UM AUTÊNTICO PRIMATA
João Eichbaum
Não. Não vou falar de futebol, porque tenho leitores que não apreciam muito esse tipo de esporte e dele só sabem que existe a rivalidade Gre-Nal, com milhares de fanáticos para cada lado, e a seleção brasileira.
Vou falar de um jogador do Internacional, chamado Walter.
Nascido em Pernambuco, Walter veio parar nas chamadas “categorias de base” do Inter, não sei como, nem quem o trouxe. De família paupérrima, lá deixou a mãe e os irmãos e aqui ficou internado nas dependências do clube, ganhando cama, comida e pouco mais que um salário mínimo. Excelente jogador, exibiu suas qualidades esportivas há coisa de dois anos atrás, quando integrava a equipe de juniores do Inter, numa competição estadual. Daquele certame em diante ele despontou, mas também desapontou. De estatura reforçada e tendência para engordar, passou dos limites do peso, porque não tinha limites para comer. O clube o confinou numa dieta, até que voltou para o peso normal e lhe deu oportunidade para aparecer em alguns jogos na equipe principal. Nesse ínterim, porém, ele sofreu uma lesão que o deixou afastado dos jogos, durante algum tempo.
Ao retornar, foi reintegrado na equipe e, mais uma vez, mostrou dotes futebolísticos acima dos jogadores comuns. Tanto que, no último jogo pela Taça Libertadores, partiu dos pés dele, numa jogada de craque, a vitória do Inter.
Mas, depois disso, veio o pior. Walter, revoltado contra tudo e contra todos, se homisiou no apartamento, com a namorada, não compareceu mais aos treinos, rejeitou a assistência do pessoal especializado do clube, rejeitou a imprensa e, desde então, não fala com quem quer que seja.
Entrevistada, a mãe dele, queixou-se da vida, da falta de dinheiro, dizendo que já não tem dinheiro para o gás, a luz vai ser cortada e o condomínio está atrasado.
Walter ganha atualmente CR$ 15.000,00 do Inter. Para onde vai o seu dinheiro?
Walter, como a maioria quase absoluta dos jogadores de futebol, não tem cultura, não tem sequer o curso fundamental, não tem preparo psicológico: passou de um salário mínimo para R$ 15.000,00 e o dinheiro não chega.
E nunca vai chegar, ganhe ele quanto ganhar. A pobreza, a miséria, não o educaram para ser rico, nem para a fama. Em outras palavras, o rapaz não completou o seu ciclo de evolução social.
A evolução social é tão necessária para o ser humano, quanto a evolução física, responsável pelo estágio em que ele se encontra hoje. Sem a evolução social, sem sair do casulo do “ego”, o homem fica em descompasso com o seu ambiente, descompasso esse que pode desembocar em atitudes doentias, como a do jogador Walter.
Em outras palavras, sem evolução o homem continua mais perto de suas origens. E como a banana do macaco-homem é o dinheiro, nunca haverá dinheiro que chegue.
quarta-feira, 10 de março de 2010
terça-feira, 9 de março de 2010
CRÔNICAS ESPIRITUAIS
IMPRESSÕES PERDIDAS
Paulo Wainberg
Há uns dez anos, levado por juvenil curiosidade, fui consultar uma enciclopédia para saber o significado e a origem do Impressionismo, movimento artístico surgido na França no Século XIX.
Era uma época atípica, ou típica, talvez, quando, em casamentos, vernissages, batizados, velórios e feiras livres, falava-se de pintura e pintores como fala de cavalos de corrida o turfista, como fala de nocautes o boxeador, como fala de pintura o leigo, porém investidor.
Conhecia, ou pessoalmente ou por ouvir falar, alguns artistas locais como Xico Stockinger, Fernando Baril (sem acento no ‘a’ que é o certo) Vasco Prado, Clara Pechansky, Zorávia Betiol, Iberê Camargo, Liana Timm, vários outros que estou esquecendo, na época artistas plásticos incipientes, outros consagrados, a maioria recebendo merecida consagração atual, como nomes importantes e definitivos das artes plásticas contemporâneas.
Além, bem além, dos raros que, naquele tempo viajavam para a Europa, ouvia falar em Monet, Manet, Renoir, Jeu de Paume, um Louvre imprescindível, Degàs, Matisse – os impressionistas – nomes e palavras inescrutáveis para mim, misteriosas e distantes. Sentia-me, nessas rodas, totalmente por fora, idiota excluído, um mamute entre elefantes, um javali entre porcos-espinhos, um zumbi entre mortos-vivos.
Intolerável!
Está certo, foi há mais, bem mais, muito mais de dez anos, vinte ou trinta, e olhe lá.
Talvez quarenta...
Com absoluta certeza não havia computador nem Internet. Para saber, o compêndio era indispensável. E para ter uma idéia superficial, a enciclopédia era o caminho rápido.
Optei pela enciclopédia. Compêndios pesavam muito e não fui feito para carregar peso.
E lá fui eu consultar a Enciclopédia Jackson, a melhor, mais completa e acessível enciclopédia d’antão. No índice geral localizei rapidamente o verbete Impressionismo, volume e página.
Interessante: na época eu não usava óculos.
“Impression Du Soleil Levant”, “Impressão, Nascer do Sol”, um dos primeiros quadros de Claude Monet.
Monet pintou vistas de Paris em várias horas do dia, estudando as mutações coloridas do ambiente e sua luminosidade; recebe uma crítica pungente do não menos pungente pintor e escritor Louis Leroy, que declarou simplesmente: “Pensava eu, se estou impressionado é porque há uma impressão. E que liberdade, que suavidade de pincel! Um papel de parede é mais elaborado do que essa cena marinha”, numa tradução mais ou menos livre do francês.
Monet e seus colegas, apesar do tom pejorativo inicial, adotaram o termo impressionismo, certo de que estavam criando uma nova escola, uma verdadeira revolução no mundo das artes.
