quinta-feira, 30 de junho de 2011

A BÍBLIA LIDA PELO DIABO

6 E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento. Tomou de seu fruto e comeu e a deu também para o marido.

Quem é que não come o que a mulher dá, né? Principalmente quando ela chega com aquela sutileza, um beicinho sensual, a voz mansa como água de fonte: prova, benzinho!
E por tudo isso se vê que o Javé nunca tinha tido mulher, mas mesmo assim foi mestre no ofício de criar mulheres e serpentes.

7 Então, se abrindo os olhos de ambos, se deram conta de que estavam nus; e coseram folhas de figueira para se cobrir.

Para quê se cobrir? Por acaso todos os seres viventes que os rodeavam também não andavam nus? O leão não mostrava sua pica e a leoa a sua xexeca? Que mal haveria em andarem nus, se era só a natureza que ditava moda e estilo?
Qualquer idiota sabe que a cobertura da nudez é coisa da civilização, para evitar uma pegação geral, num primeiro momento, e para criar a moda outono-inverno, a seguir. Os índios só conheceram roupas com a invasão dos brancos nos seus domínios.
Então, não me venham com essa lorota de que correram para a figueira para tapar as partes de baixo, quando seria muito mais natural que o Adão, com a inocência já perdida, corresse para a Eva, a mulher mais sexy da terra, cheio de tesão, babando: tu me deixas louco!

8 E ouviram a voz do Senhor Deus que passeava no jardim, trazida pela viração, e se esconderam atrás das árvores. 9 E o Senhor Deus chamou a Adão: onde estás?10 Ouvi a tua voz soar no jardim e temi, porque estava nu, por isso me escondi – respondeu Adão.

Com quem é mesmo que o Javé estava falando, quando sua voz foi trazida pela viração que bafejava o jardim? Alguém aí da platéia sabe me dizer?
E por acaso precisava Ele, que se denomina Absoluto, chamar o Adão para saber onde o gajo se encontrava? E a onisciência, hein?
E pelo jeito até o Adão duvidava da onisciência do Velho Javé: foi se esconder atrás duma árvore, mesmo depois de ter botado a folha de figueira na frente do trumbico.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

SERIA CRISTO BICHA?

Janer Cristaldo

Começo com um esclarecimento. Quando falo do Cristo, não tenho a mínima idéia se existiu ou não. Há um hiato muito grande, de pelo menos quatro décadas, entre sua morte – ou suposta morte – e os primeiros relatos de sua vida. Ou suposta vida. Quanto mais leio, mais me convenço que foi criação dos evangelistas. O primeiro evangelho só surge após a segunda destruição do templo de Jerusalém pelo imperador romano Tito. Mais parece uma reação judia ao poder invasor que relato histórico. Seja como for, tenha existido ou não, Cristo existe para milhões de pessoas. Se era mito, o mito virou carne. Então, para efeitos de raciocínio, parto da suposição de que tenha existido.

Quando trabalhava na Folha de São Paulo, anos 80, publiquei artigo aventando a hipótese de que Cristo fosse homossexual. Ou hetero ou mesmo bi. Alguma sexualidade deveria ter o deus feito carne, ou humano não seria. Ou então seria assexuado. Mas assexuados são seres doentes. Ora, o Altíssimo não iria encarnar em alguém inepto para a vida. Daria uma péssima imagem da divindade. Como os Evangelhos nada dizem sobre o assunto, qualquer das hipóteses era admissível.

Escândalo nas hostes cristãos. Quando o telefone tocava na editoria, de modo geral era alguém me procurando. Para insultar-me, é claro. Em meio aos impropérios, só ouvi uma voz toda amorosa:- O senhor é homossexual?
Era a voz de um pastor evangélico. Respondi que minha sexualidade só a mim dizia respeito.
- Estou perguntando porque, se o senhor for homossexual, temos como curá-lo. Há vários ex-homossexuais em nossa igreja.

Só o que faltava. Já ouvi falar de ex-padre, ex-ministro, ex-deputado, ex-presidente, até mesmo de ex-comunista, ex-marido, ex-URSS, ex-Iugoslávia. De ex-homossexuais não tenho conhecimento. Pode até ser que existam, mas serão minoria. Se tenho prazer na homossexualidade, por que a ela renunciaria? Em nome de uma religião que abomina o sexo? Alguém que renuncia a seus prazeres em função de uma fé estúpida, só pode ser um retardado mental. O pastor subestimava minha inteligência.

