
Ela não tinha segundo grau completo, nem profissão. Em compensação era dona de um belo corpo: esguio e bem traçado. No rosto claro, tendo como pano de fundo os cabelos negros, o que chamavam a atenção eram os olhos puxados.
Tocava-lhe administrar o parco orçamento da família, cuja receita era composta pelos proventos mínimos de aposentadoria do pai e das eventuais faxinas domésticas a cargo da mãe. Resultado: “déficit” mensal galopante.
Resolveu partir para a batalha então, botou casa de massagem.
Ah, antes que me esqueça, era noiva e o noivo, por motivos que nem é preciso explicar, não podia saber do tino dela para esse tipo de negócio. Para todos os efeitos iria trabalhar numa estética feminina. A fim de evitar flagrante do noivo, embora nem o endereço ele soubesse, foi com o nome de estética que montou o comércio das atividades ardentes sem roupa. E mais: fez convênio com salão de beleza, que não operava com massagens, para que lhe enviassem as damas necessitadas por estresse, dores na coluna, ou simples necessidade de relaxamento. Negócio fechado, à base de 50% de comissão.
Tudo com hora marcada, para não haver encontro de damas interessadas em massagem e machos interessados em sexo, na sala de espera. As “gurias” por ela contratadas tinham muitas horas de voo e sabiam encenar, ao receber as pessoas: ficavam com os machos e mandavam para ela as moças e senhoras.
Como hoje em dia não há mulheres inocentes em matéria de sexo, porque as novelas ensinam tudo, os gemidos ardentes na sala do lado, ligeiramente abafados pela música de fundo, não provocavam a mínima reação das clientes.
Até que um dia o salão de beleza encaminhou para massagem um grupo de freiras de uma escola.
Aí, sim, a coisa enroscou. As gurias não podiam gemer, nem sinalizar, com decibéis ardentes, os orgasmos profissionais. Quando os homens abriam a boca para reclamar, elas estavam orientadas a lhes colocar carinhosamente a mão ou outra coisa na boca, para que eles calassem, enquanto se divertiam, tal e qual se faz com uma criança que ameaça chorar.
Enquanto isso, na sala ao lado, separada por “divisórias”, as freirinhas, nuas, mostrando os seios durinhos, os corpos branquinhos, mas sarados, nenhuma balofa com jeito de madre superiora, se entregavam aos toques mágicos das mãos dela, suspiravam com ingênuo prazer, algumas até cochilavam, quem sabe sonhando com aquilo que o Espírito Santo fez na Virgem Maria.
Aos poucos, porém, os machos foram sabendo da massagem paralela e, à medida que o sabiam, se afastavam. Não só o sexo sem conteúdo, isto é, sem gemidos, como a possibilidade de baterem de cara com alguma amiga de sua mulher ou com a freira diretora da escola, os foram afastando da casa. Eles iam lá à procura de coisas diferentes, mas não tão diferentes assim, como o sexo abafado, sem os rumores pertinentes, que exige esforço quase sobrenatural.
Desgostosas com a grana magra que começou a pintar, as “gurias”, aos poucos, foram abandonando o barco. No fim, ficou só ela para atender freiras e machos, e enfrentou o maior dilema: não podia dispensar as freiras para atender só os machos, mas não podia também dispensar os machos para atender só as freiras. Quando se deu por conta, estava também estressada, pisando em ovos, por medo que a farsa fosse descoberta.
Fechou a casa e foi vender “empréstimos” para aposentados. É possível que você, algum dia, seja abordado por ela. Então, tenha compaixão e faça um empréstimo, que será descontado dos seus proventos de aposentadoria.
terça-feira, 23 de março de 2010
CRÔNICAS NÃO POLÍTICAS
APENAS UMA QUESTÃO DE GOSTO
Paulo Wainberg
Tenho certeza e, sempre que posso, reafirmo, como um princípio categórico e norma de vida: mulher, política, religião, tamanho de seios, marca de automóvel, rabanetes, beterrabas, futebol, cor de batom, rúcula, cinema, Fórmula Um e sorvete de maracujá, dentre várias outras coisas, não se discute.
