terça-feira, 30 de novembro de 2010

CRÔNICAS IMPUDICAS

HIPOCRISIA

João Eichbaum

A hipocrisia é um dos componentes radicais da estrutura anímica. Todo o animal a cultiva, no mínimo por exigência do instinto de sobrevivência. A tocaia, o ataque inesperado à descuidada vítima, menos por impulso de violência do que por necessidade do alimento, deve ter sido a primeira forma de hipocrisia.
Daí para diante, a dissimulação foi evoluindo à medida que evoluía o primata, esse tipo que desembocou na figura que conhecemos hoje como “homo sapiens”. Nessa evolução, o homem jamais abandonou essa companheira, que faz parte de sua estrutura bio-psicológica e a foi trabalhando, conforme o exigia sua necessidade de sobrevivência, de poder, ou de simples interesse pessoal.
Até que se tornou, em nossos tempos, oficial. Hoje, todo mundo é obrigado a ser hipócrita, como diz Simas, em seu excelente artigo, cheio de humor e verdade, publicado neste blog semana passada: negrão não pode ser chamado de negrão, bicha não pode ser chamado de bicha, sapatão não pode ser chamado de sapatão. Ah e, finalmente, todo o macho está obrigado a se tornar corno manso, porque se der uma surra na mulher que o corneou ele vai parar nas mãos da Maria da Penha.
Sem falar nos direitos humanos, uma das tantas outras hipocrisias, porque tais direitos só alguns os têm: os bandidos. Esses devem ser tratados como “seres humanos” cheios de direitos e prerrogativas, ao contrário das vítimas, de quem, depois de mortas, as autoridades não falam.
Claro que essa hipocrisia oficial só pode vir dos líderes, dos políticos. Ninguém mais hipócrita do que os políticos. A primeira condição para que alguém seja político é que saiba enganar, que saiba ludibriar, que saiba mentir com a maior cara de pau. Depois, o resto todo mundo já sabe: surgem as leis idiotas, as campanhas mentirosas. As leis de trânsito, por exemplo. Você pensa que a exigência do cinto de segurança é, primordialmente, para salvar sua vida? Aqui, ó! A verdadeira intenção do Estado é embolsar a multa. E por aí vai. O Estado mente que cuida de você, para se apossar do seu dinheiro. Porque aquilo que ele devia cuidar, não cuida: saúde, segurança, educação.
Ah, sim, e para não deixar sem comentário mais uma vez a hipocrisia oficial: a operação no Complexo do Alemão, não foi para garantir a segurança da população, mas, sim, para limpar a área e fazer bonito para a Copa do Mundo.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