Eu sou sincero, não me atrevo a mentir para vocês: Não tenho mais certeza de ter lido isso tudo na Enciclopédia Jackson há trinta e cinco anos. Talvez, ao longo dos anos, tenha lido mais sobre o Impressionismo, seus autores, suas técnicas e estilo. Com certeza sim, principalmente após ter visto os quadros, ao vivo e a cores, no Jeu de Paume, em Paris, anos bem mais tarde daquela primeira curiosidade.
Recordo, com certeza, que uma crítica maldosa deu origem ao nome do revolucionário movimento, justamente aquela acima citada.
Há cerca de dez anos – agora sim -, por volta do ano 2000, estava eu olhando a vista, de uma das janelas do meu escritório, e tive uma idéia reveladora.
Para quem não conhece: meu escritório fica no sétimo andar de um edifício, no Centro de Porto Alegre, exatamente em frente a Praça da Alfândega, aquela onde se realiza anualmente a Feira do Livro.
Das minhas janelas vejo a copa das árvores da Praça, Ipês, Jacarandás e outras marcas, assisto seus passeios e transeuntes. Mais ao fundo, à esquerda o prédio histórico onde se localiza o MARGS, e do lado direito o prédio, também histórico, onde se localiza o Museu Histórico, com sua torre parisiense e o grande relógio, redondo e verde, a marcar as horas de trabalho e devaneio.
Ainda mais ao fundo, enxergo o portal de entrada do Cais do Porto, marcado por uma linha reta de palmeiras imensas, tudo desembocando nas águas de prata do Rio Guaíba, com suas ilhotas onde o verde da vegetação prevalece.
Mal descrita, insuficiente para a sua realidade, o que consigo ver das minhas janelas é uma visão soberba, ao mesmo tempo estimulante e relaxante, para os melhores e piores momentos.
Qual foi a idéia reveladora que tive naquela tarde, há dez anos? Fazer um estudo fotográfico, em preto e branco, da mesma paisagem, com fotos tiradas do mesmo lugar, ao longo das diversas horas, do amanhecer ao entardecer, percorrendo as quatro estações do ano. Seria o meu “Impressões de uma mesma Paisagem”, para meu consumo e satisfação.
Trouxe de casa uma máquina fotográfica e um tripé, sobre a qual fixei o instrumento, e comprei três rolos de filme Kodak, preto e branco, trinta e seis poses cada um.
E pus-me a fotografar, aleatoriamente, inspirado ou não, imaginando que teria umas noventa fotos ao final da experiência e o registro definitivo do que minha visão observava, daquele lugar.
Não me exigiu o menor esforço, não me deu nenhum trabalho.
Quase um ano depois, ao bater a última foto do terceiro rolo, mandei os três para revelação, coisa que demorava dois dias, no mínimo, naquela época.
Quando mandei buscar, recebi três envelopes contendo, cada um, um rolo de filme e nenhuma foto. Nenhuma foto! Os filmes haviam queimado.
Mal acreditei.
“Todo esse trabalhão para nada”, pensei, mas logo lembrei que não tivera trabalho algum. Conformado, tirei a máquina do tripé e, olhando para ela, descobri uma pequena fenda no encaixe da abertura para colocar os filmes e, por ali, entrou a luz que vedou as minhas fotos.
Traído pela tecnologia. Traído pela falta de atenção. Traído por uma fenda de luz.
Joguei os filmes e a máquina no lixo, guardei o tripé num armário e nunca mais tirei uma fotografia.
Não, meu querido, não foi trauma, foi falta de oportunidade, pura e simplesmente. Logo surgiram as máquinas digitais sem filme, celulares que tiram fotografia e a experiência toda serviu apenas para contá-la, hoje, nesta crônica.
Moral da história? Quem não guarda não tem.
Paulo Wainberg
Há uns dez anos, levado por juvenil curiosidade, fui consultar uma enciclopédia para saber o significado e a origem do Impressionismo, movimento artístico surgido na França no Século XIX.
Era uma época atípica, ou típica, talvez, quando, em casamentos, vernissages, batizados, velórios e feiras livres, falava-se de pintura e pintores como fala de cavalos de corrida o turfista, como fala de nocautes o boxeador, como fala de pintura o leigo, porém investidor.
Conhecia, ou pessoalmente ou por ouvir falar, alguns artistas locais como Xico Stockinger, Fernando Baril (sem acento no ‘a’ que é o certo) Vasco Prado, Clara Pechansky, Zorávia Betiol, Iberê Camargo, Liana Timm, vários outros que estou esquecendo, na época artistas plásticos incipientes, outros consagrados, a maioria recebendo merecida consagração atual, como nomes importantes e definitivos das artes plásticas contemporâneas.
Além, bem além, dos raros que, naquele tempo viajavam para a Europa, ouvia falar em Monet, Manet, Renoir, Jeu de Paume, um Louvre imprescindível, Degàs, Matisse – os impressionistas – nomes e palavras inescrutáveis para mim, misteriosas e distantes. Sentia-me, nessas rodas, totalmente por fora, idiota excluído, um mamute entre elefantes, um javali entre porcos-espinhos, um zumbi entre mortos-vivos.
Intolerável!
Está certo, foi há mais, bem mais, muito mais de dez anos, vinte ou trinta, e olhe lá.
Talvez quarenta...
Com absoluta certeza não havia computador nem Internet. Para saber, o compêndio era indispensável. E para ter uma idéia superficial, a enciclopédia era o caminho rápido.
Optei pela enciclopédia. Compêndios pesavam muito e não fui feito para carregar peso.
E lá fui eu consultar a Enciclopédia Jackson, a melhor, mais completa e acessível enciclopédia d’antão. No índice geral localizei rapidamente o verbete Impressionismo, volume e página.
Interessante: na época eu não usava óculos.
“Impression Du Soleil Levant”, “Impressão, Nascer do Sol”, um dos primeiros quadros de Claude Monet.
Monet pintou vistas de Paris em várias horas do dia, estudando as mutações coloridas do ambiente e sua luminosidade; recebe uma crítica pungente do não menos pungente pintor e escritor Louis Leroy, que declarou simplesmente: “Pensava eu, se estou impressionado é porque há uma impressão. E que liberdade, que suavidade de pincel! Um papel de parede é mais elaborado do que essa cena marinha”, numa tradução mais ou menos livre do francês.
