RELAÇÕES RELATIVAS
Paulo Wainberg
Minha relação com Charles Aznavour sempre foi fria e distante. Ele nunca fez questão de mudar isso nem eu.
Entre nós as coisas estão bem definidas: ele lá e eu aqui.
Desconfio do motivo de tal distanciamento e indiferença mútuos, embora ele nunca tenha me feito de mal e eu, com certeza, jamais lhe fiz algum favor. Inclusive nunca comprei um disco dele.
Teria ele, por acaso, descoberto isso? Saberia ele, através de seus controles, fichários, agentes e marqueteiros que nunca contribui com um centavo para a sua fortuna? Por causa disso mantém essa atitude pouco comunicativa?
Certas coisas eu simplesmente não compreendo. Elas simplesmente acontecem como se alguma imposição extra-sensorial determinasse o rumo dos acontecimentos.
Sou dado a certas manias inexplicáveis, subjetivismos circunstanciais que, não é que me incomodem, entende?, mas funcionam negativamente nos âmbitos das minhas prioridades.
Nunca, por exemplo, assisti Tangos e Tragédias. Um espetáculo vintenário, digno dos maiores louvores, elogios e recomendações e eu nunca fui. Todos os anos ele volta ao cartaz, todos os anos eu digo que agora eu vou e na hora, não vou.
Também não assisto, como se fosse um princípio ético, as séries Lost e Law and Order, na TV a cabo.
Por que faço isso? Palavra de honra que não sei.
Mil outras coisas que não faço simplesmente, como se fosse uma birra, uma questão de princípio ou um imperativo de foro íntimo, vez em quando me perturbam, algo assim como se eu estivesse sendo preconceituoso, coisa da qual me orgulho de não ser.
Jamais fui assistir às sessões contínuas no cine Apolo, especializado em filmes pornográficos.
Não ando de lotação e ônibus nem que a vaca tussa, vá pro brejo e se achegue ao boi atolado.
Simplesmente me recuso a ler o segundo parágrafo de Ulisses de Joyce e há muito desisti de ler o primeiro.
Apesar de achar que ela é um fenômeno da televisão, passo pelo programa da Hebe Camargo como um carro de Fórmula Um passa pela frente de um poste.
Passear com meu cachorro, nem pensar. Ele que se contente com o quintal lá de casa.
Não assisti a nenhum filme da série O Senhor dos Anéis e basta anunciar uma Maratona que eu vou saindo de perto.
Jogos de basquete, por Meu Pé de Laranja Lima! Que, aliás, nunca li.
Porém nem tudo é negativo, nas minhas manias. Não perco um jogo do Internacional, desde que passe na televisão. Freqüento qualquer restaurante, assisti a todos os filmes do Jacques Tati, do Chaplin, li a obra completa de Balzac, Madame Bovary seria meu livro de cabeceira caso eu tivesse uma cabeceira na moderna decoração do meu quarto.
Ambigüidades tais que, do fundo do meu coração, não consigo explicar.
Ainda ontem estava conversando com o Toneco, um grande músico que faz assim nas cordas do violão e você não quer mais nada na vida a não ser ouvir, lembrando que nos meus tempos antigos não perdia baile em que o conjunto fosse o do Norberto Baldauf. O detalhe, hoje impressionante para mim é que a “crooner” dele era nada mais nada menos do que Elis Regina e que, seu eu soubesse que ela seria “a” Elis Regina, teria aproveitado muito mais. Ela estava bem ali à mão, uma garotinha da minha idade, poderia ter sido um grande amigo dela.
Nunca gostei do Charles, esta é a grande verdade. Acho que ele é um tangueiro frustado, não gosto da cara dele nem da voz esganiçada que, aos meus ouvidos, sempre soou como um arranhão. E o repertório? Aqui Del Rei, meus sais, meus sais!
Meus ídolos franceses da época eram Gilbert Bécaud cantando Et Maintenent e Nilo Ventura, o ator mais humanamente verdadeiro que já vi atuar. Ele tinha e mostrava os dedos amarelados de cigarro durante o filme, sabe lá o que é isso?
Charles? Eu passava batido.
Não me acusem de heresia ó vocês, peixinhos do homem. Nem vocês que nunca gostaram tanto dele assim mas estão aí a venerá-lo, só porque ele resolveu cantar por aqui.
Já expliquei anteriormente, em outra crônica, que sendo impossível discutir política, religião, mulher, futebol, cinema, supositórios, ópera, colchões, marca de desodorante, papel de parede, vodka pura ou com gelo, absorventes femininos e pastel de siri, a única coisa que resta para discutir é Gosto.
E Gosto, como se sabe, não se discute.
Acredito que esteja aí a verdadeira explicação para o distanciamento que Charles faz questão de manter, fingindo absoluta falta de interesse na minha pessoa.
Sofro com a ingratidão de algumas personalidades do mundo das artes a quem tanto admiro e que mantém idêntica indiferença. Até entendo que circunstâncias da vida, desencontros ocasionais, frações de segundos a nos separar, impedem que elas saibam o que perdem ao não me procurar. Mas sofro bastante.
Catherine Zeta-Jones, Renné Zweitzeger, Xuxa, a própria Brigitte Bardot, nos tempos áureos e a Sharon Stone de dez anos atrás são exemplos elucidativos de tamanho sofrimento.
Enfim, nem tudo é o que parece e o que parece nem sempre é tudo, seja lá o que isso queira dizer.
Eu não gostava do Charles quando ele era moço, não é agora que vou gostar, quando ele já está com mais de oitenta anos. No meu exército, antiguidade não é posto, duela a quien duela.
Dei-lhe, com a elegância de um barão francês do século XVI, um tapa de luvas e não fui assistir ao show dele aqui em Porto Alegre.
Espero que ele tenha aprendido a lição.
terça-feira, 1 de julho de 2008
segunda-feira, 30 de junho de 2008
COLUNA DO MÁRIO SIMON
UM SEMINARISTA EM APUROS
Acho que não se fazem mais seminaristas como antigamente. Hoje, na verdade, os seminaristas nem mais parecem que são filhotinhos de padres. Não os reconhecemos nas ruas, não se distinguem de outros jovens, nem mais andam recolhidos em seminários vetustos, espalhados pelos pátios daquele imenso casarão caminhando pra cá e pra lá, braços cruzados, tendo na mão direita um rosário por onde vão desfiando ave-marias e ladainhas intermináveis. Não se ouve mais o sino que batia chamando-os para o recolhimento do estudo em vastas salas. Foram-se, também, os corais dos seminários, aquelas vozes que de tão afinadas eram capazes de erguer um Beethoven do túmulo. Com oito vozes, as missas solenes eram entoadas em latim. E os seminaristas aprendiam a tocar harmônio, um instrumento que de tão obsoleto nem sei se ainda existe. Mas um bom padre deveria saber tocar harmônio. E decoravam as partituras. E matavam horas e horas, e junto se matavam no estafante pedalar o fole do instrumento.
E as sotainas negras que os seminaristas usavam para assistir à missa, diariamente. Eram batinas feitas a facão, umas parecendo mais uma camisola de pano preto batendo na canela em vez de cobrir o candidato a padre até o calcanhar. As batinas não sabiam que os meninos seminaristas cresciam rapidamente, como todo o adolescente que se preze.