COM A PALAVRA, JANER CRISTALDO

QUE TAL NAPALM?-
A que ponto chegamos... – me dizia um companheiro de boteco, a propósito dos recentes acontecimentos no Rio. Não me parece que seja o comentário mais pertinente. A meu ver, uma pergunta se impõe: como é que chegamos a esse ponto? E a resposta não me parece exigir argúcias de sociólogo ou urbanista.
Há um erro fundamental na concepção do Rio. Normalmente, os pontos mais privilegiados de uma geografia são de uso exclusivo dos ricos. Não sei se por falta de visão, ou talvez por preguiça, o carioca não quis subir o morro. Entregou-o às favelas. Que ficaram numa posição estratégica para atacar a cidade.
Todo brasileiro que um dia passou pela Costa Amalfitana, na Itália, terá tido uma estranha sensação de déjà-vu. Amalfi, Positano, Maiori, Minori, Ravello, nos remetem imediatamente aos morros cariocas. Com pelo menos duas diferenças. Para começar, quem os ocupa não é uma massa de miseráveis, mas uma elite endinheirada. Continuando, são cidades de lazer e trabalho, e não bantustões onde impera o tráfico de drogas.
O Rio nasceu errado. Não bastasse nascer errada, a cidade continuou torta existência afora. Lá surgiu, mais do que em nenhuma outra cidade do Brasil, uma convivência amistosa entre o lícito e o ilícito, entre a vida honesta e a criminalidade. O bicheiro é um personagem folclórico, que merece um tapinha nas costas, e os barões do bicho são personagens beneméritos que patrocinam desfiles de carnaval. Os traficantes assumiram brechas deixadas pelo Estado ou pela sociedade organizada e assumiram até mesmo a distribuição de luz ou gás nas favelas.Tudo isso contribui para um exótico modus vivendi, onde uma tênue fímbria separa o mundo do trabalho do mundo do crime. Para encanto dos europeus. Para um francês ou italiano, vir ao Brasil e não visitar a favela é como ir a Roma e não ver o papa. A bandidagem sabe disso e criou corredores especiais para uso de turistas. Quem organiza o turismo no morro não é o Estado, mas o tráfico. A polícia, particularmente durante o governo Brizola, participou de um afável acordo não de cavaleiros, mas de bandoleiros. Eu finjo que reprimo o tráfico, você finge que não vende drogas. Por favor, seja discreto na hora de entregar a muamba. No Rio, até o Cristo faz que não vê o que acontece sob seu olhar complacente.
Os grandes conflitos no Rio, de modo geral, não ocorrem entre polícia e bandidos, como seria a ordem natural das coisas, mas entre bandidos e bandidos, pela conquista de territórios. Em um país em que o desarmamento é imposição legal, os soldados do tráfico desfilam com a nonchalance dos justos, armados de fuzis que nem a polícia possui. Vai daí que um dia o Estado inventa de retomar o poder que deveria exercer e nunca exerceu. Tarde demais. A bandidagem reivindica usucapião. Durante muito tempo se discutiu se o poder paralelo das favelas deveria ser combatido pelas Forças Armadas. E durante muito tempo a resposta foi não. Não é função das Forças Armadas. A função das Forças Armadas é combater o inimigo externo. No Haiti, sim. Lá o Exército Nacional colabora voluntariamente na repressão ao crime. No Brasil, não é sua função. Talvez tenha sido esta intervenção no Haiti o que levou, finalmente, nossas autoridades militares a olhar para o descalabro dos morros.
Outro argumento é que soldados não estão preparados para combater o tráfico e podem ser contaminados pelo mesmo. Se assim se pensava ano passado, hoje assim não se pensa mais. Se estão ou não preparados, se serão ou não contaminados, só o futuro dirá. O que está acontecendo hoje no Rio é mais ou menos o que aconteceu na casbá de Argel, no final dos 50. Por razões diferentes, é claro. Estamos em plena guerrilha urbana e, cá com meus botões, me pergunto se guerrilha urbana se combate com tanques. O que as Forças Armadas têm feito por enquanto é expulsar a bandidagem de uma favela para outra. Segundo os jornais, há hoje seiscentos traficantes encurralados no morro do Alemão. Serão presos esses seiscentos? Me permito duvidar.
Outra peculiaridade nossa é que os generais do tráfico comandam a guerrilha de dentro... dos presídios. As ordens para ataques criminosos partiram dos traficantes Márcio Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, e Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco, de dentro do presídio federal de segurança máxima de Catanduvas (PR), afirma a Justiça do Rio. Os generais do tráfico sequer correm o risco de seus soldados. O estado maior esta protegido em presídios de segurança máxima. Os soldados estão sujeitos a chuvas (de bala) e trovoadas.Seus ordenanças são advogados, normalmente inscritos na Ordem dos Advogados do Brasil. Que esperança de vitória pode alimentar o Estado quando advogados são estafetas do alto comando da droga?Jornais e televisão estão saudando a investida das Forças Armadas como o dia D da guerra contra o tráfico, numa alusão ao desembarque das tropas aliadas na Normandia. Santa ilusão. Um batalhão de bandidos foi expulso de um morro para o outro e há centenas de morros no Rio, todos dominados pelo tráfico. Ficarão os militares permanentemente nos morros que estão ocupando? Claro que não ficarão. Quando saírem, a turma volta.
Mal o Estado marca um mísero pontinho na luta contra o tráfego, os incondicionais defensores dos tais de direitos humanos saem de suas confortáveis tocas. A Anistia Internacional criticou ontem em nota a atuação da polícia no Rio. Disse que a reação aos ataques do tráfico está colocando comunidades em risco e pode acabar em carnificina. Sob o título "violência no Rio de Janeiro condenada", a nota clama para que "as autoridades brasileiras ajam dentro da lei na resposta à onda de violência".
O guerrilheiro nada como um peixe no mar do povo, dizia Mao. Parafraseando o Grande Timoneiro: o traficante nada como um peixe no mar da favela. Há solução para o problema no tráfico no Rio? Eu diria que há, e são duas. A primeira é elementar. Legaliza-se de vez a droga e, no dia seguinte, sem um tiro sequer, não existe tráfico algum no país. A outra é um pouco mais polêmica: napalm.
Mas aí a Anistia Internacional vai chiar.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

