sexta-feira, 29 de agosto de 2008

COLUNA DO PAULO WAINBERG

Crônicas Silentes
SILENCIOSAMENTE
Paulo Wainberg




O som mais horripilante é o ... silêncio. Quando não te respondem, não te enfrentam, não te retornam
O silêncio é o grito estridente da indiferença, o agudo interminável do escárnio.
O silêncio é a pavorosa constatação da tua insignificância, de não estares na ordem das coisas, de teres ido além de ti mesmo e, compreendido ou não, não seres, simplesmente, assunto que valha à pena.
Odeio o som do silêncio aos meus clamores, vindos de meus clãs, de meus amores, dos meus élans, dos meus temores.
Lamartine, poeta do romantismo francês, escreveu o poema O Lago, “Le Lac” onde, qual iluminado fabulista, atribui à portentosa massa de água isolada entre montanhas, atributos, defeitos e sentimentos humanos, mais do que uma metáfora, quase uma parábola.
E concluiu o poema com uma frase transcendental e enigmática, coisa rara no romantismo francês: “Só o silêncio é grande, todo o resto é fraqueza”.
Talvez. O adjetivo “grande” é utilizado pelo poeta como uma qualidade superior do silêncio. Acho que, assim dito, o silêncio pode ser grande para quem cala e justamente porque produz efeito devastador em quem escuta. Ou quer escutar.
Não trato, aqui, do sentido da audição, longe disto. Estou falando mesmo é do miserável espólio, dos restos, dos trapos, dos frangalhos de alma de quem quer respostas e recebe, tonitroantemente afrontoso, o silêncio.
Nos infinitos universos onde oscilam as auto-estimas, acostumadas a ir de cem a zero em um segundo, o silêncio é rei, soberano absoluto, ditador impiedoso a divertir-se, como se tivesse vontade própria, com a crueldade e, no nível rés-do-chão, com a cara de bobo transfigurada de angústia de quem o recebe, qual dez mil bofetadas, oito chicotadas e um beliscão.
Diante do grandioso silêncio o que resta mesmo é fraqueza, nisso o poeta tinha razão.
Dependendo do lado que estiver, você será grande ou fraco.
Eu decidi, depois de tantos silêncios, mudar de lado e não fazer mais perguntas. Abandonei as esperas e dedico meus dias a me atrasar. E não respondo, também. Elevo-me na grandiosidade de meu silêncio que é para você saber com quem está lidando, até mesmo se você não tiver o menor interesse em saber.
Porque, como li num livro ou vi num filme, tem a hora na vida em que você decide se é um rato ou outra coisa qualquer.
É a famosa hora agá, que irá determinar se você passa o resto de seus dias atrás de queijo ou vai comer outra coisa qualquer, mesmo que sejam nabos ou rabanetes.
O bom de ser outra coisa qualquer e não apenas um rato é que você não fica proibido de comer queijo também, ou seja, você entra numa dimensão superior da existência em que deixa de procurar coisas e transforma-se na coisa a ser procurada. É o plano em que você se desinteressa pelas respostas e passa você mesmo a fornecê-las, ao seu bel-prazer, independentemente de terem ou não lhe perguntado alguma coisa.
Se você errar o pênalti jogando em casa, prepare-se para o silêncio ensurdecedor. Mas se errar o mesmo pênalti na casa do adversário, a gritaria ensandecida não perfurará a invencível barreira de silêncio interior que se erro produzirá.
Portanto aceite meu conselho: não cobre pênaltis, deixe a tarefa para outro, escape, sempre que puder, do silêncio que de um jeito ou de outro reduzirá você a uma minhoca rastejante, implorando para não servir de isca nem ser cortado ao meio por um guri de maus bofes.
Quantos já sucumbiram ao silêncio desdenhoso da mulher amada?
Hein?
Quantos esgotam suas vidas catando sinais que substituam o arrogante silêncio divino?
Quantos já se enfureceram ou se envergonharam diante do silêncio altaneiro de um desafeto?
Pessoalmente prefiro uma única resposta, quando peço alguma coisa: sim.
É uma coisa minha, sei lá, questão de gosto talvez, coisa genética, de personalidade ou de caráter.
Mas este sou eu e quem sou eu para ser mais do que apenas isso, eu?
Como alternativa, aceito um “talvez” e só em último caso, mas ultissimo caso mesmo, um “não”. E olhe lá, diante de um não, costumo espernear, puxar os cabelos e bater com as mãos na parede. Abertas, que não sou burro de me machucar dando socos em coisa dura.
Mas o silêncio, faça-me o favor, o silêncio me devora. – Me dá isso aí – peço eu. Então me diga sim, talvez ou não, nunca fique em silêncio. O seu silêncio me deixa à espera, me dá esperança, me faz sonhar com a possibilidade de ser um sim e o que vou fazer daí em diante.
O seu silêncio nunca me leva ao não e, mesmo que você o mantenha até o fim dos tempos, estarei esperando o sim.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

COLUNA DO PAULO WAINBERG

NEM SEI O QUE DIZER...
Paulo Wainberg


Junte um monte de cores. Não importa quais, vermelho, roxo, amarelo, azul, preto, âmbar, bege, rosa e berinjela. Olhe o conjunto e você terá um caleidoscópio. Sabe o que é um caleidoscópio? Um monte de cores misturadas.
Para que serve? Para nada. Você fecha um olho e abre o outro, no tubo do caleidoscópio e fica maravilhado com o conjunto de cores que se misturam, criam formas, agrupam-se, dissolvem-se e voltam a se misturar, umas com as outras e tudo isto serve para você exclamar que maravilha! Olha que lindo! Magnífico e largar o tubo na mesa com a sensação agradável de ter visto uma coisa bonita.
Quanta bobagem, quanta ilusão!
Arte é ilusão, meu confrade, arte é pura perda de tempo meu camarada, companheiro, pelego ou rato de auditório, não perca seu tempo, a questão é pragmática: como ganhar mais, como ingressar no mercado, como ter carteira assinada, como ser camelô e escapar da fiscalização, como juntar, ajuntar, ter mais, ganhar, ganhar.
Faça o que fizer, sonhe o que sonhar, deseje o que desejar, não será um conjunto de cores harmonicamente misturadas que realizará você, neste mundo moderno das abreviações cibernéticas, das adaptações teatrais e da limpeza dos monumentos públicos que fará de você uma pessoa melhor, um ser social definido, politicamente correto e conhecedor das investigações profiláticas da polícia federal.
Não!
O mundo do sucesso exige fotos de atrizes de pernas abertas e sem calcinhas! Homens musculosos de cabelos frondosos e olhares travessos, adolescentes de saias curtas desfilando as modas e cronistas de ocasião, falando da ocasião, como este que vos fala!
Não!
Não perca seu tempo com romantismo barato, não use palavras anacrônicas como “amor”, “encanto” e, a pior de todas, “poesia”, para marcar seu território no mundo dos negócios, da alta roda e do sucesso maniqueísta que, ao redor do mundo, explode nas telas da TV à cabo mostrando como se conquista um emprego na agência de publicidade, como se perde um milhão no Big Brother e como se consegue casar com um milionário solteirão sendo bonita, gostosa e vestindo pouca roupa!
Não!
Não diga à sua amada que você adora “Luzes da Ribalta” porque ela não conhecerá “essa música”. Não revele ao seu amor que você leu O Vermelho e o Negro porque ele nunca ouviu falar nesse gibi!
Conquiste o corpo que você deseja falando na novela das oito, no Show do Milhão e nos livros maravilhosos de auto-ajuda que mudaram sua vida.
Nunca revele sua alma!
Nunca fale palavras “bonitas” como luar, olhos profundos, amor ardente ou mãos dadas.
Não!
Diga que quer ficar, fale em gata gostosa, mencione bíceps volumosos e proponha transar! Quer perder a garota, quer ver o rapaz a léguas de você? Fale que seu maior sonho é fazer amor com ela, com ele. Diga que estar junto é uma emoção superior, fale em alma e paixão, declame um poema, assobie Only You, recite alguma coisa em francês..
Não, ladies and gentlmen, o mundo não está para madame et messieur, não há espaço para o idílico, para o toque subversivo do dorso de mão, para um leve e excitante roçar de joelho no joelho.
Não!
O mundo é pegação, carne à vontade, sandálias e tênis, filas de balada e... doces emoções?, nem pensar!
Um aqui, outra ali, o sábado à noite não termina em declarações apaixonadas, promessas insensatas, beijos alucinados na porta de casa ou no ponto mais alto, a cidade aos teus pés, iluminada e linda, dentro do carro.
Lamento dizer mas o mundo é em inglês, árido e rápido, pega lá dá cá, sem tempo para a ilusão da arte, para a beleza do belo, para o arroubo e para a declaração gaguejante de um amor eterno.
Não acredita? Estou exagerando? Sou saudosista?
Faça um teste. Se você tiver um caleidoscópio em casa, feche um olho e, com o outro, misture as cores.
Depois me diga.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

OS OSSINHOS DO VAALENTÃO

João Eichbaum

Li ontem no jornal Zero Hora que o “Grupo Santanense de Cavalgada”, de Santana de Livramento, vai fazer nada menos do que 590,7 quilômetros, em cima de lombo de cavalo, para transportar a “urna com os restos mortais de David Canabarro”, de Porto Alegre para a dita cidade de Santana do Livramento. Antes de seguir a cavalgada para o referido município, o grupo vai dar uma chegadinha em São Leopoldo para acender uma centelha da “chama crioula”, afim de levá-la junto. Ah, antes que me esqueça, com esse grupo cavalga também o prefeito do município de Livramento.
Então, eu pergunto para o povo em geral: não há nada mais a fazer pela cidade e pelo município de Livramento? Não haverá problemas sociais, questões de moradia, saúde, segurança, educação, a serem resolvidos por lá?
Se o prefeito se dá ao desfrute de colar o traseiro, durante dias e dias, no lombo de um cavalo pelo simples e inexplicável motivo de acompanhar “os restos mortais” de David Canabarro, deixando o município navegar em suas próprias águas sem precisar de timoneiro, é porque a coisa lá anda muito boa e nem o prefeito, nem o grupo de cavalarianos tem mais o quê fazer na vida.
O que significa levar numa caixinha um montinho de ossos, a única coisa que sobrou de um primata, de quem só se sabe que gostava de fazer revolução, isto é, de matar, de exterminar, de remover, a qualquer preço, tudo o que lhe contrariasse os objetivos?
Eu não sei. Não sei em que esse montinho de ossos poderá ajudar para o progresso, para a saúde, para a ciência, para a cultura de Santana do Livramento.
David Canabarro, pelo que me lembro do meu tempo de escola, é um dos valentões, chamados “heróis” farroupilhas, uma turma que andou fazendo revolução, uma revolução que chamam de “guerra dos farrapos”, feita em nome de uma pretendida independência do Rio Grande do Sul, que estaria sendo maltratado pelo governo central. Ao que me lembre, um dos motivos era o excesso de impostos, sem o correspondente retorno em obras e investimentos aqui nesta terrinha cheia de gaúchos valentes. E naquele tempo não havia mensalão, nem cartões corporativos.
Pelo que sei e todos nós sabemos, não adiantou de nada a tal de “guerra dos farrapos”, nada mudou, foi em vão todo e qualquer esforço dos gaúchos, no sentido de fazer a sua república, a sua independência, ou pelo menos no sentido de melhorar um pouco a vida desta gente dos pampas.
A coisa continua a mesma. Nem mesmo Getúlio Vargas, gaúcho metido a facão sem cabo como o Canabarro, que também fez revolução, conseguiu alguma coisa. Conseguiu, sim, mas para a gente dele, o Brizola, o Jango e todo esse pessoalzinho do PTB de antigamente. Nem com a ditadura Getúlio conseguiu melhorar o Rio Grande do Sul.
Se é por ser maltratado, hoje, mais do que nunca, o Rio Grande do Sul continua na mesma. Pagamos impostos escorchantes e não temos saúde, segurança, educação, estradas, transporte, nada disso.
De que adiantou fazer revolução? Para que serviram, mesmo, os “heróis farroupilhas”? Esses “heróis” que saquearam, degolaram, pintaram e bordaram pra nada?
Herói, para mim, é o cara que se arrisca para conseguir – e consegue – algo positivo, algo aproveitável, algo de que se possa dizer muito e por muito tempo. Para mim, não é herói quem, ao fim e ao cabo, acaba se entregando, em troca de anistia ou de benesses, como os atuais “heróis” da esquerda que se abeberam de felpudas indenizações, às nossas custas, sem que ninguém venha fazer revolução por nós, por causa do mensalão e dos cartões corporativos, por exemplo.
Assar a bunda em lombo de cavalo, de Porto Alegre a Santana do Livramento, carregando o resto dos ossinhos de um marmanjo que nem conheci? Me poupem! Prefiro calabreza, com borda de catupiry e um chope bem gelado. Em companhia de mulher, é claro, não de bombachudo.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

COLUNA DO PAULO WAINBERG

DETALHES TÃO PEQUENOS DE NÓS DOIS
Paulo Wainberg




Mildríades resfolegou diante e um corcel vermelho, ano 73, tala larga e roda de magnésio.
Era obcecada por carros, dos mais antigos aos mais modernos e resfolegar era seu exercício respiratório preferido.
E assim, resfolegando, aproximou-se do motorista e sem sequer perguntar pela família logo indagou: - Quer vender? - E o motorista: - Não.

