quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

NO FUNDO, NO FUNDO, SOMOS, MESMO,SÍMIOS

João Eichbaum

Dividiram a vida em anos. Por questões científicas, a partir de estudos do sistema solar – se não estou enganado.
A partir daí, tenho que me submeter ao que todo mundo pensa, por exemplo: termina o ano de 2.009 e começa o ano de 2.010
Só que tem um detalhe com o qual eu não concordo: o ritual. Na chamada “virada” do ano, as pessoas adotam ritos. A roupa deve ser branca e nova, por exemplo. Ou calcinha e cueca amarela. Para dar sorte. Para que o Novo Ano seja melhor, proporcione maior felicidade.
Superstições, minha gente. Invenções inúteis, ritos de primatas, regressão dos primatas à era em que eles nem sabiam que eram inteligentes.
Hoje, é tudo muito diferente. A tecnologia elevou os primatas humanos a um nível superior. Com olhos fixos na tecnologia, podemos, nós, primatas, abrir mão dessas superstições, desses ritos, porque teremos certeza de que nada muda em nossa vida, com a “virada” de ano. Tudo vai continuar na mesma, com ou sem cueca amarela, com ou sem roupa nova branca.
Nesse nosso mundo de primatas, há sempre alguém que se destaca pela esperteza. E eles inventam Natal, dia das Mães, dia dos Namorados, etc, etc.
Esqueçam essas festividades e olhem para as estradas, onde há mortos e feridos, olhem para os países de ideologia muçulmana, que não têm a mínima consideração para quem não reza pelo Alcorão, olhem para a luta entre polícia e bandidos, olhem para os políticos, cuja única preocupação é o próprio bem estar e a ganância de enriquecer em quatro anos. Olhem para o Papa, vestido de escarlate e carmim e, ao mesmo tempo, olhem para as pessoas que dormem debaixo das marquises, que moram debajxo das pontes, que pedem sobra de comida, enquanto o Filho do Brasil, conhecido como Lula, sobe na vida e no conceito innternacional, só trovando e falando “merda”.
Diante de tudo isso, é possível acreditar que o mundo é regido, e administrado com justiça, por um “Deus” que o criou? È possível acreditar que os “seres humanos” são entes dignos, inteligentes, feitos à imagem e semelhança de um “deus”?
Pensem comigo: não passamos de macacos que buscam a satisfação pessoal (aquela gata, aquele gato, aquele emprego, aquela “vidinha boa, aquele salário”, a sena acumulada, e o resto que se foda...)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

VARIAÇÕES EM TORNO DE TEMA FIADASPUTAS

DADOS PARA SUA CONTABILIDADE FISCAL
João Eichbaum

Uma notícia de fim de exercício, para fecharmos nossa contabilidade, ou seja, para constatar o que pagamos para esses pilantras que o povinho elege como deputados.
A notícia, publicada na ZH de segunda-feira última, é a seguinte.
“Pouco mais de oito meses depois do escândalo conhecido como a “farra das passagens”, documentos sigilosos revelam que recursos públicos bancaram despesas de viagem de deputados e acompanhantes a pontos turísticos em finais de semana, feriados e períodos em que o Congresso esteve vazio”
Sim, senhores. Passeios com acompanhantes, às nossas custas.
Trata-se de setenta mil notas fiscais apresentadas pelos congressistas, a fim de obterem “ressarcimento” das suas farras. Com acompanhantes, é bom que se repita. As notas fiscais são provenientes de “resorts, hotéis-fazenda, pousadas à beira-mar e restaurantes sofisticados”.
Por exemplo, o deputado Enio Bacci, gaúcho (ah, os gaúchos são os mais honrados, os mais honestos, os mais bravos, os melhores em tudo, “servem de exemplo a toda a terra”). Pois o deputado Enio Bacci passou o fim de semana do feriado de 12 de outubro na pousada Vila do Farol, à beira-mar, em Bombinhas. Duas diárias dele nos custaram R$ 830,00.
E sabem como justificou isso, descaradamente, o deputado?
Assim, ó:
“Se eu recebesse dinheiro de corrupção, não precisaria de diária para hotel”.
Então, minha gente, não temos escolha: quem não é corrupto, é sem-vergonha, não tenho o mínimo de moral (e nem de inteligência). Se não quisermos que o deputado Enio Bacci se torne corrupto, teremos que continuar pagando suas diárias em pousadas à beira-mar, na companhia de quem lhe aprouver.
Não é pelo valor que nos indignamos. É pela canalhice.
Agora vocês sabem porque, no próximo exercício do Imposto de Renda, terão que quebrar a cabeça para se livrar do Leão, mas não vão conseguir: sem o nosso dinheiro, os políticos não são felizes. E são eles que fazem as leis que, na hora da declaração de renda, temos que respeitar.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