CRÔNICAS CIBERNÉTICAS

EU TENHO BLOG!!
PAULO WAINBERG
http://paulowainberg.wordpress.com
Twitter.com/paulowainberg

Já posso me equiparar à uma criança de dez anos.
Nem imaginam como estou feliz.
Não, não estou me exibindo nem me gabando, jamais serei capaz de fazer o que ela faz, está além das minhas capacidades mentais, das físicas nem se fala.
Você deve ter percebido acima que, além de twitter, agora eu tenho um blog.
Isto mesmo, rapaz, eu tenho um blog!
Eu sei que você caiu de quatro, deve estar abismado e se perguntando:
– Como, ele fez um blog? O gênio cibernético que, quando lhe falaram em vírus de computador pela primeira vez, ficou com medo de entrar na sala para não ser infectado, fez um blog?
Respondo: Estou dizendo que tenho um blog, não que fiz um.
Sou um cara de sorte e possuo duas fadas madrinhas e um poltergeist do bem cuidando da minha vida literária.
A Tainã Bispo e o Gabriel Martins, da Editora Leya, me adotaram, cuidam de mim como seu eu fosse uma salada de berinjela ou um prato de azeitonas recheadas. E a Luciana Thomé, codinome Lu Thomé, que me assumiu como agente, divulgadora, organizadora e tudo o mais que se refira à minha carreira literária. Por ser uma agente é que ela tem um codinome. Há quem a chame de Lurdes, mas isso é questão de gosto.
Bom, essas três pessoas me introduziram no encantado mundo dos twitter e dos blogues sendo que neste último universo, apesar da boa vontade do Gabriel, que me passou um explicadíssimo negócio repleto de botões para eu fazer isto, aquilo e muito mais no meu blog, não ousei clicar em nenhum, com medo de que algo terrível aconteça do qual eu jamais me recupere.
No twitter, embora não entenda o funcionamento, faço as coisas sozinho, venço meus receios. O blog, a Lu Thomé (uso o codinome para não revelar sua identidade), tomou conta, tudo o que você encontrar lá é responsabilidade dela.
O facebook é por minha conta.
Sendo assim, doravante você lerá minhas crônicas no meu blog que, para quem não leu lá em cima, repito: HTTP://PAULOWAINBERG.WORDPRESS.COM, só que tudo em letra minúscula! Não vá se enganar.
Esta nova tecnologia, que passo a utilizar, traz a você a grande vantagem de não precisar ler nada meu, sobretudo as crônicas que fico enviando, toda a semana. Basta não entrar no meu blog, entendeu?
Infelizmente, e isto não posso evitar ainda, talvez quando eu alcançar a idade mental de 15 anos eu consiga, você vai receber a informação, no seu email, sobre novas postagens (no meu tempo postagem era enviar carta pelo correio), novas crônicas, textos, comentários e outras cositas más que se colocam, dizem, nos blogues.
Ah, a Lu me informou que vai postar também crônicas antigas, assim, não entrando no meu blog você poderá não ler várias coisas minhas, atuais e antigas.
O mais espetacular é que, caso você entre, poderá deixar mensagens, já pensou? Eu acho isso o máximo, deixar mensagens em blogues. Agora que tenho um, vou começar a fazer isto no dos outros.
Bem, é isto. Tenha respeito comigo, doravante. Afinal, eu uso essas coisas e poderia ser teu filho.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O CRAVO NÃO BRIGOU COM A ROSA

Luiz Antonio Simas,
mestre em História Social pela UFRJ
e professor de História do ensino médio.
Desenvolve pesquisas sobre a cultura popular carioca.