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Acordou de manhã com a palavra na cabeça. Tomou banho e a palavra não saia de sua cabeça. Durante o café sujou os dedos com manteiga por causa da palavra que não saia de sua cabeça. Tentou ler o jornal mas a palavra não saia de sua cabeça e não conseguiu se concentrar.
Ligou o carro na garagem com a palavra martelando em sua cabeça. Deu marcha-ré e entrou na avenida, obrigando um Corsa a frear ruidosamente para evitar uma batida. O motorista do Corsa, indignado, gritou: - Olha por onde anda, imbecil! E a palavra finalmente saiu de sua cabeça quando respondeu, ultrajado: - Isto é um vilipêndio!

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Mordeu com gosto a maçã e sentiu-se desfalecer: o dente da frente quebrou. Sentiu na boca a mistura da maça com o dente enquanto tentava, quase em desespero, separar uma do outro. A platéia à sua frente ouvia com atenção as palavras elogiosas do mediador, anunciando o currículo e a importância dele, o palestrante do dia. Conseguiu engolir o pedaço de maçã depois de colocar o dente quebrado sob a língua. Disfarçando, fingiu coçar a boca e empunhou o dente, colocando-o como quem não quer nada no bolso do colete. Quando o mediador passou-lhe a palavra ergueu-se, foi até o púlpito e, diante do microfone, abriu um sorriso desdentado e disse, sibilando, a ponta da língua escorregando pelo buraco entre os outros dois dentes, que a conferência estava adiada por um defeito no teclado. A platéia ovacionou aliviada e a maioria foi para o pátio da escola jogar futebol.

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Ademir chegou cedo em casa e encontrou sua mulher na cama com Ademar, seu compadre. Sem alarde, saiu e foi para a casa de Ademar e lá chegando puxou a mulher dele, muito mais bonita do que a sua, para o quarto. Ela não resistiu e até sorriu. Enquanto tiravam a roupa Ademir concluiu, satisfeito, que naquela noite poderia assistir televisão em paz, depois do jantar.

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Laurita deixou as crianças as sete no colégio como fazia, todas as manhãs. Voltou para casa, encheu a banheira de hidro-massagem e deitou-se na água tépida, sentindo a energia dos jatos massagearem-lhe o corpo. Abriu o livro na página trinta e seis e perdeu-se na leitura. Onze horas vestiu jeans, tênis e camiseta, foi ao supermercado e, meio-dia, apanhou as crianças no colégio. Depois do almoço levou as crianças para a escolinha e suspirou, aliviada. Finalmente podia descansar.

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Carlão vendeu o último brinco de sua mãe e na esquina de sempre comprou uma dose de crack. Fumou e aliviou. Estava nervoso e preocupado com a prova de física do Vestibular, pois quase não tinha estudado. Será que ia levar pau?

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Dom Pedro I terminou de fazer cocô, lavou-se na bacia e vestiu a túnica imperial. Entrou no gabinete, chamou seu ajudante de ordens e disse, entre um pigarro e outro, que tinha resolvido criar o poder moderador. – Avisa o Benjamim Constant hoje mesmo e ele que não me venha com teorias. O ajudante de ordens anotou tudo em seu bloco de notas e respondeu: - Pois não, Meu Rei.

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Mildriades insistiu: - Quanto quer por ele? E o motorista: - Nada, minha senhora, não quero vender. Mildríades resfolegou e saiu rua afora, indignada.

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Estou a fim de um boquete hoje, disse Clinton. – É pra já, meu Presidente – respondeu Mônica. – Então tranca a porta, minha ninfa.

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- Ordenança, tire as minhas botas! – ordenou Gengis Kahn. Na mesma hora sua barraca esvaziou. Gengis Kahn passou a mão pelos pés cansados e cortou a palma na ponta da unha do dedão. – Merda! Os chineses vão pagar caro por isso. E derrubou a Grande Muralha da China em busca de uma chinesa que lhe cortasse as unhas.

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Ele sabia que, cedo ou tarde, teria que sair do banheiro. Amarrou o que pode, passou gel nos cabelos, refez a barba pela quinta-feira, tentou evacuar mas estava sem vontade, lavou novamente o rosto, escovou outra vez os dentes, ajustou o tope da gravata, alisou o colarinho, escovou o casaco, amarrou o cordão dos sapatos, tossiu e assoou o nariz. Quando novamente sua mulher gritou, lá do quarto, que estava na hora, a voz dela já irritada de tanto esperar, resignou-se. Foi lá, assumiu a presidência e acabou logo com aquilo.

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Quando finalmente expeliu uma pedra no rim e as cólicas passaram, Einstein inventou a teoria da relatividade. Há anos não sentia um alívio tão grande.

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Eu tenho horror de sair de baixo do chuveiro, no inverno.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

TEMAS JURÍDICOS

Magistratura em perigo, sociedade sem proteção!

por Antonio Sbano, Juiz de Direito
Secretário-geral da Anamages

A cada dia mais se atenta contra magistratura brasileira e mais se tenta exterminar com o Poder Judiciário, quando nada silenciá-lo.
Lei recente ordena que o juiz, antes de conceder liminar contra o governo, ouça-o. Vejamos um exemplo do quanto é nefasta a norma: um doente necessita de medicamentos que o governo tem o dever de fornecer e não o faz. O interessado vale-se da medida judicial, mas não pode esperar, sob pena de falecer e a medida se tornar ineficaz. O que fazer?
É estarrecedor, de um lado a letra fria da lei a atender interesses do governo; do outro uma vida humana clamando por proteção. Não nos esqueçamos que nenhuma lesão ao direito pode ser subtraída da apreciação do Poder Judiciário e o primeiro reclamo da parte é a urgência para seu pedido e que, interpretando a lei o juiz deve tender para o seu fim social. Mas, e daí, se deferir a liminar de plano um ministro (executivo) irá se rebelar e bater às portas do CNJ?
Dirá o leitor, absurdo!
Sim absurdo, mas acontece.
A Ministra Nilcéa Freire, segundo o jornal “O Globo”, edição do dia 16 pretérito, noticia que ela representou ao CNJ contra juízes que se negam a aplicar a Lei Maria da Penha por considerá-la inconstitucional. A mesma Ministra, dias passados, em trnasmissão pela TV, declarou que a culpa pela impunidade contra as mulheres se deve à lentidão da Justiça, defendendo que se atribua a Polícia o poder de decretar medidas cautelares, ou seja, até prisão.
Despreparo, má-fé ou simples jargão político?
Deixando ao largo a discussão doutrinária sobre a matéria, já remansosa, resta combater as duas afirmativas da Ministra.
Em primeiro lugar, parece que S.Exa. ignora princípio básico da Constituição Federal de que prestar jurisdição é ato privativo do Poder Judiciário, não podendo ser colocado na esfera de órgão do Poder Executivo.
Sob outro vértice, ela não pode pretender que o CNJ aprecie e avalie disciplinarmente a prestação jurisdicional simplesmente porque tem entendimento diferente do seu. Decisão judicial, alguém precisa ensinar à Ministra, se ataca pela via recursal própria, prevista na lei e não com representações ao CNJ.
Entender de forma diversa é rasgar com o devido processo legal, com as garantias constitucionais, quebrando-se o princípio da independência e harmonia entre os Poderes, eis que se está admitindo a um membro do Poder Executivo avaliar, censurar e questionar ato jurisdicional praticado estritamente dentro dos parâmetros legais.
Enfim, não se pode sequer pensar que o CNJ, formado por pessoas com elevado saber jurídico, se curve a tal barbárie e receba as tais representações, cujo único destino possível é o indeferimento in limine, e perdoem-me o azedume da crítica, não por impossibilidade jurídica do pedido, mas sim por ser ele teratológico, estapafúrdio e ferir os mais elementares princípios do direito.
O que se vê atualmente é o engessamento da Justiça brasileira, algemada a súmulas vinculantes, pelo menos uma, a das algemas, de duvidosa constitucionalidade; a avocação de processos; supressão de instâncias e com o amordaçamento por leis editadas para atender aos interesses do governo e não do povo brasileiro e, agora, com uma enxurrada de representações e de projetos de lei colocando sob ameaça a independência do juiz, tudo pra reforçar o poder ditatorial de uma pequena elite governante e, como bem destacou o Presidente Elpidio Donizetti em discurso durante o I Congresso Jurídico em Belo Horizonte, dando inveja a ditadores como Vargas e Médici por não terem sabido usar dos mesmos mecanismos de opressão, ao que acrescento, Stalin, Mao e outros devem estar se remoendo na cova por não terem tido a competência de extirpar direitos com uma caneta, ao invés de usar a bodurna, tudo sob uma aparente legalidade.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

VARIAÇÕES EM TORNO DO TEMA FIADASPUTAS

EXECUTIVO, LEGISLATIVO e JUDICIÁRIO
João Eichbaum

Que país esse, hein! Senão, vejamos (como diria qualquer bacharel em direito, que pensa que escreve bem e que faz uso de um português castiço)
Mas, dizia eu, que país!
O Presidente da República legisla. E quanto legisla! É medida provisória pra cá, medida provisória pra lá, medida provisória pra isso, medida provisória praquilo. Não sei quem foi, nem quero saber qual foi o “constituinte” ou o “constitucionalista” que inventou essa monstruosidade, essa excrescência, que autoriza o Poder Executivo da União a legislar. Sei que o Nelson Jobim andava por lá. E, se não me engano, também aquele que hoje é ministro do Supremo e que tem nome de sacanagem misturado com temperatura.
Você acha que não? Mas, me diga uma coisa: produtos “eróticos” não é coisa de sacanagem? Ou tais produtos estão rigorosamente dentro dos mandamentos da doutrina judaico-cristã, que manda “crescer e multiplicar-se”? E como é que se traduz o calor e o frio, como é que se chamam os coitados do Celsius e do Farenheit?
Pois bem, graças aos constituinte e “constitucionalistas” que tiraram um longo plantão bem remunerado, durante a feitura daquela colcha de retalhos que a maioria chama de Constituição Federal, o Poder Executivo legisla e os deputados só dizem amén.
Mas, os deputados o que fazem? Boa pergunta. E alguém pode fazer alguma coisa, comparecendo em Brasília apenas três dias na semana?
Sim, disse comparecendo em Brasília, porque seria uma ofensa a todos os trabalhadores do Brasil chamar de “trabalho” essa mamata de que se ocupam os deputados e os senadores deste país, que vive deitado eternamente num berço esplêndido,debaixo de um céu de anil, para rimar com Brasil.
Ah, sim, os deputados e senadores. Esses caminham pelos corredores do Congresso, beijam eleitoras, abraçam eleitores e formam comissões parlamentares que nunca servem pra nada, a não ser para acobertar corruptos.
E o Judiciário? Ah, o Judiciário cuida da saúde da população brasileira. Está doentinho, não paga plano de saúde e precisa de hospitalização? Vai no juiz, que ele resolve, ele manda dar um jeito e bota você no hospital. Ah, sim, no Brasil, quem decide pela baixa hospitalar são os juízes e não os médicos. Quer tirar essa coisa que está lhe incomodando no meio das pernas, essa coisa comprida e mole que não serve pra nada, só atrapalha? Vai no juiz que ele manda cortar o seu pinto inútil e você vira mulherzinha, tudo por conta do SUS. E se você tem plano de saúde, mas o tal de plano não cobre tratamento para sua doença, o juiz também resolve.
É assim que funciona a coisa neste país, meu amigo. E é para isso que você paga imposto: para remunerar a preguiça, a incompetência e a embriaguez provocada pelo poder. E foi por isso que a esquerda tanto lutou para chegar ao poder: os atos institucionais agora se chamam “medidas provisórias”, e a liberdade para fazer bobagens com o dinheiro do povo impera em todos os poderes.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