E havia as mulheres, o demônio anda de saia para os seminaristas. Ah, nem vou falar do estrago que as mulheres fizeram, fazem e farão nos seminaristas. Uma mulher, que caísse do céu no meio de um bando de seminaristas, e que na queda o vento lhe erguesse a saia um palminho acima do joelho, era o mesmo que encher de filas intermináveis o confessionário nos próximos trinta dias. E todos com o mesmo pecado. Não, não vou falar das mulheres e os seminaristas. Eu não agüentaria minhas próprias lembranças! Vejam por quê!
Do seminário, fui aconselhado a retirar-me depois de oito anos de puro zelo pela minha vocação. E não foi por culpa de mulher, não. Foi por culpa de um homem que me delatou. Que eu namorava fulana, que eu beijara sicrana, que eu, que eu, tudo eu. Não era verdade, mas quem acredita em seminarista? Defenestraram-me, e a igreja perdeu um padre, e por culpa disso muitas almas se foram para o porão do inferno. Me aguardem que eu vou tirar vocês daí!
Em casa, poucos dias depois do triste episódio, triste e assustado como um gato perdido, ocorreu meu primeiro contado íntimo com uma mulher. Acontece que dei com os dentes para toda a família que eu sabia aplicar injeção, já que morávamos no Comandaí, lá ao lado de uma hoje famosa ponte construída por Luiz Carlos Prestes, e não havia pronto-socorro por perto. Comandaí fica ainda muito longe de tudo. Pois não é que aparece uma vizinha com sua filha, dezessete anos, alta, morena, linda de fazer até os cachorros calarem-se, que dirá um pobre seminarista indefeso. A mãe dela trazia uma ampola de injeção para que eu aplicasse na moça. O que ela tinha de doente? Nunca vou saber.
Eu disse que era melhor que ela fosse para Santo Ângelo, para Giruá, cidades vizinhas, para um lugar qualquer que eu estava de férias, que eu havia saído, que eu estava com indisposição para aplicar injeções. Desculpem, eu não disse nada: eu pensei. Minha boca devia estar aberta, mas não saía nada, talvez uma baba inútil. Mas eu só caí mesmo no chão quando a moça, choramingando, disse que só deixava dar a injeção se fosse na bunda. Usou dessa palavra mesmo, inimaginável na boca de um seminarista, muito menos na de uma donzela inefável, diante da qual eu podia rezar, e não dar uma injeção na bunda.
Quando me ajuntaram, eu já estava com o aparelho para aplicar a maldita injeção prontinho, fervido numa latinha, agulha fervida junto, e os olhares em torno que diziam para que eu levantasse a saia da menina e fizesse o serviço de enfermeiro. Pedi algodão, pedi álcool, pedi ar que já me faltava, pedi espaço, e pediria muito mais coisas se pudesse para não ter que ver o que um seminarista nunca viu, nem deve ver: uma bunda de moça.
Então, idéia brilhante assaltou-me. Disse que dava para dar a injeção na perna, um pouco acima do joelho, que era a mesma coisa. E enquanto a moçoila erguia a saia um palmo acima do joelho, embora aquele palmo de coxa me fez penar três meses, apliquei ali a injeção e saí correndo. Soube, mais tarde, que moça mancou dias com uma dor muito grande naquela perna. Mas que havia melhorado, graças a Deus e a umas benzeduras que a aconselharam fazer, por vias das dúvidas. E por via das dúvidas, evitei a moça por anos, certo de que um contato a mais com ela me levaria a perdição para sempre.
Acho que não se fazem mais seminaristas como antigamente. Hoje, na verdade, os seminaristas nem mais parecem que são filhotinhos de padres. Não os reconhecemos nas ruas, não se distinguem de outros jovens, nem mais andam recolhidos em seminários vetustos, espalhados pelos pátios daquele imenso casarão caminhando pra cá e pra lá, braços cruzados, tendo na mão direita um rosário por onde vão desfiando ave-marias e ladainhas intermináveis. Não se ouve mais o sino que batia chamando-os para o recolhimento do estudo em vastas salas. Foram-se, também, os corais dos seminários, aquelas vozes que de tão afinadas eram capazes de erguer um Beethoven do túmulo. Com oito vozes, as missas solenes eram entoadas em latim. E os seminaristas aprendiam a tocar harmônio, um instrumento que de tão obsoleto nem sei se ainda existe. Mas um bom padre deveria saber tocar harmônio. E decoravam as partituras. E matavam horas e horas, e junto se matavam no estafante pedalar o fole do instrumento.
E as sotainas negras que os seminaristas usavam para assistir à missa, diariamente. Eram batinas feitas a facão, umas parecendo mais uma camisola de pano preto batendo na canela em vez de cobrir o candidato a padre até o calcanhar. As batinas não sabiam que os meninos seminaristas cresciam rapidamente, como todo o adolescente que se preze.
E havia as mulheres, o demônio anda de saia para os seminaristas. Ah, nem vou falar do estrago que as mulheres fizeram, fazem e farão nos seminaristas. Uma mulher, que caísse do céu no meio de um bando de seminaristas, e que na queda o vento lhe erguesse a saia um palminho acima do joelho, era o mesmo que encher de filas intermináveis o confessionário nos próximos trinta dias. E todos com o mesmo pecado. Não, não vou falar das mulheres e os seminaristas. Eu não agüentaria minhas próprias lembranças! Vejam por quê!
Do seminário, fui aconselhado a retirar-me depois de oito anos de puro zelo pela minha vocação. E não foi por culpa de mulher, não. Foi por culpa de um homem que me delatou. Que eu namorava fulana, que eu beijara sicrana, que eu, que eu, tudo eu. Não era verdade, mas quem acredita em seminarista? Defenestraram-me, e a igreja perdeu um padre, e por culpa disso muitas almas se foram para o porão do inferno. Me aguardem que eu vou tirar vocês daí!
Em casa, poucos dias depois do triste episódio, triste e assustado como um gato perdido, ocorreu meu primeiro contado íntimo com uma mulher. Acontece que dei com os dentes para toda a família que eu sabia aplicar injeção, já que morávamos no Comandaí, lá ao lado de uma hoje famosa ponte construída por Luiz Carlos Prestes, e não havia pronto-socorro por perto. Comandaí fica ainda muito longe de tudo. Pois não é que aparece uma vizinha com sua filha, dezessete anos, alta, morena, linda de fazer até os cachorros calarem-se, que dirá um pobre seminarista indefeso. A mãe dela trazia uma ampola de injeção para que eu aplicasse na moça. O que ela tinha de doente? Nunca vou saber.
Eu disse que era melhor que ela fosse para Santo Ângelo, para Giruá, cidades vizinhas, para um lugar qualquer que eu estava de férias, que eu havia saído, que eu estava com indisposição para aplicar injeções. Desculpem, eu não disse nada: eu pensei. Minha boca devia estar aberta, mas não saía nada, talvez uma baba inútil. Mas eu só caí mesmo no chão quando a moça, choramingando, disse que só deixava dar a injeção se fosse na bunda. Usou dessa palavra mesmo, inimaginável na boca de um seminarista, muito menos na de uma donzela inefável, diante da qual eu podia rezar, e não dar uma injeção na bunda.
Quando me ajuntaram, eu já estava com o aparelho para aplicar a maldita injeção prontinho, fervido numa latinha, agulha fervida junto, e os olhares em torno que diziam para que eu levantasse a saia da menina e fizesse o serviço de enfermeiro. Pedi algodão, pedi álcool, pedi ar que já me faltava, pedi espaço, e pediria muito mais coisas se pudesse para não ter que ver o que um seminarista nunca viu, nem deve ver: uma bunda de moça.