CRÕNICAS POLÍTICAS

POSSÍVEL ÚLTIMA CARTA AO OSMAR
Paulo Wainberg


Osmar, como todos sabem, é meu correspondente que não responde e não corresponde. Tem mais ou menos sessenta anos, solteirão convicto – não é gay - bebedor de cerveja e, ultimamente, deu de comer apenas peito de frango, salada verde e linquiça colonial no Barranco, alegando que picanha incha.
Mas, vamos à carta.
Querido Osmar, seja lá você quem for. Reparou que o médico paulista, especialista em fertilização, está preso por ter assediado sexualmente suas pacientes ( quantas concordaram, hein?), mas ninguém fala nas centenas, ou milhares, de casais que tiveram filhos graças a ele, sem assédio ou sacanagem?
Reparou, querido Osmar, que todas as notícias sobre o cidadão, publicadas na imprensa em geral e no Jornal Nacional em particular, são escabrosas?, mulheres testemunhando contra ele, maridos vociferando contra ele e a nossa imprensa, tão assim imparcial, totalmente despreocupada em entrevistar uma única família feliz, graças ao trabalho do prisioneiro?
Enquanto isto, Osmar, o Dantas Banqueiro teve todos os processos contra ele suspensos, graças ao juridicamente correto entendimento de nossa suprema corte, segundo o qual enquanto não se processar, julgar e, possivelmente condenar, o Juiz que condenou o Dantas, nada pode ser feito? E, Osmar, até que isso seja feito, todos os crimes dos quais o Dantas Banqueiro são acusados – inocente ou culpado – prescreverão na forma da lei?
Qual a sua opinião a respeito do nosso querido governador do Distrito Federal, que já havia sido cassado no Senado (ops! Perdão pela palavrão), em conjunto com o ACM (ops! Perdão pelas iniciais), no escândalo da quebra do sigilo – Você lembra, Osmar? – Já se vão anos – e o ACM voltou ao senado, aclamado pelo seu eleitorado corrupto, o Arruda assumiu o Governo do Distrito Federal, aclamado pelo seu eleitorado corrupto, que recebeu dinheiro vivo do seu assessor, que distribuiu uma grana literalmente federal aos deputados distritais, que recebeu outra grana federal das suas empresas apoiadoras e. querido Osmar, nenhum deles está preso?
E o nosso Poeta? O ínclito Sarney? Por que o Jornal Nacional não fala mais nele? E o Renan? Ninguém mais fala no Renan?
Estão todos soltos, iluminados, ricos, plenos de influência, sem que se saiba nenhum, nenhum único ato de bondade que tenha beneficiado nosso povo – esse povo imbecil do qual fazes parte, Osmar, enquanto o médico aquele, tarado, vá lá que seja, mas com excelentes serviços prestados a milhares de casais, está na cadeia!
Você, Osmar, é um idiota, um imbecil. Perdi anos da minha vida escrevendo a você e nunca tive uma resposta, nunca tive sequer a confirmação de que você tenha recebido minhas cartas, você, estúpido, faz parte dos que, em troca de uma camiseta, de um albergue, de uma diretoria de catador de papel no Congresso, você, Osmar, é quem elege essa turba, essa canalha, em nome da Democracia!
Certa vez Rui Barbosa, num período histórico em que predominavam as oligarquias, as ditaduras, os reinos espúrios, num período em que o conceito de “democracia” era ainda apenas um conceito, com pouquíssima aplicação prática, largou uma frase de efeito, tumular, lapidar e perpétua: “A PIOR DEMOCRACIA É MELHOR DO QUE A PIOR DITADURA”.
Tinha toda razão a Águia de Haia. Tem razão até hoje!
Porém, Osmar, você que se vende por uma cesta básica, por um poço artesiano na sua vila, por dois mil réis pra comprar chuchu, ainda não entendeu que a comparação ruibarbosiana é anacrônica, que hoje não se trata de comparar Democracia e Ditadura, que hoje se trata de comparar Democracia com Democracia, e que a frase correta, nos dias atuais, para quem não se vende, para quem acredita na liberdade e no Direito, para quem não sustenta, ao custo de impostos, falanges de funcionários inúteis, assessores inexistentes, cargos em comissão falaciosos e cargos de confiança inconfiáveis é : A PIOR DEMOCRACIA É PIOR DO QUE QUALQUER DITADURA E DO QUE QUALQUER BOA DEMOCRACIA.
É por esta razão, Osmar, que esta é a última vez que escrevo para você. Seu silêncio arrogante já me irritou e sua conivência silenciosa, corruptamente eleitoral é suficiente para que a amizade que sempre lhe dediquei, se extinga.
Você só tem uma possibilidade, comigo. Não precisa nem me escrever, responder ou corresponder. Com isto estou acostumado.
Porém, o ano que vem você vai votar. Se você votar em alguém para, argh, senador, me esqueça. Temos que extinguir, extirpar, estripar essa voraz instituição que de nada serve e que nos custa, dos trinta bilhões de arrecadação anual, sei lá quantos bilhões vão para os bolsos senatoriais.
Para Presidente, fique à vontade, vote em quem quiser e achar melhor. De certa forma você, Osmar, e seus cupinchas, costumam acertar.
Agora, para deputado federal, abra o olho. Peça folha corrida criminal e cível, na Justiça Comum, Federal e do Trabalho. Na caia no papo.
Bom, é quase Ano Novo, quase tudo, pela frente. Se você se comprometer comigo – e cumprir a promessa – de não votar para senador, posso reconsiderar minha decisão e, em 2010, de vez em quando, escrever alguma coisa para você.
E nem estou preocupado. Seja você quem for, que seja dos bons.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

