O GRAMPO
João Eichbaum
Grampo pra mim sempre foi coisa de mulher: um pedacinho de arame ondulado, que antigamente só existia preto, difícil de abrir e que, por isso mesmo, era usado para prender o cabelo das mulheres. Depois o grampo foi evoluindo, começou a aparecer em várias cores e até na pura cor do metal, uma coisa sem graça, pedaço de lata, bem maior que os primeiros.
Mas hoje, na era do Lula e do Gilmar Mendes, essa dupla que serve de tiro ao alvo para o povão, nos bares, nos ônibus, nos trens, nos aviões, nas rodoviárias, nos aeroportos, onde quer que existam duas pessoas, com opiniões formadas ou não, um dos dois ou ambos são objetivos de pedradas.
Pois é. O Gilmar Mendes se queixou do grampo. E não foi pro bispo. Foi pro Lula mesmo. E aí o Lula armou o maior barraco, mandou apear o pessoal da tal de ABIN. Ah, não sabe o que é? Se não sabe o que é, então você é desimportante, não atrai fofocas, não exige que alguém esteja colado na sua nuca ouvindo o que você está dizendo. A ABIN é a agência de bisbilhotices nacionais, que eles chamam de Agência Brasileira de Informações.
Pois essa ABIN andou se metendo na vida do Gilmar Mendes, escutando o que ele falava – mas mais ouvia do que falava – com um senador. O senador fazia uma petição de ouvidos, que o Gilmar Mendes deferia através de interjeições e adjetivos, tipo, “mas isso é grave”, e coisa e tal. Até que o diálogo telefônico saiu na imprensa. Pensa bem, é claro que o Gilmar Mendes ficou puto da cara. Ainda mais com os antecedentes que ele tem, esses de despachar com velocidade supersônica dois “habeas corpus”, num dia só, a favor de um banqueiro. Imaginem que perigo ronda o Gilmar Mendes!
Pois é assim, e o senhor Gilmar Mendes não sabia. Ele, como nunca foi juiz, não podia saber que “juiz só fala nos autos”, que juiz não despacha por telefone. Ele não sabia que o juiz natural, de carreira, discreto por natureza, ou até em razão dos inúmeros processos que o escrivão lhe põe sobre a mesa, não tem tempo para falar sobre seus processos através de telefone e tem tantos processos, que nem pode se lembrar do conteúdo de cada um deles. Então o juiz de carreira não tem medo de grampo nenhum, porque ele não se compromete ao falar no telefone.
E não só os juízes. Qualquer pessoa honesta, seja ela quem for, não tem medo de grampo. Só tem medo de grampo quem tem rabo, quem tem o que esconder debaixo do respectivo rabo. Só tem medo de grampo quem não pode dizer pra todo mundo, alto e bom som”minha vida é um livro aberto”, como o povinho diz por aí.
O cargo público não pode ter segredos. O homem público é o que o adjetivo quer dizer: um homem público. Se esse tal de grampo mexeu com tanta gente, gerou tanta indignação, é porque há coisas, na república, que o povo não pode saber. E isso é mau. Principalmente se o povo não pode saber o que se passa no Judiciário do senhor Gilmar Mendes.
terça-feira, 9 de setembro de 2008
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
COLUNA DO PAULO WAINBERG
CRÔNICAS AMOROSAS "AD INFINITUM"
SALMOS PAULIANOS
Paulo Wainberg
Você. Ou tu, tanto faz. Fico no você e no tu.
Você que habita meus pensamentos mais solertes, minhas emoções mais sórdidas, meu ambiente mais transgressor e, quem diria?, mais cafajeste.
Você que freqüenta meus sonhos mais eróticos, minhas fantasias mais obscenas, meus desejos mais primitivos de beijar tua boca, abraçar teus braços, apertar teu corpo contra o meu, de frente, de costas, para lá e para cá.
Você, que me lança olhares sorrateiros logo desviados e que, entre um brinquedo e outro, deixa no ar os limites do permitido e acena com desvarios proibidos e sugestões do que poderia ser.
Você que me seduz sem querer ou por querer.
Você que provoca e silencia, pergunta e não responde, diz e recua, você, tu que invades o momento infinito antes que o sono me conduza e que, nos sonhos, cede e recusa, oferece e nega, aparece e desaparece, qual uma promessa do que poderia ser ou do que poderia ter sido.
Tu que abraças um pouco a mais e deixa, lânguida, tua mão escorrer entre meus dedos, num alô ou num adeus.
Você que me flagra literário e não me reconhece pessoa.
Onde anda você? Onde estás?
Você que promete sem cumprir e... cumpre sem prometer, apenas para manter a ilusão e acelerar a fantasia?
Onde estás?
Talvez não saibas que sou um imenso e interminável coração, suscetível à paixão e à grandeza do amor despojado, do desejo furibundo, da contravenção afetiva, ó minha amada!
Temes, sei lá!, revelações, indiscrições e, porque é assim que é, a perda de posições conquistadas a muito custo, em nome do futuro, do vir a ser.
E acreditas que não sei como fazer para tranqüilizar tua alma inquieta, teus medos e inseguranças?
Ó amada minha, amada assim como és, nunca sofrerás por causa do meu amor porque ele é teu, para você e você será a rainha do meu castelo de areia, do meu palácio de biscoitos, recheados com leite condensado e sabores mis que te elevarão aos prazeres grandiosos, aos sorrisos gratos e devolverão você aos rituais cotidianos, mais rica e mais feliz.
Compensar tua admiração com a sensualidade furiosa que teu corpo exige é, ah minha amada, um desejo supremo a embalar meus dias, minhas noites e meus porres, nos melhores ou piores bares que minhas caminhadas encontram, aqui e ali, nessas ruas da cidade.
Talvez não saibas que entre uma obrigação e outra, entre um dever ou outro, sento em bancos de praça a imaginar-te, imaginar você em meus braços, adorada e quente, ansiosa e trêmula tanto quanto forem a suas emoções, infratoras de amores isentos, projetos vitais e virtuais anseios.
Ah você, amada minha, menina em alma de mulher, mulher em sorrisos de menina, sonhadora e iludida, não se iluda, criança, não atormente seu coração alem dos tormentos que ele pode suportar. Deixe-se conduzir, qual flor nas águas de um rio, ao encontro definitivo com o mar quando, agridocemente perfumada, perceberás a verdadeira natureza da paixão, sua grandiosa intensidade, paixão de dúvidas, de medos e dos mais sufocantes decibéis.
Você, que me lê e não me escuta, que me escuta e não me ouve, que me olha e não me vê.
Onde anda você?
Estou ensurdecido com o clamor do seu silêncio altivo como quem, de um dia para outro, adormece e não acorda.
