Janer Cristaldo
Pior que um psicanalista, só um psicanalista marxista. Verdade que as duas doutrinas são incompatíveis. Mas nestes dias que me foram dados viver, em que há católicos-marxistas, publicitários de esquerda, médicos espíritas e professores universitários que acreditam em Deus – e pior, orientam teses -, nada mais me espanta.
Em entrevista à Folha de São Paulo, o psicanalista britânico Adam Phillips não pede licença para proferir bobagens.
Folha - Em Monogamia, o senhor diz que não há nada mais escandaloso do que um casamento feliz. Por quê?
Adam Phillips - O que amamos e odiamos num casamento feliz é ver nossos primeiros desejos e medos acontecendo na vida real. Toda criança começa seu desenvolvimento em uma relação monogâmica, com a mãe. E a maioria passa os primeiros 11, 15 anos da vida muito conectada a mãe e ao pai. É uma espécie de monogamia bissexual. Crescer é passar da necessidade de ter só uma pessoa para a necessidade de ter duas (mãe e pai) e a necessidade e a capacidade de se relacionar com várias.
Cá entre nós, que tem a ver relação com pai e mãe com monogamia bissexual? Como bom herdeiro de Freud, Phillips não consegue escapar à tese idiota de que toda relação de um filho ou filha com os pais está eivada de sexualidade. Não existe psicanálise sem o complexo de Édipo ou Electra. É um dogma tão fundamental para a doutrina como a virgindade de Maria para a Igreja. A repórter pergunta então se, diante das dificuldades da monogamia, a solução não seria a infidelidade.
Adam Phillips - Sim. E pode dar certo, mas sempre com conflito. Todo mundo tem ciúme sexual, ninguém suporta dividir seu parceiro de sexo. Alguns dizem que suportam, mas é impossível. Se amamos e desejamos alguém, não queremos dividi-lo com outros.
Parece que o celebrado psicanalista nasceu lá pelo século XIX. Até pode ser que ninguém suporte dividir seu parceiro de sexo, mas a verdade é que todo mundo – ou pelo menos uma significativa maioria – acaba dividindo. As mulheres até podem se manter mais ou menos – mas não muito – fiéis, mas os varões sempre acabam pulando a cerca. O que mais existe são relações polígamas sob uma aparência de monogamia.
Por outro lado, o conceito de infidelidade, tanto o expresso pela jornalista como o aceito pela psicanalista, é falso. Infidelidade não é ter relações com terceiros. Infidelidade é esconder essas relações do parceiro. Sempre fui polígamo e jamais me considerei infiel. Nunca escondi de minha mulher ou de minhas amigas minhas relações outras. Não se trata de apresentar um relatório detalhado, nada disso. Basta que a parceira – ou o parceiro – saiba que tais relações existem. Acho muito difícil, neste nosso mundo contemporâneo, manter relações monógamas. Difícil mas não impossível. Conheço algumas. Mas se contá-las nos dedos, me sobra um monte de dedos.
Mas o melhor – ou pior, conforme a ótica – vem adiante. A entrevistadora quer saber se a monogamia é uma experiência tão real quanto a traição. Responde o psicanalista:
As duas formas são construções sociais. O capitalismo trivializou a paixão, fez com que as pessoas se desiludissem em relação ao amor. Isso leva a pensar que as relações sexuais são algo que se compra no mercado só para levar a vida adiante. O capitalismo tenta dissuadir a criação de vínculos reais. E valoriza demais o prazer. E, para a psicanálise, o prazer é sempre um problema. Qualquer pessoa que te venda um prazer fácil está mentindo. Se o que queremos é prazer profundo, com troca entre pessoas, ele será difícil, cheio de conflitos.
Quando alguém condena o capitalismo, ipso facto está afirmando que na outra sociedade – a socialista – as coisas seriam diferentes. A deduzir-se de suas palavras, o amor só existe no mundo socialista. Como se no mundo socialista não houvesse sexo pago. O capitalismo tenta dissuadir a criação de vínculos reais? Mas que vínculos reais existiam no mundo socialista, que priorizava os vínculos com essa entidade abstrata, o Estado? O capitalismo valoriza demais o prazer? Ora, quem não valoriza o prazer? E, afinal, que há de mal em valorizar o prazer? Se para a psicanálise o prazer é um problema, este problema é dos psicanalistas. Phillips conclui suas sandices com uma chave de ouro: “se o que queremos é prazer profundo, com troca entre pessoas, ele será difícil, cheio de conflitos”.
Desde quando o tal de prazer profundo é difícil, cheio de conflitos? E por que há de ser difícil, cheio de conflitos? Adam Phillips é a mais viva demonstração de que, para um psicanalista, toda pessoa tem conflitos. Até mesmo quem tem prazeres profundos. Você está bem consigo mesmo? Não pode ser. Você deve estar cheio de conflitos. Ou então a psicanálise não teria sentido.
A entrevistadora quer saber “do que precisamos, afinal?”
De boas histórias que nos ajudem a viver. As únicas verdades úteis são as que nos ajudam a viver. Num relacionamento, o que você precisa é criar uma história na qual se sinta vivo com a outra pessoa.
Hoje, temos mais opções para criar essa história?
Não sei. A cultura liberal oferece mais escolhas do que havia antes. Mas o capitalismo cria a ilusão de que temos muitas escolhas, quando na verdade temos muito poucas.
Devo ser alguma espécie de monstro moral. Nunca precisei de boas histórias que me ajudassem a viver. Precisei, isto sim, de trabalho, de amigos e amigas. É o que dá algum sentido à vida, a esta vida que em si não tem sentido algum. Não consigo entender o conceito de verdades úteis. Verdade é verdade, seja útil ou inútil. Nunca precisei criar histórias para sentir-me vivo com outra pessoa. A outra pessoa me bastava, sem precisar de qualquer história.
Quanto a afirmar que no capitalismo temos poucas escolhas, isto é bobagem que nem merece ser comentada. No capitalismo, as escolhas são tantas que chegam a atordoar os pobres de espírito. Espanta ver a Folha dar tanto espaço a quem profere tantas bobagens.
PS - Falar nisso, trouxe de Paris dois livros sobre o embuste. Le Crépuscule d’une idole – l’affabulation freudienne, de Michel Onfray, e Le Livre noir de la psychanalyse – vivre, penser et aller mieux sans Freud, de vários autores, coordenados por Catherine Meyer. Provavelmente voltarei ao assunto.
Ou não.