COLUNA DO PAULO WAINBERG

crônicas estomacais
DE PONTA CABEÇA
Paulo Wainberg



Um pedaço de mim guardei na saboneteira. Outro emoldurei na parede. O terceiro sobre a cama, embaixo das cobertas.
O resto, joguei na lixeira.
Que é o lugar do que não presta.
Na saboneteira foi a espuma de minhas mãos. Na parede o meu retrato. Sobre a cama, embaixo das cobertas, o meu sonho.
O resto, joguei na lixeira.
Depois peguei a saboneteira, o retrato e a lixeira e despejei sobre o meu corpo, embaixo das cobertas e desisti do meu sonho.
Ensaboado, emoldurado e acordado tirei meu corpo debaixo das cobertas e fui para a janela olhar, lá embaixo, o movimento.
O sonho era muito louco, nem valia a pena sonhar e, além do mais, não tenho saboneteira e nunca emoldurei meu retrato. As cobertas sim, pois o frio era de rachar e, lá embaixo, a rua estava deserta: não havia movimento.
A minha gravata vermelha, lá de dentro do guarda-roupas, só faltava falar e estava manchada de gordura.
“Homem de Deus!” – berrou o despertador – “está na hora!”. E lá me fui pegar um copo de água na cozinha, para tomar o remédio.
Depois pensei: o que é melhor, semiótica ou metalinguagem?
Semiótica não é uma doença visual como, à primeira vista (ou semivista) pode parecer, sinteticamente falando ela não se refere aos caolhos. Não. Semiótica e o estudo da linguagem, de qualquer linguagem e qualquer linguagem, para a semiótica, são os signos – não zodiacais – sinais, entende? Há uma linguagem numa lâmpada acesa que, se você estudar bastante semiótica, vai entender e, com sorte, até falar.
A metalinguagem, por sua vez, é a linguagem usada para descrever algo sobre outra linguagem.
Teoricamente, você usa a metalinguagem para descrever a semiótica que, por sua vez, utiliza a metalinguagem para descrever a si própria.
Ou não.
Naquele quadro em que Salvador Dali pinta a si mesmo pintando Gala de costas diante de um espelho onde ele pinta a si mesmo de frente pintando Gala de frente é um exemplo perfeito de metalinguagem que só pode ser explicado através da semiótica, desde que você se utilize, previamente, da metalinguagem, resultando num teorema cibernético da mais fácil compreensão onde Um menos Miau é igual a Triz.
Outro exemplo a mostrar como é simples a metalinguagem: o autor do romance discutindo, ao vivo e diretamente com seu personagem: - Você, Heitor, é loiro e alto – diria Virgílio. – Não, não, poeta, sou moreno e baixo – responderia Heitor.
Uma coisa mais ou menos assim.
Refletindo, chutei meu gato de pelúcia contra a parede, gritei gol e decidi que semiótica e metalinguagem fossem solenemente para o inferno porque eu não gostava de nenhum dos dois.
E o telefone não toca, ninguém manda e-mail e há décadas não recebo um postal.
Algum doutor conhece um remédio para o fracasso? Uma pílula, gotinhas, topo até injeção na veia. Sabe o que é? Descobri que quem tem muito não tem nada, quem tem pouco não tem nada e quem não tem nada... esse é que não tem nada mesmo.
Nesse momento ouvi um motor, corri para a janela mas o carro já tinha passado. Continuei sem movimento para ver.
Peguei meu gato de pelúcia e pedi desculpas, coitado, chutado assim em vão.
Falando sério? Não tenho gato de pelúcia.
Estou mesmo é com saudade de sentir saudades.
Nada mais me dá saudades. Ninguém que eu queira rever, nada que eu queira comer de novo, nenhum livro para reler, nenhuma amada distante a me torturar.
Agora sim, um motor, luz de faróis, abro a janela, calculo, me jogo aqui de cima e caio bem no meio do caminhão do lixo.
Enfim sós.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

VARIAÇÕES EM TORNO DO TEMA FIADASPUTAS

A PÁTRIA AMADA, IDOLATRDA, MALTRATADA

João Eichbaum

Se há uma coisa de que o Lula entende, não tenham a mínima dúvida, é de futebol. Olhem o que ele disse, depois que os barbados da seleção olímpica brasileira sofreram uma humilhante derrota para a seleção argentina: “ nunca vi um time tão sem vontade de ganhar. Nunca passei tanta raiva na minha vida”.
Além de gostar de futebol e de entender do assunto, o Lula “passou” uma raiva, porque a vitória representaria para ele também uma grande vitória. A vitória iria para as urnas, seria uma vitória do governo do PT. Principalmente, se os brasileiros ganhassem o “ouro”. Aí, seria a glória, desfilariam no carro de bombeiros, com o povo vibrando o estandarte que “a brisa do Brasil beija e balança”.
Mas notem o que diz o presidente desta pátria amada, idolatrada e agora maltratada pelo Messi, pelo já veterano Riquelme e outros nove mais: “nunca vi um time tão sem vontade de ganhar”.
Mas claro, ilustre torcedor. Para ganhar, além de técnica e preparo físico é preciso garra. E garra, muitas vezes, implica prejuízo, às vezes graves lesões, além do desgaste. E como é que aquela turminha convocada pelo Dunga, cheia de dinheiro, mergulhada nos milhões e na fama européia, iria se arriscar a tanto? Uma lesão poderia tira-los das manchetes, diminuir-lhes as possibilidades de fazerem grandes contratos com multinacionais. Por isso, não valeria a pena tanto esforço. A coisa tinha que vir ao natural pela “arte” do futebol brasileiro. Mas como a “arte” não apareceu, prevaleceu a garra argentina, porque os argentinos, acima de tudo, amam a pátria, tanto que até guerra fizeram com a Inglaterra.
Todo o mercenário só tem em mira o dinheiro. Porque dinheiro traz fama e belas mulheres pra cama.
Olhem o Pato, o famoso Pato. O que foi feito dele? Ganhou fama e, ainda sem sair das fraldas, “noivou” em Paris com uma artista de novela. Isso sim é glorioso. A pátria amada e idolatrada, que vá às favas – para dizer o menos.
Garra tinha o Dunga, que nunca foi grande jogador. Mas a garra dele é que superava todas as deficiências. A seleção por ele convocada tem lá dois artistas, o Ronaldinho e o Pato, mas, como todo o artista, viveram eles dias sem inspiração e sem inspiração não há arte. O resto era a cara do Dunga, jogadores de nível médio, que podem até brilhar em times europeus, formados, na maioria, por pernas de pau, mas que não tinham a garra compensadora do mesmo Dunga.
Foram muito longo os olímpicos. O time mais forte que encontraram antes da Argentina foi o de Camarões, de quem só ganharam depois que o adversário ficou com um a menos, com uma expulsão injusta.
Sei que a derrota não vai adiantar de nada. Vão continuar convocando os mercenários para novas seleções e assim tirando a única alegria que os brasileiros têm, o único orgulho – idiota, por sinal – que podem invocar. A pátria continuará sendo amada, idolatrada, mas maltratada pelos políticos corruptos e pelos adversários que sabem jogar com garra.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

COLUNA DO PAULO WAINBERG

crônicas funéreas

A LINHA DO DESCOBRIMENTO
Paulo Wainberg



Quando descobri que não suportava gosto e cheiro de leite era tarde demais. Minha mãe teve que queimar o tapete da sala. Vomitei como gente grande e tinha seis anos.
Quando descobri que as meninas adoravam meu olhar penetrante entrecortado pela fumaça do cigarro era tarde demais. Eu já estava viciado e tinha doze anos.
Quando descobri como foi bom comer a empregada doméstica lá de casa era tarde demais. Peguei “chato”, coçou, ardeu e eu tinha catorze anos.
Estas três descobertas – que considero essenciais na formação de meu caráter – produziram modificações profundas na minha existência embora, no momento, não me lembre de nenhuma.
Praticamente falando, nunca mais bebi ou cheirei leite, fumo até hoje e me cuidei para nunca mais pegar doenças venéreas. Me dei bem nas três.
Não sei se você sabe e se não sabe vai ficar sabendo que a realidade só existe na ficção e que a ficção, por ser ficção, não existe.
Não é uma teoria, meu caro passageiro, é um princípio que, como todo o princípio, não tem fim porque, se tivesse fim, não seria princípio.
Princípio com fim volta ao princípio o que prova, definitivamente, que eternidade não existe porque, ao contrário do que possam imaginar alguns filósofos de resultado, cientistas de ocasião e religiosos materialistas, a eternidade não tem nem princípio nem fim.
É um pensamento mais claro do que o mais claro dos brancos jamais produzidos.
Por causa disso acho que um dos melhores exercícios físicos que se pode praticar, nessa vida sedentária que nos assola, é visitar cemitérios. Além do ar puro, da paisagem bucólica e da vista da cidade, se o cemitério for num morro, você verá velhos conhecidos, antigos parentes e uma infinidade de pessoas que você sequer sabia que tinham nascido e já estão por lá, mortinhas da silva.
Caminhando por alamedas floridas e perfumadas pelos troncos e folhas de ciprestes você perceberá que a paz existe, está ali, ao seu alcance, basta ter um pouco de paciência.
Entre um túmulo e outro, lendo as saudades imorredouras escritas nas lápides – no caso das mais antigas são saudades que já morreram há muito -, observando alguns montinhos de terra aguardando o túmulo, marcadas com plaquetas numeradas ou pequenos lotes de terra com aviso de “reservado”, você compreenderá o motivo pelo qual, no mundo dos negócios, a compra e venda de imóveis cemiteriais é de longe a mais rentável, a única que não sofre com a crise da construção civil.
Acho que é o meu espírito levemente bucólico, mas não gosto de edifícios – cemitérios, com vários andares e área construída imponente, onde os túmulos são enfiados em nichos, nas paredes, para ganhar espaço.
O condomínio vertical dos mortos soa assim, mal, como heresia financeira. Prefiro os ao ar livre, com túmulos horizontais espalhados diretamente sobre a terra, com amplos gramados, monumentos, flores da estação e pedras brancas sobre as lápides.
É mais bonito, agradável de se ver, são cemitérios com poesia, entende?, disfarçando a especulação imobiliária subjacente a cada contrato de compra e venda de um lote.
Outra coisa boa de se fazer em cemitérios é lembrar. Você para diante do túmulo de uma pessoa que, por ouvir falar, você sabe que foi seu bisavô a quem nunca conheceu. Mas do seu avô você lembra e sorri, afetuosamente, recordando quantos presentes ele te deu e como era bom quando ele te pegava no colo. Talvez até uma lágrima escorra, não de saudades dele mas de saudades de você mesmo, da idade que você já teve e das descobertas que você, assim como eu, fez ao longo de sua vida.
Quantas vezes você conversou com uma foto antiga, encravada na pedra, e não obteve resposta?
Mas, passeando no cemitério, a gente conversa com fotografias e pedras, esperando uma resposta, por que será? Mesmo sabendo que ela não virá?
Por isso não acho graça em cremações. Tudo o que lhe restará para uma conversa será uma urna na prateleira de cima, no móvel da televisão e que você nem vê mais, como a gente não costuma ver as coisas que estão sempre diante dos nossos olhos.
Tem outra coisa que nos ocorre, inevitável, quando passeamos em cemitérios: saber que um dia será a nossa vez e tudo o que somos, temos e sentimos terminará ali, emoldurado por uma lápide com foto e saudades imorredouras que morrerão logo ali. E, também é inevitável, tiramos de letra, isso é coisa para depois, quando chegar a hora a gente vê como é que é. E para disfarçar você enfia as mãos nos bolsos ou segura a bolsa com as duas mãos e fica apreciando os passarinhos flibusteiros que por ali voejam qual navios fantasmas.
Aí você sai do cemitério, dá uma gorjeta ao flanelinha que ganha a vida com enterros alheios e volta à vidinha de sempre como se nada tivesse acontecido.
É ou não é?
Aposto que no mundo paralelo que, como se sabe, existe simultaneamente ao nosso, eu gosto de leite, nunca fumei e jamais comi a empregada lá de casa.
Nem fico pensando nesse tipo de coisa.
Lá eu tomo leite adoidado, bem gordo e com nata, as garotas adoram meu olhar penetrante sem fumaça de cigarro e as empregadas domésticas não transmitem chato. Lá eu não vou a cemitérios, não escrevo crônicas, ganho um monte de dinheiro e, quem sabe, até viro senador de preferência, deputado federal, vá lá que seja, ou cantor de ópera, o que seria uma glória.
Você prefere ir ao cemitério em dia de sol ou em dia de chuva?