Monet e seus colegas, apesar do tom pejorativo inicial, adotaram o termo impressionismo, certo de que estavam criando uma nova escola, uma verdadeira revolução no mundo das artes.
Eu sou sincero, não me atrevo a mentir para vocês: Não tenho mais certeza de ter lido isso tudo na Enciclopédia Jackson há trinta e cinco anos. Talvez, ao longo dos anos, tenha lido mais sobre o Impressionismo, seus autores, suas técnicas e estilo. Com certeza sim, principalmente após ter visto os quadros, ao vivo e a cores, no Jeu de Paume, em Paris, anos bem mais tarde daquela primeira curiosidade.
Recordo, com certeza, que uma crítica maldosa deu origem ao nome do revolucionário movimento, justamente aquela acima citada.
Há cerca de dez anos – agora sim -, por volta do ano 2000, estava eu olhando a vista, de uma das janelas do meu escritório, e tive uma idéia reveladora.
Para quem não conhece: meu escritório fica no sétimo andar de um edifício, no Centro de Porto Alegre, exatamente em frente a Praça da Alfândega, aquela onde se realiza anualmente a Feira do Livro.
Das minhas janelas vejo a copa das árvores da Praça, Ipês, Jacarandás e outras marcas, assisto seus passeios e transeuntes. Mais ao fundo, à esquerda o prédio histórico onde se localiza o MARGS, e do lado direito o prédio, também histórico, onde se localiza o Museu Histórico, com sua torre parisiense e o grande relógio, redondo e verde, a marcar as horas de trabalho e devaneio.
Ainda mais ao fundo, enxergo o portal de entrada do Cais do Porto, marcado por uma linha reta de palmeiras imensas, tudo desembocando nas águas de prata do Rio Guaíba, com suas ilhotas onde o verde da vegetação prevalece.
Mal descrita, insuficiente para a sua realidade, o que consigo ver das minhas janelas é uma visão soberba, ao mesmo tempo estimulante e relaxante, para os melhores e piores momentos.
Qual foi a idéia reveladora que tive naquela tarde, há dez anos? Fazer um estudo fotográfico, em preto e branco, da mesma paisagem, com fotos tiradas do mesmo lugar, ao longo das diversas horas, do amanhecer ao entardecer, percorrendo as quatro estações do ano. Seria o meu “Impressões de uma mesma Paisagem”, para meu consumo e satisfação.
Trouxe de casa uma máquina fotográfica e um tripé, sobre a qual fixei o instrumento, e comprei três rolos de filme Kodak, preto e branco, trinta e seis poses cada um.
E pus-me a fotografar, aleatoriamente, inspirado ou não, imaginando que teria umas noventa fotos ao final da experiência e o registro definitivo do que minha visão observava, daquele lugar.
Não me exigiu o menor esforço, não me deu nenhum trabalho.
Quase um ano depois, ao bater a última foto do terceiro rolo, mandei os três para revelação, coisa que demorava dois dias, no mínimo, naquela época.
Quando mandei buscar, recebi três envelopes contendo, cada um, um rolo de filme e nenhuma foto. Nenhuma foto! Os filmes haviam queimado.
Mal acreditei.
“Todo esse trabalhão para nada”, pensei, mas logo lembrei que não tivera trabalho algum. Conformado, tirei a máquina do tripé e, olhando para ela, descobri uma pequena fenda no encaixe da abertura para colocar os filmes e, por ali, entrou a luz que vedou as minhas fotos.
Traído pela tecnologia. Traído pela falta de atenção. Traído por uma fenda de luz.
Joguei os filmes e a máquina no lixo, guardei o tripé num armário e nunca mais tirei uma fotografia.
Não, meu querido, não foi trauma, foi falta de oportunidade, pura e simplesmente. Logo surgiram as máquinas digitais sem filme, celulares que tiram fotografia e a experiência toda serviu apenas para contá-la, hoje, nesta crônica.
Moral da história? Quem não guarda não tem.
segunda-feira, 8 de março de 2010
NÓS, PRIMATAS
UMA DOUTORA MUITO DESINIBIDA
João Eichbaum
Na semana passada uma notícia que prendeu a atenção dos gaúchos foi a do “sequestro de um casal de médicos”, anunciada na manchete da Zero Hora.
O “casal”, na verdade, não era um casal, do ponto de vista politicamente correto, casal casado de papel passado e lembrança da paróquia. Nem era um “casal de médicos”. Ela, sim, pediatra, mas ele, apenas estudante de medicina. Ela, uma loira, dessas de não se jogar fora, bem falante, com 34 anos. Ele, um cara quieto, tímido, de poucas palavras.
A desinibição dela foi tanta, que não escondeu detalhes picantes do seqüestro. São suas palavras textuais, falando, sem cara de nojo, sobre os seqüestradores, com a naturalidade de quem descreveria a devoção deles, rezando o rosário diante duma imagem da Virgem Maria: “passaram a noite bebendo uísque, assistindo a filmes pornôs, se masturbando”.
Confesso que fiquei chocado. Num momento desses, nenhuma pessoa, atormentada pelo horror, iria ressaltar as circunstâncias paralelas de um seqüestro. Mas a doutora Melissa – esse o nome dela – descreveu tudo, nada escondeu, não fez como a maioria das vítimas que “pedem para não ser identificadas”. Ao contrário dessas vítimas - muitos homens entre elas - que se borram de medo, a doutora Melissa soltou o verbo, deixou rolar muita fotografia, mostrou sua beleza, da qual emana uma discreta e, por isso mesmo, inquietante sensualidade. Tudo ao lado do seu “namorado”, um estudante quatro anos mais moço do que ela e que, ao que tudo indica, não tinha um puto vintém nos bancos. Ela é que tinha o dinheiro que os seqüestradores procuravam e que fez a polícia sair correndo, para atender a ocorrência.
Querem que eu seja bem franco? Ele não passa de um zero à esquerda.