Você já disse tanto sem falar, coisas que ouvi nos seus olhos, no seu sorriso, na cor de suas faces e a tudo escutei, do jeito que quis escutar.
Você que é meu derradeiro pensamento, antes de adormecer, meu primeiro pensamento ao acordar, você que desconheço e que tanto quero conhecer, não acha que é hora de se apresentar?
SALMOS PAULIANOS
Paulo Wainberg
Você. Ou tu, tanto faz. Fico no você e no tu.
Você que habita meus pensamentos mais solertes, minhas emoções mais sórdidas, meu ambiente mais transgressor e, quem diria?, mais cafajeste.
Você que freqüenta meus sonhos mais eróticos, minhas fantasias mais obscenas, meus desejos mais primitivos de beijar tua boca, abraçar teus braços, apertar teu corpo contra o meu, de frente, de costas, para lá e para cá.
Você, que me lança olhares sorrateiros logo desviados e que, entre um brinquedo e outro, deixa no ar os limites do permitido e acena com desvarios proibidos e sugestões do que poderia ser.
Você que me seduz sem querer ou por querer.
Você que provoca e silencia, pergunta e não responde, diz e recua, você, tu que invades o momento infinito antes que o sono me conduza e que, nos sonhos, cede e recusa, oferece e nega, aparece e desaparece, qual uma promessa do que poderia ser ou do que poderia ter sido.
Tu que abraças um pouco a mais e deixa, lânguida, tua mão escorrer entre meus dedos, num alô ou num adeus.
Você que me flagra literário e não me reconhece pessoa.
Onde anda você? Onde estás?
Você que promete sem cumprir e... cumpre sem prometer, apenas para manter a ilusão e acelerar a fantasia?
Onde estás?
Talvez não saibas que sou um imenso e interminável coração, suscetível à paixão e à grandeza do amor despojado, do desejo furibundo, da contravenção afetiva, ó minha amada!
Temes, sei lá!, revelações, indiscrições e, porque é assim que é, a perda de posições conquistadas a muito custo, em nome do futuro, do vir a ser.
E acreditas que não sei como fazer para tranqüilizar tua alma inquieta, teus medos e inseguranças?
Ó amada minha, amada assim como és, nunca sofrerás por causa do meu amor porque ele é teu, para você e você será a rainha do meu castelo de areia, do meu palácio de biscoitos, recheados com leite condensado e sabores mis que te elevarão aos prazeres grandiosos, aos sorrisos gratos e devolverão você aos rituais cotidianos, mais rica e mais feliz.
Compensar tua admiração com a sensualidade furiosa que teu corpo exige é, ah minha amada, um desejo supremo a embalar meus dias, minhas noites e meus porres, nos melhores ou piores bares que minhas caminhadas encontram, aqui e ali, nessas ruas da cidade.
Talvez não saibas que entre uma obrigação e outra, entre um dever ou outro, sento em bancos de praça a imaginar-te, imaginar você em meus braços, adorada e quente, ansiosa e trêmula tanto quanto forem a suas emoções, infratoras de amores isentos, projetos vitais e virtuais anseios.
Ah você, amada minha, menina em alma de mulher, mulher em sorrisos de menina, sonhadora e iludida, não se iluda, criança, não atormente seu coração alem dos tormentos que ele pode suportar. Deixe-se conduzir, qual flor nas águas de um rio, ao encontro definitivo com o mar quando, agridocemente perfumada, perceberás a verdadeira natureza da paixão, sua grandiosa intensidade, paixão de dúvidas, de medos e dos mais sufocantes decibéis.
Você, que me lê e não me escuta, que me escuta e não me ouve, que me olha e não me vê.
Onde anda você?
Estou ensurdecido com o clamor do seu silêncio altivo como quem, de um dia para outro, adormece e não acorda.
Você já disse tanto sem falar, coisas que ouvi nos seus olhos, no seu sorriso, na cor de suas faces e a tudo escutei, do jeito que quis escutar.
Você que é meu derradeiro pensamento, antes de adormecer, meu primeiro pensamento ao acordar, você que desconheço e que tanto quero conhecer, não acha que é hora de se apresentar?
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
PIEGUICES
A CATEDRAL DE SANTA MARIA
JOÃO EICHBAUM
No tempo em que não havia esse povo todo que se acotovela, à espera dos ônibus, nem existia também o vai-vem frenético do pessoal que anda à cata de produtos do Paraguai “made in China”, no camelódromo, a catedral dominava, com a inexplicável majestade do silêncio, as atenções de quem passava por ali, naquela parte da Avenida Rio Branco. A Avenida era a artéria que mais pulsava, no dia-a-dia da cidade, ligando a estação ferroviária à Praça Saldanha Marinho e à “primeira quadra”, o “ponto chique” do comércio, das meninas do colégio das freiras, que passavam com seus livros debaixo do braço, dos encontros movidos a suspiros, das rodas de cafezinho, onde se discutiam os sucessos e insucessos da dupla “Rio-Nal”.
A catedral ficava acima disso tudo e eram muito poucas as pessoas que, ao passarem na frente dela, deixavam de fazer o sinal da cruz. Era um templo que impunha sua presença, irradiando uma grandeza que se situava acima de seu sóbrio perfil arquitetônico. O repique de seus sinos, na hora do “angelus”, ao meio dia, nos dobres de finados, no tom festivo da missa das dez, dividia com o silvo das locomotivas os sons que a cidade mais conhecia.
Fruto da tenacidade e da liderança do padre Caetano Pagliuca, sacerdote palotino que, ainda jovem seminarista, deixou sua bela Itália e a família para evangelizar numa terra desconhecida, a catedral sempre foi referência na história de Santa Maria. Por suas naves e em sua abóbada passaram as mãos de outro italiano, Aldo Locatelli, que ali deixou marcada a melhor obra de que já se teve notícia nos domínios religiosos da cidade. Foram meses e meses de labor intenso, meticuloso e paciente, quando ele e os membros de sua equipe se entregaram àquela inspiração que rende emoções, até hoje, para quem se deixa arrastar pelas belezas da arte sacra.
Aos domingos, depois da missa das crianças, o ponto alto era a missa das dez, um acontecimento até mais social do que religioso, freqüentado pela elite da sociedade santamariense, os varões de terno e gravata, o público feminino exibindo o que de mais elegante ditava a moda. Paramentado com a capa de asperges, o “cura da sé”, Monsenhor Frederico Didonet, se dirigia do altar até a porta da catedral, borrifando com água benta o povo cabisbaixo, entregue à suntuosa força da liturgia (estrangulada, mais tarde, pelo Concílio Vaticano II), enquanto o Coral Santa Cecília, sob a batuta da professora Maria Martins entoava o solene “Asperges me”.
