segunda-feira, 9 de maio de 2011

DA SODOMIA COMO FONTE DE DIREITOS E OBRIGAÇÕES - João Eichbaum

O macaco homem nunca deixará de ser macaco. Podem até botar uma toga nele, chamá-lo de excelência, que sua animalidade sempre prevalecerá sobre sua inteligência.
Dar o orifício aquele que se situa no vale das nádegas, ou dele se servir para obter satisfação sexual, ou seja, curtir anal, a partir de sexta-feira, dia 6 último, por decisão do Supremo Tribunal Federal, tornou-se uma forma lícita de adquirir direitos e gerar obrigações. Segundo decidiram todos os ministros, - de cuja masculinidade me sinto no direito de duvidar - tanto o que dá, como o que traça o traseiro, se não quiser trabalhar, não precisa: poderá viver disso pelo resto da vida, pois terá direito a pensão alimentícia.
Vocês já pensaram ? Que magnífico meio de vida, adquirir direitos através do ânus!
Ah, e tem mais: essa troca de repugnantes favores sexuais, foi batizada pelos ministros do Supremo Tribunal Federal como “entidade familiar”.
Eu não queria ser tão grosseiro assim, falando em comer bunda. Preferiria dizer que, a partir da decisão do Supremo Tribunal Federal, decretando que as bichas é que mandam no mundo, reconhecendo as animalidades homossexuais como “entidade familiar”, a sodomia passou a ser uma fonte de direitos. Mas, não dá. Sodomia, cópula anal, são termos sublimes demais para descerem até a baixeza desse tema que ocupou o “notório saber jurídico” dos ministros do Supremo Tribunal Federal.
Mas, adquirir direito a pensão alimentícia, dando ou comendo traseiro, ainda não é tudo. Qualquer um dos parceiros, tanto o que estiver em cima como o que estiver em baixo, terá direito à pensão previdenciária, quando se tornar sobrevivente duma relação de sodomia. E nós, os contribuintes, os que somos coagidos a fornecer receita para o INSS, com o fruto do nosso trabalho, de sol a sol, bancaremos a pensão deles, cujo direito foi adquirido levando ferro ou metendo ferro no traseiro, em baixo dos lençóis.
A isso é que os ministros chamam de isonomia: o suor causado pelo trabalho tem o mesmo valor do suor causado pela trepada anal. E essa prática é que inspirou manifestações de emoção, como as de Ayres Britto, que se serve da toga para fazer poesias idiotas, e de Luiz Fux que, segundo a imprensa, “até embargou a voz”. Certamente, naquele momento, ambos estavam embalados pelo seguinte argumento jurídico: “pô, não tem coisa mais linda, do que dois viados se comendo...”
Foi uma decisão história, dizem os jornais. Realmente, essa foi uma decisão histórica: jamais, em toda a história do Supremo, tinha dado tamanho apagão na vergonha dos ministros; nunca aquela corte havia tomado uma decisão tão obscena, obrigando-nos a nós, contribuintes, a pagar por pegadas anais de que não fizemos parte.
Quer dizer, botaram no nosso também.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