Ah, e tem mais: ela despediu uma babá de seu filho porque a surpreendeu na cama com o namorado - casualmente um dos seqüestradores. Do pai do menino, que tem quatro anos, seu currículo não diz patavina.
Um personalidade instigante essa, a doutora Melissa, mais desinibida que muitos machos sem colhão que andam por aí, se escondendo, por medo de revelar a identidade, depois de terem sido assaltados.
Ah, antes que me esqueça: ela é do Alegrete, onde o gaúcho usa bota, espora, bombacha, bigode e costeletas, ao invés dessa frescura chamada tatuagem.
Calha bem na foto a doutora Melissa, no Dia Internacional da Mulher.
João Eichbaum
Na semana passada uma notícia que prendeu a atenção dos gaúchos foi a do “sequestro de um casal de médicos”, anunciada na manchete da Zero Hora.
O “casal”, na verdade, não era um casal, do ponto de vista politicamente correto, casal casado de papel passado e lembrança da paróquia. Nem era um “casal de médicos”. Ela, sim, pediatra, mas ele, apenas estudante de medicina. Ela, uma loira, dessas de não se jogar fora, bem falante, com 34 anos. Ele, um cara quieto, tímido, de poucas palavras.
A desinibição dela foi tanta, que não escondeu detalhes picantes do seqüestro. São suas palavras textuais, falando, sem cara de nojo, sobre os seqüestradores, com a naturalidade de quem descreveria a devoção deles, rezando o rosário diante duma imagem da Virgem Maria: “passaram a noite bebendo uísque, assistindo a filmes pornôs, se masturbando”.
Confesso que fiquei chocado. Num momento desses, nenhuma pessoa, atormentada pelo horror, iria ressaltar as circunstâncias paralelas de um seqüestro. Mas a doutora Melissa – esse o nome dela – descreveu tudo, nada escondeu, não fez como a maioria das vítimas que “pedem para não ser identificadas”. Ao contrário dessas vítimas - muitos homens entre elas - que se borram de medo, a doutora Melissa soltou o verbo, deixou rolar muita fotografia, mostrou sua beleza, da qual emana uma discreta e, por isso mesmo, inquietante sensualidade. Tudo ao lado do seu “namorado”, um estudante quatro anos mais moço do que ela e que, ao que tudo indica, não tinha um puto vintém nos bancos. Ela é que tinha o dinheiro que os seqüestradores procuravam e que fez a polícia sair correndo, para atender a ocorrência.
Querem que eu seja bem franco? Ele não passa de um zero à esquerda.
Ah, e tem mais: ela despediu uma babá de seu filho porque a surpreendeu na cama com o namorado - casualmente um dos seqüestradores. Do pai do menino, que tem quatro anos, seu currículo não diz patavina.
Um personalidade instigante essa, a doutora Melissa, mais desinibida que muitos machos sem colhão que andam por aí, se escondendo, por medo de revelar a identidade, depois de terem sido assaltados.
Ah, antes que me esqueça: ela é do Alegrete, onde o gaúcho usa bota, espora, bombacha, bigode e costeletas, ao invés dessa frescura chamada tatuagem.
Calha bem na foto a doutora Melissa, no Dia Internacional da Mulher.
quinta-feira, 4 de março de 2010
VARIAÇÕES EM TORNO DO TEMA FIADASPUTAS
O julgamento do CNJ e a fragilidade das nossas instituições
Waldir Serafim
As Instituições públicas no Brasil estão tão desmoralizadas que até uma decisão, como a do CNJ, que afastou dez magistrados de Mato Grosso, nós torcemos e comemoramos. Cuiabá inteira torcia pela punição, como se fosse uma lavagem da alma. Como se aquele resultado fosse alvejar de vez todas as sujeiras escondidas nos obscuros escaninhos das repartições públicas. Fossem outros os personagens desse lamentável episódio, a torcida seria a mesma. O que estava em julgamento no do CNJ não eram aqueles magistrados, nem mesmo o poder judiciário de Mato Grosso, eram as instituições públicas e, principalmente, os agentes políticos.Pesquisas realizadas por diversos institutos revelam que a percepção negativa das instituições, que atinge 2/3 da população, perspassa todos os segmentos sociais, não distinguindo nível de renda, escolaridade e distribuição regional. O cidadão acredita na democracia, mas não acredita nas instituições democráticas que dá sustentação ao sistema, e menos ainda nos agentes políticos. Traduz-se num paradoxo a natureza contraditória entre a desconfiança nas instituições e o apoio à democracia. E isso influi, inclusive, na disposição do cidadão em participar do processo democrático de escolha dos seus governantes. Torna-se presa fácil de líderes populistas que trabalham com a emoção do eleitor para sobrepujar a razão. O eleitor é iludido com promessas vazias, de soluções milagrosas de curto prazo, que só leva a mais frustração e descrença.Mesmo depois de passadas duas décadas da promulgação da Constituição de 1988 (constituição cidadã, conforme Ulisses Guimarães), constata-se a não consolidação plena do sistema democrático, pela fragilidade das instituições. A democracia se fragiliza a cada vez que o cidadão se sente fraudado pelo comportamento anti-republicano dos agentes políticos; quando o cidadão constata que não existe impessoalidade na aplicação da justiça; quando os serviços públicos prestados não atendem seus objetivos ou quando viceja a sensação de impunidade. A democracia se fragiliza quando o Presidente da República afronta e desafia o Congresso Nacional e o TCU (Tribunal de Contas da União) ao decidir, autocraticamente, destinar dinheiro do orçamento para obras com irregularidades apontadas pela instituição ou quando a Justiça Eleitoral, subserviente, finge não ver a campanha eleitoral extemporânea, e à custa do erário, da ministra Dilma.O poder judiciário per se é o último baluarte da democracia. Quando não tem ninguém mais a quem recorrer o cidadão recorre à justiça. Sem um poder judiciário forte, independente, isento e atuante, não existe democracia, não existe cidadania. Quando o judiciário fracassa, não resta ao cidadão senão a alternativa de entregar sua proteção a grupos que agem à margem da lei. É a falência do estado de direito. Portanto, ao invés de comemorar a decisão do CNJ nós devíamos chorar e lamentar. Uma democracia não existe sem instituições fortes, consolidadas.