Então, idéia brilhante assaltou-me. Disse que dava para dar a injeção na perna, um pouco acima do joelho, que era a mesma coisa. E enquanto a moçoila erguia a saia um palmo acima do joelho, embora aquele palmo de coxa me fez penar três meses, apliquei ali a injeção e saí correndo. Soube, mais tarde, que moça mancou dias com uma dor muito grande naquela perna. Mas que havia melhorado, graças a Deus e a umas benzeduras que a aconselharam fazer, por vias das dúvidas. E por via das dúvidas, evitei a moça por anos, certo de que um contato a mais com ela me levaria a perdição para sempre.
domingo, 29 de junho de 2008
VARIAÇÕES EM TORNO DO TEMA FIADASPUTAS
DINHEIRO DE BÊBADO TAMBÉM NÃO TEM DONO
João Eichbaum
Não foi por acordo prévio nem por qualquer outro tipo de combinação. O que nos une neste “blog”, debaixo do estilo “ridendo castigat mores”, é a força da atração dos semelhantes. A verve do Paulo Wainberg e o humor insinuante do Mário Simon (esse mais “ridendo” do que “castigando”) se unem às diatribes deste escriba para mostrar, aos que nos lêem, que a única coisa que nos resta é gozar com a cara dos que nos enganam. A nós, que não temos poder, só nos resta rir dos poderosos (esse é, no fundo, o sentido da frase latina “ridendo castigat mores”).
Pois um leitor, ou blogueiro, criticou a crônica do Paulo Wainberg, intitulada “Se comer bombom não dirija”. Pelo jeito, o mencionado leitor não entendeu o espírito da coisa: “como indignação de um jornalista que representa a classe A, está bem redigida a crônica. Mas como exame imparcial e desprovido de preconceitos, está falha. Por vários motivos, mistura coisas, confunde em vez de esclarecer”.
Ou seja, encheu a bola do Paulo para, logo depois, enfiar um prego nela.
Sem procuração do Paulo, mas conhecendo suas idéias, seu humor ferino, seu estilo “ridendo castigat mores”, tomo-lhe as dores e respondo.
Não é a lei que arranca a nossa indignação, mas a moral (eles a têm?) dos que a pariram. Falo da chamada “lei seca” ou “tolerância zero”, que está botando toda a polícia atrás de bêbados – como eu.
Claro, minha gente, meus amigos de copo e de cruz, (como diria o Chico Buarque) é muito mais fácil pegar bêbado, do quer pegar bandido, traficante, político corrupto, pessoal do MST, da Vila Campesina e de outras organizações nem tanto criminosas.
Para combater o crime, é preciso dinheiro. Mas, não há dinheiro para a segurança, como não o há para a educação, para o sistema carcerário, para o sistema viário (entregue às concessionárias), para a saúde. Então, peguemos o dinheiro dos bêbados.
Sim. Mas o que fazem com os nossos impostos? O que fazem com esse absinto que nos devora três meses de trabalho por ano, e é subtraído dos alimentos, da escola e da saúde de nossos filhos? Ah, esse vai para as mordomias dos presidentes e ex-presidentes da república, (sim, com letra minúscula) cassados ou não, equipados com seguranças, automóveis, e sustentados por pensões vitalícias. Vai para o mensalão, para os cartões corporativos, para as viagens e diárias de deputados e senadores, para os dirigentes dos sindicatos (há quantos anos o Lula não trabalhava, mesmo, antes de assumir a presidência da república?), para o MST que degola brigadianos, para a Vila Campesina, que destrói lavouras, para o “bolsa-eleição” que incentiva a preguiça, para os comunistas de antigamente e que hoje, graças a indenizações milionárias, se tornaram capitalistas – coitadinhos, seqüestradores, ex-assaltantes de bancos, parasitas da esquerda que só sabe berrar, enquanto a caravana passa.
Não somos contra a lei, gente. Somos contra essa cambada, que agora pega também o dinheiro dos bêbados, para sustentar a bandalheira nacional. Somos contra o engodo, contra a hipocrisia (há energúmenos anti-álcool que se consideram mais deuses do que J. Cristo, o qual não só tomava o seu vinhozinho, como providenciava para que não faltasse o precioso líquido nas festas), contra a fonte legislativa imoral: já que pardais, caetanos e radares estão mais do que manjados, é preciso criar outro poço de dinheiro, além do imposto aquele, chamado de “contribuição” para a saúde.
Ah, sim, somos contra, e não queremos sustentar mais CPIs, essas comédias sem graça que, ao cabo e ao fim, depois de eleitoreiras aparições na TV, concluem: é, o dinheiro sumiu.
João Eichbaum
Não foi por acordo prévio nem por qualquer outro tipo de combinação. O que nos une neste “blog”, debaixo do estilo “ridendo castigat mores”, é a força da atração dos semelhantes. A verve do Paulo Wainberg e o humor insinuante do Mário Simon (esse mais “ridendo” do que “castigando”) se unem às diatribes deste escriba para mostrar, aos que nos lêem, que a única coisa que nos resta é gozar com a cara dos que nos enganam. A nós, que não temos poder, só nos resta rir dos poderosos (esse é, no fundo, o sentido da frase latina “ridendo castigat mores”).
Pois um leitor, ou blogueiro, criticou a crônica do Paulo Wainberg, intitulada “Se comer bombom não dirija”. Pelo jeito, o mencionado leitor não entendeu o espírito da coisa: “como indignação de um jornalista que representa a classe A, está bem redigida a crônica. Mas como exame imparcial e desprovido de preconceitos, está falha. Por vários motivos, mistura coisas, confunde em vez de esclarecer”.
Ou seja, encheu a bola do Paulo para, logo depois, enfiar um prego nela.
Sem procuração do Paulo, mas conhecendo suas idéias, seu humor ferino, seu estilo “ridendo castigat mores”, tomo-lhe as dores e respondo.
Não é a lei que arranca a nossa indignação, mas a moral (eles a têm?) dos que a pariram. Falo da chamada “lei seca” ou “tolerância zero”, que está botando toda a polícia atrás de bêbados – como eu.
Claro, minha gente, meus amigos de copo e de cruz, (como diria o Chico Buarque) é muito mais fácil pegar bêbado, do quer pegar bandido, traficante, político corrupto, pessoal do MST, da Vila Campesina e de outras organizações nem tanto criminosas.
Para combater o crime, é preciso dinheiro. Mas, não há dinheiro para a segurança, como não o há para a educação, para o sistema carcerário, para o sistema viário (entregue às concessionárias), para a saúde. Então, peguemos o dinheiro dos bêbados.
Sim. Mas o que fazem com os nossos impostos? O que fazem com esse absinto que nos devora três meses de trabalho por ano, e é subtraído dos alimentos, da escola e da saúde de nossos filhos? Ah, esse vai para as mordomias dos presidentes e ex-presidentes da república, (sim, com letra minúscula) cassados ou não, equipados com seguranças, automóveis, e sustentados por pensões vitalícias. Vai para o mensalão, para os cartões corporativos, para as viagens e diárias de deputados e senadores, para os dirigentes dos sindicatos (há quantos anos o Lula não trabalhava, mesmo, antes de assumir a presidência da república?), para o MST que degola brigadianos, para a Vila Campesina, que destrói lavouras, para o “bolsa-eleição” que incentiva a preguiça, para os comunistas de antigamente e que hoje, graças a indenizações milionárias, se tornaram capitalistas – coitadinhos, seqüestradores, ex-assaltantes de bancos, parasitas da esquerda que só sabe berrar, enquanto a caravana passa.