A única coisa sobre a qual se pode discutir, sem risco de arrumar uma briga, um inimigo ou levar um soco na cara é: Gosto!
Gosto, podemos discutir valentemente, expressar nossa preferência sem ofender, magoar e irritar o oponente.
Fiel a esse princípio, sinto-me à vontade para dizer que não gosto do Partido dos Trabalhadores, dos seus membros, de seus diretores, de seus representantes públicos, prefeitos, deputados, senadores, desculpem o palavrão.
Não gosto do modo como eles destorcem a verdade para provar suas teses, da mania de desqualificar os oponentes para ganhar a discussão, da soberba, típica de quem se sente o dono da verdade, do viés autoritário que norteia suas condutas.
Não gosto da maneira como eles corrompem e se corrompem, da forma como mentem e da absoluta intransigência com opiniões contrárias. Não é uma questão particular, não falo de um ou de outro. Falo do todo. E não gosto do todo.
Não gosto do modo como eles aparelham o Estado, não gosto do plano de poder, não gosto de suas alas e correntes, inclusive e sobretudo a stalinista com seus bigodudos, a castrista com seus barbudos e as agrárias com seus movimentos armados.
Aos mais apressados, atenção! Estou falando de uma questão de Gosto, não se trata de Política, podemos discutir meu Gosto à vontade, sem receio de nos engalfinharmos, caso o Gosto de Vossas Senhorias seja diferente do meu.
Não gosto do MST, um dos braços armados do PT e não gosto do CPERS, um dos braços desarmados do PT.
Para quem não sabe, o CPERS/Sindicato é o sindicato dos professores, aqui no RS, especialista em promover greves inúteis, que causam transtornos a alunos, famílias e população. Não que não tenha direito à greve.
Gosto do direito dos trabalhadores de fazer greve, desde que seja uma greve corporativa, destinada a reais mudanças, quando elas são necessárias.
Não gosto da greve inútil, sabidamente destinada ao fracasso, quando exige o impossível, quando recusam a negociação, coisa que, lamento dizer a quem gosta, é uma especialidade do CEPERS/Sindicato.
Greve para desestabilizar o governo e garantir lucros eleitorais futuros.
Salvo quando, uma única vez, o PT governou o Rio Grande do Sul e atrasou o Estado em pelo menos 15 anos (aí já é opinião, me arrisco a receber pauladas...).
Então, o CPERS/Sindicato agia com doçura amena, pois identificava a ‘vontade política’ do Governo em resolver as suas pautas reinvidicatórias e aceitava a impossibilidade real de cumpri-las, com tênues protestos engambelatórios, na falsa tentativa de aparentar independência.
Para o CPERS/Sindicato os demais governos não atendem suas pautas de reivindicações por falta de vontade política: Os governantes que não pertencem ao PT querem que os professores morram de fome, querem que os trabalhadores em educação não tenham o mínimo necessário para exercerem sua função.
Não gosto disso, acho uma falácia, mais um grande sofisma petista a torturar meu coração.
Mas o que não gosto mesmo, no CPERS/Sindicato, é que eles não admitem ser chamados de professores!!!
Exatamente, minha senhora! O seu filho, na escola, não tem aula com professores e sim com Trabalhadores em Educação, nova designação que o sindicato dos professores usa para definir sua profissão!
Se a moda pega, os escritores devem abandonar a qualificação de escritores, exigindo serem chamados de Trabalhadores em Letras Literárias
Eletricistas serão Trabalhadores em Fiação e Voltagem.
Cantores líricos serão Trabalhadores em Melodrama (estrito senso), ‘Melo’ é garganta e drama é drama, portanto Ópera.
Prostituas passarão a ser Trabalhadoras em Fornecimento de Sexo Remunerado e gigolôs serão conhecidos como Trabalhadores em Explorar Prostitutas.
Eu mesmo deixarei de ser advogado e me transformarei num Trabalhador em Encontrar as Leis que Favorecem os Meus clientes.
Trabalhadores em Educação, distinto público, é dose!