E aquele tom solene, quase apoteótico, marcava toda a missa, impregnava os circunstantes com um sentimento de que só é capaz a música dos grandes mestres e a voz dos grandes cantores, como o solo de João Isaia, cantando “Panis Angelicus”, de Cezar Frank.
Ainda mais emotivas, embaladas pelas melodias inesquecíveis que vinham pelas vozes do Coral Santa Cecília, eram as missas “do galo” A catedral então regorgitava de povo, ficava tomada até nos corredores. E o povo lá ficava, contrito, dominado pelo sentido do mistério, até o último acorde da “Noite Feliz”, interpretada num arranjo, certamente de autoria da professora Maria Martins, que incluía o “Gloria in excelsis”. Só então a multidão deixava a igreja, para inundar a Avenida Rio Branco, levando na alma e na voz a alegria incontida de mais um Natal.
Não sei que histórias constrói, hoje, essa catedral que outrora foi ponto de encontro do lírico e do religioso, do emocional e do místico, abrigo espiritual de uma comunidade que era feliz, enquanto vivia seus próprios valores, antes de ser desfigurada pela migração predatória.
(crônica publicada no jornal A Razão, de Santa Maria)
JOÃO EICHBAUM
No tempo em que não havia esse povo todo que se acotovela, à espera dos ônibus, nem existia também o vai-vem frenético do pessoal que anda à cata de produtos do Paraguai “made in China”, no camelódromo, a catedral dominava, com a inexplicável majestade do silêncio, as atenções de quem passava por ali, naquela parte da Avenida Rio Branco. A Avenida era a artéria que mais pulsava, no dia-a-dia da cidade, ligando a estação ferroviária à Praça Saldanha Marinho e à “primeira quadra”, o “ponto chique” do comércio, das meninas do colégio das freiras, que passavam com seus livros debaixo do braço, dos encontros movidos a suspiros, das rodas de cafezinho, onde se discutiam os sucessos e insucessos da dupla “Rio-Nal”.
A catedral ficava acima disso tudo e eram muito poucas as pessoas que, ao passarem na frente dela, deixavam de fazer o sinal da cruz. Era um templo que impunha sua presença, irradiando uma grandeza que se situava acima de seu sóbrio perfil arquitetônico. O repique de seus sinos, na hora do “angelus”, ao meio dia, nos dobres de finados, no tom festivo da missa das dez, dividia com o silvo das locomotivas os sons que a cidade mais conhecia.
Fruto da tenacidade e da liderança do padre Caetano Pagliuca, sacerdote palotino que, ainda jovem seminarista, deixou sua bela Itália e a família para evangelizar numa terra desconhecida, a catedral sempre foi referência na história de Santa Maria. Por suas naves e em sua abóbada passaram as mãos de outro italiano, Aldo Locatelli, que ali deixou marcada a melhor obra de que já se teve notícia nos domínios religiosos da cidade. Foram meses e meses de labor intenso, meticuloso e paciente, quando ele e os membros de sua equipe se entregaram àquela inspiração que rende emoções, até hoje, para quem se deixa arrastar pelas belezas da arte sacra.
Aos domingos, depois da missa das crianças, o ponto alto era a missa das dez, um acontecimento até mais social do que religioso, freqüentado pela elite da sociedade santamariense, os varões de terno e gravata, o público feminino exibindo o que de mais elegante ditava a moda. Paramentado com a capa de asperges, o “cura da sé”, Monsenhor Frederico Didonet, se dirigia do altar até a porta da catedral, borrifando com água benta o povo cabisbaixo, entregue à suntuosa força da liturgia (estrangulada, mais tarde, pelo Concílio Vaticano II), enquanto o Coral Santa Cecília, sob a batuta da professora Maria Martins entoava o solene “Asperges me”.
E aquele tom solene, quase apoteótico, marcava toda a missa, impregnava os circunstantes com um sentimento de que só é capaz a música dos grandes mestres e a voz dos grandes cantores, como o solo de João Isaia, cantando “Panis Angelicus”, de Cezar Frank.
Ainda mais emotivas, embaladas pelas melodias inesquecíveis que vinham pelas vozes do Coral Santa Cecília, eram as missas “do galo” A catedral então regorgitava de povo, ficava tomada até nos corredores. E o povo lá ficava, contrito, dominado pelo sentido do mistério, até o último acorde da “Noite Feliz”, interpretada num arranjo, certamente de autoria da professora Maria Martins, que incluía o “Gloria in excelsis”. Só então a multidão deixava a igreja, para inundar a Avenida Rio Branco, levando na alma e na voz a alegria incontida de mais um Natal.
Não sei que histórias constrói, hoje, essa catedral que outrora foi ponto de encontro do lírico e do religioso, do emocional e do místico, abrigo espiritual de uma comunidade que era feliz, enquanto vivia seus próprios valores, antes de ser desfigurada pela migração predatória.
(crônica publicada no jornal A Razão, de Santa Maria)
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
COLUNA DO PAULO WAINBERG
TEM DIAS QUE EU NÃO AGUENTO
Paulo Wainberg
Às vezes me pergunto: terei ódio aos políticos? E, com sábia ponderação me respondo: Não.
E acho que é uma boa resposta porque, sem políticos estaremos perdidos definitivamente e não apenas quase perdidos, como andamos atualmente.
Antes dos políticos a humanidade era explicitamente selvagem. Depois deles, graças ao bom capataz da grande planície sideral, a humanidade é implicitamente selvagem.
Nas cavernas o Homem queria e pegava, não pedia licença e não dizia obrigado. Depois, quando o primeiro prefeito assumiu, só ele podia pegar sem pedir licença e sem dizer obrigado.
Para não ser enfadonho, salto alguns milênios e chego aos, digamos, dias atuais.
Graças aos políticos somos civilizados o que, em termos políticos, significa que podemos reclamar quando eles pegam sem pedir licença e sem dizer obrigado, mesmo que da nossa reclamação pouca coisa resulte.
As guerras ficaram mais organizadas graças aos políticos.
A corrupção, graças aos políticos, tem ética.
E graças aos políticos se pode prometer qualquer coisa e, depois da eleição, esquecer, mudar de idéia e fazer exatamente o contrário.
Se não fossem os políticos, qual seria o poder das igrejas? Como é que um time de futebol seria administrado? O que seria das garotas de programa e dos cabarés de luxo?
Como é que uma primeira dama faria o rancho do palácio, se não fossem os políticos?
De que modo um país invadiria o outro, exterminar-se-iam raças e povos, trucidar-se-iam populações inteiras, dilacerar-se-iam tribos, cometer-se-iam atentados terroristas e tomar-se-ia sopa de verduras em albergues, se não fossem os políticos?