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
MANDARAM O PADRE SE ENFORCAR
João Eichbaum
O livro, que é um “confiteor” do padre José Joaquim Pillon, “SEM MEDO DA VERDADE”, tem dado o que falar. O artigo de Gaspar Miotto, elogiando a coragem do sacerdote, publicado no jornal A Razão, de Santa Maria, onde o padre Pillon é muito conhecido, gerou comentários, alguns ensandecidos, raivosos, coando uma fúria nada celestial. Eis um deles, na íntegra:
O Padre (?) em questão é um infiel ao ministério e portanto a Deus. Ele não tem o direito de enxovalhar a nossa Igreja, aquela única fundada por Jesus Cristo e que age pela força do Espirito Santo. Deveria ter saído antes de escandalizar. Ninguém é obrigado a ser padre e portanto de ser celibatário. N. Senhor disse: quem não deixar pai, mãe, mulher, filhos, irmãos … não é digno de mim. Também disse: Aquele que pegar no arado e olhar para trás, também não é digno de mim. Ora, se Jesus Cristo disse: O meu reino não é deste mundo, significa que as coisas do mundo não agradam a Deus. Entende-se o por quê do tal padre confessar seus pecados ao mundo e não um santo padre. A humanidade precisa de padres santos para levar almas a Deus e não de cafajestes, infiéis, safados. Judas também tinha sido escolhido por Jesus, mas O traiu e logo se enforcou. O tal José deveria fazer o mesmo. Adão e Eva, depois que pecaram, foram se esconder na floresta: Caim, após matar Abel, foi se esconder até ser chamado e sentenciado por Deus. O tal padre (?) josé também foi se esconder na floresta onde o diabo disse para ele que lá estava Deus …. Ele que aguarde também o seu julgamento e ao contrário do que diz, deveria, sim, ter medo. Com 83 anos, deve estar próximo. Diria ao grupinho dos padres que são contra o celibato que nosso Senhor disse: tome a tua cruz e siga-me e não tome a tua cama ou rede e deita. ” Se o teu olho te escandalizar, arranca-o, pois te é melhor entrar no céu com um só olho do que teres os dois e ires para o inferno “. Será que eles pensam que Jesus Cristo estava brincando de ensinar e contar hestorinhas? Infelizes deles! Já não rezam como Jesus; não fazem jejum como Cristo, não expulsam demônios como Cristo e sequer salvam almas como Cristo. Estão optando por viver na lama do mundo, embora chamados e escolhidos para o serviço do altar. Naquele dia lhes será dito: não vos conheço, afastai-vos de mim malditos, ide para o fogo eterno.
A devota senhora, ou senhorita, que assina o comentário como Maria Dolores, não deixa por menos e toma as dores da “Igreja”, a “nossa Igreja”, diz ela, acrescentando ter sido a “única fundada por Jesus Cristo e que age pela força do Espírito Santo”.
Ora Jesus Cristo não fundou coisa nenhuma. Pregador de praça pública, que vivia de favores, porque não trabalhava, Jesus Cristo não tinha cacife para fundar Igrejas. Quem fundou o cristianismo, transformado mais tarde, em Roma, na mais rica seita da face da terra, foi o espertalhão, que também não trabalhava, mas tinha papo de estelionatário, o Saulo, de Tarso, , mais conhecido como São Paulo.
Quanto ao “Espírito Santo”, inventado como inspiração e força do cristianismo, parece que, até aqui, não mostrou a que veio. A Igreja, a quem lhe incumbia “inspirar e guardar”, comanda na história escândalos inomináveis, que vão das orgias papais do tempo dos Borgia aos padres pedófilos, passando pela Inquisição, e muitas outras loucuras.
Fico apenas nas primeiras linhas do comentário da Maria Dolores para salientar a obsessão doentia de pessoas que não conseguiram se livrar da lavagem cerebral praticada pelo cristianismo e, em consequência disso, são levadas à cegueira, tornando-se incapazes de se dobrar à própria razão, porque continuam presas às tolices do Concílio de Trento, como inferno, confessionário, etc.
Mas, o que chama a atenção mesmo é a ausência da tese fundamental do cristianismo no comentário da leitora: o amor ao próximo. O adjetivo mais cristão que a Maria Dolores encontrou para pespegar no padre foi “infiel”. Dali para diante, por favor, saiam da frente do computador, crianças! Depois da sugestão para que o padre se enforcasse, até a idade dele – 83 anos – foi lembrada como alternativa para que o reverendo esteja próximo do “julgamento”.
E para Maria Dolores não resta dúvida: o padre já tem cadeira cativa reservada no “inferno”!
ichbaum
O livro, que é um “confiteor” do padre José Joaquim Pillon, “SEM MEDO DA VERDADE”, tem dado o que falar. O artigo de Gaspar Miotto, elogiando a coragem do sacerdote, publicado no jornal A Razão, de Santa Maria, onde o padre Pillon é muito conhecido, gerou comentários, alguns ensandecidos, raivosos, coando uma fúria nada celestial. Eis um deles, na íntegra:
O Padre (?) em questão é um infiel ao ministério e portanto a Deus. Ele não tem o direito de enxovalhar a nossa Igreja, aquela única fundada por Jesus Cristo e que age pela força do Espirito Santo. Deveria ter saído antes de escandalizar. Ninguém é obrigado a ser padre e portanto de ser celibatário. N. Senhor disse: quem não deixar pai, mãe, mulher, filhos, irmãos … não é digno de mim. Também disse: Aquele que pegar no arado e olhar para trás, também não é digno de mim. Ora, se Jesus Cristo disse: O meu reino não é deste mundo, significa que as coisas do mundo não agradam a Deus. Entende-se o por quê do tal padre confessar seus pecados ao mundo e não um santo padre. A humanidade precisa de padres santos para levar almas a Deus e não de cafajestes, infiéis, safados. Judas também tinha sido escolhido por Jesus, mas O traiu e logo se enforcou. O tal José deveria fazer o mesmo. Adão e Eva, depois que pecaram, foram se esconder na floresta: Caim, após matar Abel, foi se esconder até ser chamado e sentenciado por Deus. O tal padre (?) josé também foi se esconder na floresta onde o diabo disse para ele que lá estava Deus …. Ele que aguarde também o seu julgamento e ao contrário do que diz, deveria, sim, ter medo. Com 83 anos, deve estar próximo. Diria ao grupinho dos padres que são contra o celibato que nosso Senhor disse: tome a tua cruz e siga-me e não tome a tua cama ou rede e deita. ” Se o teu olho te escandalizar, arranca-o, pois te é melhor entrar no céu com um só olho do que teres os dois e ires para o inferno “. Será que eles pensam que Jesus Cristo estava brincando de ensinar e contar hestorinhas? Infelizes deles! Já não rezam como Jesus; não fazem jejum como Cristo, não expulsam demônios como Cristo e sequer salvam almas como Cristo. Estão optando por viver na lama do mundo, embora chamados e escolhidos para o serviço do altar. Naquele dia lhes será dito: não vos conheço, afastai-vos de mim malditos, ide para o fogo eterno.