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

FILOSOFANDO
João Eichbaum
Por acaso você lê obras filosóficas? Por acaso você, em sua puta vida, comprou algum livro de filosofia? Por acaso você conhece algum filósofo que ficou rico só “filosofando”, sem trabalhar? Por acaso você sabe pra que serve a filosofia?
Pois, saiba você que tem gente que se orgulha de “conhecer” filosofia. Um dia li uma entrevista de um professor de filosofia, se gabando de que ele é maior conhecedor de Heidegger no Brasil?
Mas, e daí, pergunto eu. Pra que é mesmo que serve ser o “maior conhecedor” de Heidegger, no Brasil?
Hoje com a informática, com qualquer criança manuseando o computador, você acha que a filosofia serve pra alguma coisa?
Conta Cícero que Pitágoras, o criador do vocábulo “filosofia”, composto das palavras “filos”, amigo, e “sofia”, sabedoria, quando indagado pelo Príncipe Leonte em que arte era versado, respondeu: “em nenhuma”.
É aí que eu quero chegar: filosofia não serve pra nada, quando parte de gente que pensa que é o tal, porque enrola, diz coisas que ninguém entende. A verdadeira filosofia não precisa de universidade, nem de estudo nenhum. É a filosofia que nasce com a experiência do homem, do homem comum, que lida mais com a vida do que com os livros, do homem que se preocupa mais com a sobrevivência do que com a literatura.
A filosofia popular, sim, é a que verdadeiramente conta. Porque ela faz pensar mas, antes de tudo, diverte. A gente lê o que está escrito nos parachoques de caminhão, nos mictórios e cagadouros públicos e aí sai dando risada. Mas, pensando, é verdade.
Por exemplo: “no dia em que a merda for riqueza, o pobre vai nascer sem bunda”, que eu li num mictório de rodoviária. Não é de morrer de rir? Sim. Mas, pensando bem, tem todo um sentido que explica a ojeriza dos deuses para com os pobres. A frase desvenda a inconformidade para com os privilegiados desta vida, mostrando que não há justiça divina, porra nenhuma, governando os homens.
E essa outra, em forma de poesia, escrita pelo lado de dentro da porta de um cagadouro público, que iguala a todos e é realista, admite que ninguém é mais do que ninguém, porque, na verdade, Darwin tinha plena razão:
“Neste lugar solitário
toda a vaidade se apaga:
todo o covarde faz força,
todo o valente se caga.”
E tem aquela que explica as maravilhas da democracia, pela qual os políticos tanto clamam e que dá nisso que aí está, com políticos corruptos, incompetentes mas sacanas, mensalão, cartões corporativos, bêbados sem moral mandando prender bêbados, etc.:
OS POLÍTICOS NO BRASIL NÃO SÃO ESCOLHIDOS PELO POVO QUE LÊ JORNAL, MAS PELO POVO QUE LIMPA A BUNDA COM ELE.
Isso, sim, é filosofia.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Marcelo Bertasso, Juiz de Direito
Publicado em: Constitucional, on Agosto 14, 2008 at 3:03 am, http://mpbertasso.wordpress.com/

Hoje o STF aprovou a Súmula Vinculante que “regulamenta” o uso de algemas. Eis seu teor: ““Só é lícito o uso de algemas em caso de resistência e de fundado receio de fuga ou de perigo à integridade física própria ou alheia, por parte do preso ou de terceiros, justificada a excepcionalidade por escrito, sob pena de responsabilidade disciplinar civil e penal do agente ou da autoridade e de nulidade da prisão ou do ato processual a que se refere, sem prejuízo da responsabilidade civil do Estado”.
Eu já havia criticado aqui a falta de sintonia dos ministros do Supremo com a realidade. Mas o teor da súmula demonstra falta de sintonia da corte com a letra da Constituição, diversos os vícios que inquinam o ato.
Para começar, não existiam “reiteradas decisões sobre matéria constitucional” envolvendo limitação do uso de algemas, de modo que se violou o caput do art. 103-A da Constituição. O que existia era o julgamento de um habeas corpus em que se discutia a nulidade da sessão de julgamento do Júri em razão de ter permanecido o réu algemado. Assim, não havia correlação entre a questão decidida e o teor da súmula, que extrapolou os limites da questão levada ao conhecimento do plenário.
Afora isso, o § 1º do art. 103-A estabelece que a súmula terá por objeto o “objetivo a validade, a interpretação e a eficácia de normas determinadas“. Qual norma determinada foi interpretada pelo STF ao editar a Súmula nº 11? Nenhuma. Consta, oficialmente, que seria a regra do art. 474, § 3º, do CPP, com a redação dada pela Lei 11.698/2008, que passou a vigorar anteontem e nem existia quando dos fatos que ensejaram o HC.
Continua o § 1º do art. 103-A da CF dizendo que somente caberá súmula vinculante quando existir “controvérsia atual entre órgãos judiciários ou entre esses e a administração pública”. Existia essa controvérsia no caso? Evidentemente que não. E mais, dessa controvérsia deve advir “grave insegurança jurídica e relevante multiplicação de processos sobre questão idêntica”. O tema não gera insegurança jurídica e muito menos relevante multiplicação de processos sobre questão idêntica. E aí temos outro problema: “questão idêntica” seria acerca da validade do julgamento pelo Júri com réu algemado, e não o tema abstrato de “limites ao uso de algemas”.
O STF poderia ter editado súmula dizendo que é nulo o julgamento realizado pelo tribunal do júri com réu algemado injustificadamente. Mas não poderia ter regulado toda a matéria de forma genérica como fez.
Em síntese, nenhum dos pressupostos constitucionais relativos à edição de súmula vinculante estava presente, daí sua patente inconstitucionalidade formal.
Em suma, o STF inovou originariamente no ordenamento jurídico, ou seja, legislou mesmo. E isso fica mais evidente quando se observa a exigência feita pelos ministros de que a ordem de uso das algemas venha por escrito. No ordenamento jurídico há dois dispositivos que mencionam o uso de algemas: o art. 474, § 3º, do CPP e o art. 234, § 1º, do CPPM. Nenhum desses dois dispositivos exige ordem escrita da autoridade para determinar o uso de algemas. O STF, portanto, ao “interpretar” a norma, estabeleceu condições que nem a própria lei fez. Extrapolou os limites dela. É situação semelhante ao que ocorre quando o Presidente da República regulamenta a lei através de decreto: se o decreto extrapola os limites da lei, fazendo exigências que ela não faz, ele é inconstitucional.
A pior parte fica para o final. A súmula estabelece penas para o caso de sua não observância: responsabilidade civil, disciplinar e penal do agente ou autoridade e nulidade da prisão ou do ato processual.
Comecemos pela nulidade, que é mais branda. As nulidades são previstas textualmente no CPP, mas admite-se sua decretação em outras hipóteses não incluídas no rol legal. Mas o Código é expresso em dizer e a doutrina não cansa de repetir: não há nulidade sem prejuízo. Imagine-se que o réu seja interrogado com algemas, sem ordem por escrito. Qual o prejuízo do ato? Nenhum. Hipótese diversa é a do julgamento pelo Júri, porque os jurados, leigos que são, podem se influenciar pela visão do réu algemado. Já o Juiz togado, que é técnico, não se influenciará por isso, até porque, muito provavelmente, se o réu está preso foi por ordem do próprio juiz. Se ninguém questiona a imparcialidade do Juiz que decreta a prisão preventiva do acusado, muito menos a questionará quando o juiz interrogá-lo de algemas.
Portanto, o uso de algemas em atos processuais, por si só, não importará em nulidade, e a súmula vinculante do STF não tem o condão de revogar o CPP na parte em que determina que somente ocorrerá nulidade se dela advir prejuízo ao direito de defesa do réu.
Resta analisar a pior parte: responsabilidades. Quanto à responsabilidade civil, basta lembrar que as obrigações têm três fontes: lei, vontade e ilícito. Súmula vinculante não cria obrigação, apenas interpreta a lei. Poder-se-ia dizer que a responsabilidade do agente, aqui, decorreria do ilícito: usar algemas em desacordo com a lei. Mas, em primeiro lugar, os dois dispositivos legais que regulam a matéria não prevêem responsabilização civil do agente que a inobservar. Fora isso, onde estaria o dano aí? Qual o abalo moral ao réu que já está preso e foi mantido com algemas durante audiência? Salvo raras exceções, me parece não existir, não se tratando, evidentemente, de dano moral in re ipsa.
Quanto à responsabilidade disciplinar, novamente descabida a súmula, porque as hipóteses de responsabilização disciplinar devem advir do estatuto legal que discipline a carreira jurídica. O delegado não pode ser punido por fato não previsto na lei que o regula, assim como o magistrado não pode ser punido por situação não prevista na LOMAN, ainda que súmula vinculante o faça.
E quanto à responsabilidade penal, temos o mais absurdo. Os ministros esqueceram que em direito penal ainda existe um princípio denominado “legalidade”. Súmula não define crimes e nem penas. Mas, podem dizer os defensores do ato, a súmula apenas interpreta a subsunção entre a conduta de manter as algemas e o tipo previsto na lei de abuso de autoridade. Ocorre que essa subsunção é feita casuisticamente, de acordo com as circunstâncias de cada situação e a prova dos autos. Súmula não pode estabelecer, de forma genérica, o que é ou não crime. Isso somente cabe à lei.
Em suma, o STF usurpou o papel do legislador, sumulou entendimento que extrapolava os limites da questão que lhe foi trazida, agindo de ofício.
Isso demonstra o lado perverso do instituto da súmula vinculante. Concebida como um instrumento de otimização da prestação jurisdicional e uniformização de entendimentos no Judiciário, se mal utilizada (como no caso), pode gerar efeitos catastróficos. Basta lembrar que somente a lei pode inovar no ordenamento jurídico, mas para isso ela é proposta por parlamentar, passa por diversas comissões temáticas, é aprovada em duas casas legislativas, submetida à sanção, onde o Presidente da República ouve ministros de diversas área relacionadas e só depois decide. E, após isso, essa lei pode ser questionada concretamente perante o juiz de primeiro grau, e, em abstrato, perante o STF.
No caso da súmula vinculante, onze ministros resolveram, numa canetada, regular abstratamente algo que nem a lei regula, editaram um ato que não pode ser questionado nas instâncias inferiores do judiciário, não foi submetido a discussão no legislativo e à análise do executivo e que só pode ser alterado a partir da iniciativa de uns poucos legitimados.
Talvez o Constituinte reformador de 2004 não tenha se atentado para esse tipo de situação ao deixar de prever mecanismos de controle do instituto das súmulas vinculantes. Ou tenha acreditado que nossas instituições tivessem atingido um grau de maturidade que, agora se vê, está longe de ser alcançado.
OBSERVAÇÃO: tinha começado a escrever uma crônica exatamente sob esse ponto de vista do meu colega mineiro. Lendo o trabalho dele, vi que temos as mesmas idéias. Por isso dispensei as minhas. Só acrescento o que ele, certamente, não quis dizer. Para justificar a soltura do Daniel Dantas e outros nem tão votados, o STF veio para a imprensa, trazendo o caso de um pobre. Só que uma coisa nada tem a ver com a outra. João Eichbaum