VARIAÇÕES EM TORNO DO TEMA FIADASPUTAS

A ÚLTIMA DOS FRANCESES

João Eichbaum

Sabem a última dos franceses? Pois é. O Le Monde, o jornal francês mais conhecido mundialmente, elegeu o Filho do Brasil, popularmente conhecido como Lula, como o “homem do ano”.
Primeira conclusão: a França anda mal de “homens”. Bom, se o primeiro ministro se esforça para ser corno, o que se pode esperar dos machos franceses?
É que, como vocês sabem, o primeiro ministro da França, o tal de Sarkozy, importou uma bela gatinha italiana e se casou com ela, circunstância que revela sua acentuada tendência para ser corno, a partir da consideração de que ele não passa de um coroa feio, sem charme, sem graça nenhuma.
Segunda conclusão: nem mulher gostosa existe na França. Se existisse o coroa não iria importar uma italiana.
Foi por isso que o Filho do Brasil foi escolhido como o “homem do ano”. Na falta de personalidades francesas dignas de tal escolha, a taça ficou com o Lula.
Charles De Gaulle dizia que o Brasil não é um país sério. Pois eu acho que o povo francês é menos sério ainda. Um povo que teve como líder um louco chamado Napoleão Bonaparte, um povo que decapitou sua família real, por pura maldade, não é um povo que mereça respeito e consideração.
As greves e as arruaças constantes, os desmandos que ocorrem na França não fornecem a melhor imagem de um povo.
Foi por isso que o Filho do Brasil foi escolhido lá como o “homem do ano”: o currículo do povo francês autoriza plenamente tal escolha.
Prefiro que assim seja, realmente. Me recuso a acreditar que esse gesto de puxassaco seja um modo de reconhecimento pela negociata dos aviões, encetada pelo Jobim, que credenciaria o Brasil, através de seus representantes, a merecer o título de “bobo do ano”.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