Não somos contra a lei, gente. Somos contra essa cambada, que agora pega também o dinheiro dos bêbados, para sustentar a bandalheira nacional. Somos contra o engodo, contra a hipocrisia (há energúmenos anti-álcool que se consideram mais deuses do que J. Cristo, o qual não só tomava o seu vinhozinho, como providenciava para que não faltasse o precioso líquido nas festas), contra a fonte legislativa imoral: já que pardais, caetanos e radares estão mais do que manjados, é preciso criar outro poço de dinheiro, além do imposto aquele, chamado de “contribuição” para a saúde.
Ah, sim, somos contra, e não queremos sustentar mais CPIs, essas comédias sem graça que, ao cabo e ao fim, depois de eleitoreiras aparições na TV, concluem: é, o dinheiro sumiu.
quinta-feira, 26 de junho de 2008
COLUNA DO PAULO WAINBERG
SE COMER BOMBOM, NÃO DIRIJA
Paulo Wainberg.
Exatamente, minha cara, não ouse comer um bombom recheado com licor na festa de aniversário do filho de uma amiga se, depois, for dirigindo para casa. Você estará cometendo um crime que, além de lhe custar quase mil reais, porá você na cadeia e não adianta chorar, pedir perdão e jurar que nunca mais.
A desfaçatez legislativa no Brasil só é menor do que os cerca de três bilhões e seiscentos milhões de reais por ano que nos custam senadores e deputados federais, isto apenas no “oficial”.
Tolerância zero não é isto que esta lei absurda que acaba de entrar em vigor significa. Muito pelo contrário. O crime consiste em dirigir embriagado o que não é a mesma coisa que dirigir após ingerir bebida alcoólica.
Porém nossos congressistas, devidamente sancionados por nosso Presidente, resolveram inverter o mando de campo, mudando a regra no meio do jogo: bebeu um xarope e dirigiu, se ferrou! Enquanto isso os corruptos contumazes, mensaleiros, propineiros, armadores e integrantes de esquemas, charlatães e mentirosos, gozam dos sagrados direitos de ampla defesa, espaços gigantescos nos cenários apropriados, auto-louvação e louvação alheia, desafios impetuosos e silêncios arrogantes para, no fim dos tempos, saírem de mãos limpas e caras lavadas, sem uma única multinha que seja, nem mesmo para pagar o tempo desperdiçado.
E, como de hábito, esquemas devem estar sendo armados para aproveitar essa verba extra que a nova lei disponibilizou e que, dentro de três a quatro anos a Polícia Federal vai descobrir, juntamente com o Ministério Público, gerando dezenas de CPIs “éticas” e processos judiciais postergáveis.
Em nome da transparência.
Naquilo que o Brasil precisa realmente de tolerância zero, temos tolerância máxima. Naquilo que o rigor da lei deveria desabar com toneladas de indignação sobre os delinqüentes juramentados aplicam-se os prazos processuais, os recursos, as instâncias e, novamente no fim dos tempos, a prescrição e a impunidade.
Não sou apólogo da bebida, muito pelo contrário. Acho que quem dirige embriagado deve ser severamente multado e preso. Automóvel mata muito, mas não sei se a maioria dos acidentes é causada por motoristas embriagados. Acho até que não. Aliás, se considerarmos a quantidade de carros que circula no país durante um dia, associada às condições das nossas estradas e à falta de planejamento de nossas cidades, o número de acidentes, estatisticamente falando, é ínfimo. Não sei se já fizeram essa conta mas assim, à olho nu, já é possível esta conclusão. Acontece que os jornais, as rádios e as TVs enfatizam cada acidente fatal – e fazem muito bem – porque a morte no trânsito é extremamente chocante, fútil e inútil. Morrer em acidente é a interrupção inglória e sem propósito de vidas em andamento. Pior do que isto é morrer com uma bala perdida de um tiroteio alheio.
De leis bombásticas e inócuas este país está cheio e nós, o povo, estamos chegando no limite de nossa tolerância.
Três bilhões e seiscentos milhões por ano, entre salários e benefícios! Quanto nos custa um discurso de seis horas no Senado vazio, com dois membros presentes em troca de um jantar? Quanto nos retornou, desse custo?
É o que você deve se perguntar, minha cara senhora, meu prezado amigo, quando sentir o doce gosto de chocolate derretendo em sua boca e perceber, tomado de pavor, que junto com ele vem um licorzinho posto ali só para complicar a sua vida.
Se tossir, não tome xarope, se tomar xarope não dirija e nunca, repito, nunca coma panquecas de maçã flambadas porque elas são flambadas sabe no que? No conhaque, demônio, no conhaque!
O que eu pergunto é: quanto falta para que nós, o povo, atinjamos a tolerância zero?
Paulo Wainberg.
Exatamente, minha cara, não ouse comer um bombom recheado com licor na festa de aniversário do filho de uma amiga se, depois, for dirigindo para casa. Você estará cometendo um crime que, além de lhe custar quase mil reais, porá você na cadeia e não adianta chorar, pedir perdão e jurar que nunca mais.
A desfaçatez legislativa no Brasil só é menor do que os cerca de três bilhões e seiscentos milhões de reais por ano que nos custam senadores e deputados federais, isto apenas no “oficial”.
Tolerância zero não é isto que esta lei absurda que acaba de entrar em vigor significa. Muito pelo contrário. O crime consiste em dirigir embriagado o que não é a mesma coisa que dirigir após ingerir bebida alcoólica.
Porém nossos congressistas, devidamente sancionados por nosso Presidente, resolveram inverter o mando de campo, mudando a regra no meio do jogo: bebeu um xarope e dirigiu, se ferrou! Enquanto isso os corruptos contumazes, mensaleiros, propineiros, armadores e integrantes de esquemas, charlatães e mentirosos, gozam dos sagrados direitos de ampla defesa, espaços gigantescos nos cenários apropriados, auto-louvação e louvação alheia, desafios impetuosos e silêncios arrogantes para, no fim dos tempos, saírem de mãos limpas e caras lavadas, sem uma única multinha que seja, nem mesmo para pagar o tempo desperdiçado.
E, como de hábito, esquemas devem estar sendo armados para aproveitar essa verba extra que a nova lei disponibilizou e que, dentro de três a quatro anos a Polícia Federal vai descobrir, juntamente com o Ministério Público, gerando dezenas de CPIs “éticas” e processos judiciais postergáveis.
Em nome da transparência.
Naquilo que o Brasil precisa realmente de tolerância zero, temos tolerância máxima. Naquilo que o rigor da lei deveria desabar com toneladas de indignação sobre os delinqüentes juramentados aplicam-se os prazos processuais, os recursos, as instâncias e, novamente no fim dos tempos, a prescrição e a impunidade.