A devota senhora, ou senhorita, que assina o comentário como Maria Dolores, não deixa por menos e toma as dores da “Igreja”, a “nossa Igreja”, diz ela, acrescentando ter sido a “única fundada por Jesus Cristo e que age pela força do Espírito Santo”.
Ora Jesus Cristo não fundou coisa nenhuma. Pregador de praça pública, que vivia de favores, porque não trabalhava, Jesus Cristo não tinha cacife para fundar Igrejas. Quem fundou o cristianismo, transformado mais tarde, em Roma, na mais rica seita da face da terra, foi o espertalhão, que também não trabalhava, mas tinha papo de estelionatário, o Saulo, de Tarso, , mais conhecido como São Paulo.
Quanto ao “Espírito Santo”, inventado como inspiração e força do cristianismo, parece que, até aqui, não mostrou a que veio. A Igreja, a quem lhe incumbia “inspirar e guardar”, comanda na história escândalos inomináveis, que vão das orgias papais do tempo dos Borgia aos padres pedófilos, passando pela Inquisição, e muitas outras loucuras.
Fico apenas nas primeiras linhas do comentário da Maria Dolores para salientar a obsessão doentia de pessoas que não conseguiram se livrar da lavagem cerebral praticada pelo cristianismo e, em consequência disso, são levadas à cegueira, tornando-se incapazes de se dobrar à própria razão, porque continuam presas às tolices do Concílio de Trento, como inferno, confessionário, etc.
Mas, o que chama a atenção mesmo é a ausência da tese fundamental do cristianismo no comentário da leitora: o amor ao próximo. O adjetivo mais cristão que a Maria Dolores encontrou para pespegar no padre foi “infiel”. Dali para diante, por favor, saiam da frente do computador, crianças! Depois da sugestão para que o padre se enforcasse, até a idade dele – 83 anos – foi lembrada como alternativa para que o reverendo esteja próximo do “julgamento”.
E para Maria Dolores não resta dúvida: o padre já tem cadeira cativa reservada no “inferno”!
ichbaum
terça-feira, 29 de novembro de 2011
MEMÓRIAS DE UM PADRE (II)
João Eichbaum
Na sua autobiografia, o padre José Joaquim Pillon, embora relate as circunstâncias marcantes de sua vida, na qual muitas pessoas tomaram parte, só refere o nome de algumas delas. Não menciona, por exemplo, o nome do bispo que o ordenou, apesar de descrever a cerimônia de ordenação e a própria pessoa do bispo. De um superior provincial, por quem não demonstra muita simpatia, apenas refere um nome: Tronco.
Mas há dois nomes que ele não só menciona, como refere muitas vezes: o de sua paixão, Glorinha, e o da mãe dela, uma rica fazendeira chamada Dorinha.
O que é a paixão, né!
Nos capítulos em que descreve essa paixão, o padre se desdobra, faz poesia, se desnuda, como qualquer ser humano, exibe as fraquezas. E confessa que tinha trinta e cinco anos, quando se apaixonou por sua aluna de filosofia, a Glorinha, que só tinha vinte e seis
Olha, 35 anos, não é propriamente uma idade para se apaixonar. A gente se apaixona na adolescência, comete poesia, enche de penas o coração, ameaça cortar os pulsos, sofre delírios febris, etc. Aos 35, a gente se amarra numa paixão porque se entrega a uma crise, certamente em razão do fim de uma outra paixão, a paixão que veio no tempo certo e que nos levou para o cartório, para o altar, ou pura e simplesmente para a mesma cama, com direito a pendurar duas escovas de dentes no mesmo armário, e depois morreu.
Homem nenhum vive até os 35 anos sem alguma ou algumas paixões. É até muito mais fácil se apaixonar e se desapaixonar com freqüência. O único amor é o único até que surja outro. Ninguém é de ferro.
Mas, no caso do padre, como ele mesmo reconhece, o furor dessa paixão se deve às paixões reprimidas no tempo certo, que é a adolescência, durante a qual ele tinha seus instintos de reprodução desviados para “amor” da Virgem Maria, das santas, da Igreja, para o heroísmo clerical! E, como também confessa, a única vez que ouviu alguma coisa sobre sexualidade foi numa palestra proferida por uma – pasmem! – freira!
Bom, com essa virgindade, digamos assim, moral, o padre foi pego de surpresa pela inegável sedução da Glorinha que, alcovitada pela mãe, dona Dorinha, prometia todo o patrimônio da família, para o padre, em troca de sua virgindade masculina, como dever epitalâmico.
O romance parou por aí mesmo, porque, a seguir, diz o padre que foi para a Europa estudar e, enquanto descreve suas experiências na Europa, não menciona o nome de sua paixão, dando a impressão de havê-la esquecido ou sufocado.
Não sei até onde vai a sinceridade do padre, porque uma paixão, principalmente a primeira, a gente não esquece assim tão facilmente. E todo mundo sabe que só outra paixão é capaz de matar aquela que nos maltratava. Tudo leva a crer que o padre teve outra ou outras paixões, sonegando-as ao conhecimento dos leitores.
Mas é possível também que a paixão pela Glorinha tenha sido a primeira paixão correspondida. Aí já é outra história. A paixão correspondida é sempre bem condimentada. Não é uma coisa sem sal como o amor platônico, que se esvai aos poucos, se esfumaça, se perde na névoa de outros amores e passa a existir depois como uma vaga lembrança apenas.
Uma coisa, em todo o caso, é certa: o amor semeia tantos truques pela vida afora, que ninguém escapa dele. Nem que tenha que fugir para a Europa.
Na sua autobiografia, o padre José Joaquim Pillon, embora relate as circunstâncias marcantes de sua vida, na qual muitas pessoas tomaram parte, só refere o nome de algumas delas. Não menciona, por exemplo, o nome do bispo que o ordenou, apesar de descrever a cerimônia de ordenação e a própria pessoa do bispo. De um superior provincial, por quem não demonstra muita simpatia, apenas refere um nome: Tronco.
Mas há dois nomes que ele não só menciona, como refere muitas vezes: o de sua paixão, Glorinha, e o da mãe dela, uma rica fazendeira chamada Dorinha.
O que é a paixão, né!
Nos capítulos em que descreve essa paixão, o padre se desdobra, faz poesia, se desnuda, como qualquer ser humano, exibe as fraquezas. E confessa que tinha trinta e cinco anos, quando se apaixonou por sua aluna de filosofia, a Glorinha, que só tinha vinte e seis
Olha, 35 anos, não é propriamente uma idade para se apaixonar. A gente se apaixona na adolescência, comete poesia, enche de penas o coração, ameaça cortar os pulsos, sofre delírios febris, etc. Aos 35, a gente se amarra numa paixão porque se entrega a uma crise, certamente em razão do fim de uma outra paixão, a paixão que veio no tempo certo e que nos levou para o cartório, para o altar, ou pura e simplesmente para a mesma cama, com direito a pendurar duas escovas de dentes no mesmo armário, e depois morreu.