Waldir Serafim é economista em Mato Grosso.
Viram só? Os juízes do Mato Grosso não “dividiram” com os juízes do Conselho Nacional de Justiça e se deram mal.
João Eichbaum
RETORNAREMOS segunda-feira DIA 8 DE MARÇO
Waldir Serafim
As Instituições públicas no Brasil estão tão desmoralizadas que até uma decisão, como a do CNJ, que afastou dez magistrados de Mato Grosso, nós torcemos e comemoramos. Cuiabá inteira torcia pela punição, como se fosse uma lavagem da alma. Como se aquele resultado fosse alvejar de vez todas as sujeiras escondidas nos obscuros escaninhos das repartições públicas. Fossem outros os personagens desse lamentável episódio, a torcida seria a mesma. O que estava em julgamento no do CNJ não eram aqueles magistrados, nem mesmo o poder judiciário de Mato Grosso, eram as instituições públicas e, principalmente, os agentes políticos.Pesquisas realizadas por diversos institutos revelam que a percepção negativa das instituições, que atinge 2/3 da população, perspassa todos os segmentos sociais, não distinguindo nível de renda, escolaridade e distribuição regional. O cidadão acredita na democracia, mas não acredita nas instituições democráticas que dá sustentação ao sistema, e menos ainda nos agentes políticos. Traduz-se num paradoxo a natureza contraditória entre a desconfiança nas instituições e o apoio à democracia. E isso influi, inclusive, na disposição do cidadão em participar do processo democrático de escolha dos seus governantes. Torna-se presa fácil de líderes populistas que trabalham com a emoção do eleitor para sobrepujar a razão. O eleitor é iludido com promessas vazias, de soluções milagrosas de curto prazo, que só leva a mais frustração e descrença.Mesmo depois de passadas duas décadas da promulgação da Constituição de 1988 (constituição cidadã, conforme Ulisses Guimarães), constata-se a não consolidação plena do sistema democrático, pela fragilidade das instituições. A democracia se fragiliza a cada vez que o cidadão se sente fraudado pelo comportamento anti-republicano dos agentes políticos; quando o cidadão constata que não existe impessoalidade na aplicação da justiça; quando os serviços públicos prestados não atendem seus objetivos ou quando viceja a sensação de impunidade. A democracia se fragiliza quando o Presidente da República afronta e desafia o Congresso Nacional e o TCU (Tribunal de Contas da União) ao decidir, autocraticamente, destinar dinheiro do orçamento para obras com irregularidades apontadas pela instituição ou quando a Justiça Eleitoral, subserviente, finge não ver a campanha eleitoral extemporânea, e à custa do erário, da ministra Dilma.O poder judiciário per se é o último baluarte da democracia. Quando não tem ninguém mais a quem recorrer o cidadão recorre à justiça. Sem um poder judiciário forte, independente, isento e atuante, não existe democracia, não existe cidadania. Quando o judiciário fracassa, não resta ao cidadão senão a alternativa de entregar sua proteção a grupos que agem à margem da lei. É a falência do estado de direito. Portanto, ao invés de comemorar a decisão do CNJ nós devíamos chorar e lamentar. Uma democracia não existe sem instituições fortes, consolidadas.
Waldir Serafim é economista em Mato Grosso.
Viram só? Os juízes do Mato Grosso não “dividiram” com os juízes do Conselho Nacional de Justiça e se deram mal.
João Eichbaum
RETORNAREMOS segunda-feira DIA 8 DE MARÇO
quarta-feira, 3 de março de 2010
NÓS, PRIMATAS
SIMPLESMENTE COMPLICADO
João Eichbaum
Gostei do título. Gostei tanto do título que o aproveitei para esta crônica. “Simplesmente Complicado” é o título de um baita filme, que está sendo exibido nesta semana. E bota complicação nisso: trata-se de um casal divorciado há 10 anos. O marido deixou a mulher e os três filhos, por causa de outra. A mulher abandonada, ao invés de sair em busca de outro relacionamento, procurou se dedicar aos filhos e à administração de seu negócio, que lhe rendeu dinheiro e sucesso. O marido infiel casou com aquela mulher que foi a causa da ruptura do casamento, por sinal uma bela mulher, uma morenaça de endoidar, e constituiu família com ela.
Dez anos depois, enquanto os filhos do primeiro casamento, já adultos, estavam se formando e se profissionalizando, o marido andava às voltas com um guri tinhoso, de cinco anos, começando tudo de novo e ainda fazendo tratamento para engravidar a bela morena, já quarentona, mas com tudo em cima.
Aí, por um acaso, se encontra com a ex-mulher, cinquentona e, bêbados ambos, acabam indo para a cama.
A partir desse acontecimento, que podia ter ficado por isso mesmo, ele percebeu que estava apaixonado pela ex-mulher, descobrindo nela qualidades que antes não vira, ou não valorizara. A ex-mulher passou a ser a “outra”, com a qual ele se encontrava furtivamente, se escondendo dos filhos e da mulher atual.
Mas, a vida é assim: hoje a pessoa está só, sem ninguém, e quando aparece alguém a coisa desanda, porque surge também outro amor, no paralelo.
Foi isso exatamente que aconteceu com a ex-mulher, que agora era a “amante” do ex- marido: tinha um terceiro dando em cima dela e ela começou a vacilar entre o ex-marido e o atual pretendente.
Bem, não vou contar todo o filme, quando mais não seja porque não o assisti até o fim, para não me decepcionar, talvez. Mas o que vi durante o filme já me bastou para mostrar pela enésima vez a instabilidade emocional do ser humano, sua eterna insatisfação amorosa, sua busca por algo que dure para sempre. Sem contar o trauma dos filhos, a cura do trauma e a recidiva desse trauma para estragar a vida deles, que já estava nos eixos. Tudo gerado pela irresponsável instabilidade afetiva do primata macho, tornado homem sem que pudesse abdicar da animalidade.