Faço um enorme esforço de abstração e não consigo imaginar todas essas coisas sem o sentido profundo do diálogo, do conchavo e do ajuste de interesses pessoais que os políticos introduziram, qual supositório gigantesco, no ânus da civilização.
Não, não posso odiar políticos, suas mútuas reverências, seus nobres gestos, suas grandezas de posição e seu inesgotável, interminável e insaciável desejo de promover o bem comum.
O conceito de bem comum é político e não filosófico e muito menos moral, como pretendem alguns reacionários das idéias, esses tolinhos.
Bem comum, como as palavras parecem que estão dizendo, é ganhar popularidade e votos para a próxima eleição, distribuindo pequenas vantagens ao comum, isto é, ao vulgo, ou melhor, o povão e grandes vantagens aos parceiros de profissão, políticos, tais como cargos rendosos em organizações políticas destinadas a distribuir o bem comum. Ou empregos milionários aos amigos íntimos dos políticos que, por não serem políticos, felizmente estão aí para contrabalançar com o comum, o vulgo, ou melhor, o povão e suas eternas queixas, reclamações, exigências e passeatas de protesto.
Uns chatos, palavra de honra, querendo que os pobres políticos resolvam tudo por eles, até mesmo na hora do licor, do espumante ou, dependendo da hora, do uísque.
Se há coisa que os políticos detestam é o povão, a massa desconhecida, sem nome nem cara que, entra dia, sai dia, se move de um lado para o outro, nas cidades, nos campos e na estrada, sempre se queixando, sempre se queixando.
O coitado de um Senador mal tem tempo de distribuir as tarefas inadiáveis para os seus vinte e cinco assessores, ou então ficar horas discursando num teatro vazio, ou ainda confraternizar com outro pobre Senador que, homem de honra impoluta, acabou de ser absolvido num inquérito parlamentar.
Falando nisso, onde anda o senador Collor? E o Renan Calheiros, esse injustiçado? O que é feito dele, homem que com extraordinário denodo ultrapassou as mazelas absurdas que o povão, esse chato, lhe impôs só por causa de um casinho extra-conjugal e de uma pensão – coisa pouca – que uma empreiteira, por pura simpatia pessoal, pagava por ele. Sem falar nos bois que lhe foram absurdamente atribuídos, com chifres e sem bolas, sem nota fiscal nem relógio ponto? Cadê? Por que ninguém mais fala em Renan Calheiros? Continua ainda proferindo sábias palavras nos corredores e anfiteatros da Egrégia Câmara Alta? Collor, sabe-se, foi estudar inglês em Miami porque, pobre homem, adora ver filme americano sem legenda. Alguém pode me dizer qual foi a última revelação feita pelo Clodovil, Clô para os íntimos, nobre deputado federal? E outros, e outros...
Pois é, e tem gente que reclama que falta dinheiro para o Presidente presidir esse ignaro rebanho humano, chato e inconveniente, só porque todo o ano os deputados e senadores tem que gastar três bilhões e seiscentos mil reais, uma merreca perto do dinheirão que falta para a Saúde.
O povão simplesmente se recusa a deixar o homem trabalhar. Tem gente por aí reclamando da nova CPMF que, agora sim, vai resolver esse problema quinhentista do país, a Saúde.
Felizmente nem tudo está perdido e Roberto Dinamite explodiu o Eurico Miranda da presidência do Vasco e exigiu que o Romário devolva a camisa onze ao time, ora onde já se viu?
Finalmente alguém toma uma atitude neste País!
Por aqui, na terrinha, o(a) Governador(a) ganha sete mil por mês e estão achando ruim passar para dezessete. Para que um(a) governador(a) precisa tanto dinheiro se um brigadiano pode viver com seiscentos e uma professora com mil e pouco, se é que ganha isso?
Não. Decididamente não tenho ódio de políticos. Tenho ódio é do povão, dessa gente chata e ingrata, que só reclama e nunca agradece tudo o que os políticos fazem por eles.
Não adianta, sempre foi assim, ninguém respeita ninguém e querem jogar a hierarquia no lixo.
Onde é que já se viu coisa igual?
Onde?
É fácil meu amigo basta abrir um olho que você verá tudo isso estampado na sua frente, a qualquer hora do dia e da noite, como se fosse uma bofetada permanente, estalando sem parar na sua cara.
É, tem dias que eu não agüento, juro pelas barbas do Toulouse, meu maltês de estimação.
Paulo Wainberg
Às vezes me pergunto: terei ódio aos políticos? E, com sábia ponderação me respondo: Não.
E acho que é uma boa resposta porque, sem políticos estaremos perdidos definitivamente e não apenas quase perdidos, como andamos atualmente.
Antes dos políticos a humanidade era explicitamente selvagem. Depois deles, graças ao bom capataz da grande planície sideral, a humanidade é implicitamente selvagem.
Nas cavernas o Homem queria e pegava, não pedia licença e não dizia obrigado. Depois, quando o primeiro prefeito assumiu, só ele podia pegar sem pedir licença e sem dizer obrigado.
Para não ser enfadonho, salto alguns milênios e chego aos, digamos, dias atuais.
Graças aos políticos somos civilizados o que, em termos políticos, significa que podemos reclamar quando eles pegam sem pedir licença e sem dizer obrigado, mesmo que da nossa reclamação pouca coisa resulte.
As guerras ficaram mais organizadas graças aos políticos.
A corrupção, graças aos políticos, tem ética.
E graças aos políticos se pode prometer qualquer coisa e, depois da eleição, esquecer, mudar de idéia e fazer exatamente o contrário.
Se não fossem os políticos, qual seria o poder das igrejas? Como é que um time de futebol seria administrado? O que seria das garotas de programa e dos cabarés de luxo?
Como é que uma primeira dama faria o rancho do palácio, se não fossem os políticos?
De que modo um país invadiria o outro, exterminar-se-iam raças e povos, trucidar-se-iam populações inteiras, dilacerar-se-iam tribos, cometer-se-iam atentados terroristas e tomar-se-ia sopa de verduras em albergues, se não fossem os políticos?
Faço um enorme esforço de abstração e não consigo imaginar todas essas coisas sem o sentido profundo do diálogo, do conchavo e do ajuste de interesses pessoais que os políticos introduziram, qual supositório gigantesco, no ânus da civilização.
Não, não posso odiar políticos, suas mútuas reverências, seus nobres gestos, suas grandezas de posição e seu inesgotável, interminável e insaciável desejo de promover o bem comum.
O conceito de bem comum é político e não filosófico e muito menos moral, como pretendem alguns reacionários das idéias, esses tolinhos.