Homem nenhum vive até os 35 anos sem alguma ou algumas paixões. É até muito mais fácil se apaixonar e se desapaixonar com freqüência. O único amor é o único até que surja outro. Ninguém é de ferro.
Mas, no caso do padre, como ele mesmo reconhece, o furor dessa paixão se deve às paixões reprimidas no tempo certo, que é a adolescência, durante a qual ele tinha seus instintos de reprodução desviados para “amor” da Virgem Maria, das santas, da Igreja, para o heroísmo clerical! E, como também confessa, a única vez que ouviu alguma coisa sobre sexualidade foi numa palestra proferida por uma – pasmem! – freira!
Bom, com essa virgindade, digamos assim, moral, o padre foi pego de surpresa pela inegável sedução da Glorinha que, alcovitada pela mãe, dona Dorinha, prometia todo o patrimônio da família, para o padre, em troca de sua virgindade masculina, como dever epitalâmico.
O romance parou por aí mesmo, porque, a seguir, diz o padre que foi para a Europa estudar e, enquanto descreve suas experiências na Europa, não menciona o nome de sua paixão, dando a impressão de havê-la esquecido ou sufocado.
Não sei até onde vai a sinceridade do padre, porque uma paixão, principalmente a primeira, a gente não esquece assim tão facilmente. E todo mundo sabe que só outra paixão é capaz de matar aquela que nos maltratava. Tudo leva a crer que o padre teve outra ou outras paixões, sonegando-as ao conhecimento dos leitores.
Mas é possível também que a paixão pela Glorinha tenha sido a primeira paixão correspondida. Aí já é outra história. A paixão correspondida é sempre bem condimentada. Não é uma coisa sem sal como o amor platônico, que se esvai aos poucos, se esfumaça, se perde na névoa de outros amores e passa a existir depois como uma vaga lembrança apenas.
Uma coisa, em todo o caso, é certa: o amor semeia tantos truques pela vida afora, que ninguém escapa dele. Nem que tenha que fugir para a Europa.
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
O NÉRIO SABE DAS COISAS
Quem diria que eu, como estudante pobre, morei numa pensão na rua dona Laura, quase esquina de Mariante, à esquerda de quem vai da Mariante para a Miguel Tostes, logo após a Mariante, tem hoje um edificio alteroso chamado - Cenrtro Profissional Mario Quintana". Aí naquele local tinha um enorme palacete, comum no bairro dos Moinhos de Vento, chácaras, onde morou a elite gaúcha. Ainda existem alguns. A familia já tinha saido do senhorial casarão com enorme quintal. Um homem de Alegrete, montou ótima pensão familiar, onde se alugava quartos para moças de fino trato. Sim. Moravam rapazes e moças, sem problema. Uns estudavam, outros trabalhavam. A comida era boa e a pensão era barata pois eu morei num quarto de tres, e assim o custo baixava bastante. Notável pensão. Inesquecível. Corria o ano de 1956, mais ou menos. Morava nos fundos, num quartinho, de favor, após a vasta cozinha onde, separada tinha a sala de refeição da pensão, o - "Tio Quincas" - era um mendigo - maltrapilho, borracho, com a boca grande, tipo um clown inglês. Morava de favor. O dono da pensão não cobrava a mensalidade do Tio Quincas. Eram do Alegrete. As familias eram amigas e o dono da pensão nutria uma certa veneração pelo Tio Quincas e por isso morava de graça. O Tio Quincas tomava tres porres por dia, na esquina, logo abaixo, da rua Miguel Tostes, com Cabral, onde ainda há churrasquinho, barzinhos e reunião da turma do bairro para aperitivar.
O primeiro porre era o da manhã, chegava pelo meio dia bêbado, caia nos degraus da escada e era carregado para o quartinho dos fundos. Dormia. Acordava pelas quatro horas da tarde. A zelosa cozinheira guardava um prato de comida, no fogão à lenha no canto do Wallig n° 3. Ele comia e ia para o quarto e com lapis que apontava com gilette passava a escrever em papéis comuns. Escrevia, escrevia, escrevia à lápis. Amassava e botava no lixo. Fumando sempre, cigarros que ganhava dos amigos (filante pois não tinha dinheiro para nada) descia à tardinha. Tomava outro porre, voltava, era levado para o quarto. Tirava uma soneca curava o porre. Levantava e voltava para a esquina famosa, da Miguel Tostes com Cabral, onde ficava até altas horas da noite. A pensão fechava a porta da frente às 20,00 hs. As moças tinham que já estar no quarto. Nem todos tinham chave da pensão. Só quem era adulto, de confiança, e trabalhava ou estudava à noite. O Tio Quincas nem sabia o que era chave da pensão. O porre da madrugada era o maior. Aí era um porre de verdade. Chegava e caia na escada. Sempre tinha algum morador, um que chegava, do colégio ou do trabalho ou algjuém de dentro da pensão que levava o coitado do Tio Quincas para o quartinho lá nos fundos.
Coria o boato na pensão que o dono dava abrigo de graça ao Tio Quincas, pois o pai do Tio Quincas era farmacêutico no Alegrete e homem muito bom, atendia as pessoas, dava remédio de graça, era um pai para a pobreza do Alegrete .
Eu devo ter ficado um ano nesta pensão. Era comum mudar de pensão. Mudei para ficar mais perto do Anchieta e assim não precisar pegar o bonde Independência/Auxiliadora, na frente do palacete do Comendador Antonio Chaves Barcellos, onde hoje é o Cruz Azul.
Sempre aparecia um funcionário da Livraria do Globo e levava uma pasta de papéis do Tio Quincas.
O tempo passou e como eu sempre gostei de ler, descobri as poesias do Mario Quintana, "do Caderno H," - do suplemento Literário dos sábados do Correio do Povo . Ligando os fatos fiquei sabendo que o Tio Quincas tinha se transformado no Mario Quintana, pois, amigos de fé, Breno Caldas, Mansueto Bernardi, Augusto Meyer, Edgar Koetx, os donos da Livraria do Globo, os Bertaso, o Moisés Velinho, Manoelito de Ornellas, o Nilo Ruschel, Erico Verissimo liderados pela turma do Correio do Povo, com Adail Da Silva, o "Dom Luiz" secretário do Dr. Breno, internaram com o a auxiilio do grande médico, dr Jacintho de Godoy, o Tio Quincas na Sanatóirio São José, de propriedade do Dr. Godoy, onde foi feito um tratamento absoluto de retirada do alcool e de prevenção do alcoolismo, durante meses. Assim que o Tio Quincas entrou no Sanatorio e saiu de lá o Mario Quintana.
Nério "dei Mondadori "! Letti.