Chegamos ao limite da insanidade da onda do politicamente correto. Soube dia desses que as crianças, nas creches e escolas, não cantam mais O cravo brigou com a rosa. A explicação da professora do filho de um camarada foi comovente: a briga entre o cravo - o homem - e a rosa - a mulher - estimula a violência entre os casais. Na nova letra "o cravo encontrou a rosa/ debaixo de uma sacada/o cravo ficou feliz /e a rosa ficou encantada".
Que diabos é isso? O próximo passo é enquadrar o cravo na Lei Maria da Penha. Será que esses doidos sabem que O cravo brigou com a rosa faz parte de uma suíte de 16 peças que Villa Lobos criou a partir de temas recolhidos no folclore brasileiro?É Villa Lobos, cacete!Outra música infantil que mudou de letra foi Samba Lelê. Na versão da minha infância o negócio era o seguinte: Samba Lelê tá doente/ Tá com a cabeça quebrada/ Samba Lelê precisava/ É de umas boas palmadas. A palmada na bunda está proibida. Incita a violência contra a menina Lelê. A tia do maternal agora ensina assim: Samba Lelê tá doente/ Com uma febre malvada/ Assim que a febre passar/ A Lelê vai estudar.Se eu fosse a Lelê, com uma versão dessas, torcia pra febre não passar nunca. Os amigos sabem de quem é Samba Lelê? Villa Lobos de novo. Podiam até registrar a parceria. Ficaria assim: Samba Lelê, de Heitor Villa Lobos e Tia Nilda do Jardim Escola Criança Feliz.
Comunico também que não se pode mais atirar o pau no gato, já que a música desperta nas crianças o desejo de maltratar os bichinhos. Quem entra na roda dança, nos dias atuais, não pode mais ter sete namorados para se casar com um. Sete namorados é coisa de menina fácil. Ninguém mais é pobre ou rico de marré-de-si, para não despertar na garotada o sentido da desigualdade social entre os homens.
Dia desses alguém [não me lembro exatamente quem se saiu com essa e não procurei a referência no meu babalorixá virtual, Pai Google da Aruanda] foi espinafrado porque disse que ecologia era, nos anos setenta, coisa de viado. Qual é o problema da frase? Ecologia, de fato, era vista como coisa de viado. Eu imagino se meu avô, com a alma de cangaceiro que possuía, soubesse, em mil novecentos e setenta e poucos, que algum filho estava militando na causa da preservação do mico leão dourado, em defesa das bromélias ou coisa que o valha. Bicha louca, diria o velho.Vivemos tempos de não me toques que eu magôo. Quer dizer que ninguém mais pode usar a expressão coisa de viado ? Que me desculpem os paladinos da cartilha da correção, mas isso é uma tremenda babaquice. O politicamente correto é a sepultura do bom humor, da criatividade, da boa sacanagem. A expressão coisa de viado não é, nem a pau (sem duplo sentido), ofensa a bicha alguma.
Daqui a pouco só chamaremos o anão - o popular pintor de roda-pé ou leão de chácara de baile infantil - de deficiente vertical . O crioulo - vulgo picolé de asfalto ou bola sete (depende do peso) - só pode ser chamado de afrodescendente. O branquelo - o famoso branco azedo ou Omo total - é um cidadão caucasiano desprovido de pigmentação mais evidente. A mulher feia - aquela que nasceu pelo avesso, a soldado do quinto batalhão de artilharia pesada, também conhecida como o rascunho do mapa do inferno - é apenas a dona de um padrão divergente dos preceitos estéticos da contemporaneidade. O gordo - outrora conhecido como rolha de poço, chupeta do Vesúvio, Orca, baleia assassina e bujão - é o cidadão que está fora do peso ideal. O magricela não pode ser chamado de morto de fome, pau de virar tripa e Olívia Palito. O careca não é mais o aeroporto de mosquito, tobogã de piolho e pouca telha.
Nas aulas sobre o barroco mineiro, não poderei mais citar o Aleijadinho. Direi o seguinte: o escultor Antônio Francisco Lisboa tinha necessidades especiais... Não dá. O politicamente correto também gera a morte do apelido, essa tradição fabulosa do Brasil.
O recente Estatuto do Torcedor quer, com os olhos gordos na Copa e 2014, disciplinar as manifestações das torcidas de futebol. Ao invés de mandar o juiz pra putaqueopariu e o centroavante pereba tomar no olho do cu, cantaremos nas arquibancadas o allegro da Nona Sinfonia de Beethoven, entremeado pelo coro de Jesus, alegria dos homens, do velho Bach.
Falei em velho Bach e me lembrei de outra. A velhice não existe mais. O sujeito cheio de pelancas, doente, acabado, o famoso pé na cova, aquele que dobrou o Cabo da Boa Esperança, o cliente do seguro funeral, o popular tá mais pra lá do que pra cá, já tem motivos para sorrir na beira da sepultura. A velhice agora é simplesmente a "melhor idade".Se Deus quiser morreremos, todos, gozando da mais perfeita saúde.
Defuntos? Não. Seremos os inquilinos do condomínio Cidade do pé junto.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