Não sou apólogo da bebida, muito pelo contrário. Acho que quem dirige embriagado deve ser severamente multado e preso. Automóvel mata muito, mas não sei se a maioria dos acidentes é causada por motoristas embriagados. Acho até que não. Aliás, se considerarmos a quantidade de carros que circula no país durante um dia, associada às condições das nossas estradas e à falta de planejamento de nossas cidades, o número de acidentes, estatisticamente falando, é ínfimo. Não sei se já fizeram essa conta mas assim, à olho nu, já é possível esta conclusão. Acontece que os jornais, as rádios e as TVs enfatizam cada acidente fatal – e fazem muito bem – porque a morte no trânsito é extremamente chocante, fútil e inútil. Morrer em acidente é a interrupção inglória e sem propósito de vidas em andamento. Pior do que isto é morrer com uma bala perdida de um tiroteio alheio.
De leis bombásticas e inócuas este país está cheio e nós, o povo, estamos chegando no limite de nossa tolerância.
Três bilhões e seiscentos milhões por ano, entre salários e benefícios! Quanto nos custa um discurso de seis horas no Senado vazio, com dois membros presentes em troca de um jantar? Quanto nos retornou, desse custo?
É o que você deve se perguntar, minha cara senhora, meu prezado amigo, quando sentir o doce gosto de chocolate derretendo em sua boca e perceber, tomado de pavor, que junto com ele vem um licorzinho posto ali só para complicar a sua vida.
Se tossir, não tome xarope, se tomar xarope não dirija e nunca, repito, nunca coma panquecas de maçã flambadas porque elas são flambadas sabe no que? No conhaque, demônio, no conhaque!
O que eu pergunto é: quanto falta para que nós, o povo, atinjamos a tolerância zero?
quarta-feira, 25 de junho de 2008
COLUNA DO MÁRIOSIMON
MISS BISTURI
Crônica de Mário Simon
Ela não gosta. Acha que Miss Bisturi não lhe cabe, nem por brincadeira. Isso de já ter feito 18 plásticas para adaptar seu perfil ao perfil de uma Miss Brasil não significa que precisou do bisturi em todas. Essa aqui, olha, nem dá para ver de tão pequena. Essa outra aqui na bochecha era uma pintinha de nadica. Tenho outras aqui quase na nádega, não dá para mostrar, né!
E ela sabe direitinho onde foram feitas as incisões. Conta-as, mostrando com o dedo onde estão espalhadas pelo corpo. Dá a impressão que está benzendo com o sinal da cruz toda aquela massa de carne esculpida, tantos foram os locais onde permitiu que se fizessem melhoras. Como se fosse uma escultura inacabada e, ela, o artista de si mesma, que vai dizendo alonga aqui, retira ali, raspe acolá... Olha, essa barriga da perna esquerda está pouco afunilada. Precisa retirar uns centímetros da canela. Ai, meu pescoço, pareço uma girafa! Corte um pouco da parte de cima. Recauchute meu bumbum, mas não mexa na cintura. Essa minha coluna está pouco curvada no meio deixando meu bumbum chato. Arrebite o bumbum com enchimento de silicone, ou tire duas ou três vértebras para criar a curvatura necessária para arrebitar o bumbum.
Mas quando passou pelo Miss Brasil e anteviu o Miss Universo, as coisas ficaram ainda mais sensíveis. A visão de si mesma, agora tridimensional, exigiu correções mais específicas, detalhes imperceptíveis para a maioria dos míseros mortais que só conhecem as paroquianas. Então descobriu que um braço era mais longo que o outro. Pouco, menos de três milímetros, mas o suficiente para desequilibrar o perfil. O mesmo problema descobriu na distância entre o nariz e a íris, centro dos olhos. Pouco também, um milímetro, um defeito que ela supunha poder deixá-la levemente estrábica. E havia a questão do tornozelo esquerdo, um defeito congênito que o fazia mais largo que o direito. Muito pouco, dois milímetros e meio, mas que, vistos de trás, dava a impressão de que ela pesava mais de um lado. Nenhuma estátua grega tinha um tornozelo maior do que o outro. Ah, o omoplata esquerdo que era mais longo e deixava a cabeça fora do centro. Isso era um drama terrível! Cabeça fora do centro só um pouquinho, meio milímetro, mas que a deixava louca só em pensar que algum jurado das arábias percebesse e fosse desclassificada por menos de um milímetro no omoplata! Terrível! O Brasil perder um título desses só por que tinha a cabeça fora de centro?
A tudo corrigiu esse fenômeno de beleza greco-moderna. Não saiu exatamente uma Vênus de Milo, mas quase . Na verdade, saiu à feição de uma mulher turbinada, melhor do que imaginava, conclusão a que chegou pela reação do vasto público que se foi formando em torno da escultura. Polêmica! Ela, particularmente, só tinha problema com o espelho, que continuava a lhe mostrar o avesso de sua cara e o inverso de sua atitude: se melhorava o corte da silhueta, não mudava o jeito de ser e sentir o mundo. Havia ali no espelho duas pessoas, agora. Ela mesma e o projeto pronto de si mesma. Mas isso não a abalou. Em algum lugar ela encontraria um cirurgião plástico que uniria outra vez ela com ela mesma.
Crônica de Mário Simon
Ela não gosta. Acha que Miss Bisturi não lhe cabe, nem por brincadeira. Isso de já ter feito 18 plásticas para adaptar seu perfil ao perfil de uma Miss Brasil não significa que precisou do bisturi em todas. Essa aqui, olha, nem dá para ver de tão pequena. Essa outra aqui na bochecha era uma pintinha de nadica. Tenho outras aqui quase na nádega, não dá para mostrar, né!
E ela sabe direitinho onde foram feitas as incisões. Conta-as, mostrando com o dedo onde estão espalhadas pelo corpo. Dá a impressão que está benzendo com o sinal da cruz toda aquela massa de carne esculpida, tantos foram os locais onde permitiu que se fizessem melhoras. Como se fosse uma escultura inacabada e, ela, o artista de si mesma, que vai dizendo alonga aqui, retira ali, raspe acolá... Olha, essa barriga da perna esquerda está pouco afunilada. Precisa retirar uns centímetros da canela. Ai, meu pescoço, pareço uma girafa! Corte um pouco da parte de cima. Recauchute meu bumbum, mas não mexa na cintura. Essa minha coluna está pouco curvada no meio deixando meu bumbum chato. Arrebite o bumbum com enchimento de silicone, ou tire duas ou três vértebras para criar a curvatura necessária para arrebitar o bumbum.
Mas quando passou pelo Miss Brasil e anteviu o Miss Universo, as coisas ficaram ainda mais sensíveis. A visão de si mesma, agora tridimensional, exigiu correções mais específicas, detalhes imperceptíveis para a maioria dos míseros mortais que só conhecem as paroquianas. Então descobriu que um braço era mais longo que o outro. Pouco, menos de três milímetros, mas o suficiente para desequilibrar o perfil. O mesmo problema descobriu na distância entre o nariz e a íris, centro dos olhos. Pouco também, um milímetro, um defeito que ela supunha poder deixá-la levemente estrábica. E havia a questão do tornozelo esquerdo, um defeito congênito que o fazia mais largo que o direito. Muito pouco, dois milímetros e meio, mas que, vistos de trás, dava a impressão de que ela pesava mais de um lado. Nenhuma estátua grega tinha um tornozelo maior do que o outro. Ah, o omoplata esquerdo que era mais longo e deixava a cabeça fora do centro. Isso era um drama terrível! Cabeça fora do centro só um pouquinho, meio milímetro, mas que a deixava louca só em pensar que algum jurado das arábias percebesse e fosse desclassificada por menos de um milímetro no omoplata! Terrível! O Brasil perder um título desses só por que tinha a cabeça fora de centro?