Bem comum, como as palavras parecem que estão dizendo, é ganhar popularidade e votos para a próxima eleição, distribuindo pequenas vantagens ao comum, isto é, ao vulgo, ou melhor, o povão e grandes vantagens aos parceiros de profissão, políticos, tais como cargos rendosos em organizações políticas destinadas a distribuir o bem comum. Ou empregos milionários aos amigos íntimos dos políticos que, por não serem políticos, felizmente estão aí para contrabalançar com o comum, o vulgo, ou melhor, o povão e suas eternas queixas, reclamações, exigências e passeatas de protesto.
Uns chatos, palavra de honra, querendo que os pobres políticos resolvam tudo por eles, até mesmo na hora do licor, do espumante ou, dependendo da hora, do uísque.
Se há coisa que os políticos detestam é o povão, a massa desconhecida, sem nome nem cara que, entra dia, sai dia, se move de um lado para o outro, nas cidades, nos campos e na estrada, sempre se queixando, sempre se queixando.
O coitado de um Senador mal tem tempo de distribuir as tarefas inadiáveis para os seus vinte e cinco assessores, ou então ficar horas discursando num teatro vazio, ou ainda confraternizar com outro pobre Senador que, homem de honra impoluta, acabou de ser absolvido num inquérito parlamentar.
Falando nisso, onde anda o senador Collor? E o Renan Calheiros, esse injustiçado? O que é feito dele, homem que com extraordinário denodo ultrapassou as mazelas absurdas que o povão, esse chato, lhe impôs só por causa de um casinho extra-conjugal e de uma pensão – coisa pouca – que uma empreiteira, por pura simpatia pessoal, pagava por ele. Sem falar nos bois que lhe foram absurdamente atribuídos, com chifres e sem bolas, sem nota fiscal nem relógio ponto? Cadê? Por que ninguém mais fala em Renan Calheiros? Continua ainda proferindo sábias palavras nos corredores e anfiteatros da Egrégia Câmara Alta? Collor, sabe-se, foi estudar inglês em Miami porque, pobre homem, adora ver filme americano sem legenda. Alguém pode me dizer qual foi a última revelação feita pelo Clodovil, Clô para os íntimos, nobre deputado federal? E outros, e outros...
Pois é, e tem gente que reclama que falta dinheiro para o Presidente presidir esse ignaro rebanho humano, chato e inconveniente, só porque todo o ano os deputados e senadores tem que gastar três bilhões e seiscentos mil reais, uma merreca perto do dinheirão que falta para a Saúde.
O povão simplesmente se recusa a deixar o homem trabalhar. Tem gente por aí reclamando da nova CPMF que, agora sim, vai resolver esse problema quinhentista do país, a Saúde.
Felizmente nem tudo está perdido e Roberto Dinamite explodiu o Eurico Miranda da presidência do Vasco e exigiu que o Romário devolva a camisa onze ao time, ora onde já se viu?
Finalmente alguém toma uma atitude neste País!
Por aqui, na terrinha, o(a) Governador(a) ganha sete mil por mês e estão achando ruim passar para dezessete. Para que um(a) governador(a) precisa tanto dinheiro se um brigadiano pode viver com seiscentos e uma professora com mil e pouco, se é que ganha isso?
Não. Decididamente não tenho ódio de políticos. Tenho ódio é do povão, dessa gente chata e ingrata, que só reclama e nunca agradece tudo o que os políticos fazem por eles.
Não adianta, sempre foi assim, ninguém respeita ninguém e querem jogar a hierarquia no lixo.
Onde é que já se viu coisa igual?
Onde?
É fácil meu amigo basta abrir um olho que você verá tudo isso estampado na sua frente, a qualquer hora do dia e da noite, como se fosse uma bofetada permanente, estalando sem parar na sua cara.
É, tem dias que eu não agüento, juro pelas barbas do Toulouse, meu maltês de estimação.
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
VARIAÇÕES EM TORNO DO TEMA FIADASPUTAS
CADEIA PARA OS POBRES,
JUSTIÇA PARA OS RICOS
João Eichbaum
A Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça que, de agora em diante pode ser denominada a “turma das seguradoras”, decidiu que a família de motorista embriagado, morto em decorrência de acidente de trânsito, não terá direito a seguro de vida.
Sim, é isso mesmo que vocês estão lendo, não é invenção deste escriba, os jornais de todo o país noticiaram a façanha desses senhores vestidos de toga que são pagos com o dinheiro do nosso bolso para fazer justiça – e não a fazem.
Em nome de que interesses assim decidiram, não sei e nem quero saber. O que se quer é justiça e a isso não se pode chamar justiça. Isso é benefício, benefício em favor do ramo mais rico do mundo, que são as seguradoras.
Então se imagine uma família, digamos, composta de quatro crianças, filhas de um motorista de caminhão e de uma mãe que não trabalha. Para se livrar do stress da direção, o motorista resolve tomar dois cálices de vinho e morre, em conseqüência de acidente de trânsito provocado por um filhinho de papai, drogado, que anda a 180 quilômetros por hora.
A família desse motorista vai ficar na miséria, porque o filhinho de papai, comprando testemunhas, “convencendo” policiais rodoviários e “provando” perante o juiz que o motorista do caminhão, por estar embriagado, é que foi o culpado pelo acidente, isto é, o filhinho de papai, por ser rico, vai ser absolvido.
E quem vai lucrar, com tudo isso?
A companhia seguradora, em primeiro lugar, que embolsou, durante anos a fio o prêmio do seguro, sem precisar desembolsar um centavo sequer como contraprestação. Em segundo lugar, bem, em segundo lugar, ponham vocês a imaginação a funcionar: eu é que não sei quem vai ganhar alguma gorgeta.
Isso não é nem justiça, nem interpretação científica do direito. Tal decisão vai na contramão de qualquer idéia do direito constitucional do consumidor, sem falar que desrespeita princípios gerais do direito que ordena: pacta sunt servanda. O seguro se opera em decorrência de um contrato e o contrato é que deve prevalecer. A notícia dos jornais não diz que a “turma” mandou cumprir o contrato, mas sim que arredou o direito ao seguro de vida.
Ainda que um leonino contrato de seguro previsse uma cláusula idiota como essa, o Tribunal tinha obrigação de zelar pela Justiça, ou seja decidir em favor dos beneficiários do seguro, porque, não tendo culpa alguma, esses pagarão pelo que não fizeram, enquanto o Judiciário estará botando dinheiro no cofre das seguradoras.
Uma coisa é certa: os beneficiários não estavam em Brasília, fazendo sustentação oral, mas as seguradoras estavam. Essa é que é a verdade no Brasil: pobre não tem vez nos Tribunais Superiores, formados por apadrinhados, contemplados em razão do sexo e da cor, por gente que faz carreira porque tem fama de jurista, mas não carrega na consciência o dever de fazer justiça, salvo para os ricos. E que venha me desmentir o senhor Gilmar Mendes.