CRÔNICAS DAQUELAS

CERTOS DIAS
Paulo Wainberg
HTTP://paulowainberg.wordpress.com
Twitter.com/paulowainberg


Certos dias... Certos dias sou como a fábula da groselha e da maçã, que jamais foi escrita.
Certos dias, jamais fui escrito.
É quando meu olhar nada vê, mesmo que tantas paisagens passem por ele.
Certos dias estou cego e penso no velho, antigo e desaparecido amigo do colégio, com quem varava as madrugadas falando francês, eu porque sabia, ele porque queria aprender.
Eram noites frias que nós percorríamos até chegar a madrugada, por avenidas solitárias de Porto Alegre cruzadas por bondes barulhentos, de hora em hora.
Comigo ele aprendeu algumas palavras em francês, doce língua do amor, graças a poemas declamados sob o fervor de paixões indizíveis, pelas colegas de aula, inacessíveis, e hoje derrotadas pelo tempo, cruel Saturno devorador dos próprios filhos.
Assim como eu.
Certos dias... Onde estará meu amigo de ginásio que nunca mais vi nem soube dele, terminado aquele ano de 1959 quando fomos, cada um, para o seu lado?
Certos dias me sinto personagem do Evangelho segundo São Mateus, que nunca li nem acredito numa única palavra.
É então que me pergunto o motivo de não ser o Messias, salvador eleito por Deus e a resposta me esbofeteia: Deus não existe, rapaz.
Certos dias quero largar tudo, livrar-me das opressões, desfazer-me dos gostos e, qual vagabundo solitário, esgueirar-me pelas frestas sem alguém a me perguntar por quê, sem ninguém a me dizer o que é bom para mim.
Certos dias pesam-me tanto as obrigações, doem-me tanto as responsabilidades, iludem-me tanto as esperanças que a cama não suporta, o almoço não resiste e o fim do dia me esgota.
Certos dias só me resta recorrer a mim mesmo, coisa que faço agora, enviando um poema antigo cujo título, pelo menos, ganhou o principal prêmio literário do Brasil:

LEITE DERRAMADO
Nunca chore sobre o leite derramado.
Rasteje e beba tudo o que puder.
Não fique assim dilaceradopor causa do “não” de uma mulher.
Dê de cara contra a porta mal fechada.
Coce o saco, a bunda e coisa e tal.
Fuja de armadilhas traiçoeiras
Disfarçadas de roseiras no quintal.
Lembre que por toda eternidadeTudo vem depois de antes.
Reconheça que o que é tarde agora,foi cedo outrora.
Gaste o tempo que te sobra
Entre quatro ou cinco amantes
dispensando aquela que cobrao colar de diamantes.
O gosto amargo do póVai lembrar que és mortal.Morres contigo... e só,
Como todos, tal e qual.
Nunca chore sobre o leite derramadoNem esqueça que amanhã será depoisE que tamanho amor desesperadoÉ o riso e alegria de outros dois.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