Os tempos mudaram, e como! Comentei, no início deste mês, um aviso postado no site da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), que teria convocado simpatizantes a um evento em Brasília, programado para o dia 05 de junho, em que seriam queimados exemplares da Bíblia. Na página virtual, o texto dizia que "em frente à Catedral, nós ativistas LGBTT iremos queimar um exemplar da Bíblia Sagrada". Em seguida, a mensagem defendia que "um livro homofóbico como este não deve existir em um mundo onde a diversidade é respeitada".

Dia seguinte, o presidente da tal de associação, que reúne todas as sexualidades exceto a hetero, declarava que a convocação teria sido obra de hackers. Obra de hackers ou não, ela é coerente. A Bíblia condena os homossexuais à morte. Nisto em nada difere do Islã. Que, no fundo, é um universo profundamente homossexual, onde a mulher não tem lugar. Mas os machos muçulmanos têm dificuldade em lidar com isto. Ai de quem for flagrado fazendo o que todos fazem sem serem flagrados. Mas isto já é outro assunto.

Na ocasião, os organizadores da 15ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo já anunciavam a intenção de usar um dos mandamentos da Igreja, o “amai-vos uns aos outros" para condenar a tal de homofobia. Reverendos e seguidores da Igreja Anglicana do Brasil, além de fiéis de outras religiões, confirmaram participação na passeata.Dito e feito. Ontem, na dita Parada Gay, carros de som e camisetas traziam estampado o slogan. Acontece que o “amai-vos uns aos outros” não é achado da Igreja. É ordem do Cristo. Está nos Evangelhos. Mas Cristo nunca se pretendeu porta-estandarte da bicharada. Referia-se aos seres humanos em geral, sem distinção de sexo ou sexualidade. Mesmo que fosse homossexual ou por eles tivesse alguma simpatia, não ousou revogar a pena do livro antigo, a morte.

Este mandamento é, antes de mais nada, arbitrário e ditatorial. Por que razões sou obrigado a amar indistintamente os demais? Há tanta gente chata e mesmo abominável no mundo, que não merecem sequer nosso apreço. Segundo o mandamento cristão, teríamos de estender nosso amor a gente da laia de Lula, Sarney, Zé Dirceu, Renan Calheiros. Por que teria eu de oferecer amor a esta canalha? Esta frasezinha do Cristo, tida como de profunda sabedoria, a meu ver é demagogia barata de político em busca de votos.

Sem falar que, como perceberam Nietzsche e Kierkegaard, exclui o sentimento de amizade. Amizade é eleição, afinidade eletiva. Se tenho de amar o próximo, não sobra espaço para o amigo.Voltando à tal de parada. Se provoquei a ira sagrada dos cristãos quando aventei a possibilidade de Cristo ser homossexual, hoje – apenas 30 anos depois - esta hipótese é divulgada urbi et orbi pela televisão e pelos jornais. Não só o Cristo foi cooptado para apoiar a exótica fauna, como também alguns santos da Igreja, como São Sebastião e São João Batista, que apareciam seminus ao lado das mensagens em defesa da camisinha. O sofisma é primário. A Igreja nunca canonizaria quem fizesse a defesa do sexo não-reprodutivo.

A santa nudez chegou a escandalizar a pastora lésbica Andréa Gomes, de 36 anos, da Igreja Apostólica Nova Geração: "Não tinha necessidade de usar pessoas peladas para representar santos. Faz a campanha, mas não envolve as coisas de Deus". Pelo jeito, a moça nunca entrou num templo católico onde sempre encontramos não os santos, mas o próprio deus cristão, sempre peladão envolto numa toalha de sauna.

Ó tempora, ó mores! Cristo patrono das bonecas. A Igreja Católica subiu em seus tamancos. Para o cardeal d. Odilo Pedro Scherer, arcebispo de São Paulo, a colocação de cartazes com imagens de santos católicos em postes da Avenida Paulista foi "infeliz, debochada e desrespeitosa". Para o cardeal-arcebispo, o "uso instrumentalizado" das imagens por parte da organização do evento "ofende o sentimento da Igreja Católica".