A tudo corrigiu esse fenômeno de beleza greco-moderna. Não saiu exatamente uma Vênus de Milo, mas quase . Na verdade, saiu à feição de uma mulher turbinada, melhor do que imaginava, conclusão a que chegou pela reação do vasto público que se foi formando em torno da escultura. Polêmica! Ela, particularmente, só tinha problema com o espelho, que continuava a lhe mostrar o avesso de sua cara e o inverso de sua atitude: se melhorava o corte da silhueta, não mudava o jeito de ser e sentir o mundo. Havia ali no espelho duas pessoas, agora. Ela mesma e o projeto pronto de si mesma. Mas isso não a abalou. Em algum lugar ela encontraria um cirurgião plástico que uniria outra vez ela com ela mesma.
terça-feira, 24 de junho de 2008
COLUNA DO PAULO WAINBERG
NEM ESTOU FALANDO em HERPES
Paulo Wainberg
Eu ia dizer que a diferença entre “hérnia” e “harpia” é que hérnia existe e harpia não.
Ah essa falta cultura, já afirmou Millor. Ou não foi ele?
Não fosse o Google e eu manteria a afirmação porque pesquisar em enciclopédias ou dicionários envolve um trabalho que minha preguiça – meu pecado capital preferido depois da luxúria – não tolera.
Descobri que “harpia” é uma ave de rapina brasileira – você sabia? – a maior do mundo, também conhecida na intimidade como falcão-real.
O que eu sabia é que a harpia, na mitologia grega, era uma ave de rapina com rosto de mulher e seios (ah, seios...) que não permitia que Lineu, um profeta cego, se alimentasse. Jasão, o comandante da nau Argos, que convocou os heróis gregos, entre eles Hércules e Orfeu, para que trouxessem o velocino de ouro que, no popular, significa uma pele de carneiro de ouro, criando um grupo chamado os Argonautas, nos dias de hoje renegada a uma possível banda de roquenrol, provavelmente “cover”, conseguiu, através de um expediente pouco ético, combater e vencer as harpias, permitindo assim que Lineu, atualmente interpretado por Marco Nannini em a Grande Família, finalmente pudesse comer em paz.
O resto da história com certeza você conhece.
Portanto, na real, hérnia e harpia são reais e cada uma exerce suas funções naturais, uma de atormentar os homens e a outra para rapinar, do alto de sua realeza.
Acho que os antigos gregos sofriam de hérnias terríveis e, poeticamente, inventaram as harpias para justificá-las.
Antes de entrar no assunto propriamente dito impõe-se esclarecer que as harpias seriam descendentes de Parsifae e seu amor tumultuado com um touro. O mais expressivo produto desse amor foi o Minotauro, monstro metade homem, metade touro. Ele gerou também Ariadne, fruto de uma transa como rei Minos, de Creta, que encomendou a Dédalo a construção do Labirinto, no qual aprisionou o Minotauro que ameaçava comer a ilha de Creta inteira, inclusive a própria mãe, onde é que já se viu?
Teseu (não confundir com tesão), determinado a destruir o monstro, resolve enfrentar os meandros do Labirinto, mesmo sabendo que todas as outras tentativas resultaram em morte horrível, devorados que foram os antecessores, pelo Minotauro ou pela fome, porque entravam lá e não conseguiam sair.
Ariadne, entretanto, apaixonou-se por Teseu e, para proteger o amado, oferece-lhe um fio, o famoso Fio de Ariadne, que guiou o herói Labirinto adentro, permitiu-lhe decepar a cabeça de touro do monstro e encontrar a saída sem qualquer esforço, seguindo o Fio da amada até, como se diz no vulgo, passar-lhe o fio a valer.
Teseu, agradecido mas nem tanto, leva Ariadne em seu cavalo branco para abandoná-la na primeira estalagem onde a jovem donzela padece pelo amor do ingrato. É então que Afrodite, compadecida mas não virgem, introduz Dionísio na vida da ninfa, ele mesmo, o futuro Baco romano, que toma Ariadne literalmente e com ela percorre sua trajetória devassa nos tortuosos meandros da sacanagem explícita, com todo o tipo de gente e de animal, reinando soberano sobre o vinho e seus eflúvios, ingressando no mundo moderno, depois de trocar de nome, sob o sugestivo e atraente programa, que a todos seduz, conhecido como bacanal ou, novamente no vulgo, suruba atômica.
Ficou claro?
Estas revelações, que estou fazendo em primeira mão, têm dois objetivos: o primeiro é para que você, que por acaso se chama Ariadne ou por este nome é conhecido, sinta-se orgulhoso do nome ou do epíteto. Você pode sentir-se altivo pois seu apelido é revelador de um apetite amoroso super dimensional, ultra-carismático, hiper-calamitoso, super-ultra-hiper-sensorial.
Capice?
O segundo é que, não se chamando Ariadne, não descender de harpias e nunca ter sido comido por um minotauro, outra sorte não lhe resta – ou não me resta – do que ser o trágico portador de uma hérnia de disco.
Você sabia que existem discos, na sua coluna vertebral? Pois é, eles existem e não são cds, ipods nem míseros long-plays. São discos de setenta e oito rotações, dos mais antigos, daqueles que você procura em duzentos e dezessete antiquários e não encontra.
Não perca tempo, meu caro, faça uma tomografia computadorizada, uma cintilografia ou, sei lá, uma radioscopia vituperal e encontrará dezenas de pequenos discos rodando a mil entre as vértebras de sua coluna, cada um deles tocando ao bel-prazer, desde o mais sórdido rap do bas-fond a mais eloqüente sinfonia dodecafônica do mais obscuro, desconhecido e ignorado compositor contemporâneo.
Isto quando está tudo numa boa.
Porque quando tais discos arranham e começam a saltar ou repetir o mesmo acorde ad infinitum, você vai saber o quanto dói uma ranhura, vai conhecer o verdadeiro significado da expressão a dor ensina a gemer e vai compreender o verdadeiro, legítimo e único significado da palavra paralisia.
E quando um piadista sem graça disser na TV que só dói quando ele ri, autorizo seu olhar de desdém, sua expressão de pouco caso e seu sentimento de auto-comiseração porque, posso garantir, assinar como avalista e hipotecar a casa própria, você, no lugar dele, estará dizendo que só dói quando você respira.
Sabe por que? Porque você cultivou hérnias no seu disco, prezado leitor, estimada leitora.
Hérnia de disco dilacera mais do que as garras de um falcão-rei ou de uma ave de rapina com rosto de mulher, seios (ah...) de mulher, dentes de vampiro e garras de falcão-rei, pode acreditar.
O primeiro sintoma é, por que não dizer?, sintomático: você levanta da cama e seu tronco forma um ângulo reto a partir da cintura para baixo. Sua cabeça está perpendicular à linha do colchão, o braço direito quase tocando o solo e é assim que você tenta caminhar, como se fosse um caranguejo ao contrário.
Evidentemente, como diria um deputado na CPI, você não consegue. A dor lancinante faz você sentir inveja de uma facada na cintura e, como um saco de batatas cheio até a metade, você desaba na cama, da cintura para cima no colchão e as pernas para o lado de fora, pesando e doendo como vou te contar.