Para o meu gosto, ressalto.
Por favor, não se enerve.
Veja-se que a preposição “em”, logo após a palavra Trabalhadores, é um achado lingüístico, um preciosismo ortográfico a distinguir, nobremente, meros trabalhadores, comuns, no comercio, bancos e até mesmo, ó horror, trabalhadores donos de empresas, daqueles exponenciais trabalhadores em educação’.
“Trabalhadores em Educação” possui tom erudito, um que se adquire ao afirmar que está estudando “a consciência política” em T.S.Eliott”, a “abrangência etno-mitológica em Wagner”, o “estilo epistolar em Rilke”, ou o “argumento pré-natal do ego no uso da palavra ‘joie’ em Jean-Luc Goddard”.
Por isso, ao chamar um membro do CPERS de ‘professor’, prepare-se para forte retaliação. Para a barulhenta entidade, professor que se preze não é professor, é trabalhador em educação!
Imagine a sala de aula: o aluno ergue o braço e pergunta:
– Dona trabalhadora em educação de geografia, não entendi onde ficam os limites do País!
– Dona trabalhadora em educação de educação física, não consigo fazer mais abdominais!
– ‘Seu’ trabalhador em educação de matemática, o que é mesmo um logaritmo?
– Professora, posso ir ao banheiro?
– Ponha-se daqui para fora, seu mal-educado. Direto para a Secretária! Como ousa me chamar de professora? Não sabe que sou uma trabalhadora em educação?
Ou, na reunião de pais e mestres, o pai, preocupado:
– Senhora trabalhadora em educação, Diretora da Escola, como vamos resolver o problema da segurança na saída das aulas?
Não gosto dos eufemismo petistas, de suas linhas doutrinárias, de suas cartilhas ideológicas, de seus dogmas, de seu cinismo e de sua política de baixo nível e maquiavélica, diante da qual vale tudo para ganhar cargos, eleições e, na pior hipótese, ocupar espaços na mídia.
Petistas jamais admitirão que jogam segundo o preceito ‘o fim justifica os meios’ e valem-se de sofismas mis, a demonstrar que o óbvio não é que parece.
Não que eu goste disso em outros partidos. Não gosto mesmo!
Não gosto do saco de gatos oportunista do PMDB, nem de seus eternos senadores e deputados, os mesmo que deram aparência institucional à Ditadura militar.
Também não gosto da vaidade pavonesca, vazia, oca e inerte do PSDB, fundado para ser o lado ‘ético’ do PMDB (quaquaqua, desculpe, não pude conter o riso)
Mas os outros, pelo menos, fazem menos barulho a respeito das próprias (e falsas) virtudes. E quando são descobertas suas falcatruas, não estão desiludindo ninguém, porque há muito abandonaram a idéia de vender idoneidade ao interesse público, eleitores e cidadãos em geral.
O tema me conduz, inevitavelmente, ao Presidente Lula e à questão que não paro de me fazer: gosto ou não gosto dele?
E, com toda sinceridade, acho que gosto mais do que desgosto.
Para início da discussão sobre Gosto, considero Lula uma espécie de gênio não lapidado da política.
E ainda bem que é não lapidado.
Um pouco mais de polimento e de cultura e estaríamos diante de um dos mais encantadores e tirânicos aspirantes à Ditador que o mundo já produziu.
Porém, assim como ele é, afirmando e negando, como se fossem banalidades, questões essenciais da política e da economia, em linguagem simples e repetitiva, usando e abusando de metáforas incongruentes e parábolas sem sentido, com encantador carisma, Lula galga, Lula sobe, Lula postula e Lula consegue.
Nunca antes, na história deste País, um Presidente da República visitou Israel.
Dentre os inúmeros dogmas lulistas, de originalidade primitiva, este é totalmente verdadeiro.
E ele chega lá com a maior simplicidade, dá um discurso dizendo ser favorável ao Estado de Israel independente e ao Estado Palestino independente, como se, nunca antes neste Planeta, um Presidente de um País tivesse feito tal afirmação.