O primeiro porre era o da manhã, chegava pelo meio dia bêbado, caia nos degraus da escada e era carregado para o quartinho dos fundos. Dormia. Acordava pelas quatro horas da tarde. A zelosa cozinheira guardava um prato de comida, no fogão à lenha no canto do Wallig n° 3. Ele comia e ia para o quarto e com lapis que apontava com gilette passava a escrever em papéis comuns. Escrevia, escrevia, escrevia à lápis. Amassava e botava no lixo. Fumando sempre, cigarros que ganhava dos amigos (filante pois não tinha dinheiro para nada) descia à tardinha. Tomava outro porre, voltava, era levado para o quarto. Tirava uma soneca curava o porre. Levantava e voltava para a esquina famosa, da Miguel Tostes com Cabral, onde ficava até altas horas da noite. A pensão fechava a porta da frente às 20,00 hs. As moças tinham que já estar no quarto. Nem todos tinham chave da pensão. Só quem era adulto, de confiança, e trabalhava ou estudava à noite. O Tio Quincas nem sabia o que era chave da pensão. O porre da madrugada era o maior. Aí era um porre de verdade. Chegava e caia na escada. Sempre tinha algum morador, um que chegava, do colégio ou do trabalho ou algjuém de dentro da pensão que levava o coitado do Tio Quincas para o quartinho lá nos fundos.
Coria o boato na pensão que o dono dava abrigo de graça ao Tio Quincas, pois o pai do Tio Quincas era farmacêutico no Alegrete e homem muito bom, atendia as pessoas, dava remédio de graça, era um pai para a pobreza do Alegrete .
Eu devo ter ficado um ano nesta pensão. Era comum mudar de pensão. Mudei para ficar mais perto do Anchieta e assim não precisar pegar o bonde Independência/Auxiliadora, na frente do palacete do Comendador Antonio Chaves Barcellos, onde hoje é o Cruz Azul.
Sempre aparecia um funcionário da Livraria do Globo e levava uma pasta de papéis do Tio Quincas.
O tempo passou e como eu sempre gostei de ler, descobri as poesias do Mario Quintana, "do Caderno H," - do suplemento Literário dos sábados do Correio do Povo . Ligando os fatos fiquei sabendo que o Tio Quincas tinha se transformado no Mario Quintana, pois, amigos de fé, Breno Caldas, Mansueto Bernardi, Augusto Meyer, Edgar Koetx, os donos da Livraria do Globo, os Bertaso, o Moisés Velinho, Manoelito de Ornellas, o Nilo Ruschel, Erico Verissimo liderados pela turma do Correio do Povo, com Adail Da Silva, o "Dom Luiz" secretário do Dr. Breno, internaram com o a auxiilio do grande médico, dr Jacintho de Godoy, o Tio Quincas na Sanatóirio São José, de propriedade do Dr. Godoy, onde foi feito um tratamento absoluto de retirada do alcool e de prevenção do alcoolismo, durante meses. Assim que o Tio Quincas entrou no Sanatorio e saiu de lá o Mario Quintana.
Nério "dei Mondadori "! Letti.
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
A BÍBLIA LIDA PELO DIABO
João Eichbaum
AS ÁGUAS DO DILÚVIO DIMINUEM
8 E lembrou-se Deus de Noé e de toda a besta, de todo o animal, de toda a rês que com ele estava na arca, e Deus fez passar um vento sobre a terra e aquietaram-se as águas. 2 Cerraram-se também as fontes do abismo e as janelas do céu e a chuva do céu se deteve. 3E as águas tornaram de sobre a terra continuamente e ao cabo de cento e cinquenta dias as águas minguaram.4 E a arca repousou, no sétimo mês, no dia dezessete do mês sobre os montes de Ararat. E foram as águas indo e minguando até o décimo mês, no primeiro dia do mês apareceram os cumes dos montes. 6 E aconteceu que, ao cabo de quarenta dias, abriu Noé a janela da arca que tinha feito.
Quer dizer, então, que o Velho tinha esquecido da turma toda?
Mas, como assim? A terra estava arrasada, toda a carne “tinha expirado”, Ele não tinha nada para fazer, não precisava se preocupar com os pecados e a corrupção, e mesmo assim, esqueceu do Noé e da bicharada?
Saberia o distinto público me dizer com o quê, exatamente, ocupava Ele sua cabeça?
Bom, mas ainda bem que se lembrou e mandou passar um vento pra secar tudo.
Só que demorou, né? Cento e cinqüenta dias!
E o Noé ainda esperou quarenta dias, depois dos cento e cinqüenta, para abrir a janela da arca?
Viram? A arca só tinha uma janela! Nossa, haja oxigênio pra tanto bicho misturado com gente!
Mas eu ainda fico me perguntando onde estocaram os alimentos pra sustentar tantas bocas, durante tanto tempo, sem freezer, nem geladeira!
AS ÁGUAS DO DILÚVIO DIMINUEM
8 E lembrou-se Deus de Noé e de toda a besta, de todo o animal, de toda a rês que com ele estava na arca, e Deus fez passar um vento sobre a terra e aquietaram-se as águas. 2 Cerraram-se também as fontes do abismo e as janelas do céu e a chuva do céu se deteve. 3E as águas tornaram de sobre a terra continuamente e ao cabo de cento e cinquenta dias as águas minguaram.4 E a arca repousou, no sétimo mês, no dia dezessete do mês sobre os montes de Ararat. E foram as águas indo e minguando até o décimo mês, no primeiro dia do mês apareceram os cumes dos montes. 6 E aconteceu que, ao cabo de quarenta dias, abriu Noé a janela da arca que tinha feito.
Quer dizer, então, que o Velho tinha esquecido da turma toda?
Mas, como assim? A terra estava arrasada, toda a carne “tinha expirado”, Ele não tinha nada para fazer, não precisava se preocupar com os pecados e a corrupção, e mesmo assim, esqueceu do Noé e da bicharada?
Saberia o distinto público me dizer com o quê, exatamente, ocupava Ele sua cabeça?
Bom, mas ainda bem que se lembrou e mandou passar um vento pra secar tudo.
Só que demorou, né? Cento e cinqüenta dias!
E o Noé ainda esperou quarenta dias, depois dos cento e cinqüenta, para abrir a janela da arca?
Viram? A arca só tinha uma janela! Nossa, haja oxigênio pra tanto bicho misturado com gente!
Mas eu ainda fico me perguntando onde estocaram os alimentos pra sustentar tantas bocas, durante tanto tempo, sem freezer, nem geladeira!
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
ACERVOS MONSTRUOSOS DE MEMÓRIA
Janer Cristaldo
Leitora me pergunta por que não gosto de museus. Não é bem que não goste. Penso inclusive, que todo marujo de primeira viagem, deve visitá-los. Mas depois de visitados, perdem o interesse. São acervos imensos que exigem dias para serem vistos. Se você passar um dia no Louvre ou no Hermitage está longe de conhecê-los.