É um momento sui-generis: você sente inveja da mulher que é serrada ao meio, no show do mágico. Você quer ser “Boris, o homem tronco”, lembra? E, num derradeiro gesto de humanidade, numa última manifestação de consciência você urra como uma foca dando à luz às mil e quinhentas foquinhas de uma só vez.
Você é o feliz possuidor de uma hérnia de disco, meu caro. Sua vida nunca mais será a mesma porque, como cocô no mosqueiro, você será invadido por hordas insaciáveis de neurologistas, traumatologistas, apucunturalistas japoneses, massagistas coreanos, injeções de cortisona e comprimidos antiinflamatórios. Além dos insaciáveis exemplificadores, amigos e conhecidos que sabem tudo a respeito e tem soluções infalíveis para resolver o drama, dentre elas a mais evocada, sugerida e aconselhada: bolsa de água quente e repouso.
Enquanto isso eu ali, estendido como um polvo anestesiado, sem posição, sem ânimo e sem sossego, doendo a perna e a cintura, implorando por uma harpia feroz que me devorasse a medula ou por uma canja de galinha que re-estabelecesse a até então cordial relação que sempre mantive com meu estômago.
Descobri, graças à hérnia de disco que, ao contrário do resto da humanidade que convive com a flora, possuo uma fauna intestinal constituída de bilhões de bichos microscópios cuja única finalidade na existência é provocar ardência, cólica, dores difusas e, para complementar, um pouco mais de ardência.
Se você for um grego antigo dê graças aos deuses do Olimpo e aos poetas de então, em especial, a Alceu, Safo e Anacreonte que, ao som magioso da lira, compuseram odes a tudo e a todos, abençoados por Apolo, Hera e Afrodite.
Caso contrário não exulte porque, levanta peso daqui, levanta peso dali, mais cedo ou mais tarde seus discos medulares arranharão e, quando você menos espera, abaixando-se para pegar uma página do jornal, amarrar os cordões do sapato ou pintar as unhas dos pés, uma harpia hernial dará o ar da graça e você conhecerá o verdadeiro significado do suplício de uma saudade.
Paulo Wainberg
Eu ia dizer que a diferença entre “hérnia” e “harpia” é que hérnia existe e harpia não.
Ah essa falta cultura, já afirmou Millor. Ou não foi ele?
Não fosse o Google e eu manteria a afirmação porque pesquisar em enciclopédias ou dicionários envolve um trabalho que minha preguiça – meu pecado capital preferido depois da luxúria – não tolera.
Descobri que “harpia” é uma ave de rapina brasileira – você sabia? – a maior do mundo, também conhecida na intimidade como falcão-real.
O que eu sabia é que a harpia, na mitologia grega, era uma ave de rapina com rosto de mulher e seios (ah, seios...) que não permitia que Lineu, um profeta cego, se alimentasse. Jasão, o comandante da nau Argos, que convocou os heróis gregos, entre eles Hércules e Orfeu, para que trouxessem o velocino de ouro que, no popular, significa uma pele de carneiro de ouro, criando um grupo chamado os Argonautas, nos dias de hoje renegada a uma possível banda de roquenrol, provavelmente “cover”, conseguiu, através de um expediente pouco ético, combater e vencer as harpias, permitindo assim que Lineu, atualmente interpretado por Marco Nannini em a Grande Família, finalmente pudesse comer em paz.
O resto da história com certeza você conhece.
Portanto, na real, hérnia e harpia são reais e cada uma exerce suas funções naturais, uma de atormentar os homens e a outra para rapinar, do alto de sua realeza.
Acho que os antigos gregos sofriam de hérnias terríveis e, poeticamente, inventaram as harpias para justificá-las.
Antes de entrar no assunto propriamente dito impõe-se esclarecer que as harpias seriam descendentes de Parsifae e seu amor tumultuado com um touro. O mais expressivo produto desse amor foi o Minotauro, monstro metade homem, metade touro. Ele gerou também Ariadne, fruto de uma transa como rei Minos, de Creta, que encomendou a Dédalo a construção do Labirinto, no qual aprisionou o Minotauro que ameaçava comer a ilha de Creta inteira, inclusive a própria mãe, onde é que já se viu?
Teseu (não confundir com tesão), determinado a destruir o monstro, resolve enfrentar os meandros do Labirinto, mesmo sabendo que todas as outras tentativas resultaram em morte horrível, devorados que foram os antecessores, pelo Minotauro ou pela fome, porque entravam lá e não conseguiam sair.
Ariadne, entretanto, apaixonou-se por Teseu e, para proteger o amado, oferece-lhe um fio, o famoso Fio de Ariadne, que guiou o herói Labirinto adentro, permitiu-lhe decepar a cabeça de touro do monstro e encontrar a saída sem qualquer esforço, seguindo o Fio da amada até, como se diz no vulgo, passar-lhe o fio a valer.
Teseu, agradecido mas nem tanto, leva Ariadne em seu cavalo branco para abandoná-la na primeira estalagem onde a jovem donzela padece pelo amor do ingrato. É então que Afrodite, compadecida mas não virgem, introduz Dionísio na vida da ninfa, ele mesmo, o futuro Baco romano, que toma Ariadne literalmente e com ela percorre sua trajetória devassa nos tortuosos meandros da sacanagem explícita, com todo o tipo de gente e de animal, reinando soberano sobre o vinho e seus eflúvios, ingressando no mundo moderno, depois de trocar de nome, sob o sugestivo e atraente programa, que a todos seduz, conhecido como bacanal ou, novamente no vulgo, suruba atômica.
Ficou claro?
Estas revelações, que estou fazendo em primeira mão, têm dois objetivos: o primeiro é para que você, que por acaso se chama Ariadne ou por este nome é conhecido, sinta-se orgulhoso do nome ou do epíteto. Você pode sentir-se altivo pois seu apelido é revelador de um apetite amoroso super dimensional, ultra-carismático, hiper-calamitoso, super-ultra-hiper-sensorial.
Capice?
O segundo é que, não se chamando Ariadne, não descender de harpias e nunca ter sido comido por um minotauro, outra sorte não lhe resta – ou não me resta – do que ser o trágico portador de uma hérnia de disco.
Você sabia que existem discos, na sua coluna vertebral? Pois é, eles existem e não são cds, ipods nem míseros long-plays. São discos de setenta e oito rotações, dos mais antigos, daqueles que você procura em duzentos e dezessete antiquários e não encontra.
Não perca tempo, meu caro, faça uma tomografia computadorizada, uma cintilografia ou, sei lá, uma radioscopia vituperal e encontrará dezenas de pequenos discos rodando a mil entre as vértebras de sua coluna, cada um deles tocando ao bel-prazer, desde o mais sórdido rap do bas-fond a mais eloqüente sinfonia dodecafônica do mais obscuro, desconhecido e ignorado compositor contemporâneo.
Isto quando está tudo numa boa.
Porque quando tais discos arranham e começam a saltar ou repetir o mesmo acorde ad infinitum, você vai saber o quanto dói uma ranhura, vai conhecer o verdadeiro significado da expressão a dor ensina a gemer e vai compreender o verdadeiro, legítimo e único significado da palavra paralisia.
E quando um piadista sem graça disser na TV que só dói quando ele ri, autorizo seu olhar de desdém, sua expressão de pouco caso e seu sentimento de auto-comiseração porque, posso garantir, assinar como avalista e hipotecar a casa própria, você, no lugar dele, estará dizendo que só dói quando você respira.