LIÇÕES DE DIREITO PARA ESTAGIÁRIOS E ASSESSORES DE JUIZES, DESEMBARGADORES E MINISTROS - João Eichbaum

EMBARGOS DECLARATÓRIOS

O seguinte. Para fixar o percentual dos honorários advocatícios, o acórdão utilizou o valor do contrato firmado entre as partes, emprestando-lhe o nome de “valor da causa”. O valor da causa, que o inciso V do art. 282 do Código de Processo Civil exige como elemento integrante da petição inicial não correspondia, no caso, ao valor do contrato que se discutia.
É quase comum esse expediente que os advogados usam, para economizar custas e emolumentos: declaram, na petição inicial, um valor que não corresponde, efetivamente, à pretensão econômica em discussão no processo.
Aproveitando-se então da expressão empregada pelo acórdão (“valor da causa”) o advogado da parte sucumbente (professor de Processo Civil) ajuizou embargos declaratórios. Para isso invocou erro material do acórdão, mostrando a divergência entre o valor dado à causa e o “valor da causa” que o acórdão utilizara como ponto de partida para a fixação dos honorários.
Em primeiro lugar, a isso não se pode chamar de “erro material” O acórdão se limitou a interpretar, como ponto de partida, para a fixação dos honorários, o valor do contrato, emprestando-lhe o nomen juris de valor da causa, não no sentido específico, para efeitos fiscais, mas no sentido genérico, enquanto valor emergente de um contrato.
Não se pode elogiar a terminologia utilizada pelo acórdão exatamente porque produziu uma interpretação inadequada. Expressões técnicas, nomes específicos de atos ou figuras processuais não devem ser empregados em sentido comum, exatamente para que não se gere confusão.
Mas também o advogado da parte embargante (um professor de Processo Civil) se equivocou ao ajuizar embargos declaratórios. Os “embargos declaratórios” não se prestam para corrigir erros materiais. A lei limita aquele tipo de embargos à contradição, à obscuridade e à omissão “de ponto sobre o qual devia o tribunal se pronunciar”. E no caso nenhuma dessas hipóteses, que figuram no art. 535 do Código de Processo Civil, foi apontada como fundamento dos ditos embargos. O advogado insistiu apenas na existência de “erro material”.
Não havendo recurso próprio para a correção de “erro material”, uma “questão de fato” pode ser argüida durante o julgamento, se estiver presente o advogado. Se não, uma simples petição é o bastante para elucidar o erro.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A BÍBLIA LIDA PELO DIABO - João Eichbaum

21 E Deus criou as grandes baleias e todo o réptil de alma vivente que as águas abundantemente produziram conforme suas espécies; e toda a ave de asas, conforme sua espécie. E viu Deus que era bom.

Quer dizer, liberou geral. Só que faltou um item: os tubarões.
Mesmo assim, Javé achou que estava se dando bem no mercado, curtiu sua obra e babou na barba: tá muito bom!
E botou mais essa no currículo dele.
Mas, cá pra nós: por acaso havia alguém, ali na hora, que tivesse peito pra criticar ou botar defeito?

22 E Deus as abençoou, dizendo: frutificai-vos e multiplicai-vos e enchei as águas dos mares; e as aves se multipliquem na terra.

Depois disso, aconteceu aquela pegação que acontece até hoje, em baixo d’água, na terra, em cima de árvores. É só ter uma fêmea a jeito.

23 E foi a tarde e a manhã do dia quinto.

Puxa! E precisava dois turnos pra isso?

A CRIAÇÃO DOS SERES VIVENTES

24 E disse Deus: produza a terra alma vivente conforme a sua espécie; gado e répteis e bestas feras da terra, conforme a sua espécie. E assim foi. 25 E fez Deus as bestas feras da terra conforme a sua espécie e o gado conforme a sua espécie, e todo o réptil da terra conforme a sua espécie. E viu Deus que era bom.

Será que Ele encheu a terra com essa bicharada toda, duma vez só? Ou só se ocupou dos casais de cada espécie que, depois da primeira trepada, passaram a reproduzir, não para encher a terra, como Ele queria, mas porque transa é uma coisa boa, independente do resultado? Claro, né? Se reproduzir não fosse gostoso, tudo tinha terminado por ali mesmo.
E Ele sempre curtindo, sempre achando bom.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