CRÔNICAS IMPUDICAS

UNO, INDIVISÍVEL e INCRITICÁVEL

João Eichbaum


Dias atrás, num texto brilhante, recheado com ferina, mas, ao mesmo tempo, elegante ironia, o advogado Ricardo Giuliani, criticou ações do Ministério Público, tanto federal como estadual, que enchem as páginas dos jornais, se tornam manchetes em noticiários de emissora de rádio e televisão, mas não passam de pífias iniciativas, traques saídos de boca de canhão.
Mencionou o autor ridículas atitudes, como as da promotora que queria processar um caminhoneiro por ter atropelado duas galinhas e a da outra promotora que pretende, ou pretendia, censurar o filme Tropa de Elite, proibindo-o para crianças.
Em outras palavras, o autor do artigo afinou com este blogueiro na afirmação de que o Ministério Público não passa de uma montanha que só serve para parir camundongos.
Pra quê, minha gente! Agora vem o presidente da Associação do Ministério Público – estadual, penso eu – Marcelo Lemos Dornelles, defender a instituição com unhas e dentes.
No meio das obviedades, como, por exemplo, a de que os seres humanos estão sujeitos a erros, diz o senhor Marcelo que o Ministério Público é responsável pela preservação desse grande valor, que é a Justiça.
Mas, não é isso que se vê. A grande, a imensa maioria dos promotores não é de Justiça, mas de acusação. Muitos deles deixam transparecer, em todos os atos processuais, sem falar em suas aparições em público, na imprensa - de que toda a instituição gosta - que sentem verdadeiro orgasmo em acusar, porque o que lhes interessa é o número de condenações e não a da conquista da verdadeira justiça. A menos que, no seu nível intelectual e cultural, “justiça” seja sinônimo de condenação.
Demonstrando seu despreparo em matéria de silogismo, finalmente, o senhor promotor de justiça Marcelo Lemos Dornelles, depois de admitir “falhas humanas”, conclui que o Ministério Público é “incriticável”.
Ah, sim: uno, indivisível e agora, também, “incriticável”.
Olha, senhor Marcelo, quando uma instituição é “una e indivisível” o erro de um é o erro de todos, o erro da promotora perseguidora de honestos caminhoneiros é erro de toda a instituição. Se o senhor não quiser assim, lute, em primeiro lugar, para que sejam abolidos os adjetivos “uno e indivisível” com que se qualifica o Ministério Público. Aí talvez a instituição possa ser “incriticável”, conquanto não o sejam as cagadas particulares de muitos mocinhos e mocinhas, deslumbrados com o “poder de pedir e de opinar”, o único de que se pode orgulhar o Ministério Público.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