JUSTIÇA PARA OS RICOS
João Eichbaum
A Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça que, de agora em diante pode ser denominada a “turma das seguradoras”, decidiu que a família de motorista embriagado, morto em decorrência de acidente de trânsito, não terá direito a seguro de vida.
Sim, é isso mesmo que vocês estão lendo, não é invenção deste escriba, os jornais de todo o país noticiaram a façanha desses senhores vestidos de toga que são pagos com o dinheiro do nosso bolso para fazer justiça – e não a fazem.
Em nome de que interesses assim decidiram, não sei e nem quero saber. O que se quer é justiça e a isso não se pode chamar justiça. Isso é benefício, benefício em favor do ramo mais rico do mundo, que são as seguradoras.
Então se imagine uma família, digamos, composta de quatro crianças, filhas de um motorista de caminhão e de uma mãe que não trabalha. Para se livrar do stress da direção, o motorista resolve tomar dois cálices de vinho e morre, em conseqüência de acidente de trânsito provocado por um filhinho de papai, drogado, que anda a 180 quilômetros por hora.
A família desse motorista vai ficar na miséria, porque o filhinho de papai, comprando testemunhas, “convencendo” policiais rodoviários e “provando” perante o juiz que o motorista do caminhão, por estar embriagado, é que foi o culpado pelo acidente, isto é, o filhinho de papai, por ser rico, vai ser absolvido.
E quem vai lucrar, com tudo isso?
A companhia seguradora, em primeiro lugar, que embolsou, durante anos a fio o prêmio do seguro, sem precisar desembolsar um centavo sequer como contraprestação. Em segundo lugar, bem, em segundo lugar, ponham vocês a imaginação a funcionar: eu é que não sei quem vai ganhar alguma gorgeta.
Isso não é nem justiça, nem interpretação científica do direito. Tal decisão vai na contramão de qualquer idéia do direito constitucional do consumidor, sem falar que desrespeita princípios gerais do direito que ordena: pacta sunt servanda. O seguro se opera em decorrência de um contrato e o contrato é que deve prevalecer. A notícia dos jornais não diz que a “turma” mandou cumprir o contrato, mas sim que arredou o direito ao seguro de vida.
Ainda que um leonino contrato de seguro previsse uma cláusula idiota como essa, o Tribunal tinha obrigação de zelar pela Justiça, ou seja decidir em favor dos beneficiários do seguro, porque, não tendo culpa alguma, esses pagarão pelo que não fizeram, enquanto o Judiciário estará botando dinheiro no cofre das seguradoras.
Uma coisa é certa: os beneficiários não estavam em Brasília, fazendo sustentação oral, mas as seguradoras estavam. Essa é que é a verdade no Brasil: pobre não tem vez nos Tribunais Superiores, formados por apadrinhados, contemplados em razão do sexo e da cor, por gente que faz carreira porque tem fama de jurista, mas não carrega na consciência o dever de fazer justiça, salvo para os ricos. E que venha me desmentir o senhor Gilmar Mendes.
terça-feira, 2 de setembro de 2008
COLUNA DO PAULO WAINBERG
AMOR PERFEITO
Paulo Wainberg
Uma versão:
Narciso era tão belo que se achava um Apolo ou Dionísio. Julgava-se um deus. E como tal desprezava o constante assédio masculino a que era submetido, manifestando tal desprezo sem dó nem piedade.
Amantis, jovem efebo perdido de paixão, tanto incomodou que, para ver-se livre dele Narciso ofereceu-lhe a espada como presente.
Amantis postou-se à porta da casa de Narciso e orou à deusa Nêmesis que fizesse Narciso conhecer a dor de uma paixão não correspondida. Em seguida, com a espada que ganhara de presente, suicidou-se por amor.
Poucos dias depois Narciso apaixona-se perdidamente por um belo rapaz, sem perceber que se tratava de sua própria imagem refletida na água. Todas as suas tentativas de conquistá-lo fracassaram e termina por matar-se com a própria espada, repetindo assim o incontido desespero de Amantis.
Outra:
Narciso, filho do deus-rio Cefiso com a ninfa Liríope, recebeu do adivinho Tirésias o vaticínio de uma longa vida, desde que jamais olhasse para sua própria imagem. Certo dia, às margens do lago Eco, inadvertidamente Narciso observou-se efletido nas águas cristalinas. Tomou-se de paixão por si mesmo e, desesperado, definhou até à morte.
Mas uma:
Ovídio, poeta latino que influenciou de Shakespeare à Keats, em sua obra Metamorfoses, nos dá a versão poética e dramática da lenda de Narciso: A ninfa Eco, seduzida pela beleza sobrenatural de Narciso e por ele desprezada, definha e morre, exalando um débil gemido final. A deusa Nêmesis, indignadíssima com a insensibilidade do jovem, sua arrogância e inútil altaneirice, condena o rapaz a apaixonar-se pela própria imagem, no Lago Eco. Soterrado por tamanho amor impossível, Narciso deita-se à beira do lago e, enquanto se embeleza, definha e definha. As ninfas do lago constroem uma pira e, quando vão buscar o corpo encontram em seu lugar apenas uma flor: o narciso.
Existem outras versões mas, em todas elas prevalece a idéia central: a vaidade exacerbada e o amor exagerado por si próprio.
Entre as superstições gregas da antiguidade, uma das mais poderosas era a de que olhar para si mesmo dava azar. Possivelmente dessa ridícula idéia tenha surgido a lenda de Narciso.
E, com toda certeza, é por isso que o Conde Drácula não se reflete no espelho. E nenhum outro vampiro conhecido e que seja digno desse nome.
Agora o mais impressionante: sabe qual é a palavra que deriva de Narciso? Não? então se prepare, aí vai: Narcótico.
Exatamente, nobres senadores, narcótico deriva de Narciso. O entorpecimento e a insensibilidade derivam de Narciso. A maconha, cocaína, crack, heroína, ópio, marijuana, anestesia local, anestesia geral, tudo isso deriva de Narciso.
Às vezes eu penso cada coisa! Por exemplo: o que seria de Freud sem a mitologia grega? Pois não é que o homem foi lá na antiguidade para diagnosticar em seus estudos sobre a histeria o “amor pelo semelhante” como explicação paras as inclinações homossexuais, na época tidas como patológicas.
Mas adiante Freud concebe o denominado erotismo anárquico, a fase infantil primitiva em que as zonas erógenas se satisfazem independentemente umas das outras como, por exemplo, a criança chupar o dedo. Mais adiante, com o crescimento, há uma organização erótica, chamada de erotismo lógico em que o prazer é coordenado e usufruído pelo conjunto erógeno do indivíduo.
A fase patológica do narcisismo freudiano corresponde ao desejo de retornar ao estado de ideal de ser o único amado, incondicional e constantemente, com obliteração absoluta, na mente, das relações parentais explícitas.