LIÇÕES DE LINGUISTICA PARA DEPUTADOS E OUTROS INCULTOS - João Eichbaum

Duma coisa tenho certeza: o comunista Raul Carrion, deputado estadual do Rio Grande do Sul, autor de uma lei que proíbe o uso de palavras estrangeiras em publicidade e documentos oficiais,
não sabe o que é morfologia.
Morfologia provém do grego: morphé (forma) lógos (palavra) e indica, em sentido próprio, a “formação das palavras”. Sentido esse que engloba, entre outros meios de formação de palavras, a transição de uma língua para outra.
É público e notório que a linguagem de um país se forma, em primeiro lugar, com o uso. É o povo, falando, que faz a língua do seu país (e não as leis). E a linguagem do povo evolui, não é estática. De geração em geração novos vocábulos são incorporados ao idioma, em razão do uso, que é dinâmico.
Quem cria a gíria, senão o povo? E a gíria muda, em menos de uma geração, tal é a dinâmica do uso.
Há alguns anos atrás, “gata” não era senão o feminino de “gato”, aqueles bichinhos domésticos. Hoje “gata’ é sinônimo de mulher bonita e “gato”, de homem bonito.
Isso é apenas um dos milhares de exemplos que se poderia aqui trazer, para mostrar que quem faz o idioma é o povo.
A “importação” de termos ou palavras estrangeiras, quer se queira ou não, é um dos meios de formação do idioma. A morfologia não a arreda, dentro dessa perspectiva. Ela permite o neologismo.
Hoje, com a globalização e a expansão da tecnologia, com maior razão o uso de palavras estrangeiras se insere no dia a dia da linguagem, quer popular, quer técnica.
Não seria necessário repetir aqui o que tantos críticos da lei de autoria desse desconhecido senhor Carrion têm lembrado: na linguagem da informática, pouquíssimas são as palavras geradas no próprio idioma português.
Além de não ter noções mínimas de linguìstica, nem de ridículo, Raul Carrion passa um atestado público de ignorância acerca da natureza da lei. Ele não sabe que usos e costumes têm tanta força quanto a lei.
A democracia, que outra coisa não representa senão a força do povo, não faz bem para os comunistas. Aldo Rabelo, deputado federal, comunista também, acalenta idéias semelhantes às de Raul Carrion. Comunismo para eles, assim como para Fidel Castro, é sinônimo de antiamericanismo. Tudo o que vem dos Estados Unidos é impróprio. A começar pela linguagem. É por isso que eles querem, através de leis, barrar a globalização, que passa pelos Estados Unidos.
Mas, o povo não ta nem aí e, antes de ir para a loja, não procura saber se existe no vocabulário brasileiro uma palavra que indique o seu sonho de consumo: o “Ipad”.