E comporta-se sem nenhum constrangimento, nem mesmo o de ter recebido o presidente do Irã que, pública e manifestamente nega a ocorrência do Holocausto nazista e prega a destruição definitiva de Israel. E de, com ele, ter estabelecido relações diplomáticas e convênios de mútua cooperação comercial.
Assim como não se constrange ao afirmar que os dissidentes do regime de Cuba são terroristas, ao apoiar ditaduras tão cruéis quanto anacrônicas dos irmãos Castro em Cuba, da Coréia do Norte e das pretensões dignas de filmes de pastelão, de títeres como Hugo Chaves e Evo Morales, além do cara aquele do Equador, cujo nome esqueci e não vou me dar ao trabalho de procurar no Google.
A diferença é que, nas comédias de pastelão, o efeito é a gargalhada. Nos governos desses indivíduos está o desrespeito aos direitos, aos direitos humanos, à democracia e à liberdade. Incluindo-se, no rol, o racismo quase explícito, manifestado pela discriminação de minorias e censura.
Lula, cujo pensamento político moldou-se na luta sindical, contra o capitalismo, o liberalismo, o neo-liberalismo e a globalização, entretanto e como se não fosse com ele, adota e implanta uma política econômica no País exatamente de acordo com tudo aquilo que, antes, era contra. Inclusive o FMI, cuja conta foi uma das primeiras que pagou e para quem, hoje, empresta.
Lula, que quando explodiu a crise do mensalão, veio à televisão dizer-se traído, afirmar ao Pais a sua total ignorância sobre o caso, demitiu seu ministro-chefe da casa civil, o plenipotenciário José Dirceu e exigiu mudanças radicais no comando de seu partido, o PT. E agora, ultrapassada a fase aguda da crise, admite que foi informado do esquema em reunião com Roberto Jefferson e várias testemunhas.
Lula, que, nos seus bons tempos sindicais, só faltou chamar José Sarney de demônio do mal e que, agora que o País sabe que, nisso Lula tinha razão, exige que seus aliados levem em consideração que “Sarney tem uma história a ser respeitada” e que o Senado não pode ignorar essa história.
Planando – no aerolula – sobre todas e tamanhas contradições, Lula é o Presidente que tem o maior índice de aceitação na história deste País.
Por que? Porque ele é um bom Presidente, porque a economia vai bem, porque a miséria diminui, o desemprego diminui, o analfabetismo diminui e a Polícia Federal não dá sossego aos corruptos.
A Humanidade nos mostra que as pessoas são julgadas, não pelo que pensam, não pelo que querem, e sim pelo que fazem.
Lula faz, faz muito. Erra e acerta. Mas está sempre fazendo. Vocês podem não gostar da bolsa-família, por exemplo. Mas quem a recebe gosta, sente-se agradecido e adquire, ainda que de forma rudimentar, noção de inclusão, de pertencer, de cidadania.
Pode-se não gostar das tentativas de protagonizar de Lula, mas ele está protagonizando.
Pode-se não gostar da ida de Lula a Israel, mas ele foi. Pode-se não gostar da ida de Lula aos territórios palestinos, mas ele foi. E pode-se não gostar do que parece ser um indício de megalomania, quando Lula se coloca à frente e à disposição para contribuir com o fim do conflito no Oriente Médio, mas ele se colocou.
É por essas e por outras, fiel ao meu Gosto e respeitando o seu, é que me posiciono, ‘duela a quien duela’: não voto em absolutamente ninguém do PT, nem mesmo para síndico do meu edifício, caso eu morasse num, nem mesmo para chefe da minha torcida organizada, caso eu tivesse uma, nem mesmo para presidente da Associação dos Amigos da Bocha, caso eu jogasse bocha.
Não há hipótese.
Questão de Gosto, discutível portanto, sem ofensa e sem bofetada.
Mas, provavelmente, com toda a força da minha consciência, votaria no Lula, em outro futuro.