NÓS, PRIMATAS

ATÉ NO NATAL
João Eichbaum

Felizmente, parece que chegaram ao fim os “cartões de Boas Festas”.
Confesso que, nos últimos tempos, eram uma verdadeira tortura para mim. Recebia-os, coçava a cabeça, pensava “que saco”, terei de, pelo menos, agradecer. Mas havia o maior dos inconvenientes: levar o “muito obrigado, igualmente” ao Correio.
Hoje é mais fácil. O “obrigado, igualmente” vai na mesma hora, basta clicar em “responder ao remetente”. Um alívio essa invenção de e-mail.
Tempos houve em que também enviei cartões de Natal. Tempos houve em que acreditei no Papai Noel, no menino Jesus, e uma das mais belas coisas pela qual eu ansiava todos os anos era a Missa do Galo. A catedral da minha cidade apinhada de povo, o coral cantando “Noite Feliz”, num arranjo emocionante em que havia o contracanto do “Gloria in Excelsis”. E eu, me derretendo em lágrimas.
Mas houve Natais também em que passei fome, perambulei pelas ruas, sentindo inveja das crianças que exibiam seus presentes, odiando o cheiro de comida que vinha das casas, praguejando internamente contra a alegria de lares festivos e iluminados.
Tive Natais de todos os tipos: de alegria, de saudade, de dor, como qualquer pessoa, em todos os dias da vida.
Hoje, para mim, Natal é sinônimo de correria, de muita gente nas lojas, nos “shoppings”, de ruas atravancadas de automóveis, de aeroportos lotados, de gente viajando para a praia de ônibus, em carros de luxo, em cacos de automóvel, ou automóveis transformados em veículos de carga, levando colchões, bicicletas, sogra, cachorro, papagaio, gato, e as crianças brigando, apertadas entre acolchoados e travesseiros. E o maior dos sacos: ter de comprar presentes para alguém.
Com essa visão atual que tenho do Natal, não encontro sentido algum na expressão “Feliz Natal”. Acho que, afora as crianças que recebem presentes, ninguém mais tem condições de se sentir plenamente feliz no Natal.
Então, o que desejo para vocês é a felicidade em todos os dias. Até no dia de Natal, depois da correria, das filas, e dos engarrafamentos.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

NÓS, PRIMATAS

O PAPAI NOEL, O FILHO DE DEUS e O FILHO DO BRASIL

João Eichbaum


Pouco antes de nos tornarmos gente, antes de entendermos plenamente as coisas que nos cercam, nos incutiram a idéia de que Papai Noel existe, e que 25 de dezembro é o dia em que nasceu Jesus Cristo, que se diz o Filho de Deus. E nos acostumamos à idéia de que no dia desse aniversário, conhecido como Natal, ganhamos presentes, trazidos pelo dito Papai Noel.
A crença em Papai Noel não dura muito, mas pouquíssimos se livram da crença de que o menino Jesus nasceu no dia 25 de dezembro numa manjedoura, teve a visita de três reis e foi anunciado por anjos que se fizeram acompanhar de uma estrela.
As ilusões comandam as crenças dos primatas humanos. A ilusão trazida pelo Papai Noel eram os presentes. A de Jesus Cristo continua sendo a da imortalidade, a bemaventurança no céu, já que com a cessação definitiva da vida muito poucos se conformam.
O Filho do Brasil, chamado Lula, é outra ilusão. Para os nordestinos, principalmente. É o grau do seu crédito em Pernambuco (85%) que eleva a média do mesmo em todo o Brasil (72%). A ilusão dos nordestinos e de todos os demais que estão na merda tem um nome: bolsa-família.
Para os brasileiros que conseguem ter emprego nada mudou para melhor desde que o Filho do Brasil assumiu o governo. Continuamos sem saúde, sem educação e sem segurança. Os aposentados estão atrás dos salário mínimo. Mas ele é tido como o “salvador da pátria”, com altos índices de aprovação e popularidade.
Nada explica esse fenômeno, salvo o “bolsa-família”, donde se conclui que a maioria é dele beneficiária. Ah, sim, e tem o mensalão, que faz milagres.
E sabem quem patrocina a aprovação e a popularidade do Filho do Brasil? Nós, naturalmente. Nós, que pagamos impostos, porque ele usa o nosso dinheiro como lhe convém, na companhia do Sarney, do Collor e do Renan Calheiros, gente do norte e nordeste, como ele.
Precisa dizer mais?