terça-feira, 3 de maio de 2011

SIC TRANSIT GLORIA MUNDI - Janer Cristaldo

Se há algo que não entendo no mundo, é o culto a personagens míticas. Por exemplo, as bodas reais na Inglaterra. Que fizeram de importante na vida o príncipe William e a Kate Middleton para atraírem a atenção de dois bilhões de pessoas no mundo, que é o número estimado de telespectadores do enlace? Um nasceu príncipe e ela, plebéia, foi a eleita do príncipe.
E daí? O culto a eles prestado pelas multidões em nada difere ao culto um dia prestado a Hitler ou Stalin, Mao ou Kim Il Sung, Beatles ou Bono Vox.
Ou melhor, talvez entenda. Estes espécimes foram muito bem definidos no século passado por um judeu da Ucrânia. É o Kleinen Mann, de Wilhelm Reich. Ou o Zé Ninguém, como foi traduzido em português: “O homem pequeno é aquele que não reconhece sua pequenez e teme reconhecê-la; que procura mascarar a sua tacanhez e estreiteza de vistas com ilusões de força e grandeza, força e grandezas alheias. Que se orgulha de seus grandes generais mas não de si próprio. Que admira as idéias que não teve, mas jamais as que teve. Que acredita mais arraigadamente nas coisas que menos entende, e que não acredita no que quer que lhe pareça fácil de assimilar”.
Daí a acreditar no papa, em Hitler ou Stalin, basta um pequeno passo. Estas gentes, eu as conheço desde minha adolescência. Continua Reich: “Tu mesmo te desprezas, Zé Ninguém. Dizes: ‘quem sou eu para ter opinião própria, para decidir sobre minha própria vida e ter o mundo como meu?’ E tens razão: quem és tu para reclamar direitos sobre tua vida? Deixa-me dizer-te.“Diferes dos grandes homens que verdadeiramente o são apenas num ponto: todo grande homem foi um dia um Zé Ninguém que desenvolveu apenas uma outra qualidade: a de reconhecer as áreas em que havia limitações e estreiteza em seu modo de pensar e agir. O grande homem é pois aquele que reconhece quando e em que é pequeno”.Mas Reich falava do grande homem. Que grandeza tem o principito? Se tem alguma, desconhecemos. Ao que tudo indica, a época anda carente de contos de fada, com príncipes e cinderelas, carruagens e castelos. Só falta o dragão. Dragão tem pouco prestígio nos dias que correm. Milhares de pessoas estão acampando nas proximidades da Abadia de Westminster para esperar a passagem dos noivos. Até parecem os panacas que em São Paulo acamparam junto ao Morumbi para ver um apologista das drogas e um sonegador do imposto de renda, o McCartney e o Bono Vox.
Não tenho apreço nenhum por esses personagens construídos pela mídia. Sim, porque é a mídia quem os constrói. Os jornalistas os criam e depois passam a prestar-lhes culto, como se algum valor tivessem. Para que serve um rei? Pelo que sei, para receber colegas e posar para cartões postais. Não por acaso, a imprensa – a mesma que os alimenta – criou a expressão “rainha da Inglaterra”, para definir a condição de um político que ocupa um alto cargo mas não dispõe de poder algum.
Gilles Lapouge, o correspondente do Estadão em Paris, tenta uma resposta ao enigma, em sua coluna de ontem: “A questão é a seguinte. Por que ato de prestidigitação essa monarquia, que não serve para absolutamente nada, continua a fascinar? Lembremos que o rei tem três funções apenas: ele outorga honrarias, nomeia o primeiro-ministro que o Parlamento lhe diz para nomear e dissolve, nas mesmas condições, o Parlamento. “A essa pergunta, podemos dar respostas racionais. "Esse sistema assegura a permanência de uma classe dominante competente, unida pelos laços de família, de geração em geração", disse Edmund Burke, no século 17". Será que assegura? Os franceses guilhotinaram seus reizinhos e a França, hoje, bem ou mal, é dirigida por uma classe dominante competente. Verdade que, ao visitarmos os castelos da realeza francesa, as guias turísticas a ela se referem com um ar nostálgico. Suponho que os franceses, diante da pompa toda de Londres, a cada vez que ocorrem tais bodas, sintam-se profundamente arrependidos de terem cortado a cabeça de seus reis.