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

RELEVÂNCIAS REVELADORAS
Paulo Wainberg






Boca de siri e pó de mico eu entendo, mas chá de sumiço?, que produto é esse?
Boca de siri se explica porque é fato público e notório que siri não tem boca.
Então, quando alguém quer ficar calado finge que é um siri, caminha de lado, usa os dedos para beliscar o outrem e, como não tem boca, nada diz.
Boca de siri é um excelente remédio para depoentes de CPIs, políticos corruptos – com perdão da redundância – e mulheres que infiéis.
Recomendo.
O pó de mico, apesar de mais complexo, também é facilmente compreensível. Pó sabe-se o que é e mico também.
O pó é o conjunto de partículas infinitesimais que se estabelece em cortinas, prateleiras, estantes de livros, meias sujas, camarotes de navios, capôs de automóveis e regiões pubeanas com pouco uso. Origina-se da desfragmentação constante da matéria propriamente dita, ou seja, o que tem consistência e vai perdendo a consistência até se transformar nas partículas – pó – que é espanável mediante o uso de espanadores e esfregaço de mãos, espalhando-se por aí até sofrer os efeitos das leis da gravidade e da inércia, assentar-se nos mesmos locais de onde foram antes espanados. Nenhum mistério, pois.
O mico, por sua vez, é uma espécie macacal, normalmente de pequeno porte e com grande agilidade através do uso de suas quatro mãos e rabo, para pendurar-se em árvores, pulando de galho em galho. Extremamente inteligente, é capaz de utilizar suas capacidades reflexivas para copiar gestos e expressões humanas e vice-versa, simbolizando à perfeição a teoria darwiniana da evolução das espécies e a teoria freudiana de regressão das mesmas espécies.
Devido às reações osmóticas, tão comuns na natureza, o mico produz uma secreção sudorífera que se mistura ao pó que se instala em sua pelugem, fazendo com que a pele absorva o produto daí derivado, submetendo-se aos processos transformativos na região gástrica e expelido pela constante flatulência mical, produz desagradável alergia quando em contato com a pele humana, sintomatizada por infernal coceira.
Daí a origem da palavra “micose” que é quando você se coça desesperadamente e a coceira não passa nem com aplicação de nebacetim, cujo nome popular é sulfato de neomicina.
Originou também a inesquecível marcha de carnaval Venha cá seu guarda, bota pra fora esse moço que está no salão brincando com pó de mico no bolso. Foi ele, foi ele sim, foi ele que jogou o pó em mim (repete).
Acometido de micose ou por uma carga pesada de pó de mico você aprende o quanto dói um suplício, descobre para que servem, afinal, as unhas e depois de tentar as pomadas mais sofisticadas resolve acabar com tudo e toma um banho de álcool - que é quando você aprende o quanto dói uma ardência.
E não se cura.
Imagine esta situação: você foi convocado pelo Ministério Público para explicar de onde saíram os milhões acumulados em suas contas, descobertos graças ao cruzamento de seus dados pela Receita Federal, logo após encerrar o seu mandato de senador da república.
No percurso você decide virar um siri, andar de lado e ficar quieto como quando, depois da terceira tentativa e das várias explicações, não conseguiu tirar o sorriso de deboche do rosto dela.
Duas quadras antes de chegar um mico invade seu carro – você não aceita o conselho de sua mulher de nunca andar com o vidro aberto, bem feito! – abraça você, brincalhão como ele só, e... flatúa.
Bem, não sei se existe o verbo “flatuar” e como para bom entendedor meia palavra é bosta, permita-me ser um pouco vulgar em nome da compreensão: o mico peida, inundando você com o seu pó.
Imediatamente você sente os efeitos alérgicos e começa a se coçar e, se coçando, caminhando de lado e fingindo ter boca de siri, tem que enfrentar o promotor público, um menino que poderia ser seu filho ou, no caso, seu neto.
Ele pergunta e você se coça. E lá se vão três horas, você não agüenta mais a situação e, numa afronta indizível, abandona o recinto em busca de um garfo, um ancinho, um pente, qualquer coisa dura e pontuda que substitua as suas unhas manicuradas e curtas, inúteis para a coçagem.
Resultado: o promotor prende você por desacato, você é colocado numa cela repleta de presos com unhas compridas e coisas pontudas e aí...
É neste momento, neste exato momento, que você gostaria de tomar um chá de sumiço.
Chá é aquela infusão esnobe sem gosto ou de gosto ruim, muito útil quando acompanhada de aspirina, conhecida popularmente como ácido ascetil (?) salicênico (?), para aliviar os dissabores de uma gripe.
Sumiço, não vou explicar. Pelo menos isso você tem que saber o que é.
A lógica não falha, você quer ingerir uma infusão desagradável que faça você desaparecer.
Há muitos, mas muitos anos atrás eu tive que ir para casa e contar que rodei em física e tinha ficado em segunda época. Coisas do século passado que existiram, sim senhor.
Era uma tragédia ficar em segunda época, um exame que se realizava em fevereiro, estragando completamente as férias de verão. Uma vergonha para meus pais, quase uma desonra. Todos os filhos dos amigos deles, meus colegas de aula, tinham passado, menos eu. A segunda época era a chance que as escolas davam para quem não tinha estudado e uma catástrofe familiar. Eu ia ter que estudar o verão inteiro e fazer o exame para não perder o ano.
Eu caminhava rumo ao cadafalso sabendo que a notícia ia desestruturar a família e que sobre mim cairiam reprimendas inarráveis, proibições desastrosas como ir ao cinema, ouvir rádio (não tinha TV), ler gibi e a pior de todas, não ir para a praia.
Um desastre que só foi menor do que no ano seguinte, quando fiquei em segunda época em Desenho. Sim, minha amiga, Desenho era uma matéria do currículo escolar. A minha aptidão para Desenho equivalia à minha vocação para explorador submarino. Desenho estava tão distante da minha realidade quanto a criação de moluscos em cativeiro ou a receita de um risoto de camundongos no Cuzibistão.
Cada passo que eu dava aumentava meu medo, tudo o que eu queria era tomar um chá de sumiço. Entende? Desaparecer da face da terra, escapar do momento crucial em que, cabeça baixa e olhando para os bicos sujos do meu vulcabrás, dizer aos meus pais: fiquei em segunda época em física.
Na esquina tinha uma farmácia e apelei. “Moça, eu queria um chá de sumiço”.
Jamais, mas jamais mesmo, vou esquecer o olhar que ela me deu.
Do lado da farmácia tinha um armazém de secos e molhados, o precursor do supermercado. Também não vou esquecer o corridão que levei do velho que ouviu o meu pedido.
Foi quando compreendi que não existe chá de sumiço. Não adianta procurar em lugar algum, nem na Daslu.
Sinceramente, espero que você encontre alguma utilidade para esta crônica. Acabei de reler o que escrevi e, francamente...
Porém tenho esperanças. Se você achar que ela serve para alguma coisa não se omita e me diga, nem que seja para me fazer um carinho.
Ah, e um bom fim de semana....

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

VARIAÇÕES EM TORNO DO TEMA FIADASPUTAS

A CLASSE MÉDIA DO LULA

João Eichbaum

Se você ganha R$1.065,00 por mês, você é um cara feliz, e não sabe. Não sei porque é que você, ganhando tão bem, pode se queixar do Lula, do PT, do MST, do Tarso Genro, dessa gente toda que compõe hoje a classe dominante do país.
É que você, com essa grana toda, subiu muitos pontos na vida, você teve uma ascensão social, você pertence à classe media, cara. E quem diz isso não sou eu. Quem o diz é a Fundação Getúlio Vargas. De acordo com essa instituição, que eu não sei nem para que é que serve, não sei de dá lucro pra alguém, ou se só dá bons empregos, a custa de quem também não sei, de acordo com essa instituição, dizia eu, cerca de 20 milhões de brasileiros deixaram a base da pirâmide social e se deslocaram mais para o meio.
Como é que a Fundação Getúlio Vargas chegou a essa conclusão? Ora, muito simples: porque quem tem geladeira, televisão e máquina de lavar roupa pertence à classe média.
A revista Época mostra o perfil de uma dessas pessoas de classe média: Josineide Mendes Tavares, tem 34 anos, é manicure, mora na favela da rocinha, com dois filhos pequenos, numa casinha de 35 metros quadrados. Sete por cinco. Não, isso não é a área de uma peça. É a área de toda a casa. Mas, olha só, dentro desse cubículo a dona Josineide tem uma televisão de tela plana de vinte e nove polegadas, com DVD, naturalmente. Ah, e ainda paga canal fechado porque os filhos gostam do Cartoon, e do Discovery Kids. Freezer, geladeira e máquina de lavar roupa a dona Josineide, evidentemente, não poderia dispensar. Tudo isso, ganhando de R$ 1.500,00 a R$ 2.000,00 por mês. Um detalhe: com tudo isso dentro daquela casinha, não sobra lugar para um sofá, circunstância que leva a família a assistir televisão em cadeiras comuns, junto à mesa das refeições.
Então, pelo conjunto da obra, isto é, por ter a sua casinha de trinta e cinco metros quadrados equipada com tantos aparelhos, a dona Josineide saiu da parte de baixo da pirâmide social, deu um passo importante e foi contemplada com o rótulo da classe média.
É claro que ela, dona Josineide, não se sente à altura desse rótulo. Embora não diga claramente que quer esculhambar o time da Fundação Getúlio Vargas, para ela, segundo declarações prestadas à revista, pertence à classe média a família que “tem filhos estudando em boas escolas particulares, carro e dinheiro para uma pequena viagem de fim de semana, uma vez por mês”.
Mas a opinião dela não conta. O que conta é a opinião do Lula, pois, segundo ele, a pobreza está diminuindo, todo o povo brasileiro está muito feliz e nada disso aconteceria se ele não tivesse nascido. E a Fundação Getúlio Vargas, a serviço das opiniões do Lula, justamente às vésperas das eleições, impõe goela abaixo da dona Josineide a certeza estatística de que ela teve uma efetiva ascensão social e, portanto, está de pele nova, vestida de classe média, bem engomadinha.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