Paulo Wainberg
Tenho certeza e, sempre que posso, reafirmo, como um princípio categórico e norma de vida: mulher, política, religião, tamanho de seios, marca de automóvel, rabanetes, beterrabas, futebol, cor de batom, rúcula, cinema, Fórmula Um e sorvete de maracujá, dentre várias outras coisas, não se discute.
A única coisa sobre a qual se pode discutir, sem risco de arrumar uma briga, um inimigo ou levar um soco na cara é: Gosto!
Gosto, podemos discutir valentemente, expressar nossa preferência sem ofender, magoar e irritar o oponente.
Fiel a esse princípio, sinto-me à vontade para dizer que não gosto do Partido dos Trabalhadores, dos seus membros, de seus diretores, de seus representantes públicos, prefeitos, deputados, senadores, desculpem o palavrão.
Não gosto do modo como eles destorcem a verdade para provar suas teses, da mania de desqualificar os oponentes para ganhar a discussão, da soberba, típica de quem se sente o dono da verdade, do viés autoritário que norteia suas condutas.
Não gosto da maneira como eles corrompem e se corrompem, da forma como mentem e da absoluta intransigência com opiniões contrárias. Não é uma questão particular, não falo de um ou de outro. Falo do todo. E não gosto do todo.
Não gosto do modo como eles aparelham o Estado, não gosto do plano de poder, não gosto de suas alas e correntes, inclusive e sobretudo a stalinista com seus bigodudos, a castrista com seus barbudos e as agrárias com seus movimentos armados.
Aos mais apressados, atenção! Estou falando de uma questão de Gosto, não se trata de Política, podemos discutir meu Gosto à vontade, sem receio de nos engalfinharmos, caso o Gosto de Vossas Senhorias seja diferente do meu.
Não gosto do MST, um dos braços armados do PT e não gosto do CPERS, um dos braços desarmados do PT.
Para quem não sabe, o CPERS/Sindicato é o sindicato dos professores, aqui no RS, especialista em promover greves inúteis, que causam transtornos a alunos, famílias e população. Não que não tenha direito à greve.
Gosto do direito dos trabalhadores de fazer greve, desde que seja uma greve corporativa, destinada a reais mudanças, quando elas são necessárias.
Não gosto da greve inútil, sabidamente destinada ao fracasso, quando exige o impossível, quando recusam a negociação, coisa que, lamento dizer a quem gosta, é uma especialidade do CEPERS/Sindicato.
Greve para desestabilizar o governo e garantir lucros eleitorais futuros.
Salvo quando, uma única vez, o PT governou o Rio Grande do Sul e atrasou o Estado em pelo menos 15 anos (aí já é opinião, me arrisco a receber pauladas...).
Então, o CPERS/Sindicato agia com doçura amena, pois identificava a ‘vontade política’ do Governo em resolver as suas pautas reinvidicatórias e aceitava a impossibilidade real de cumpri-las, com tênues protestos engambelatórios, na falsa tentativa de aparentar independência.
Para o CPERS/Sindicato os demais governos não atendem suas pautas de reivindicações por falta de vontade política: Os governantes que não pertencem ao PT querem que os professores morram de fome, querem que os trabalhadores em educação não tenham o mínimo necessário para exercerem sua função.
Não gosto disso, acho uma falácia, mais um grande sofisma petista a torturar meu coração.
Mas o que não gosto mesmo, no CPERS/Sindicato, é que eles não admitem ser chamados de professores!!!
Exatamente, minha senhora! O seu filho, na escola, não tem aula com professores e sim com Trabalhadores em Educação, nova designação que o sindicato dos professores usa para definir sua profissão!
Se a moda pega, os escritores devem abandonar a qualificação de escritores, exigindo serem chamados de Trabalhadores em Letras Literárias
Eletricistas serão Trabalhadores em Fiação e Voltagem.
Cantores líricos serão Trabalhadores em Melodrama (estrito senso), ‘Melo’ é garganta e drama é drama, portanto Ópera.
Prostituas passarão a ser Trabalhadoras em Fornecimento de Sexo Remunerado e gigolôs serão conhecidos como Trabalhadores em Explorar Prostitutas.