COM A PALAVRA, JANER CRISTALDO

VIDA SEXUAL DOS PAPAS

De um bom amigo, recebi esta sinopse, feita por Rosa Ramos, do livro do jornalista italiano Eric Frattini:
São mais de 300 páginas com centenas de histórias pouco santas sobre a vida sexual dos papas da Igreja Católica. O livro do jornalista Eric Frattini, recém-chegado às livrarias portuguesas e editado pela Bertrand, percorre, ao longo dos séculos, a intimidade secreta de papas e antipapas, mas não pretende causar "escândalo". Apenas "promover uma reflexão sobre a necessária reforma da Igreja ao longo dos tempos". No livro Os Papas e o Sexo há de tudo. Desde papas violadores e zoofílicos a papas homossexuais e fetichistas, além de santos padres incestuosos, pedófilos ou sádicos, passando por papas filhos de papas e papas filhos de padres.
Alguns morreram assassinados pelos maridos das amantes em pleno acto sexual. Outros foram depostos do cargo, julgados pelas suas bizarrias sexuais e banidos da história da Igreja. Outros morreram com sífilis, como o Papa Júlio II, eleito em 1503, que ficou na história por ter inventado o primeiro bordel gay de que há memória. Bonifácio IX deixou 34 filhos, a que chamava, carinhosamente, de "adoráveis sobrinhos".
Martinho V encomendava contos eróticos, que gostava de ler no recolhimento do seu quarto. Paulo II era homossexual e Listo IV, que cometeu incesto com os sobrinhos, bissexual. Inocêncio VIII reconheceu todos os filhos que fez e levou-os para a Santa Sé. Um deles tornou-se violador. João XI (931-936) cometeu incesto com a própria mãe, violava fiéis e organizava orgias com rapazes. Sérgio III teve o infortúnio de se apaixonar por mãe e filha e não esteve com meias medidas: rendeu-se à prática da ménage à trois. Bento V só esteve no Governo da Igreja 29 dias, por terdesonrado uma rapariga de 14 anos durante a confissão. Depois de ser considerado culpado, fugiu e levou boa parte do tesouro papal consigo. João XIII era servido por um batalhão de virgens, desonrou a concubina do pai e uma sobrinha e comia em pratos de ouro enquanto assistia a danças de bailarinas orientais. Os bailes acabaram quando foi assassinado pelo marido de uma amante em pleno acto sexual. Silvestre II fez um pacto com o diabo. Praticava magia. Acabou envenenado. Dâmaso I, que a Igreja canonizou, promovia homens no ciclo eclesiástico, sendo a moeda de troca poder dormir com as respectivas mulheres. Já o Papa Anastácio, que tinha escravas, teve um filho com uma nobre romana, que se viria a tornar no Papa Inocêncio I (famoso pelo seu séquito de raparigas jovens). Pai e filho acabaram canonizados. Leão I era convidado para as orgias do Imperador, mas sempre se defendeu, dizendo que ficava só a assistir. Mesmo assim, engravidou uma rapariga de 14 anos, que mandou encerrar num convento para o resto da vida. Bento VIII morreu com sífilis e Bento IX era zoófilo. Urbano II criou uma lei que permitia aos padres terem amantes, desde que pagassem um imposto. Alexandre III fazia sexo com as fiéis a troco de perdões e deixou 62 filhos. Foi expulso, mas a Igreja teve de lhe conceder uma pensão vitalícia, para poder sustentar a criançada. Gregório I gostava de punir as mulheres pecadoras, despindo-as e dando-lhes açoites.
Bonifácio VI rezava missas privadas só para mulheres e João XI violou, durante quatro dias, uma mãe e duas filhas. Ao mesmo tempo.
1. João Paulo II
Acusado de ter um filha secreta Em 1995, o norte-americano Leon Hayblum escrevia um livro polémico, em que dizia ser pai da neta de João Paulo II. Durante a oupação nazi da Polónia, Wojtyla terá casado, secretamente, com uma judia. Do enlace nasceu uma rapariga, que o próprio pai entregou, com seis semanas, a um convento local. No seu pontificado especulou-se muito sobre as namoradas que teve antes do sacerdócio. O papa admitiu algumas, mas garantiu nunca ter tido sexo. No Vaticano, fazia-se acompanhar por uma filósofa norte-americana, Anna Teresa Tymieniecka, com quem escreveu a sua maior obra filósofica. Acabaram zangados um com o outro, supostamente por ciúmes.
2. Paulo VI
Homossexual?Assim que chegou ao Vaticano, Paulo VI mostrou-se muito conservador em relação às matérias ligadas à sexualidade. Em 1976, indignado com as declarações homofóbicas de Paulo VI, um historiador e diplomata francês, Roger Peyrefitte, contou ao mundo que, afinal, o Papa era homossexual e manteve uma relação com um actor conhecido. O escândalo foi tremendo: Paulo VI negou tudo e o Vaticano chegou a pedir orações ao fiéis do mundo inteiro pelas injúrias proferidas contra o Papa. Paulo VI morreu em 1978, aos 81 anos, depois de 15 pontificado, vítima de um edema pulmonar causado, em boa parte parte, pelos dois maços de cigarros que fumava por dia.
3. Inocêncio X