Vale a pena conferir, para rir muito. Aceito que me contem o final.
João Eichbaum
Gostei do título. Gostei tanto do título que o aproveitei para esta crônica. “Simplesmente Complicado” é o título de um baita filme, que está sendo exibido nesta semana. E bota complicação nisso: trata-se de um casal divorciado há 10 anos. O marido deixou a mulher e os três filhos, por causa de outra. A mulher abandonada, ao invés de sair em busca de outro relacionamento, procurou se dedicar aos filhos e à administração de seu negócio, que lhe rendeu dinheiro e sucesso. O marido infiel casou com aquela mulher que foi a causa da ruptura do casamento, por sinal uma bela mulher, uma morenaça de endoidar, e constituiu família com ela.
Dez anos depois, enquanto os filhos do primeiro casamento, já adultos, estavam se formando e se profissionalizando, o marido andava às voltas com um guri tinhoso, de cinco anos, começando tudo de novo e ainda fazendo tratamento para engravidar a bela morena, já quarentona, mas com tudo em cima.
Aí, por um acaso, se encontra com a ex-mulher, cinquentona e, bêbados ambos, acabam indo para a cama.
A partir desse acontecimento, que podia ter ficado por isso mesmo, ele percebeu que estava apaixonado pela ex-mulher, descobrindo nela qualidades que antes não vira, ou não valorizara. A ex-mulher passou a ser a “outra”, com a qual ele se encontrava furtivamente, se escondendo dos filhos e da mulher atual.
Mas, a vida é assim: hoje a pessoa está só, sem ninguém, e quando aparece alguém a coisa desanda, porque surge também outro amor, no paralelo.
Foi isso exatamente que aconteceu com a ex-mulher, que agora era a “amante” do ex- marido: tinha um terceiro dando em cima dela e ela começou a vacilar entre o ex-marido e o atual pretendente.
Bem, não vou contar todo o filme, quando mais não seja porque não o assisti até o fim, para não me decepcionar, talvez. Mas o que vi durante o filme já me bastou para mostrar pela enésima vez a instabilidade emocional do ser humano, sua eterna insatisfação amorosa, sua busca por algo que dure para sempre. Sem contar o trauma dos filhos, a cura do trauma e a recidiva desse trauma para estragar a vida deles, que já estava nos eixos. Tudo gerado pela irresponsável instabilidade afetiva do primata macho, tornado homem sem que pudesse abdicar da animalidade.
Vale a pena conferir, para rir muito. Aceito que me contem o final.
terça-feira, 2 de março de 2010
COM A PALAVRA, JANER CRISTALDO
PRESCRIÇÕES DE MEU UROLOGISTA
Quem me acompanha, sabe de meu apreço por leituras de teologia, religiões e história do cristianismo. Para meus desafetos, isto é sinal que ainda não encontrei uma fé e estou vivendo uma crise espiritual.
Nada disso. Desde há muito sou ateu e convivo serenamente com esta condição. No dia em que deixei de acreditar em Deus e nas coisas do além, fui tomado por uma extraordinária sensação de liberdade. Se hoje leio livros sobre teologia ou religiões, por um lado os leio para divertir-me. Nada mais divertido do que ver as acrobacias intelectuais dos teólogos para justificar o injustificável, para provar o improvável.
Por outro lado, estas leituras me ajudam a entender o Ocidente e as circunstâncias em que vivo. Ninguém conseguirá entender este nosso mundinho se não conhecer a história do cristianismo.Um de meus pavores é estar em algum lugar público, esperando algo ou mesmo nada esperando, sem ter nada para ler. Quando saio à rua, me muno de jornais e livros. Considero que um homem bebendo solitário em um bar, sem nada para ler, é um bêbado em potencial. Ou, no mínimo, um homem vazio. Já um homem que bebe tendo um livro nas mãos é outra coisa. É um leitor que bebe enquanto lê. Este medo de estar sem leitura em lugares públicos até ganhou um nome, criado por esses construtores contumazes de palavras: biblioagorafobia.
Biblioagorafobo desde o berço, me sinto no deserto se sento em algum café ou bar sem leitura em punho. Meu urologista também.Sempre o encontro nos cafés de meu bairro. Temos algo em comum: ele está sempre absorto, mergulhado em leituras, alheio ao universo que o cerca. Não que leia sobre medicina. Ele lê em todas as direções. E particularmente sobre religiões e história das religiões. É leitor entusiasta, daqueles que se entregam a um bom livro com o mesmo prazer de gourmet que degusta um bom prato. Sempre que nos encontramos, trocamos bibliografias. Em nosso último encontro, prescreveu-me dois livros.O primeiro foi História do Cristianismo – para compreender melhor nosso tempo, antologia de ensaios organizada por Alain Corbin. Onde leio, já na introdução:“O cristianismo impregna, com maior ou menor evidência, a vida cotidiana, os valores e as opções estéticas até mesmo dos que o ignoram. Ele contribui para o desenho da paisagem dos campos e das cidades. Às vezes, ganha destaque no noticiário. Contudo, os conhecimentos necessários à interpretação dessa presença se apagam com rapidez. Com isso, a incompreensão aumenta.
“Admirar o monte Saint-Michel e os monumentos de Roma, de Praga ou de Belém, deleitar-se com a música de Bach ou de Messiaen, contemplar quadros de Rembrandt, apreciar verdadeiramente certas obras de Stendhal ou de Victor Hugo implica poder decifrar as referências cristãs que constituem a beleza desses lugares e obras-primas. Entender os debates mais recentes sobre a colonização, as práticas humanitárias, a bioética, o choque de culturas também supõe um conhecimento do cristianismo, dos elementos fundamentais da sua doutrina, das peripécias que marcaram sua história, das etapas da sua adaptação ao mundo”.
É o tipo de livro que me agrada ler. Não que me traga algo de novo. Mas é como repassar uma aula, aula que nunca tive. Na escola, estudamos no máximo uma doutrina religiosa. Jamais se estuda história das religiões. Os proselitistas sabem que estudar história das religiões é perder a fé.