Eu mesmo deixarei de ser advogado e me transformarei num Trabalhador em Encontrar as Leis que Favorecem os Meus clientes.
Trabalhadores em Educação, distinto público, é dose!
Para o meu gosto, ressalto.
Por favor, não se enerve.
Veja-se que a preposição “em”, logo após a palavra Trabalhadores, é um achado lingüístico, um preciosismo ortográfico a distinguir, nobremente, meros trabalhadores, comuns, no comercio, bancos e até mesmo, ó horror, trabalhadores donos de empresas, daqueles exponenciais trabalhadores em educação’.
“Trabalhadores em Educação” possui tom erudito, um que se adquire ao afirmar que está estudando “a consciência política” em T.S.Eliott”, a “abrangência etno-mitológica em Wagner”, o “estilo epistolar em Rilke”, ou o “argumento pré-natal do ego no uso da palavra ‘joie’ em Jean-Luc Goddard”.
Por isso, ao chamar um membro do CPERS de ‘professor’, prepare-se para forte retaliação. Para a barulhenta entidade, professor que se preze não é professor, é trabalhador em educação!
Imagine a sala de aula: o aluno ergue o braço e pergunta:
– Dona trabalhadora em educação de geografia, não entendi onde ficam os limites do País!
– Dona trabalhadora em educação de educação física, não consigo fazer mais abdominais!
– ‘Seu’ trabalhador em educação de matemática, o que é mesmo um logaritmo?
– Professora, posso ir ao banheiro?
– Ponha-se daqui para fora, seu mal-educado. Direto para a Secretária! Como ousa me chamar de professora? Não sabe que sou uma trabalhadora em educação?
Ou, na reunião de pais e mestres, o pai, preocupado:
– Senhora trabalhadora em educação, Diretora da Escola, como vamos resolver o problema da segurança na saída das aulas?
Não gosto dos eufemismo petistas, de suas linhas doutrinárias, de suas cartilhas ideológicas, de seus dogmas, de seu cinismo e de sua política de baixo nível e maquiavélica, diante da qual vale tudo para ganhar cargos, eleições e, na pior hipótese, ocupar espaços na mídia.
Petistas jamais admitirão que jogam segundo o preceito ‘o fim justifica os meios’ e valem-se de sofismas mis, a demonstrar que o óbvio não é que parece.
Não que eu goste disso em outros partidos. Não gosto mesmo!
Não gosto do saco de gatos oportunista do PMDB, nem de seus eternos senadores e deputados, os mesmo que deram aparência institucional à Ditadura militar.
Também não gosto da vaidade pavonesca, vazia, oca e inerte do PSDB, fundado para ser o lado ‘ético’ do PMDB (quaquaqua, desculpe, não pude conter o riso)
Mas os outros, pelo menos, fazem menos barulho a respeito das próprias (e falsas) virtudes. E quando são descobertas suas falcatruas, não estão desiludindo ninguém, porque há muito abandonaram a idéia de vender idoneidade ao interesse público, eleitores e cidadãos em geral.
O tema me conduz, inevitavelmente, ao Presidente Lula e à questão que não paro de me fazer: gosto ou não gosto dele?
E, com toda sinceridade, acho que gosto mais do que desgosto.
Para início da discussão sobre Gosto, considero Lula uma espécie de gênio não lapidado da política.
E ainda bem que é não lapidado.
Um pouco mais de polimento e de cultura e estaríamos diante de um dos mais encantadores e tirânicos aspirantes à Ditador que o mundo já produziu.
Porém, assim como ele é, afirmando e negando, como se fossem banalidades, questões essenciais da política e da economia, em linguagem simples e repetitiva, usando e abusando de metáforas incongruentes e parábolas sem sentido, com encantador carisma, Lula galga, Lula sobe, Lula postula e Lula consegue.
Nunca antes, na história deste País, um Presidente da República visitou Israel.
Dentre os inúmeros dogmas lulistas, de originalidade primitiva, este é totalmente verdadeiro.
E ele chega lá com a maior simplicidade, dá um discurso dizendo ser favorável ao Estado de Israel independente e ao Estado Palestino independente, como se, nunca antes neste Planeta, um Presidente de um País tivesse feito tal afirmação.