COLUNA DO PAULO WAINBERG

Crô
É ASSIM, É OU NÃO É?
Paulo Wainberg




Minha relação com elevadores é conflitada há muitos anos. Quando quero subir ele desce, quando quero descer, ele sobe.
Aqui entre nós e que ninguém fique sabendo, tenho conflitos semelhantes, bem mais eventuais, raríssimos, na verdade que me lembre, apenas uma vez e nem foi tanto assim, em outras áreas de minha atividade em que minha vontade de subir não corresponde aos desígnios hidráulicos dos aparelhos competentes...
Et voilá!
Aperto o botão para descer e o elevador que se abre à minha frente sobe. Aguardo pacientemente e quando ele desce... está lotado.
E vice-versa, vice-versa, vice-versa e, por fim, vice-versa.
Nas raríssimas vezes em que chega a frente dele e ele está escancarado, prontinho para mim e com vontade de atender à minha vontade, sinto que daí em diante e para o resto do dia, a sorte me bafeja.
Você sabe que não sou supersticioso embora não me atreva a deixar de passar a mão num poste, ali na esquina, sob pena de ter um azar terrível. Não se pode dizer que isso é uma superstição, não senhor.
Vamos por o fato no arquivo denominado “manias” que, mal ou bem, ocupa boa parte do meu disco rígido a ponto de, algumas vezes, ser chamado a compactá-los para liberar mais espaço disponível.
Dentre as manias que eu tenho uma é gostar de você. E você sabe que é com você que estou falando, não vou revelar seu nome, fique à vontade, você e eu sabemos de quem estou falando. E para não alimentar idéias difusas, conflitos emocionais, crises de ciúmes, ilusões vãs, esperanças inúteis e mal-entendidos de qualquer tipo, espécie, intensidade e fúria, deixo bem claro que “entre as manias que eu tenho uma é gostar de você” é como começa uma música de autoria, se não falha o winchester, de Flávio Cavalcanti, aquele mesmo que quebrava discos ao vivo no seu programa de auditório, no início da segunda metade do século passado.
Não me confunda, originalidade não é o meu forte. Mas tenho uma categoria para copiar os outros que... raros possuem. É um dos meus talentos, o maior deles, talvez.
Voltando aos elevadores, já notou o tempo de vida útil que perdemos a bordo. Assim, por alto, calculo que mais de dez por cento de nossa vida são perdidos subindo, descendo ou esperando pelos cubículos voadores.
Foi depois dessa estatística que desenvolvi algumas técnicas para passar o tempo durante o percurso vertical, principalmente quando ele está lotado, isto é, quase sempre.
A primeira coisa que inventei (e parei quando quiseram me bater) foi tossir tumularmente e depois comentar em voz alta: se meu médico sabe que saí do hospital com este vírus, vai me matar.
Tive sucesso algumas vezes, o pessoal sorriu amarelo, uns perguntaram qual era o vírus, muitos queriam saber como se transmitia, quando a coisa engrossou definitivamente saltei na primeira parada, o que me custou preciosos minutos de espera até conseguir nova vaga, com público diferente.
Quando o elevador está repleto de homens (quase sempre), digo alguma piadinha sem graça do tipo “o ambiente está pesado”, ou “cheiro de homem é horrível” que ninguém acha graça nem responde. Aí eu insisto: “com minha sorte ele vai estragar e vou ficar trancado com vocês. Já pensou?” E nada. Então, uma vez, resolvi ficar quieto e agüentar no osso do peito a varonil companhia. Fiquei indignado quando um baixinho disse: “o ambiente está pesado”.
Quando estou acompanhado de mulheres, me comporto. Silêncio absoluto, olhos postos no marcador de andares e músculos imobilizados, vamos que encoste em alguma sem querer e ela resolva armar um barraco ali dentro.
Ou, o que é pior, que ela corresponda à encostada...
Se o público é misto deixo a coisa ao acaso. Se alguém falar eu falo. Se alguém respirar eu respiro. Se alguém comentar eu comento. Viro Maria Vai com as Outras que, em determinadas circunstâncias, é a melhor coisa que se pode fazer nesta vida.
Uma única vez em toda a minha vida fiquei trancado dentro de um elevador. E eu estava sozinho! E no escuro. E eram sete e meia da noite. No inverno.
Não sou claustrófobo nem quero ser. Simplesmente me encostei numa das paredes do elevador e acendi um cigarro, contra tudo e contra todos.
Poucos minutos depois – que pareceram muitos – ouvi uma voz perguntando se havia alguém preso no elevador. Respondi: Eu! E a voz: Tem mais gente? E eu: Não! E a voz: então agüenta aí que faltou luz e estamos ligando o gerador. E eu: Tudo bem.
Fiquei ali, fumando, lamentando que numa hora daquelas a Renée Zwetzegger ou similar não estivesse comigo, assustadíssima e precisando de um ombro amigo e de uma voz carinhosa a lhe dizer que não tivesse medo, logo logo sairíamos dali e, quem sabe?, para comemorar?, a gente podia tomar alguma coisa e rir bastante do episódio.
Mas essas sortes (ou azares) não pertencem ao meu mapa astral. O máximo que consegui foi sair dali quinze minutos depois, recebido como herói pelo zelador da noite do edifício que estava me esperando, no térreo.
Talvez o poste em que tenho que passar a mão diariamente não esteja funcionando adequadamente.
Não sei.
Minha vida é assim, feita de pequenos sucessos aqui, pequenos fracassos ali, o último deles na semana passada quando a mega sena deu 03-05-07-09-17-32 e eu tinha um bilhete com 01-03-07-09-11-13. Dos dezesseis milhões vi meu premio reduzir-se a setenta reais que mal deu para pagar o almoço de domingo.
Azar? Azar.
Dentro de cinco minutos estarei diante da porta de um elevador, querendo descer. Ele passará por mim, subindo. Descerá lotado. Quando finalmente conseguir adentrá-lo serão sete e quinze e estarei sozinho lá dentro. Faltará luz?
Para encerrar declaro que felizmente sou daqueles que dezesseis milhões não traz felicidade. Infelizmente setenta reais também não.
nicas maniáticas

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

VARIAÇÕES EM TORNO DO TEMA FIADASPUTAS

O PESSOAL DE SANTA MARIA
João Eichbaum
O pessoal de Santa Maria está no governo. Lá estão o Tarso Genro, o Guilherme Cassel, o Nelson Jobim, e também o Eros Grau, de quem, ao contrário de Carlos Maximiliano, poucos em Santa Maria ouviram falar, mas está no governo, porque o Supremo Tribunal Federal, que também governa, na condição de órgão de soberania, manda soltar os Daniel Dantas da vida e proíbe algemas em pessoas que podem sofrer abalos psíquicos e sociais.
O Tarso Genro, no tempo das vacas magras, era poeta. Escrevia para o “Caderno de Sábado” do Correio do Povo. Naquele tempo, em que só os energúmenos e não os marginais assaltavam bancos, dominava a espada dos militares e por isso os marginais não tinham vez: não havia invasões de repartições públicas, nem de propriedades privadas, as casas não necessitavam de cercas, de alarmes, de segurança privada. Nenhum marginal ousava o que quer que fosse contra as pessoas, as empresas, as instituições.
Agora, tudo mudou. Tarso Genro empunha a espada do Ministério da Justiça, ao invés da pena de poeta que era. E os fugitivos, os “fora da lei”, os que faziam oposição ao governo militar daquela época, hoje só se preocupam em ganhar polpudas indenizações. Afinal, o Lula, que nem existia naquele tempo, convocou o Tarso Genro para compor o seu ministério e o Tarso, poeta que era, se dos condói dos companheiros, passando-lhes um dinheiro que não lhe pertence, além de ameaçar os militares com a revogação da lei da Anistia.
Tudo às nossas custas, é claro. Os homens e mulheres que queriam derrubar o governo dos militares, hoje vivem como ricos. Alguns, como deputados, outros, como auxiliares do governo, ou seja, como governo.
O Guilherme Cassel, descendente de uma família com assento no serventias do Poder Judiciário, pois era neto do respeitável distribuidor da comarca de Santa Maria, hoje está noutra, vamos dizer assim. É amigo e companheiro do Presidente da República, esse senhor que chegou até lá, depois de passar pelas oficinas da Volkswagen, onde, ao que parece, perdeu um dedo, que hoje todos os desempregados deste país, que tem um furo no traseiro, sabem onde se encontra.
Nelson Jobim, - filho de um advogado de tom moderado, jurista respeitável, causídico integrado na sociedade santamariense, da qual nunca se apartou - teve uma sinuosa vida política, começando como deputado estadual, passando a federal, chegando-se ao governo de Fernando Henrique Cardoso, um sociólogo, que só conheceu as misérias da vida através da literatura porque, filho de general, teve uma vidinha de menino e de adolescente melhor do que qualquer um de nós. Em razão da amizade com Fernando Henrique, Nelson Jobim foi ministro da Justiça e até do Supremo Tribunal Federal.
Quem observa essas coisas todas é um menino, filho de ferroviário (não pertencia à elite econômica, nem à intelectual) que, órfão de pai, teve que vender jornais, engraxar sapatos, postar-se à frente de parques de diversão e circos, oferecendo amendoim torrado e bergamota para as pessoas que tinham condições de freqüentar essas lugares, como os pais e avós dos ministros do Lula.
Nem Tarso Genro, nem Nelson Jobim, nem Eros Grau, nem Guilherme Cassel enfrentaram essas agruras da vida porque, seus pais, sua família, pertenciam à elite econômica ou intelectual de Santa Maria.
Mas hoje todos eles compõem essa República de Santa Maria, como compunham, anos atrás, o P.C. Farias, o Collor, o Calheiros e outros, menos votados, a República das Alagoas.
Precisa dizer alguma coisa mais?

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Crônicas Poetéticas
SAMBA SEM PRELÚDIO E SEM UMA ÚNICA NOTA SÓ
Paulo Wainberg




Foi sentado na poltrona
Que lembrei daquela dona
Que eu gostava de atracar.
E não era pouca coisa
O que eu fazia com ela,
Na cozinha, no banheiro,
Na varanda e na janela.
Sarabadinadubumdadá.

Por onde andará a senhora
Que há tanto se foi embora
Deslizando porta afora
Qual lagarto ou outro réptil
Me deixando na mão
Descascando uma banana
Só porque numa semana
Sem motivo ou sem razão
Sofri disfunção erétil?
Yes, sofri disfunção erétil
Yes, sofri disfunção erétil
Yes, sofri disfunção erétil

Ela era tri gostosa
Loira, macia e cheirosa,
Adorava um mexemexe
E depois muito gulosa,
Comia peixe ao escabeche.
Ao escabeche, yé yé yé
Ao escabeche yé yé yé.
Ao escabeche yé yé yé

Naquelas tardes fagueiras
Sob a sombra das figueiras
Fazíamos coisas faceiras
E convocamos pra festa
Mil gentis jardineiras
Oh yeah!
Mil gentis jardineiras
Oh yeah!
Que largavam o gadanho
E nuas, apesar do frio,
Se jogavam no rio,
Pra tomar banho.
Oh yeah!

Aquela dona e eu
Deu no que deu.
Entre coxas sussurrando
Um dia ela escafedeu
Me deixou cana chupando,
Batendo córner e cabeceando
E, ó desespero meu,
Assobiando.
Pararatimbumbumbum, assobiando.
Pararatimbumbumbum, assobiando
Pararatimbumbumbum, assobiando

DIZ,DIZ,DIZ,DIZ, meu povo.
É a escola na avenida, diz,diz,diz.

Saí da poltrona e fui para o sofá
Que fica do lado de lá,
Si, dó, ré, mi
Pensando naquela dona
Mulher de verdade era aquela
Amélia era lixo perto dela
Fechei os olhos mas não dormi
Por causa de um raio de Sol
Que entrou por uma fresta na janela
Onde os trapos pendurados...
E vamos ao que resta,
Amor.

Zazazazibar, óu yes, zazazazibar, óu yes.