Quando cheguei a São Petersburgo, já estava farto de museus. Mas estava ali,diante do Palácio de Inverno dos tzares, e não entrar seria muita esnobação. Entrei. Perambulei por três horas e só consegui ver parte do setor de esculturas. De pintura, não vi nada, já estava exausto e com fome. Preferi acabar meu dia no Literaturnaya Café, que fica ali perto, na Nevsky Prospekt, e pelo menos tem vinho e boa comida.
Museus, hoje, me cansam. A pintura também. É um problema de memória. Os acervos são tamanhos que memória nenhuma os guarda. O último museu de porte que visitei foi o Thyssen-Bornemisza, em Madri. Viajava com minha filha e não o conhecia. Decidi entrar. Tinha perto de quarenta salas. Lá pela décima quinta, desisti. Não lembro de nenhum quadro que tenha visto. Como não lembro de nenhuma escultura do Hermitage. Se não consigo guardar na memória, de nada me servem os museus.
Mas tenho apreço pelos pequenos. Como o de Munch, em Oslo. O de Rodin, em Paris. E o de Sorolla, em Madri. São museus personalizados, que nos mostram a obra de um só autor. Poucas pessoas conhecem a obra de Sorolla, um magnífico aquarelista, que vale, em minha opinião, o Prado inteiro.
Já passei por quase todos os grandes museus da Europa, só no Prado tive trinta horas de aula. Quando penso em pintura, gosto de citar Fernando Pessoa e em seu ensaio intitulado Heróstrato. Se o leitor se sente um tanto inculto por não gostar de percorrer museus – escrevi há alguns anos - sugiro deter-se neste fragmento tipicamente pessoano:
"A pintura afundar-se-á. A fotografia privou-a de muito do seu atrativo. A futileza da estupidez privou-a de quase todo o resto. O que restou tem sido levado em despojo pelos colecionadores americanos. Um grande quadro significa uma coisa que um americano rico quer comprar porque outras pessoas gostariam de comprá-lo se pudessem. São assim os quadros postos em paralelo, não com poemas ou romances, mas com as primeiras edições de certos poemas ou romances. O museu torna-se uma coisa paralela, não à biblioteca, mas à biblioteca do bibliófilo. A apreciação da pintura torna-se não um paralelo à apreciação da literatura, mas à apreciação de edições. A crítica de arte cai gradativamente para as mãos dos negociantes de antigüidades".
Turista inteligente – dizia eu há pouco - é o que conhece os museus por fora e os bares por dentro. Em matéria de museus, tenho gratas lembranças de um na Alemanha, o Berlin Museum. Visitei-o bem antes da queda do Muro, na Berlim Ocidental. Pagava-se alguns marcos de ingresso e aos domingos enfrentava-se fila. Não lembro bem o que guardava - creio que trens antigos - e suponho que tampouco o lembrem suas centenas de visitantes. Mas não esqueci, nem visitante algum terá esquecido, o simpático café que ficava ao final dos corredores, onde um garçom servia um vodca com figo e pimenta, este sim, inolvidável. Os alemães, pragmáticos, haviam entendido como atrair público a um museu.
Pois... estive mês passado em Berlim, sedento pelo museu. Nada feito. Não existe mais. Assim sendo, nada de museus em Berlim. Nesta viagem, como aliás em viagens passadas, não visitei museu algum. Ou melhor, visitei. Sem querer. Nyhavn, em Copenhague, é um canal tomado por bares e restaurantes. Passei quatro ou cinco dias lá. Para acabar descobrindo que, em verdade, era um museu. Museu de antigos veleiros, ali ancorados para fazer paisagem. Tudo bem. Museu assim, eu topo.
Os museus se tornaram acervos monstruosos de memória, que memória nenhuma abarca. Melhor os bares.
Leitora me pergunta por que não gosto de museus. Não é bem que não goste. Penso inclusive, que todo marujo de primeira viagem, deve visitá-los. Mas depois de visitados, perdem o interesse. São acervos imensos que exigem dias para serem vistos. Se você passar um dia no Louvre ou no Hermitage está longe de conhecê-los.
Quando cheguei a São Petersburgo, já estava farto de museus. Mas estava ali,diante do Palácio de Inverno dos tzares, e não entrar seria muita esnobação. Entrei. Perambulei por três horas e só consegui ver parte do setor de esculturas. De pintura, não vi nada, já estava exausto e com fome. Preferi acabar meu dia no Literaturnaya Café, que fica ali perto, na Nevsky Prospekt, e pelo menos tem vinho e boa comida.
Museus, hoje, me cansam. A pintura também. É um problema de memória. Os acervos são tamanhos que memória nenhuma os guarda. O último museu de porte que visitei foi o Thyssen-Bornemisza, em Madri. Viajava com minha filha e não o conhecia. Decidi entrar. Tinha perto de quarenta salas. Lá pela décima quinta, desisti. Não lembro de nenhum quadro que tenha visto. Como não lembro de nenhuma escultura do Hermitage. Se não consigo guardar na memória, de nada me servem os museus.
Mas tenho apreço pelos pequenos. Como o de Munch, em Oslo. O de Rodin, em Paris. E o de Sorolla, em Madri. São museus personalizados, que nos mostram a obra de um só autor. Poucas pessoas conhecem a obra de Sorolla, um magnífico aquarelista, que vale, em minha opinião, o Prado inteiro.
Já passei por quase todos os grandes museus da Europa, só no Prado tive trinta horas de aula. Quando penso em pintura, gosto de citar Fernando Pessoa e em seu ensaio intitulado Heróstrato. Se o leitor se sente um tanto inculto por não gostar de percorrer museus – escrevi há alguns anos - sugiro deter-se neste fragmento tipicamente pessoano:
"A pintura afundar-se-á. A fotografia privou-a de muito do seu atrativo. A futileza da estupidez privou-a de quase todo o resto. O que restou tem sido levado em despojo pelos colecionadores americanos. Um grande quadro significa uma coisa que um americano rico quer comprar porque outras pessoas gostariam de comprá-lo se pudessem. São assim os quadros postos em paralelo, não com poemas ou romances, mas com as primeiras edições de certos poemas ou romances. O museu torna-se uma coisa paralela, não à biblioteca, mas à biblioteca do bibliófilo. A apreciação da pintura torna-se não um paralelo à apreciação da literatura, mas à apreciação de edições. A crítica de arte cai gradativamente para as mãos dos negociantes de antigüidades".
Turista inteligente – dizia eu há pouco - é o que conhece os museus por fora e os bares por dentro. Em matéria de museus, tenho gratas lembranças de um na Alemanha, o Berlin Museum. Visitei-o bem antes da queda do Muro, na Berlim Ocidental. Pagava-se alguns marcos de ingresso e aos domingos enfrentava-se fila. Não lembro bem o que guardava - creio que trens antigos - e suponho que tampouco o lembrem suas centenas de visitantes. Mas não esqueci, nem visitante algum terá esquecido, o simpático café que ficava ao final dos corredores, onde um garçom servia um vodca com figo e pimenta, este sim, inolvidável. Os alemães, pragmáticos, haviam entendido como atrair público a um museu.