E comporta-se sem nenhum constrangimento, nem mesmo o de ter recebido o presidente do Irã que, pública e manifestamente nega a ocorrência do Holocausto nazista e prega a destruição definitiva de Israel. E de, com ele, ter estabelecido relações diplomáticas e convênios de mútua cooperação comercial.
Assim como não se constrange ao afirmar que os dissidentes do regime de Cuba são terroristas, ao apoiar ditaduras tão cruéis quanto anacrônicas dos irmãos Castro em Cuba, da Coréia do Norte e das pretensões dignas de filmes de pastelão, de títeres como Hugo Chaves e Evo Morales, além do cara aquele do Equador, cujo nome esqueci e não vou me dar ao trabalho de procurar no Google.
A diferença é que, nas comédias de pastelão, o efeito é a gargalhada. Nos governos desses indivíduos está o desrespeito aos direitos, aos direitos humanos, à democracia e à liberdade. Incluindo-se, no rol, o racismo quase explícito, manifestado pela discriminação de minorias e censura.
Lula, cujo pensamento político moldou-se na luta sindical, contra o capitalismo, o liberalismo, o neo-liberalismo e a globalização, entretanto e como se não fosse com ele, adota e implanta uma política econômica no País exatamente de acordo com tudo aquilo que, antes, era contra. Inclusive o FMI, cuja conta foi uma das primeiras que pagou e para quem, hoje, empresta.
Lula, que quando explodiu a crise do mensalão, veio à televisão dizer-se traído, afirmar ao Pais a sua total ignorância sobre o caso, demitiu seu ministro-chefe da casa civil, o plenipotenciário José Dirceu e exigiu mudanças radicais no comando de seu partido, o PT. E agora, ultrapassada a fase aguda da crise, admite que foi informado do esquema em reunião com Roberto Jefferson e várias testemunhas.
Lula, que, nos seus bons tempos sindicais, só faltou chamar José Sarney de demônio do mal e que, agora que o País sabe que, nisso Lula tinha razão, exige que seus aliados levem em consideração que “Sarney tem uma história a ser respeitada” e que o Senado não pode ignorar essa história.
Planando – no aerolula – sobre todas e tamanhas contradições, Lula é o Presidente que tem o maior índice de aceitação na história deste País.
Por que? Porque ele é um bom Presidente, porque a economia vai bem, porque a miséria diminui, o desemprego diminui, o analfabetismo diminui e a Polícia Federal não dá sossego aos corruptos.
A Humanidade nos mostra que as pessoas são julgadas, não pelo que pensam, não pelo que querem, e sim pelo que fazem.
Lula faz, faz muito. Erra e acerta. Mas está sempre fazendo. Vocês podem não gostar da bolsa-família, por exemplo. Mas quem a recebe gosta, sente-se agradecido e adquire, ainda que de forma rudimentar, noção de inclusão, de pertencer, de cidadania.
Pode-se não gostar das tentativas de protagonizar de Lula, mas ele está protagonizando.
Pode-se não gostar da ida de Lula a Israel, mas ele foi. Pode-se não gostar da ida de Lula aos territórios palestinos, mas ele foi. E pode-se não gostar do que parece ser um indício de megalomania, quando Lula se coloca à frente e à disposição para contribuir com o fim do conflito no Oriente Médio, mas ele se colocou.
É por essas e por outras, fiel ao meu Gosto e respeitando o seu, é que me posiciono, ‘duela a quien duela’: não voto em absolutamente ninguém do PT, nem mesmo para síndico do meu edifício, caso eu morasse num, nem mesmo para chefe da minha torcida organizada, caso eu tivesse uma, nem mesmo para presidente da Associação dos Amigos da Bocha, caso eu jogasse bocha.
Não há hipótese.
Questão de Gosto, discutível portanto, sem ofensa e sem bofetada.
Mas, provavelmente, com toda a força da minha consciência, votaria no Lula, em outro futuro.
Assinar:
Postagens (Atom)