Mais ou menos isso.
Voltando ao assunto... qual era mesmo? Ah, sim, os narcóticos.
O consumidor de drogas não busca exatamente isso, o entorpecimento de sua capacidade lógica de raciocínio para abandonar-se totalmente às emoções primitivas, irresponsáveis e inconseqüentes?
Em outras palavras, sob o efeito da droga o indivíduo pode sentir-se em estado ideal de perfeição e “paz”, amando-se a si mesmo mais do que a qualquer coisa, indiferente ao amor alheio, um soberano e lindo deus que de nada precisa além do próprio amor ao amor-próprio.
Paz absoluta, o retorno ao estado primitivo ideal, uterino, auto-justificável, liberdade irrestrita para nada fazer nem ter que fazer.
Insensível ao seu redor, o drogado despreza os que por ele são, simbolicamente falando, apaixonados: pais, irmãos, amigos, filhos, família. Para não ser incomodado nem retirado de sua magnífica auto-suficiência livra-se dos chatos assediadores escondendo-se ou brindando-os com pequenas doses de lucidez aparente e promessas falsas, não se importando que eles se matem e definhem, também simbolicamente falando.
O castigo para o drogado é semelhante à metáfora de Narciso: definhar, sucumbir, desaparecer, não às margens de um lindo e cristalino lago mas nas águas sujas e fétidas das sarjetas, seus restos apodrecendo em túmulos sobre os quais serão depositadas flores, possivelmente alguns narcisos por algum tempo e, pouco tempo depois, nenhuma flor e, olhe lá, no dia de finados, uma visita rápida.
O drogado não é drogado por escolha, assim como Narciso não escolheu ser Narciso.
É preciso compreendê-lo, eu acho. Entender os vieses psíquicos de sua mente. As carências químicas de seu organismo, seus mecanismos de defesa fragilizados e entender que não é menos do que outros, inferior a ninguém, apenas diferente, é isso, diferente.
Todos temos um Narciso dentro de nós. Saber disto talvez seja o primeiro passo para... sei lá, para olhar para os outros, olhar para fora de si mesmo e aceitar o amor alheio.
Por que estou falando disso? Não sei, hoje acordei assim.
Paulo Wainberg
Uma versão:
Narciso era tão belo que se achava um Apolo ou Dionísio. Julgava-se um deus. E como tal desprezava o constante assédio masculino a que era submetido, manifestando tal desprezo sem dó nem piedade.
Amantis, jovem efebo perdido de paixão, tanto incomodou que, para ver-se livre dele Narciso ofereceu-lhe a espada como presente.
Amantis postou-se à porta da casa de Narciso e orou à deusa Nêmesis que fizesse Narciso conhecer a dor de uma paixão não correspondida. Em seguida, com a espada que ganhara de presente, suicidou-se por amor.
Poucos dias depois Narciso apaixona-se perdidamente por um belo rapaz, sem perceber que se tratava de sua própria imagem refletida na água. Todas as suas tentativas de conquistá-lo fracassaram e termina por matar-se com a própria espada, repetindo assim o incontido desespero de Amantis.
Outra:
Narciso, filho do deus-rio Cefiso com a ninfa Liríope, recebeu do adivinho Tirésias o vaticínio de uma longa vida, desde que jamais olhasse para sua própria imagem. Certo dia, às margens do lago Eco, inadvertidamente Narciso observou-se efletido nas águas cristalinas. Tomou-se de paixão por si mesmo e, desesperado, definhou até à morte.
Mas uma:
Ovídio, poeta latino que influenciou de Shakespeare à Keats, em sua obra Metamorfoses, nos dá a versão poética e dramática da lenda de Narciso: A ninfa Eco, seduzida pela beleza sobrenatural de Narciso e por ele desprezada, definha e morre, exalando um débil gemido final. A deusa Nêmesis, indignadíssima com a insensibilidade do jovem, sua arrogância e inútil altaneirice, condena o rapaz a apaixonar-se pela própria imagem, no Lago Eco. Soterrado por tamanho amor impossível, Narciso deita-se à beira do lago e, enquanto se embeleza, definha e definha. As ninfas do lago constroem uma pira e, quando vão buscar o corpo encontram em seu lugar apenas uma flor: o narciso.
Existem outras versões mas, em todas elas prevalece a idéia central: a vaidade exacerbada e o amor exagerado por si próprio.
Entre as superstições gregas da antiguidade, uma das mais poderosas era a de que olhar para si mesmo dava azar. Possivelmente dessa ridícula idéia tenha surgido a lenda de Narciso.
E, com toda certeza, é por isso que o Conde Drácula não se reflete no espelho. E nenhum outro vampiro conhecido e que seja digno desse nome.
Agora o mais impressionante: sabe qual é a palavra que deriva de Narciso? Não? então se prepare, aí vai: Narcótico.
Exatamente, nobres senadores, narcótico deriva de Narciso. O entorpecimento e a insensibilidade derivam de Narciso. A maconha, cocaína, crack, heroína, ópio, marijuana, anestesia local, anestesia geral, tudo isso deriva de Narciso.
Às vezes eu penso cada coisa! Por exemplo: o que seria de Freud sem a mitologia grega? Pois não é que o homem foi lá na antiguidade para diagnosticar em seus estudos sobre a histeria o “amor pelo semelhante” como explicação paras as inclinações homossexuais, na época tidas como patológicas.
Mas adiante Freud concebe o denominado erotismo anárquico, a fase infantil primitiva em que as zonas erógenas se satisfazem independentemente umas das outras como, por exemplo, a criança chupar o dedo. Mais adiante, com o crescimento, há uma organização erótica, chamada de erotismo lógico em que o prazer é coordenado e usufruído pelo conjunto erógeno do indivíduo.
A fase patológica do narcisismo freudiano corresponde ao desejo de retornar ao estado de ideal de ser o único amado, incondicional e constantemente, com obliteração absoluta, na mente, das relações parentais explícitas.
Mais ou menos isso.
Voltando ao assunto... qual era mesmo? Ah, sim, os narcóticos.
O consumidor de drogas não busca exatamente isso, o entorpecimento de sua capacidade lógica de raciocínio para abandonar-se totalmente às emoções primitivas, irresponsáveis e inconseqüentes?
Em outras palavras, sob o efeito da droga o indivíduo pode sentir-se em estado ideal de perfeição e “paz”, amando-se a si mesmo mais do que a qualquer coisa, indiferente ao amor alheio, um soberano e lindo deus que de nada precisa além do próprio amor ao amor-próprio.
Paz absoluta, o retorno ao estado primitivo ideal, uterino, auto-justificável, liberdade irrestrita para nada fazer nem ter que fazer.