Amante da cunhadaEleito no conclave de 1644, Inocêncio X manteve uma relação com Olímpia Maidalchini, viúva do seu irmão mais velho – facto que lhe rendeu o escárnio das cortes da Europa. Inocêncio X não era, aliás, grande defensor do celibato. Olímpia exercia grande influência na Santa Sé e chegou a assinar decretos papais. A dada altura, o papa apaixonou-se por outra nobre, Cornélia, o que enfureceu Olímpia. Mesmo assim, foi a cunhada quem lhe valeu na hora da morte e quem assegurou o funcionamento do Vaticano quando Inocêncio estava moribundo. Quando morreu, em 1655, Olímpia levou tudo o que pôde da Santa Sé para o seu palácio em Roma, com medo de que o novo Papa não a deixasse ficar com nada.
4. Leão X
Morreu de sífilis. Foi de maca para a própria coroação, por causa dos seus excessos sexuais. Depois de Júlio II ter morrido de sífilis, em 1513 chega a papa Leão X, que gostava de organizar bailes, onde os convidados eram somente cardeais e onde jovens de ambos os sexos apareciam com a cara coberta e o corpo despido. O papa gostava de rapazes novos, às vezes vestia-se de mulher e adorava álcool. “Quando foi eleito tinha dificuldade em sentar-se no trono, devido às graves úlceras anais de que sofria, após longos anos de sodomia”, escreve Frattini. Estes e outros excessos levaram Lutero a afixar as suas 95 teses – que lhe garantiram a excomunhão em 1521. Leão X morreu com sífilis aos 46 anos.
5. Alexandre VI
O insaciável.Gostava de orgias e obrigou um jovem de 15 anos a ter sexo com ele sete vezes no espaço de uma hora, até o rapaz morrer de cansaço. Teve vários filhos, que nomeou cardeais. Assim que chegou ao Papado, em 1431, trocou a amante por uma mais nova, Giulia. Ela tinha 15 anos, ele 58. Foi Alexandre VI quem criou a célebre Competição das Rameiras. No concurso, o papa oferecia um prémio em moedas de ouro ao participante que conseguisse ter o maior número de relações sexuais com prostitutas numa só noite. Depois de morrer, o Vaticano ordenou que o nome de Alexandre VI fosse banido da história da Igreja e os seus aposentos no Vaticano foram selados até meados do século XIX.
6. João XXIII
Violou irmãs e 300 freiras. Não aparece na lista oficial de papas e acabou preso em 1415. O antipapa conseguia dinheiro a recomendar virgens de famílias abastadas a conventos importantes. Mas violava-as antes de irem. Tinha um séquito de 200 mulheres, muitas delas freiras. Criou um imposto especial para as prostitutas de Bolonha. Tinha sexo com duas das suas irmãs. Defendia-se, dizendo que não as penetrava na vagina e que por isso não cometia nenhum pecado. Foi julgado, acusado de 70 crimes de pirataria, assassinato, violação, sodomia e incesto. Entre outros factos, o tribunal deu como provado que o Papa teve sexo com 300 freiras e violou três das suas irmãs. Foi deposto do cargo e preso. Voltou ao Vaticano, anos mais tarde, como cardeal.
7. Bento IX
Sodomizava animais. Chegou a papa em 1032 com 11 anos. Bissexual, sodomizava animais e foi acusado de feitiçaria, satanismo e violações. Invocava espíritos malignos e sacrificava virgens. Tinha um harém e praticava sexo com a irmã de 15 anos. Gostava, aliás, de a ver na cama com outros homens. “Gostava de a observar quando praticava sexo com até nove companheiros, enquanto abençoava a união”, escreve Eric Frattini. Convidava nobres, soldados e vagabundos para orgias. Dante Alighieri considerou que o pontificado de Bento IX foi a época em que o papado atingiu o nível mais baixo de degradação. Bento IX cansou-se de tanta missa e renunciou ao cargo para casar com uma prima – que o abandonaria mais tarde.
8. Clemente VI
Comprou bordel.
Em 1342, com Clemente VI chega também à Igreja Joana de Nápoles, a sua amante favorita. O papa comprou um “bordel respeitável” só para os membros da cúria – um negócio, segundo os documentos da época, feito “por bem de Nosso Senhor Jesus Cristo”. Tornou-se proxeneta das prostitutas de Avinhão (a quem cobrava um imposto especial) e teve a ideia de conceder, duas vezes por semana, audiências exclusivamente a mulheres. Recebia as amantes numa sala a poucos metros dos espaços em que os verdugos da Inquisição faziam o seu trabalho. No seu funeral, em Avinhão, foi distribuído um panfleto em que o diabo em pessoa agradecia ao Papa Clemente VI porque, com o seu mau exemplo, “povoara o inferno de almas”.
9. Xisto III
Violou freira e foi canonizadoObcecado por mulheres mais novas, foi acusado de violar uma freira numa visita a um convento próximo de Roma. Enquanto orava na capela, o papa, eleito em 432, pediu assistência a duas noviças. Violou uma, mas a segunda escapou e denunciou-o. Em tribunal, Xisto III defendeu-se, recordando a história bíblica da mulher que foi apanhada em adultério. Perante isso, os altos membros eclesiásticos reunidos para condenar o papa-violador não se atreveram a “atirar a primeira pedra” e o assunto foi encerrado. Xisto III foi, aliás, canonizado depois de morrer. Seguiu-se-lhe Leão I, que também gostava de mulheres mais novas e que mandou encarcerar uma rapariga de 14 anos num convento, depois de a engravidar.
10. João XII
Morto pelo marido da amante