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

CRÔNICAS REGIONAIS

VIVER VERÃO
Paulo Wainberg

Está chegando o verão e com ele o veraneio, como chamamos aqui no Sul.
Não sei se vocês, de outros Estados, sabem, mas temos o mais fantástico litoral do País: de Torres ao Chuí, uma linha reta, sem enseadas, baias, morros, re-entrâncias ou recortes. Nada! Apenas uma linha reta, areia de um lado, o mar do outro.
Torres, aliás, é um equívoco geográfico, contrário às nossas raízes farroupilhas e devia estar em Santa Catarina.
Característica nossa, não gostamos de intermediários.
Nosso veraneio consiste em pisar na areia, entrar no mar, sair do mar e pisar na areia. Nada de vistas deslumbrantes, vegetações verdejantes, montanhas e falésias, prainhas paradisíacas e outras frescuras cultivadas aí para cima.
O mar gaúcho não é verde, não é azul, não é turquesa.
É marrom!
Cor de barro iodado, é excelente para a saúde e para a pele! E nossas ondas são constantes, nem pequenas nem gigantes, não servem para pegar jacaré ou furar onda, coisas de veado. O solo do nosso mar é escorregadio, irregular, rico em buracos. Quem entra nele tem que se garantir.
Não vou falar em inconvenientes como as estradas engarrafadas, balneários hiper-lotados, supermercados abarrotados, falta de produtos, buzinaços de manhã de tarde e de noite, areia fervendo, crianças berrando, ruas esburacadas, tempestades e pele ardendo, porque protetor solar é coisa de fresco e em praia de gaúcho não tem sombra. Nem nos dias de chuva, quase sempre nos fins-de-semana, provocando o alegre, intermitente, reincidente e recorrente coaxar dos sapos e assustadoras revoadas de mariposas.
Dois ventos predominam, em nosso veraneio: o nordeste – também chamado de nordestão – e o sul, cuja origem é a Antártida.
O nordestão é vento com grife e estilo... estilo vendaval.
Chega levantando areia fina que bate em nosso corpo como milhões de mosquitos a nos pinicar. Quem entra no mar, ao sair rapidamente se transforma no – como chamamos com bom-humor – veranista à milanesa. A propósito, provoca um fenômeno único no universo, fazendo com que o oceano se coloque em posição diagonal à areia: você entra na água bem aqui e quando sai, está a quase um quilômetro para sul. Essa distância é variável, relativa ao tempo que você permanecer dentro da água.
Outra coisa: nosso mar é pra macho! Água gelada, vai congelando seus pés e termina nos cabelos. Se você prefere sofrer tudo de uma vez, mergulhe e erga-se, sabendo que nos próximos quinze minutos sua respiração voltará ao normal: é o tempo que leva para recuperar-se do choque térmico.
Noventa por cento do nosso veraneio é agraciado pelo nordestão que, entre outras coisas, promove uma atividade esportiva praiana, inusitada e exclusiva do Sul: Caça ao guardassol. Guardassol, você sabe, é o antigo guarda-sol, espécie de guarda-chuva de lona, colorida de amarelo, verde, vermelho, cores de verão, enfim, cujo cabo tem uma ponta que você enterra na areia e depois senta embaixo, em pequenas cadeiras de alumínio que não agüentam seu peso e se enterram na areia.
Chega o nordestão e... lá se vai o guardassol, voando alegremente pela orla e você correndo atrás. Ganha quem consegue pegá-lo antes de ele se cravar na perna de alguém ou desmanchar o castelo de areia que, há três horas, você está construindo com seu filho de cinco anos.
O vento sul, por sua vez, é menos espalhafatoso. Se você for para a praia de sobretudo, cachecol e meias de lã, mal perceberá que ele está soprando. É o vento ideal para se comprar milho verde e deixar a água fervente escorrer em suas mãos, para aquecê-las.