Insensível ao seu redor, o drogado despreza os que por ele são, simbolicamente falando, apaixonados: pais, irmãos, amigos, filhos, família. Para não ser incomodado nem retirado de sua magnífica auto-suficiência livra-se dos chatos assediadores escondendo-se ou brindando-os com pequenas doses de lucidez aparente e promessas falsas, não se importando que eles se matem e definhem, também simbolicamente falando.
O castigo para o drogado é semelhante à metáfora de Narciso: definhar, sucumbir, desaparecer, não às margens de um lindo e cristalino lago mas nas águas sujas e fétidas das sarjetas, seus restos apodrecendo em túmulos sobre os quais serão depositadas flores, possivelmente alguns narcisos por algum tempo e, pouco tempo depois, nenhuma flor e, olhe lá, no dia de finados, uma visita rápida.
O drogado não é drogado por escolha, assim como Narciso não escolheu ser Narciso.
É preciso compreendê-lo, eu acho. Entender os vieses psíquicos de sua mente. As carências químicas de seu organismo, seus mecanismos de defesa fragilizados e entender que não é menos do que outros, inferior a ninguém, apenas diferente, é isso, diferente.
Todos temos um Narciso dentro de nós. Saber disto talvez seja o primeiro passo para... sei lá, para olhar para os outros, olhar para fora de si mesmo e aceitar o amor alheio.
Por que estou falando disso? Não sei, hoje acordei assim.
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
VARIAÇÕES EM TORNO DO TEMA FIADASPUTAS
OS CHAMADOS HUMANOS
João Eichbaum
A humanidadde, alguma vez na vida, esteve bem? A humanidade, isto é, o mundo inteiro, alguma vez na vida, foi plenamente feliz e satisfeito com o que é e o que tem?
Por que existe entre os homens essa dolorosa divisão de pobres e ricos, de felizes e infelizes, de cabeças boas e cabeças ocas?
Algum “Deus” ou deus encheria o mundo com criaturas assim divididas? Por que alguns estão muito bem e a maioria muito mal?
Terá a humanidade uma administração “divina”?
Olhe, meu amigo, se você pensa que o mundo é administrado por uma divindade, você vai ter que me explicar as razões dessas diferenças. Será um descuido dessa “divindade”? Bem, se for descuido, essa administração não pode ser divina. Deus nenhum se distrai, nem faz coisas sem pensar. A distração não é um componente da perfeição e todo o “Deus” deveria ser perfeito, assim como lhe atribuem os qualificativos de onisciente e onipresente.
Mas, se não é por distração é por intenção que existem tais diferenças. E nesse caso também não se pode admitir “divindade” alguma como regente desse mundo. Deus nenhum iria criar, voluntariamente e gratuitamente, tais distinções, fazendo uns homens pobres e outros ricos, uns felizes e outros infelizes, só para se divertir, para se esbaldar à vontade em cima da miséria. Deus nenhum teria critérios plausíveis para dar tudo para alguns poucos, e nada para a grande maioria.
Essa é a única maneira de afastar toda e qualquer divindade da administração desse mundo de, cheio de guerras e ódios, cheio de líderes aproveitadores, cheio de tiranos físicos e morais.
Então, meu amigo, convença-se: nenhum de nós é escrínio de dignidade, coisa nenhuma. Todos nós, os que constituímos a chamada humanidade, tivemos a sorte (alguns, outros o azar) de ter evoluído um pouco mais do que os chimpanzés e os bonobos, dos quais herdamos, contudo, todos os defeitos e qualidades, que se resumem em dois pontos: ambição pelo poder e sexualidade. A palavra “´poder” aqui deve ser entendida no seu mais amplo sentido. Nem todos gostaríamos de ser políticos, mas todos gostaríamos de ter o “poder” econômico, ou seja, a disposição de todos os meios que realizassem nossos desejos de felicidade.
A diferença entre Bill Gates e um índio internado no fundo da Amazônia, que desconhece a chamada civilização, a diferença entre um Lula que ficou rico em cima do poder e um pobre operário que vai morrer com a miserável pensãozinha do INSS não pode ser atribuída a “Deus” nenhum. Só a nossa ascendência explica isso.
João Eichbaum
A humanidadde, alguma vez na vida, esteve bem? A humanidade, isto é, o mundo inteiro, alguma vez na vida, foi plenamente feliz e satisfeito com o que é e o que tem?
Por que existe entre os homens essa dolorosa divisão de pobres e ricos, de felizes e infelizes, de cabeças boas e cabeças ocas?
Algum “Deus” ou deus encheria o mundo com criaturas assim divididas? Por que alguns estão muito bem e a maioria muito mal?
Terá a humanidade uma administração “divina”?
Olhe, meu amigo, se você pensa que o mundo é administrado por uma divindade, você vai ter que me explicar as razões dessas diferenças. Será um descuido dessa “divindade”? Bem, se for descuido, essa administração não pode ser divina. Deus nenhum se distrai, nem faz coisas sem pensar. A distração não é um componente da perfeição e todo o “Deus” deveria ser perfeito, assim como lhe atribuem os qualificativos de onisciente e onipresente.
Mas, se não é por distração é por intenção que existem tais diferenças. E nesse caso também não se pode admitir “divindade” alguma como regente desse mundo. Deus nenhum iria criar, voluntariamente e gratuitamente, tais distinções, fazendo uns homens pobres e outros ricos, uns felizes e outros infelizes, só para se divertir, para se esbaldar à vontade em cima da miséria. Deus nenhum teria critérios plausíveis para dar tudo para alguns poucos, e nada para a grande maioria.
Essa é a única maneira de afastar toda e qualquer divindade da administração desse mundo de, cheio de guerras e ódios, cheio de líderes aproveitadores, cheio de tiranos físicos e morais.
Então, meu amigo, convença-se: nenhum de nós é escrínio de dignidade, coisa nenhuma. Todos nós, os que constituímos a chamada humanidade, tivemos a sorte (alguns, outros o azar) de ter evoluído um pouco mais do que os chimpanzés e os bonobos, dos quais herdamos, contudo, todos os defeitos e qualidades, que se resumem em dois pontos: ambição pelo poder e sexualidade. A palavra “´poder” aqui deve ser entendida no seu mais amplo sentido. Nem todos gostaríamos de ser políticos, mas todos gostaríamos de ter o “poder” econômico, ou seja, a disposição de todos os meios que realizassem nossos desejos de felicidade.
A diferença entre Bill Gates e um índio internado no fundo da Amazônia, que desconhece a chamada civilização, a diferença entre um Lula que ficou rico em cima do poder e um pobre operário que vai morrer com a miserável pensãozinha do INSS não pode ser atribuída a “Deus” nenhum. Só a nossa ascendência explica isso.
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