Sabe por que? Porque você cultivou hérnias no seu disco, prezado leitor, estimada leitora.
Hérnia de disco dilacera mais do que as garras de um falcão-rei ou de uma ave de rapina com rosto de mulher, seios (ah...) de mulher, dentes de vampiro e garras de falcão-rei, pode acreditar.
O primeiro sintoma é, por que não dizer?, sintomático: você levanta da cama e seu tronco forma um ângulo reto a partir da cintura para baixo. Sua cabeça está perpendicular à linha do colchão, o braço direito quase tocando o solo e é assim que você tenta caminhar, como se fosse um caranguejo ao contrário.
Evidentemente, como diria um deputado na CPI, você não consegue. A dor lancinante faz você sentir inveja de uma facada na cintura e, como um saco de batatas cheio até a metade, você desaba na cama, da cintura para cima no colchão e as pernas para o lado de fora, pesando e doendo como vou te contar.
É um momento sui-generis: você sente inveja da mulher que é serrada ao meio, no show do mágico. Você quer ser “Boris, o homem tronco”, lembra? E, num derradeiro gesto de humanidade, numa última manifestação de consciência você urra como uma foca dando à luz às mil e quinhentas foquinhas de uma só vez.
Você é o feliz possuidor de uma hérnia de disco, meu caro. Sua vida nunca mais será a mesma porque, como cocô no mosqueiro, você será invadido por hordas insaciáveis de neurologistas, traumatologistas, apucunturalistas japoneses, massagistas coreanos, injeções de cortisona e comprimidos antiinflamatórios. Além dos insaciáveis exemplificadores, amigos e conhecidos que sabem tudo a respeito e tem soluções infalíveis para resolver o drama, dentre elas a mais evocada, sugerida e aconselhada: bolsa de água quente e repouso.
Enquanto isso eu ali, estendido como um polvo anestesiado, sem posição, sem ânimo e sem sossego, doendo a perna e a cintura, implorando por uma harpia feroz que me devorasse a medula ou por uma canja de galinha que re-estabelecesse a até então cordial relação que sempre mantive com meu estômago.
Descobri, graças à hérnia de disco que, ao contrário do resto da humanidade que convive com a flora, possuo uma fauna intestinal constituída de bilhões de bichos microscópios cuja única finalidade na existência é provocar ardência, cólica, dores difusas e, para complementar, um pouco mais de ardência.
Se você for um grego antigo dê graças aos deuses do Olimpo e aos poetas de então, em especial, a Alceu, Safo e Anacreonte que, ao som magioso da lira, compuseram odes a tudo e a todos, abençoados por Apolo, Hera e Afrodite.
Caso contrário não exulte porque, levanta peso daqui, levanta peso dali, mais cedo ou mais tarde seus discos medulares arranharão e, quando você menos espera, abaixando-se para pegar uma página do jornal, amarrar os cordões do sapato ou pintar as unhas dos pés, uma harpia hernial dará o ar da graça e você conhecerá o verdadeiro significado do suplício de uma saudade.
segunda-feira, 23 de junho de 2008
PORQUE NÃO ACREDITO NA JUSTIÇA
A DESEMBERGADORA E SEUS CINCO MARIDOS
João Eichbaum
Em matéria de página inteira o jornal Zero Hora, de domingo, dia 22 último, se ocupa de uma desembargadora a quem chama de “pioneira”, por ter sido a primeira mulher a ingressar nos quadros da magistratura do Rio Grande do Sul.
Pois a desembargadora, na matéria ornada de fotografias, alardeou aos quatro ventos, para quem quisesse saber, que teve – certamente até agora – cinco maridos, quatro dos quais levaram pé na bunda.
Acontece que essa desembargadora, enquanto teve o poder nas mãos, para decidir sobre a vida das pessoas, estava lotada na oitava câmara cível do Tribunal de Justiça, especializada em Direito de Família. Portanto, a desembargadora, mulher de cinco maridos (sucessivos, supõe-se) era uma das autoridades a quem incumbia dizer o direito nas questões de família que lhe eram submetidas.
“Oh tempora, oh mores”! A magistrada decidia exatamente (aqui não cabe o advérbio “justamente”, por razões óbvias) sobre aquele núcleo de toda a sociedade, que é a família, conforme está escrito no art. 226 da Constituição Federal.
Não conheço qualquer decisão dessa magistrada, não sei o que ela pensa sobre a família. A pergunta que faço é a seguinte: que conceito de “família” ou de “entidade familiar” pode ter uma pessoa que troca de marido ou de mulher com mais freqüência do que a pilha do seu celular? Será que, para a desembargadora, constituir família e “acasalar-se” é a mesma coisa? Mas, além disso, ao lado dessa conduta nada trivial, a desembargadora se jacta de ser “feminista de carteirinha”, de participar de “paradas gays”, contando que “veste uma echarpe colorida e, do alto do caminhão, grita palavras de ordem”.
Aqui, mais uma vez se prova que a justiça não é um ente etéreo, incorpóreo, desatrelado da humanidade e acima dela. Debaixo da toga está o primata humano, aquele ser cheio de defeitos, que teve a sorte de conseguir, com cruzinhas, abocanhar uma fatia de poder para decidir sobre a vida dos outros.
A toga não dignifica as pessoas, mas há pessoas que podem dignificar a toga.
João Eichbaum
Em matéria de página inteira o jornal Zero Hora, de domingo, dia 22 último, se ocupa de uma desembargadora a quem chama de “pioneira”, por ter sido a primeira mulher a ingressar nos quadros da magistratura do Rio Grande do Sul.
Pois a desembargadora, na matéria ornada de fotografias, alardeou aos quatro ventos, para quem quisesse saber, que teve – certamente até agora – cinco maridos, quatro dos quais levaram pé na bunda.
Acontece que essa desembargadora, enquanto teve o poder nas mãos, para decidir sobre a vida das pessoas, estava lotada na oitava câmara cível do Tribunal de Justiça, especializada em Direito de Família. Portanto, a desembargadora, mulher de cinco maridos (sucessivos, supõe-se) era uma das autoridades a quem incumbia dizer o direito nas questões de família que lhe eram submetidas.
“Oh tempora, oh mores”! A magistrada decidia exatamente (aqui não cabe o advérbio “justamente”, por razões óbvias) sobre aquele núcleo de toda a sociedade, que é a família, conforme está escrito no art. 226 da Constituição Federal.
Não conheço qualquer decisão dessa magistrada, não sei o que ela pensa sobre a família. A pergunta que faço é a seguinte: que conceito de “família” ou de “entidade familiar” pode ter uma pessoa que troca de marido ou de mulher com mais freqüência do que a pilha do seu celular? Será que, para a desembargadora, constituir família e “acasalar-se” é a mesma coisa? Mas, além disso, ao lado dessa conduta nada trivial, a desembargadora se jacta de ser “feminista de carteirinha”, de participar de “paradas gays”, contando que “veste uma echarpe colorida e, do alto do caminhão, grita palavras de ordem”.
Aqui, mais uma vez se prova que a justiça não é um ente etéreo, incorpóreo, desatrelado da humanidade e acima dela. Debaixo da toga está o primata humano, aquele ser cheio de defeitos, que teve a sorte de conseguir, com cruzinhas, abocanhar uma fatia de poder para decidir sobre a vida dos outros.
A toga não dignifica as pessoas, mas há pessoas que podem dignificar a toga.
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