Raramente, mas acontece, somos brindados com o vento leste, aquele que vem diretamente do mar para a terra. Aqui no Sul, chamamos o vento leste de ‘vento cultural’, porque quando ele sopra, apreendemos cientificamente como se sentem os camarões cozinhados ao bafo.
E, em todos os veraneios, acontece aquele dia perfeito: nenhum vento, mar tranquilo e transparente, o comentário geral é: “foi um dia de Santa Catarina, de Maceió, de Salvador” e outras bichices. Esse dia perfeito quase sempre acontece no meio da semana, quando quase ninguém está lá para aproveitar. Mas fala-se dele pelo resto do veraneio, pelo resto do ano, até o próximo verão.
Morram de inveja, esta é outra das coisas de gaúcho!
Atenta a essas questões, nossa industria da construção civil, conhecida mundialmente por suas soluções criativas e inéditas, inventou um sistema maravilhoso que nos permite veranear no litoral a uma distância não inferior a quinhentos metros da areia e, na maioria dos casos, jamais ver o mar: os famosos condomínios fechados.
A coisa funciona assim: a construtora adquire uma imensa área de terra (areia), em geral a preço barato porque fica longe do mar, cerca tudo com um muro e, mal começa a primavera, gasta milhares de reais em anúncios na mídia, comunicando que, finalmente agora você tem ao seu dispor o melhor estilo de veranear na praia: longe dela. Oferece terrenos de ponta a ponta, quanto mais longe da praia, mais caro é o terreno. Você vai lá e compra um.
Enquanto isso a construtora urbaniza o lugar: faz ruas, obras de saneamento, hidráulica, elétrica, salão de festas comunitário, piscina comunitária com águas térmicas, jardins e até lagos e lagoas artificiais onde coloca peixes para você pescar. Sem falar no ginásio de esportes, quadras de tênis, futebol, futebol-sete, se o lago for grande, uma lancha e um professor para você esquiar na água e todos os demais confortos de um condomínio fechado de Porto Alegre, além de um sistema de segurança quase, repito, quase invulnerável.
Feliz proprietário de um terreno, você agora tem que construir sua casa, obedecendo é claro ao plano-diretor do condomínio que abrange desde a altura do imóvel até o seu estilo.
O que fazemos nós, gaúchos, diante dessa fabulosa novidade? Aderimos, é claro. Construímos as nossas casas que, de modo algum, podem ser inferiores as dos vizinhos, colocamos piscinas térmicas nos nossos terrenos para não precisar usar a comunitária, mobiliamos e equipamos a casa com o que tem de melhor, sobretudo na questão da tecnologia: internet, TV à cabo, plasma ou LSD, linhas telefônicas, enfim, veraneamos no litoral como se não tivéssemos saído da nossa casa na cidade.
Nossos veraneios costumam começar aí pela metade de janeiro e terminar aí pela metade de fevereiro, depende de quando cai o Carnaval. Somos um povo trabalhador, não costumamos ficar parados nas nossas praias. Vamos para lá nas sextas-feiras de tarde e voltamos de lá nos domingos à noite. Quase todos na mesma hora, ida e volta.
É assim que, na sexta-feira, pelas quatro ou cinco da tarde, entramos no engarrafamento. Chegamos ao nosso condomínio lá pelas nove ou dez da noite. Usufruímos nosso novo estilo de veranear no sábado – manhã, tarde e noite – e no domingo, quando fechamos a casa.
Adoramos o trabalhão que dá para abrir, arrumar e prover a casa na sexta de noite, e o mesmo trabalhão que dá no domingo de noite.
E nem vou contar quando, ao chegarmos, a geladeira estragou, o sistema elétrico pifou ou a empregada contratada para o fim-de-semana não veio.
Temos, aqui no Sul, uma expressão regional que vou revelar ao resto do mundo: Graças a Deus que terminou esta bosta de veraneio!