Mergulhei com entusiasmo na prescrição de meu urologista e a recomendo a meus leitores.
A segunda prescrição foi outro livro, completamente alheio a este tema, mas também fundamental para entendermos o mundo em que vivemos. O Livro dos Números – uma história ilustrada da matemática, de Peter Bentley. E soberbamente ilustrado, com farta iconografia. Números têm muito a ver com religião. Neste livro descubro, entre outras coisas, que nosso calendário está incorreto ao celebrar o primeiro aniversário de Cristo no dia em que ele nasceu. Ocorre que na época não se tinha a noção de zero.“Em 2 d.C., Cristo tinha um ano. Em 3 d.C., tinha dois. (De fato, o calendário é provavelmente muito mais impreciso ainda, pois, segundo Mateus, capítulo 2, o rei Herodes estava vivo quando Jesus nasceu, e os registros históricos mostram que Herodes morreu em 4 a.C.) Portanto, nosso calendário é um pouquinho atrapalhado.
Como não tivemos zero algum, o início do século II foi na verdade 101 d.C. As recentes celebrações do milênio ocorreram a um ano inteiro de distância do devido momento – o ano 2001 d.C. ocorreu na realidade 2.000 anos depois do nascimento (percebido) de Cristo. Talvez devêssemos aprender a contar a partir de zero”.
Isto é só aperitivo. O autor continua perseguindo o desenvolvimento da matemática na história, ilustrando sua tese com a biografia e achados dos grandes nomes da área. É livro tão importante para entender o mundo como uma história das religiões.Tim-tim, leitor! Eu, que pouco ou nada entendo do universo matemático, estou mergulhando com gosto neste livro. Recomendo vivamente.
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Quem me acompanha, sabe de meu apreço por leituras de teologia, religiões e história do cristianismo. Para meus desafetos, isto é sinal que ainda não encontrei uma fé e estou vivendo uma crise espiritual.
Nada disso. Desde há muito sou ateu e convivo serenamente com esta condição. No dia em que deixei de acreditar em Deus e nas coisas do além, fui tomado por uma extraordinária sensação de liberdade. Se hoje leio livros sobre teologia ou religiões, por um lado os leio para divertir-me. Nada mais divertido do que ver as acrobacias intelectuais dos teólogos para justificar o injustificável, para provar o improvável.
Por outro lado, estas leituras me ajudam a entender o Ocidente e as circunstâncias em que vivo. Ninguém conseguirá entender este nosso mundinho se não conhecer a história do cristianismo.Um de meus pavores é estar em algum lugar público, esperando algo ou mesmo nada esperando, sem ter nada para ler. Quando saio à rua, me muno de jornais e livros. Considero que um homem bebendo solitário em um bar, sem nada para ler, é um bêbado em potencial. Ou, no mínimo, um homem vazio. Já um homem que bebe tendo um livro nas mãos é outra coisa. É um leitor que bebe enquanto lê. Este medo de estar sem leitura em lugares públicos até ganhou um nome, criado por esses construtores contumazes de palavras: biblioagorafobia.
Biblioagorafobo desde o berço, me sinto no deserto se sento em algum café ou bar sem leitura em punho. Meu urologista também.Sempre o encontro nos cafés de meu bairro. Temos algo em comum: ele está sempre absorto, mergulhado em leituras, alheio ao universo que o cerca. Não que leia sobre medicina. Ele lê em todas as direções. E particularmente sobre religiões e história das religiões. É leitor entusiasta, daqueles que se entregam a um bom livro com o mesmo prazer de gourmet que degusta um bom prato. Sempre que nos encontramos, trocamos bibliografias. Em nosso último encontro, prescreveu-me dois livros.O primeiro foi História do Cristianismo – para compreender melhor nosso tempo, antologia de ensaios organizada por Alain Corbin. Onde leio, já na introdução:“O cristianismo impregna, com maior ou menor evidência, a vida cotidiana, os valores e as opções estéticas até mesmo dos que o ignoram. Ele contribui para o desenho da paisagem dos campos e das cidades. Às vezes, ganha destaque no noticiário. Contudo, os conhecimentos necessários à interpretação dessa presença se apagam com rapidez. Com isso, a incompreensão aumenta.
“Admirar o monte Saint-Michel e os monumentos de Roma, de Praga ou de Belém, deleitar-se com a música de Bach ou de Messiaen, contemplar quadros de Rembrandt, apreciar verdadeiramente certas obras de Stendhal ou de Victor Hugo implica poder decifrar as referências cristãs que constituem a beleza desses lugares e obras-primas. Entender os debates mais recentes sobre a colonização, as práticas humanitárias, a bioética, o choque de culturas também supõe um conhecimento do cristianismo, dos elementos fundamentais da sua doutrina, das peripécias que marcaram sua história, das etapas da sua adaptação ao mundo”.
É o tipo de livro que me agrada ler. Não que me traga algo de novo. Mas é como repassar uma aula, aula que nunca tive. Na escola, estudamos no máximo uma doutrina religiosa. Jamais se estuda história das religiões. Os proselitistas sabem que estudar história das religiões é perder a fé.
Mergulhei com entusiasmo na prescrição de meu urologista e a recomendo a meus leitores.
A segunda prescrição foi outro livro, completamente alheio a este tema, mas também fundamental para entendermos o mundo em que vivemos. O Livro dos Números – uma história ilustrada da matemática, de Peter Bentley. E soberbamente ilustrado, com farta iconografia. Números têm muito a ver com religião. Neste livro descubro, entre outras coisas, que nosso calendário está incorreto ao celebrar o primeiro aniversário de Cristo no dia em que ele nasceu. Ocorre que na época não se tinha a noção de zero.“Em 2 d.C., Cristo tinha um ano. Em 3 d.C., tinha dois. (De fato, o calendário é provavelmente muito mais impreciso ainda, pois, segundo Mateus, capítulo 2, o rei Herodes estava vivo quando Jesus nasceu, e os registros históricos mostram que Herodes morreu em 4 a.C.) Portanto, nosso calendário é um pouquinho atrapalhado.