Se eu soubesse naquele dia
O que sei agora,
Que brochar é disfunção erétil,
E se resolve com viagra,
Não tinha perdido a magra
Ela não teria ido embora
E eu estaria feliz
Na saudosa maloca,
Comendo perdiz
A cuca livre de minhoca
E, dá licença de contar,
Ziriguidum, ú, ziriguidum, ú, ziriguidum, ú
Cheio de amor pra dar.
Ziriguidum, ú, ziriguidum, ú, ziriguidum, ú

Refrão:
Paroxitonamente falando,
Foi de lascar
(repete)

E hoje eu sofro somente porque
Ela foi fazer o que eu não quis:
A segunda antes da primeira e
Antes da segunda, a terceira.

E quem duvidar que murcho
Não rima com bruxo
Que mate a cobra
Ou qualquer outro animal
Mas antes, mostre o pau.
Eu não farei como ela,
Ó não, eu não farei como ela,
Não rirei na sua cara
Nem que enfie a minha na tramela
E lhe direi, compreensivo,
Que isso não é coisa rara.
Laialalá lalaialalialá

Mas ela,
Impudica donzela,
Tripudiou, sapateou, esgravitou
Passou a língua nos lábios
Como se fossem os de mil fábios
E gargalhou.
Ledo engano,
Abandonou-me como um pano
Em algum canto do jardim,
E se foi, fria e flanando
Pela noite com as amigas
Ouvindo canções antigas.
Nunca mais lembrou de mim.
Uou, uou, uou, nunca mais lembrou de mim,
Uou, uou, uou, nunca mais lembrou de mim.
Uou, uou, uou, nunca mais lembrou de mim.

(Volta ao início)

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

COISAS DA VIDA

O PADRE DA MISSA DAS NOVE
João Eichbaum

Naquele tempo em que a impenitente divisão da sociedade não incluía os miseráveis e os desclassificados, todas as crianças compareciam na missa das nove da catedral de Santa Maria: as ricas, as remediadas e as pobres.
O Padre Azevedo, um jesuíta ossudo, magricela, de tez morena, o rosto sacudido por tiques nervosos, rezava a missa. Ele não fazia sermão porque tinha uma péssima dicção, as palavras lhe saiam pela boca nadando em saliva. Em compensação, era o confessor de todos, inclusive dos padres.
Quem “animava” a missa, sem subir no púlpito, mas caminhando pelo corredor central da catedral, era o Padre Abílio Sponchiado, um astro de espetáculos religiosos. Entusiasmado, sanguíneo, voz tonitruante de orador, ele dominava o espetáculo das manhãs de domingo. Sua voz ecoava pelas naves da catedral e tinha como resposta o silêncio, o silêncio atento e embevecido das crianças e dos poucos adultos que ousavam se misturar com os pequenos. Digo que ousavam, porque o Padre Abílio era direto e sem ressalvas: a missa das nove era a missa das crianças. Claro, eu sei, nem era preciso ser muito inteligente para saber porque alguns adultos a freqüentavam. É porque não tinha sermão, a missa era mais curta e, além disso, mais animada.
E o Padre Abílio, de estola e sobrepeliz, transitava pelo corredor central: ia para a frente, na direção da entrada da catedral, e voltava de costas, sempre falando, num tom de diálogo, fazendo perguntas e respondendo, ao mesmo tempo, em nome das crianças. E entoava cânticos com sua voz de barítono italiano. Atrás dele iam nossas vozes, as vozes do aprisco infantil: “Com minha Mãe estarei”, “Queremos Deus”, “O vinde, vamos todos”, “Virgem Mãe Aparecida”, “Dai-nos a bênção”, para mencionar alguns daqueles cantos que a memória não varreu de vez.
O Padre Abílio era o ídolo das crianças, um ídolo que precedeu os ídolos da televisão de hoje. Mas era ídolo no melhor sentido, no sentido da virtude, da piedade, da felicidade ainda não envenenada pela degradação dos costumes. Era, naqueles tempos sem televisão, uma criatura carismática, dotado de invulgar poder de comunicação. E nós, embevecidos, cantávamos e rezávamos, os olhos fixos nele.. E ele nos pintava as delícias do paraíso, as torturas do inferno, e a amarga expectativa do purgatório, enquanto recolhia o nosso respeito, a nossa angústia, o nosso fascínio pelo mistério.
A catedral de Santa Maria tem, na sua história, a história de muitas crianças. E muitas crianças têm, na sua história, a catedral de Santa Maria, graças à missa das nove.
Mas a missa das nove nunca mais foi a mesma depois que o bispo, não sei por que cargas d’água, transferiu o Padre Abílio para Cachoeira do Sul. Foi como se um silêncio inexplicável do céu tivesse anunciado o fim de uma era. Aquele homem sério e, ao mesmo tempo, brincalhão, uma criatura envolvida com seu próprio destino, foi seduzido pela trajetória lírica da vida de piloto, cursando um “brevet”. Introduzido nas artes de voar, resolveu participar de acrobacias num teco-teco sem segurança.
Foi assim que montou para o povo atônito e boquiaberto de Faxinal do Soturno, numa tarde festiva de domingo, o espetáculo gratuito de sua morte. Sem estola, sem sobrepeliz e sem os cânticos da missa das nove.
(crônica publicada no jornal A Razão, de Santa Maria)

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

COLUNA DO PAULO WAINBERG

CRÔNICAS SEBOSAS

FRACASSOS HERÓICOS
Paulo Wainberg






Aparentemente um novo herói brasileiro surge com vigência apenas nas manhãs de domingo. No mais sofistificado e caro esporte de todos, a corrida de Fórmula Um, um novo garoto revela índole de campeão, tantos anos após a morte de Ayrton Senna. Até hoje fomos obrigados a assistir a qualidade notável de Barrichello como motorista, sua vocação para vice de Schumacher, sua falta de aptidão pela ultrapassagem, suas manobras protocalares e sua imensa simpatia graças à qual esgotamos nossas reservas de indulgência, paciência e espírito de compreensão.
Felipe Massa está aí, na ponta dos dedos, pisando fundo, ganhando corridas e botando no ar a música da vitória da Globo abafada pelos sábios ufanismos do locutor oficial.
Dito isto, pouco resta a dizer. Terminada a corrida vai-se caminhar, correr, ler o jornal, dormir mais um pouco, fazer um churrasco e esperar o futebol.
Ou outras coisas.
Devia haver um momento na vida de todos nós para o auto perdão.
É que me dei conta que passo a vida inteira desculpando, perdoando, compreendendo, condescendendo, deixando para lá, esquecendo, sublimando e aceitando o erro, a falha, a falta, a desconsideração, a traição, a mentira, a fraqueza, a desistência, a incompetência e o fracasso... dos outros e quando chega a minha vez sou duro e implacável, simplesmente não me perdôo nem me desfaço das minhas culpas.
Não é um absurdo?
Por que até hoje não me perdôo de ter participado de uma matança de gatinhos recém-nascidos que a dona não queria ter em casa? Lembro e quase choro quando, de cima da ponte, o primeiro gatinho foi jogado na água, lembro das patinhas dele balançando, do desespero do bichinho. Lembro que disse ao meu amigo, que tinha me convidado para a missão, que eu não ia continuar, que queria devolver os gatinhos à dona e ele me disse que tinha ganho uma grana e que ia matar todos. Lembro que fui embora chorando, a imagem do afogamento me perseguiu por algum tempo, muito tempo, até hoje me persegue. E eu tinha oito anos de idade.
Todas as vezes que menti, que não fiz, que deixei para lá, que fracassei, que errei feio, que ofendi, que machuquei, que enganei, que falhei, por que não é possível me perdoar?
Deve haver um mecanismo psíquico que permita isso e que está bloqueado por algum outro mecanismo psíquico impiedoso, industrialmente operando na produção de culpas e intransigências comigo mesmo.
Você provavelmente não é diferente, somos pessoas de bom coração e estamos prontos a tolerar a arrogância alheia, os deslizes, as falhas de caráter, concordamos que errar é humano, vá lá que seja, ele é assim mas tem seu lado bom, no fundo, no fundo ela é uma boa pessoa.
E quando chega a nossa vez, às três horas da madrugada, acordando bruscamente e não perdendo totalmente o sono. A casa está escura, todos dormem e os pensamentos aparecem, de mansinho, como um enxame de ratos deslizantes e sorrateiros. Os primeiros espreitam, avaliam o território, dão passos cautelosos e, certos de que não há perigo, liberam a manada e atacam, mordendo nossa alma sem nenhum dó, esfrangalhando nossos nervos e nossa auto-estima, arrepiando nossa pele e impondo o desejo de ser riscado da agenda, apagado do celular, excluído do CPF, eliminado da existência ou, vá lá que seja e no mínimo, perder completamente a memória.
Você e eu sabemos o que vai ser o dia seguinte, as olheiras e o cansaço e a certeza de que vai dar tudo errado.
Agora imagine que, num certo momento de um certo dia você para o que está fazendo e percebe que está recheado de boa vontade para consigo e erro a erro, pecado a pecado, mentira a mentira, fracasso a fracasso, você se perdoa.
Você conversa com você e se desculpa por ter deixado sua prima esperando para ir ao cinema, por ter traído sua mulher ou seu marido num momento dramático qualquer. Você se pede perdão por ter mentido ao seu amigo e... perdoa. Você lembra daquela vez, quando todos acreditavam que você estava trabalhando e você passava os dias em cabarés e... se desculpa. Você se perdoa por nunca ter devolvido um livro, por ter cantado a mulher de um conhecido, por ter desejado transar com um sobrinho, por ter bolinado uma empregada doméstica, por não ter pago um empréstimo, por ter tomado um porre e vomitado no decote da miss Brasil, por ter fugido da briga, por ter dado num matinho, por ter transado com o vizinho na véspera do casamento, por nunca ter tido filhos, por não ter cuidado bem dos que teve, por ter brigado com seus pais, você finalmente se auto indulta, uma anistia ampla e renovadora que é quando você aceita que, como todos os outros, você é humano e também erra.
Se acontecesse isso você (e eu) viveria os dias seguintes como um recém-renascido, apto a agir comme il faut, pronto para, se quiser, corrigir os antigos erros e para os novos que cometerá, mas com o espírito em paz.
Acho que cada um de nós pode ser um herói de si mesmo, se abandonarmos a ridícula idéia de termos de ser um herói para os outros.
Se isso acontecesse os heróis por acaso estariam postos nas suas legítimas dimensões, heróis de feitos e não da vida, heróis de façanhas e não do dia a dia.
Olha, vou te dizer uma coisa, presta bem a atenção porque não vou repetir: quem não se perdoa não perdoa ninguém.
E não conheço um único ser humano que se tenha perdoado, que não carrega cada culpinha, culpa ou culpão sobre cada pedacinho do corpo, do dia que nasce ao dia que morre.
Talvez a impossibilidade de perdoar-se seja a definitiva tragédia da vida humana e explica a razão pela qual tanta gente espera e busca o perdão apenas depois da morte.
Ruim isso, é ou não é?