Pois... estive mês passado em Berlim, sedento pelo museu. Nada feito. Não existe mais. Assim sendo, nada de museus em Berlim. Nesta viagem, como aliás em viagens passadas, não visitei museu algum. Ou melhor, visitei. Sem querer. Nyhavn, em Copenhague, é um canal tomado por bares e restaurantes. Passei quatro ou cinco dias lá. Para acabar descobrindo que, em verdade, era um museu. Museu de antigos veleiros, ali ancorados para fazer paisagem. Tudo bem. Museu assim, eu topo.
Os museus se tornaram acervos monstruosos de memória, que memória nenhuma abarca. Melhor os bares.
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
O NÉRIO SABE DAS COISAS
A dialética confusão da vida. Circularidade das relações perigosas. Como dizia o frade dos Livros, o Frei Rovilio Costa - "con noantri o sensa noantri il mundo vá torno stesso" - com nós ou sem nós o mundo gira da mesma forma.
Agora temos o torvelinho total do micro e das relações "on line" - precisa uma equipe para atender o correio eletrônico, ler os emeils, selecionar, imprimir, cortar, colar, gravar, arquivar nas pastas eletrônicas, guardar na memória, e viver na roda viva da loucura do processamento de dados..Ficha limpa. Penhora on line. Bá. Esses dias um amigo meu que se flagelou e quebrou e ficou devendo na praça, correu aqui no meu canto, e me pediu ajuda advocatícia, pois, tinha tido sua conta salário,no banco atingida pelo ônus da famosa "penhora on line". O meu amigo ficou sem dinheiro. Não tinha o que comer. Nem ele e nem a família. O oficio do Juiz é expedido impresso, tudo no micro, ninguém lê, vai ao Banco Central, e num segundo o Banco Central rastreia as contas do cara e acha e aí mete o ônus do gravame total sobre o dinheiro da conta. Bá. E a cobrança mais rapida que eu já vi. Mais que os homens de vermelho, os cobradores de contas dos devedores, dos caloteiros, o homem de vermelho, ficava parado em frente a sua casa, na saida do edificio, no seu local de lazer, etc..era uma vergonha total. Todos na vizinhança ficavam sabendo que o cara estava devendo pois o homem de vermelho não largava o pé do devedor. Até que entraram com uma ação e a Justiça acabou com a firma do gênio gaudério que inventou os cobradores vestidos de vermelho.
Ainda bem que vestiu os cobradores traumáticos de vermelho. Jamais iria vestir os cobradores de azul.
Depois do jogo em que o meu Grêmio imortal, perdeu de 5x4 para o Fluminense no Engenhão tudo pode acontecer eis que o FRED fez quatro golos nas minhas redes tricolores. Vamos convir que ´-e demais, e nesta altura ser gremista é um sacerdócio.Ainda mais que os baianos perderam para os vermelhos no estádio da beira do rio. Vocês viram que enquanto o time vermelho jogava contra os baianos do Toninho Malvadeza e do Senhor do Bom Fim - do Pelourinho - a turma da FIFA - os empresários que vão financiar a FIFA na Copa de 2014, os patrocinadores, a turma da grana - estava comendo churrasco no Galpão Gaúcho, do Piratini, junto com o homem do olho azul que nasceu em São Borja, o nosso Tarso. Nem foram ao campo da beira do rio ver o jogo. Não se interessam por futebol. Querem saber de grana. Queriam a garantia do governador e da Brigada e da Policia, que no entorno do estádio que vai ter jogo da Copa de 2014, num círculo de 4 Km ninguém pode vender nada. nem cachorro quente, nem pipoca. nem churros, nem algodão doce. Nada. Nossos ambulantes vão se ralar. Eles querem garantia total de exclusividade de vender dentro e fora do estádio e aí vem a briga das cervejas. Aquela das mulheres lindas holandesas que na Copa da Africa do Sul, no meio da torcida, corpos esculturais, rebolavam, chamaram atenção do mundo, pois, faziam, sub-liminarmente, marketing da outra cerveja que não a patrocinadora da Copa da Africa do Sul. Deu o maior barraco. A Policia e os seguranças do Blatter, presidente da Fifa, prenderam as holandesas boasudas, deportaram, surraram, deram tapões e bofetadas, para mostrar quem era quem e sumariamente foram mandadas de volta para a Holanda num avião fretado pela Fifa. Nada de concorrência. Nada de dividir. Nada de socialismo. Capitalismo total, selvagem, não selvagem. Não interessa. Na copa de 2014 só eles vão vender. O Tarso, dizem, ficou apavorado, pois, o Tarso, tem formação socialista e é chegado num comunismo gaudério. Mas os capitalistas europeus, os escroques internacionais da FIFA são terríveis. Não querem saber de futebol. Querem saber do lucro e quanto vão ganhar e se o governo gaúcho garante a exclusividade da venda no entorno dos estádios. Para esta gente sem alma o futebol é um detalhe.