Já estive perto de rainhas e príncipes. Mas por acaso, quase sem saber. Faz uns bons vinte anos, talvez trinta. Eu estava em Madri, no hotel Inglés, na Calle Del Viejo Idiota. Ou seja, na Calle de Echegaray. José Echegaray, personagem polêmico de fins do século XIX, era engenheiro, matemático, dramaturgo, político... e recebeu o prêmio Nobel de Literatura em 1904. Valle-Inclán, escritor galego que vivia na mesma rua, dava como endereço Calle del Viejo Idiota. E consta que mesmo grafando assim o endereço, recebia correspondência.Já contei, mas o caso é pertinente. Na Calle del Viejo Idiota há um restaurante que nada tem demais, a não ser ser simpático. É o La Cacerola. Antes de las doce del medio-día, você paga apenas o que come. O que bebe é brinde. Como em viagens não sou de acordar cedo e considero que dez horas é um momento indelicado para tomar café, começo com alguns pinchos regados a cerveja ou vinho. Naquele dia havia uma excitação inusual no boteco. Uma velhota saía e voltava a toda hora para limpar as vitrines pelo lado de fora. Era a cozinheira do Cacerola. Eu ainda não havia lido os jornais, não imaginava o que me esperava.Lá pelas tantas, a faxineira entra aos pulos na sala, gritando: “yo lo he visto. El principito. Y me hacía así”. E fez o sinal de quem acenava. Só então me dei conta que estava presenciando um momento histórico e não sabia. Saí do bar e olhei para a Carrera de San Jerónimo, que corta a Calle del Viejo Idiota. Um aparato colossal de segurança, que se estendia do Palácio Real até o Paseo del Prado, tomava conta das ruas e telhados. Era o juramento do príncipe Filipe às Cortes Espanholas. Junto com o príncipe vinham rei, rainha e as infantas, mais um corpo de cavalaria mais ajaezado que um toureiro com seu traje de luces. A cozinheira ganhou seu dia naquela manhã. Deve ter passado meses e meses feliz, sentindo-se íntima do principito.Estranho o poder dos donos do mundo. Quantas pessoas Filipito terá feito feliz, com um simples olhar dirigido à Calle del Viejo Idiota?Abril de 1980 foi um mês pródigo para tropeçar em personalidades. No dia 16, eu bebericava uma cerveja e lia no Select, no Boulevard du Montparnasse. Lá pelas tantas, um burburinho perpassou o café e muita gente foi para a rua. É que passava na esquina, rumo ao cemitério Montparnasse, um ilustre cadáver, o de Sartre. Certamente, o mais famoso e equivocado pensador do século passado. Nem retirei meus olhos do livro. Podia estar passando ali o cadáver de De Gaulle, não me diria nada.
No dia 30 do mesmo abril, estive na coroação da rainha Beatrix, na Holanda. Também por acaso. Era feriadão na França e levei duas amigas parisienses para conhecer Amsterdã. Não havia uma mísera vaga nos hotéis. A menos que buscássemos um a pelo menos cem quilômetros de distância. Decidimos dormir no carro, à beira de um canal. Acordei cheio de pelos com um cachorro me lambendo a barba. Da Beatrix, só tenho uma lembrança. Atrapalhou meus dias de Amsterdã.
Ah! E também já vi o papa. No caso, o João Paulo II, que domingo competiu postumamente com as bodas de Londres, no dia de sua beatificação. Quem deve estar vibrando, lá no Além, é o sacerdote mexicano Marcial Maciel, o fundador dos Legionários de Cristo, morto em 2008. Acusado de abusar sexualmente de mais de 20 seminaristas - incluindo os próprios filhos - Maciel teve filhos com várias mulheres e, como um outro santo moderno, o Martin Luther King, foi plagiador emérito: plagiou descaradamente o livro de cabeceira da legião, intitulado Saltério de Meus Dias, e impôs a toda a organização um quarto voto de silêncio para se proteger de denúncias. Um de seus antigos colaboradores o acusa inclusive de ter envenenado seu tio-avô, o bispo Guízar, que apoiou a bem-sucedida carreira eclesiástica do sobrinho no México dos anos 1930.
Deste santo senhor, temos fartas fotos sendo abençoado pelo papa João Paulo II, recebido em audiência especial no Vaticano. Centenas de denúncias sobre o padre Maciel chegaram à mesa de Wojtyla. O papa as desprezou. Maciel enchia praças e estádios de futebol em suas viagens pelo mundo. Era merecedor da benção papal. Não é todos os dias que um pedófilo priva com um papa. Daqui a dois dias, um milhão de pessoas estará homenageando o santo homem que abençoou um criminoso.Mas falava que vi Sua Santidade. Eu passeava às margens do Tibre, quando ouvi uma voz tronituante que vinha dos céus. Pensei ser o próprio Cara. Mas falava em italiano. Como era de supor-se que Jeová falasse hebraico, conclui que devia ser seu vice. Era. Uma multidão de carolas o ouvia na Piazza San Pietro.
Em suma, se coincidi num mesmo ponto geográfico com essas sumidades, foi por mero acaso. Sou um pouco como Julien Sorel, o personagem de Stendhal, que estava na batalha de Waterloo e não tinha idéia precisa do que acontecia ali. Não tenho preocupação alguma com o tal de sucesso. Sucesso é uma soma de equívocos. Mas guardo ternas lembranças dos bons momentos que passei com anônimos amigos e namoradas, em singelos botecos da vida.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