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

VARIAÇÔES EM TORNO DO TEMA FIADASPUTAS

A FILHA DO IRMÃO MARISTA CASOU COM O PADRE

João Eichbaum

Como é que ele encontrou a filha do irmão marista, eu não sei, os jornais não dizem. Só sei que o padre é tido como o “embaixador das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia”, no Brasil.
Ah, não sabe o que é? E se eu disser FARC? Ah, sim, aí você entende. Isso mesmo, FARC, uma organização criminosa que seqüestra cidadãos colombianos ou americanos, tortura-os, prende-os com correntes de ferro, trata-os como animais sem alma, faz deles objeto de seus caprichos. Ah, e mais, está ligada com o narcotráfico, o responsável pelo PIB da Colômbia.
Pois esse cara, que não merece ser chamado de cidadão, o padre Camilo, é casado com uma professora gaúcha, de nome Ângela Maria Slongo. Ângela sustenta, com mil e quinhentos reais por mês, a família, composta por ela, pelo padre e por uma menina que gerou com o padre. O padre, evidentemente, não faz nada na vida. Ou alguém aí conhece algum padre que trabalhe com carteira assinada, carga horária definida e salário declarado perante a Receita Federal?
Pois é, mil e quinhentos reais por mês, em Brasília, viram? Não é no interior de Lavras do Sul. Ah, e pagam aluguel de apartamento ainda por cima, segundo se depreende da matéria publicada no jornal Zero Hora de sábado, dia 2 de agosto; “um apartamento em desordem, com poltronas claras, decoradas por mantas vermelhas e muitos livros empilhados no chão”.
Os mil e quinhentos reais com que sustenta a família, a Ângela Maria recebe “alfabetizando pescadores artesanais”. Vocês já conheciam essa espécie, a dos “pescadores artesanais”?
Nem eu. Em Brasília, pelo que sei, não tem mar. E minha ignorância me impede de saber se lá existem rios piscosos. De maneira que não posso contrariar: “pescadores artesanais” pode haver em Brasília e a falta de esclarecimento me leva a pensar que pescador artesanal só pode pescar peixe artesanal, feito de pano , material plástico ou papel.
Mas a senhora Ângela Maria, que é filha de um ex-irmão marista de Passo Fundo, é funcionária da Secretaria de Pesca, ou seja, integra o governo do PT, onde vamos deparar com gente que já assaltou bancos, seqüestrou embaixadores, exigiu resgates, fugiu do país, falsificou identidade e agora está rica.
Antes que me esqueça, o padre esse, que se chama Olivério Medina, pertencendo a uma organização criminosa, teve requerida sua extradição pelo governo da Colômbia, mas o Supremo Tribunal Federal do Brasil, esse mesmo que mandou soltar o banqueiro Daniel Dantas, negou o pedido de extradição.
De sorte que, sustentado por uma “alfabetizadora de pescadores artesanais”, filha de um irmão marista, e amparado por um governo que acolhe os desordeiros do MST, escolados nas artes das FARC, o padre se sente em casa. Não é por outro motivo que ele escolheu o Brasil para se homiziar.

domingo, 3 de agosto de 2008

COLUNA DO PAULO WAINBERG

Observação do João Eichbaum: mesmo que não estejam cronologicamente exatas, as crônicas do Paulo Wainberg são publicadas como se tivessem sido escritas no dia de hoje. É que, pelo modo de abordar as coisas da vida, o Paulo é sempre atual.


CRÔNICAS INDISCRETAS

REVELAÇÕES ÍNTIMAS
Paulo Wainberg





As probabilidades são infinitas e só uma lei as rege, a conhecida, famosa e sempre invocada “lei das probabilidades”.
Como isso é possível? E que lei é essa?
Posso garantir que não foi o Congresso brasileiro quem a editou. Deve ser coisa de algum físico maluco ou de algum metido a entender dessas coisas referentes à estatísticas, física quântica, relatividade e origem divina do Universo como por exemplo meu querido amigo e compadre Aloísio (Svaiter) – o sobrenome entre parênteses é para preservar o sigilo – que mora no Rio, trabalha em São Paulo e tem a mente espargida como saborosos perfumes de lavanda.
Ouso dizer que sou o único que o compreende, além de todos os outros. O Aloísio e eu inventamos uma brincadeira internética que consiste em demolir conceitos. Até hoje não entendi o objetivo do brinquedo, é um tipo de jogo cujas regras são inventadas na hora e nunca se sabe quem sai vencedor.
Bem ao contrário, por exemplo, dos meus amigos Mauro Keiserman e Vilmar Elman. Com eles EU sempre saio vencedor. Nem tem mais graça jogar. O Mauro ainda me surpreende, volta e meia, mas o Vilmar, francamente, basta iniciar uma discussão e ele é derrotado na primeira frase. O pior é que ele não aprende, provoca, provoca e...leva um talagaço.
Já o Moyses Abensur é mais sábio, adquiriu sabedoria com a experiência e simplesmente não discute: concorda com tudo o que eu digo. Quando estou com astral meio down ligo para ele, lanço uma teoria como se lançam metais ao éter e ele me dá razão na hora.
Poderia falar no Paulo Tiaraju mas é covardia, pior que bater em bêbado, roubar balão de criança ou dormir só de sunga...
Você tem todo o direito de me perguntar o motivo destas mal traçadas linhas, falando em pessoas que você não conhece, conhece, ouviu falar, nunca ouviu falar e coisa e tal.
Pode perguntar, não me ofendo.
Pior do que isso, você pode inclusive se chatear porque não falei em você que, da mesma forma, não me ofendo.
Quais são as probabilidades disso acontecer? Sei lá, vá consultar a lei delas, as probabilidades, que existe justamente para responder perguntas como estas, mais imbecis do que qualquer programa das tvs do bispo Macedo.
Será que os acima citados vão ficar brabos comigo? E se ficarem, vão fazer o que?
Entretanto e para que não reste qualquer sombra de dúvida, não paire nenhuma controvérsia nem me venham dizer que tal e qual não é qual e tal, informo que o supra-citado Vilmar Elman criou, com invejável humor e inteligência, uma comemoração sui-generis, quando sua primeira filha, a Rose, casou: a despedida do pai da noiva.
O que vinha a ser isso? Um ato de revolta? Claro que não. Uma expressão de rebeldia? Nada disso. Ao perceber que para sua filha era organizado um chá de panela, para sua esposa era organizado um chá das amigas e tias (vão gostar de chá assim em Singapura) e para seu futuro genro uma despedida de solteiro, viu-se subitamente à margem, como se ele, o progenitor, o gerador primeiro de toda efeméride, estava à margem, nada era organizado para ele que, por bem ou por mal, tinha que pagar a conta.
Convocou os amigos (eu era um deles) e realizou uma cerimônia ecumênica celebrada por professantes de várias fés, baseada no maior respeito e amparada nos sagrados princípios da família e dos bons costumes, encomendou quatorze panelas de chá, colocou oito discos na eletrola, começando com Mozart e terminando com Gounaud, serviu salgadinhos e doces e, na hora dos discursos, declarou que, como pai da noiva, estava se despedindo.
Todos nós, com nossas roupas formais para a ocasião, aplaudimos e depois disso, não lembro de mais nada... há um imenso vácuo na minha memória que, por absoluta conveniência, faço questão de manter, vá que eu recorde alguma coisa e...
Então.
Semana que vem casa a minha filha, já contei a vocês. E onde está a minha despedida? Onde se meteram os organizadores (porque depois da primeira vez os demais pais de noiva se despediram à custa dos amigos...), por que razão ninguém fala comigo sobre o assunto, não me dão nenhum indício sobre preparativos, convocações, locais e tal?
Já teve o chá de panela da noiva (nem conto pra vocês...), o noivo há um mês que não para de se despedir, a mãe da noiva teve que desmarcar todos seus pacientes de tanto chá que foi obrigada a tomar e eu, pai da noiva e origem de tudo, estou aqui, a ver navios, veleiros, lanchas, botes a remo e caixas de sabonete jogadas no riacho. Nada para mim???
Nem um waflles, uma bolachinha dágua para molhar no café?
Vamos lá, rapaziada, esqueçam minha rigidez moral, meus princípios pétreos e movam-se, ofereçam-me uma despedida digna de um pai de noiva, regada a chá de boldo com pipoca e doce de leite condensado na sobremesa. E não esqueçam de por meu cd preferido, suíte número dois de Bach, para alegrar o evento.
O tempo passa rápido e, pela lei, as probabilidades disso acontecer estão cada vez menores.
Será que vou ter que me despedir sozinho, de mim mesmo?
O Vilmar instituiu uma tradição como tantas outras que nosso grupo mais íntimo instituiu ao longo dos anos. Embora no batizado do filho dele, o Marcio, tenha faltado vinho, ele já foi perdoado porque na ocasião, quase trinta anos atrás, ninguém notou e, a bem da verdade, ninguém precisava tomar mais vinho, as tradições são imutáveis e devem ser preservadas “ad eternum”.
Eu, por exemplo, sou o organizador do churrasco na casa dos outros. Distribuo as funções e compareço para comer. Em geral na casa do Mauro que tem um telão e fica melhor para assistir o jogo.
Pelo que me informaram, mês passado, coube ao Moysés organizar minha despedida de pai da noiva. E aí? Até agora nada, repito.
Se eu tiver que me despedir sozinho, juro que não me responsabilizo. Depois não venham me acusar disto ou daquilo, se me deixarem por conta própria sei lá... como decidirei entre ficar assistindo um filme na TV ou ir para a cama dormir?
Portanto rapazes, é agora ou nunca. E podem convidar quem quiser.
E você, Aloísio, pega um avião e vem porque, como me disse certa vez um conhecido que queria me levar para um motel, de conversa estou até aqui. Eu quero é ação!

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

VARIAÇÕES EM TORNO DO TEMA FIADASPUTAS

COISAS DE PRIMATAS
João Eichbaum
Se você pensa que os problemas sociais de hoje nasceram ontem, está muito enganado. Desde os tempos em que não passava de mero antropóide, há dois milhões de anos atrás, o primata humano se debatia com problemas tão cruciantes como aqueles com os quais nos debatemos hoje, nós, seus descendentes, essas figurinhas chamadas “homo sapiens”.
Por exemplo, a segurança.
O instinto de sobrevivência é idêntico, em qualquer animal, em qualquer ser vivo, e se desenvolve no mesmo grau de intensidade, seja qual for a sua espécie. O primata humano, quando começou a ter rudimentares lampejos de inteligência, cuidou, em primeiro lugar, da sobrevivência, através de processos que revelam a sua criatividade. Tendo que disputar, na natureza crua, com outros animais mais fortes, o alimento, necessitava de proteção contra esses predadores. Foi então que, não só para se proteger do frio, como para se proteger contra as investidas desses outros animais, sempre partindo do instinto de sobrevivência, saiu a procurar abrigo em cavernas naturais ou as cavou, usando daqueles lampejos de inteligência. E foi também por essas mesmas razões que nossos antepassados cultivaram, de forma acentuada, o instinto gregário.
Para enfrentar o inimigo número um, ou seja, os predadores mais fortes, e o inimigo número dois, o frio, era melhor viver em grupos do que isoladamente. A força de muitos era mais eficaz do que a força de um só para em enfrentar os inimigos, e os corpos unidos transmitiam o calor, que amenizava o frio, além de incentivar a procriação, é claro.
O primata “erectus”, enquanto esteve confinado nos limites de seus instintos, foi mais inteligente do que o “homo sapiens”, que hoje elege o Lula, o Maluf, e é até capaz de reeleger o Fernando Henrique. E isso pela simples razão de que ele reconhecia a força do grupo e cultivava a união como fonte de poder para a solução de seus problemas.
Hoje não é assim. A turma do PT, que é a mesma do MST, que tem como modelo a escolinha das FARC, não vai com a cara e a turma do FHC e do Serra, por exemplo. O PT, aqui no Rio Grande do Sul, atira pedras na Ieda, atribuindo-lhe corrupção, enquanto lá em Brasília absolve o Lula de todos os males da ação - o Lula que não sabe de nada, não ouviu, nem viu nada, nunca – mesmo aqueles que tenham origem em cartões corporativos, mensalão e superfaturamento de bafômetros.
Sim, o primata humano está evoluindo para pior: divide para ter lucro, para ter vantagem, para assumir o poder, tornando-se um predador da própria espécie, e cultiva o egoísmo, na contramão dos seus antepassados, que cultivavam o espírito gregário. E quanto mais seguirem o mandamento bíblico do “multiplicar-se”, tanto pior será para a espécie, porque quanto mais gente houver no mundo mais problemas haverá: fome, desemprego, insegurança, depredação, falta de moradia, multiplicação de miseráveis.
O fim será ao natural, sem o espetáculo prometido do “juízo final.”, porque, abdicando dos instintos, a espécie não terá a segurança necessária para se perpetuar.