Feliz deles. Eu tive que dar explicação para meu neto, Douglas, de 8 anos, gremista fanático ( sem influência do avô) da derrota do Grêmio de 5x4 para o Fluminense. Comecei explicando que o vô Nério sempre foi Fluminense, no Rio, desde o tempo de Castilhos, Pindaro e Pinheiro - do Telê, Vialalobos, Calyle, Orlando "pingo de ouro" e Francisco. Do tempo do craque Didi, etc... As Larangeiras da rua Alvaro Chaves que os Guinle moravam no atual Palacio da Guanabara (era residência dos Guinle) e construiram em 1922, o estádio, pois gostavam de futebol. Depois deram o Palacio para o governo para residência oficial e o estádio para a turma da elite que usava pó de arroz, no rosto, daí o apelido do Fluminense o time "pó de arroz", etc..tricolor aqui, tricolor lá. Não adiantou nada. Meu neto queria saber como o Grêmio levou 5 do "pór de arroz" carioca. Os Guinle construiram em 1922, junto com o Banco Pelotense, o Copacaban Palace então no meio de um areal deserto, para hospedar o rei Alberto da Inglaterra que vinha com a comitiva real inglesa para os festejos do centenário de nossa independência. Se não tivesse o hotel fino como o rei queria não viriam. O governo se borrou. Aí os Guinle resolveram facilmente o problema e construiram, rapidamente, o Copacabana Palace. Em 1922. O rei Alberto veio e se hospedou e adorou. O cozinheiro chefe era um afrodescendente (essa expressão é obrigatória por lei, para evitar racismo) servia de sobremesa, esta que hoje é famosa, comum e todos gostam de comer até hoje e que chamamos de " me dá aí um rei Alberto". O nome ficou e pegou. Era a sobremesa tropical que o cozinheiro do morro da Mangueira fazia para o rei Alberto. Ele comia, repetia e comia várias. Daí o nome de "Rei Alberto". Boa essa. Não. Mas, Vá você explicar ao meu neto a vitória do time dos Guinle, riquissimos, . sobre o meu Grêmio que abriga Rafa Marques, Rochembach, Brandão, Gilberto Silva e tantos outros que acham que jogam futebol. Que tristeza
Nério "dei Mondadori" Letti
Agora temos o torvelinho total do micro e das relações "on line" - precisa uma equipe para atender o correio eletrônico, ler os emeils, selecionar, imprimir, cortar, colar, gravar, arquivar nas pastas eletrônicas, guardar na memória, e viver na roda viva da loucura do processamento de dados..Ficha limpa. Penhora on line. Bá. Esses dias um amigo meu que se flagelou e quebrou e ficou devendo na praça, correu aqui no meu canto, e me pediu ajuda advocatícia, pois, tinha tido sua conta salário,no banco atingida pelo ônus da famosa "penhora on line". O meu amigo ficou sem dinheiro. Não tinha o que comer. Nem ele e nem a família. O oficio do Juiz é expedido impresso, tudo no micro, ninguém lê, vai ao Banco Central, e num segundo o Banco Central rastreia as contas do cara e acha e aí mete o ônus do gravame total sobre o dinheiro da conta. Bá. E a cobrança mais rapida que eu já vi. Mais que os homens de vermelho, os cobradores de contas dos devedores, dos caloteiros, o homem de vermelho, ficava parado em frente a sua casa, na saida do edificio, no seu local de lazer, etc..era uma vergonha total. Todos na vizinhança ficavam sabendo que o cara estava devendo pois o homem de vermelho não largava o pé do devedor. Até que entraram com uma ação e a Justiça acabou com a firma do gênio gaudério que inventou os cobradores vestidos de vermelho.
Ainda bem que vestiu os cobradores traumáticos de vermelho. Jamais iria vestir os cobradores de azul.
Depois do jogo em que o meu Grêmio imortal, perdeu de 5x4 para o Fluminense no Engenhão tudo pode acontecer eis que o FRED fez quatro golos nas minhas redes tricolores. Vamos convir que ´-e demais, e nesta altura ser gremista é um sacerdócio.Ainda mais que os baianos perderam para os vermelhos no estádio da beira do rio. Vocês viram que enquanto o time vermelho jogava contra os baianos do Toninho Malvadeza e do Senhor do Bom Fim - do Pelourinho - a turma da FIFA - os empresários que vão financiar a FIFA na Copa de 2014, os patrocinadores, a turma da grana - estava comendo churrasco no Galpão Gaúcho, do Piratini, junto com o homem do olho azul que nasceu em São Borja, o nosso Tarso. Nem foram ao campo da beira do rio ver o jogo. Não se interessam por futebol. Querem saber de grana. Queriam a garantia do governador e da Brigada e da Policia, que no entorno do estádio que vai ter jogo da Copa de 2014, num círculo de 4 Km ninguém pode vender nada. nem cachorro quente, nem pipoca. nem churros, nem algodão doce. Nada. Nossos ambulantes vão se ralar. Eles querem garantia total de exclusividade de vender dentro e fora do estádio e aí vem a briga das cervejas. Aquela das mulheres lindas holandesas que na Copa da Africa do Sul, no meio da torcida, corpos esculturais, rebolavam, chamaram atenção do mundo, pois, faziam, sub-liminarmente, marketing da outra cerveja que não a patrocinadora da Copa da Africa do Sul. Deu o maior barraco. A Policia e os seguranças do Blatter, presidente da Fifa, prenderam as holandesas boasudas, deportaram, surraram, deram tapões e bofetadas, para mostrar quem era quem e sumariamente foram mandadas de volta para a Holanda num avião fretado pela Fifa. Nada de concorrência. Nada de dividir. Nada de socialismo. Capitalismo total, selvagem, não selvagem. Não interessa. Na copa de 2014 só eles vão vender. O Tarso, dizem, ficou apavorado, pois, o Tarso, tem formação socialista e é chegado num comunismo gaudério. Mas os capitalistas europeus, os escroques internacionais da FIFA são terríveis. Não querem saber de futebol. Querem saber do lucro e quanto vão ganhar e se o governo gaúcho garante a exclusividade da venda no entorno dos estádios. Para esta gente sem alma o futebol é um detalhe.
Feliz deles. Eu tive que dar explicação para meu neto, Douglas, de 8 anos, gremista fanático ( sem influência do avô) da derrota do Grêmio de 5x4 para o Fluminense. Comecei explicando que o vô Nério sempre foi Fluminense, no Rio, desde o tempo de Castilhos, Pindaro e Pinheiro - do Telê, Vialalobos, Calyle, Orlando "pingo de ouro" e Francisco. Do tempo do craque Didi, etc... As Larangeiras da rua Alvaro Chaves que os Guinle moravam no atual Palacio da Guanabara (era residência dos Guinle) e construiram em 1922, o estádio, pois gostavam de futebol. Depois deram o Palacio para o governo para residência oficial e o estádio para a turma da elite que usava pó de arroz, no rosto, daí o apelido do Fluminense o time "pó de arroz", etc..tricolor aqui, tricolor lá. Não adiantou nada. Meu neto queria saber como o Grêmio levou 5 do "pór de arroz" carioca. Os Guinle construiram em 1922, junto com o Banco Pelotense, o Copacaban Palace então no meio de um areal deserto, para hospedar o rei Alberto da Inglaterra que vinha com a comitiva real inglesa para os festejos do centenário de nossa independência. Se não tivesse o hotel fino como o rei queria não viriam. O governo se borrou. Aí os Guinle resolveram facilmente o problema e construiram, rapidamente, o Copacabana Palace. Em 1922. O rei Alberto veio e se hospedou e adorou. O cozinheiro chefe era um afrodescendente (essa expressão é obrigatória por lei, para evitar racismo) servia de sobremesa, esta que hoje é famosa, comum e todos gostam de comer até hoje e que chamamos de " me dá aí um rei Alberto". O nome ficou e pegou. Era a sobremesa tropical que o cozinheiro do morro da Mangueira fazia para o rei Alberto. Ele comia, repetia e comia várias. Daí o nome de "Rei Alberto". Boa essa. Não. Mas, Vá você explicar ao meu neto a vitória do time dos Guinle, riquissimos, . sobre o meu Grêmio que abriga Rafa Marques, Rochembach, Brandão, Gilberto Silva e tantos outros que acham que jogam futebol. Que tristeza
Nério "dei Mondadori" Letti
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