Como não tivemos zero algum, o início do século II foi na verdade 101 d.C. As recentes celebrações do milênio ocorreram a um ano inteiro de distância do devido momento – o ano 2001 d.C. ocorreu na realidade 2.000 anos depois do nascimento (percebido) de Cristo. Talvez devêssemos aprender a contar a partir de zero”.
Isto é só aperitivo. O autor continua perseguindo o desenvolvimento da matemática na história, ilustrando sua tese com a biografia e achados dos grandes nomes da área. É livro tão importante para entender o mundo como uma história das religiões.Tim-tim, leitor! Eu, que pouco ou nada entendo do universo matemático, estou mergulhando com gosto neste livro. Recomendo vivamente.
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segunda-feira, 1 de março de 2010
NÓS, PRIMATAS
O ESTERCO DO DIABO (II)
João Eichbaum
Noticia a Zero Hora que, enviando mensagem ao excelentíssimo e reverendíssimo senhor bispo Geraldo Lyrio Rocha, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o pastor alemão Joseph Ratzinger, mais conhecido como Papa Bento XVI, lembrando que a Quaresma é um período propício para a reconciliação com Deus, pediu aos fiéis para “se libertarem da escravidão do dinheiro”, a propósito do tema da “campanha da fraternidade”.
Bom, dois reparos.
Primeiro: os outros períodos do calendário cristão, que não a Quaresma, são menos “propícios para a reconciliação com Deus”? Será que durante a Quaresma o deus judaico-cristão está com o humor mais favorável para um papo-cabeça? E no resto do ano?
Segundo: é possível viver sem dinheiro?
Comecemos pelo Vaticano. Sem dinheiro, como viveria o Papa? Como sustentaria a guarda suíça, como conservaria as magníficas obras de arte de que se apoderou a Igreja Católica, prometendo a vida eterna para os artistas? E o fabuloso museu do Vaticano? E a preciosíssima biblioteca? A própria cidade do Vaticano, como sobreviveria? E os empregados, os padres, os bispos, as freiras que lá vivem, o que fariam sem dinheiro?
Que o papa nos mostre como é possível se livrar do dinheiro, começando por ele próprio. Faça ele uma experiência e depois nos passe a fórmula.
Nós, que não recebemos esmolas, nem doações, e jamais pilhamos impérios; nós, que precisamos trabalhar para viver, porque somos incapazes de inventar lorotas para engambelar as pessoas, prometendo-lhes que irão viver para sempre, desde que nos passem o “dízimo” de seus rendimentos, nós sabemos perfeitamente que, desde que o sistema de troca foi substituído pelo dinheiro, já não podemos viver sem ele.
Isso é escravidão? Sim, sem dúvida. A gente é escravo de tudo aquilo de que depende, e nós dependemos substancialmente do dinheiro, para viver.
O Papa, a exemplo de Jesus Cristo, não trabalha, não ganha o dinheiro biblicamente, isto é, com o suor do seu rosto. Há gente que trabalha para lhe passar dinheiro. É por isso que ele não se sente “escravo” do dinheiro.
Mas a inconseqüência verbal do papa vai mais adiante. Ele termina sua mensagem ao presidente da CNBB, pedindo as “melhores bênçãos de Deus” para seus irmãos e amigos do Brasil.
Então quer dizer que esse Deus tem todo o tipo de “bênçãos”, numa graduação que vai das piores às melhores?
Por isso é que há gente que não se arrisca a pedir bênção. Pode vir uma das piores.
João Eichbaum
Noticia a Zero Hora que, enviando mensagem ao excelentíssimo e reverendíssimo senhor bispo Geraldo Lyrio Rocha, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o pastor alemão Joseph Ratzinger, mais conhecido como Papa Bento XVI, lembrando que a Quaresma é um período propício para a reconciliação com Deus, pediu aos fiéis para “se libertarem da escravidão do dinheiro”, a propósito do tema da “campanha da fraternidade”.
Bom, dois reparos.
Primeiro: os outros períodos do calendário cristão, que não a Quaresma, são menos “propícios para a reconciliação com Deus”? Será que durante a Quaresma o deus judaico-cristão está com o humor mais favorável para um papo-cabeça? E no resto do ano?
Segundo: é possível viver sem dinheiro?
Comecemos pelo Vaticano. Sem dinheiro, como viveria o Papa? Como sustentaria a guarda suíça, como conservaria as magníficas obras de arte de que se apoderou a Igreja Católica, prometendo a vida eterna para os artistas? E o fabuloso museu do Vaticano? E a preciosíssima biblioteca? A própria cidade do Vaticano, como sobreviveria? E os empregados, os padres, os bispos, as freiras que lá vivem, o que fariam sem dinheiro?
Que o papa nos mostre como é possível se livrar do dinheiro, começando por ele próprio. Faça ele uma experiência e depois nos passe a fórmula.
Nós, que não recebemos esmolas, nem doações, e jamais pilhamos impérios; nós, que precisamos trabalhar para viver, porque somos incapazes de inventar lorotas para engambelar as pessoas, prometendo-lhes que irão viver para sempre, desde que nos passem o “dízimo” de seus rendimentos, nós sabemos perfeitamente que, desde que o sistema de troca foi substituído pelo dinheiro, já não podemos viver sem ele.
Isso é escravidão? Sim, sem dúvida. A gente é escravo de tudo aquilo de que depende, e nós dependemos substancialmente do dinheiro, para viver.
O Papa, a exemplo de Jesus Cristo, não trabalha, não ganha o dinheiro biblicamente, isto é, com o suor do seu rosto. Há gente que trabalha para lhe passar dinheiro. É por isso que ele não se sente “escravo” do dinheiro.
Mas a inconseqüência verbal do papa vai mais adiante. Ele termina sua mensagem ao presidente da CNBB, pedindo as “melhores bênçãos de Deus” para seus irmãos e amigos do Brasil.
Então quer dizer que esse Deus tem todo o tipo de “bênçãos”, numa graduação que vai das piores às melhores?
Por isso é que há gente que não se arrisca a pedir bênção. Pode vir uma das piores.
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