ADENDO NECESSÁRIO

O belíssimo texto publicado abaixo, "Paixões Cotidianas", sub-título de "Crônicas Provocantes", é de autoria do brilhante PAULO WAINBERG - como não poderia deixar de ser.
PAIXÕES COTIDIANAS

No final do dia, Clarinha entrou no ônibus, lotado como sempre, para ir para casa.
Empurrando e sendo empurrada, finalmente acomodou-se, em pé, segurando a barra transversal, para garantir o equilíbrio durante o percurso. Mal notou Haroldo, ao seu lado, fazendo a mesma coisa.
Depois de alguma espera e quando não cabia sequer uma mosca dentro, o ônibus deu a partida sem dó nem piedade, provocando uma convulsão entre as trinta e cinco pessoas amontoadas.
Qual melancias na carruagem, os passageiros trataram de se acomodar, empurrando mais um pouco, um passinho à frente, outro de lado, ocupando os menores espaços, pois o motorista não fazia cerimônia e enfiava o pé no acelerador e no freio com a mesma força, enfrentando o trânsito cerrado daquele horário.
Haroldo viu-se às costas de Clarinha, sua mão ao lado dela, na barra transversal. Cuidou para não encostar nela, mesmo que a distância entre eles fosse de poucos centímetros.
Clarinha olhou para trás e deu um sorriso conformado, de quem entende o problema, sorriso este que abalou Haroldo. E a ela também.
Sem mais nem menos, uma faísca uniu os dois corpos, que permaneceram separados por centímetros. Como se uma onde de energia, sensual, tensa e emocionante unisse os dois à distância. Haroldo sentiu isto de imediato e Clarinha, olhando fixamente para a frente, deixava inundar-se da sensação, nova ou há muito esquecida.
O ônibus seguiu o percurso, passageiros embarcaram e desembarcaram e eles permaneceram imóveis, ligados pela corrente fulminante que seus corpos produziam, um no outro.
Não viram o tempo passar e levaram um susto quando o condutor anunciou: – Fim da linha.
Ambos haviam perdido os pontos de descida e estavam praticamente sozinhos dentro do ônibus, paralisados, sem se tocar mas presos por um calor ardente, intenso e fulminante.
Sem jeito, Clarinha desceu e Haroldo foi atrás. Na calçada ele se aproximou:
– Oi, desculpe eu... não sei o que houve..
– Sim?
– É que, sei lá, você me... Olhe, meu nome é Haroldo.
– Muito prazer, Clarinha. E estendeu a mão.
Haroldo segurou a mão dela e aí sim, dez mil watts de eletricidade percorreu a alma de ambos, presos pelas mãos, incapazes de se separar e de tirar os olhos um do outro.
Então Clarinha, delicadamente, tirou a mão, os olhares ainda fixos.
De repente uma frio esquisito envolveu os dois. Como se uma nuvem recheada de neve houvesse pousado sobre eles, extinguindo as labaredas de emoção que ardiam em suas almas.
Clarinha apertou a bolsa contra o estômago e Haroldo enfiou as mãos no bolso.
Olharam ao redor, sem saber onde estavam, nenhum deles jamais tinha ido ao fim daquela linha.
– Vamos pegar um táxi – disse Haroldo – deixo você em casa e depois vou a minha.
Sentados lado a lado, no banco traseiro, não trocaram uma única palavra. Não tinham o que dizer, não sabiam exatamente o que havia acontecido.
Clarinha entrou no seu apartamento completamente exausta. Mal cumprimentou o marido e os filhos e, alegando uma forte enxaqueca, foi direto para o quarto. Sem tomar banho ou escovar os dentes, tirou a roupa, vestiu a camisola e caiu na cama, totalmente exaurida, sem forças para nada, caindo num sono profundo e pesado.
Haroldo, chegando em casa, beijou sua esposa, fez um afago no filho de seis anos, avisou que estava exausto, não queria jantar, precisava dormir que o dia havia sido de amargar.
Na manhã seguinte, Clarinha acordou tomada por uma estranha letargia. Era como se tivesse tido um orgasmo sem gozo. Normalmente, após um orgasmo, ela ficava agitada, alegre, quase hiper-ativa. Desta vez, sentia-se pesada, os movimentos lentos, como se estivesse dentro d’água.
Preparou o café da manhã para o marido e os filhos e quando eles saíram, foi para o chuveiro, onde permaneceu um longo tempo sob a água tépida.
Depois vestiu-se e foi para o trabalho.
O dia não passava. Ela ansiava pela hora de ir para o terminal de ônibus, encontrar Haroldo e reviver a sensação aguda da véspera.
Desta vez, não foi o acaso, ambos se posicionaram da mesma forma e esperaram. Esperaram. E nada aconteceu. A magia de ontem não se reproduzia, eram passageiros comuns, amontoados num ônibus lotado.
Clarinha, na ânsia de recuperar as sensações, moveu-se levemente, encostando-se na virilha de Haroldo.
Ele aceitou o convite e encostou-se definitivamente nela, os dois se esfregando em busca da eletricidade, em busca do coração disparando, em busca da ardência.
Mas nada aconteceu.
Deram-se conta da grosseria da situação e, envergonhados, separaram- se.
Haroldo deus um jeito de sair de trás dela.
Cada um desceu no seu ponto.
Clarinha entrou e beijou os filhos carinhosamente. Mais tarde, na cama, procurou o marido, provocante e sensual, fizeram amor intenso e mais tarde, deitada com os olhos fechados, algo estranho aconteceu.
Ela sentiu uma luz piscar em sua mente, como se fosse um sinal luminoso vermelho, anunciando a contagem regressiva de uma bomba-relógio.
Tentou identificar o sentimento, o que seria aquilo, justo ela que estava feliz, possuía uma família feliz, que amava o marido e os filhos, o que significava aquele alerta, aquele alarme?
Assim adormeceu.
Na manhã seguinte, ao acordar, estava tudo claro em sua mente. O episódio no ônibus revelava uma Clarinha insuspeita, uma que estava escondida, amortecida pelos prazeres cotidianos e que, finalmente, vinha à tona.
Clarinha sabia, agora, que queria muito mais do que tinha. E que tinha muito mais para dar.
Naquela noite, dentro do ônibus, procurou Haroldo:
– Quem sabe a gente desce e vai tomar alguma coisa num bar?