Não tem muita autoridade para chiar. Se a Igreja apossou-se descaradamente do livro dos judeus, não pode queixar-se de que determinadas organizações, sociais ou sexuais, se apossem de sua iconografia.

Neste Brasil sincrético, onde tudo se funde e se mistura em um colossal panelão de incultura, Cristo virou definitivamente bicha.

terça-feira, 28 de junho de 2011

O SHOW DA VIDA

João Eichbaum

Você que é cristão, que acredita no deus judaico-cristão e, por isso, lhe atribui a criação do homem, me responda: você já pensou, seriamente, na vida? Já pensou qual é a sua finalidade no contexto do universo? Já pensou por que razão você veio ao mundo? Já pensou no que levou o deus judaico-cristão a criá-lo ? Logo você, entre milhões de outros espermatozóides?
Nunca li nada a respeito, mas sei que alguns ou vários ou, quem sabe, todos os filósofos já se ocuparam desse assunto.
E você, cristão, se é que já pensou nisso, chegou a alguma conclusão?
Certamente, não.
Mas você já assistiu ao BBB, não assistiu? Se não assistiu, pelo menos ouviu falar desse chamado “reality show”, cuja matéria prima é unicamente o primata chamado humano. Afinal, a imprensa sempre mantém um foco sobre esse espetáculo, e é impossível ignorá-lo totalmente.
Rememore.
Criaturas humanas, homens e mulheres, confinadas num espaço em busca da vida (leia-se: uma baita grana), sem se desprender das exigências de sua animalidade, mas atreladas à virtual eliminação. Todas de olho naquela finalidade específica, a conquista da grana, mas sem abrir mão da concupiscência, que é a mola mestra da continuação da espécie, e sem perder a consciência de que, de uma hora para a outra, pode ocorrer a defenestração.
Pois, assim é a vida. A vida é um “reality show”, que se desenrola no espaço limitado de um único, entre milhares de planetas, e cuja regra principal é a eliminação (a morte). Alguns conseguem a “grana”, representada em riqueza, bem estar , notoriedade e felicidade. Outros, são eliminados no caminho dessa busca, ou até mesmo antes de se darem conta do que é, realmente, a vida.
A única diferença entre o “reality show” da televisão e o da vida é que, nessa, existem os que vegetam à beira do caminho, ou seja, os que não participam, não têm objetivos, e se contentam em ficar à margem, porque a vida não lhes empresta sentido algum.
Falo dessa casta social com a qual a sociedade pouco se ocupa: os mendigos, os moradores de rua e outros tantos que o IBGE não conta.
Com esse quadro pela frente, pergunto: existe alguma resposta filosófica para essa bagunça social, que é o “reality show” da vida? Os filósofos que já se ocuparam do tema levaram em consideração os marginais, os que moram debaixo das pontes, os que dormem nas calçadas, nos bancos das praças?
Não sei, não li.
E se alguém, lendo filósofos, encontrou a resposta, que me mande.
Para mim, o “reality show” da vida, onde tanto se salienta a riqueza e a celebridade, como a miséria e o anonimato, não é senão a prova de que somos unicamente primatas, para quem só foi reservada uma finalidade: morrer, mais hoje ou mais amanhã.
A injustiça social corre por conta dos primatas mais espertos e não é culpa de deus nenhum. Se existisse algum deus dirigindo o “reality show” da vida, ele não permitiria injustiças. Porque o se divertir com a desgraça dos outros é próprio dos homens e não dos deuses.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

ONDE SE VIU ACABAR COM MISÉRIA ONDE SE VIU ACABAR COM A INDÚSTRIA DA MISÉRIA?

Janer Cristaldo

A Prefeitura de São Paulo quer retirar das ruas, à força se for preciso, usuários de drogas que recusem tratamento. A administração já busca uma alternativa jurídica para isso. É o que lemos na Folha de São Paulo. Segundo o prefeito Gilberto Kassab, a idéia é dar mais liberdade para as equipes de saúde e de assistência social da prefeitura poderem atuar com usuários de drogas. O alvo principal seria a cracolândia.

Pago para ver. A cracolândia existe há mais de duas décadas e só agora um administrador pensou em tratar do assunto. Antes tarde do que nunca, direis. Mas não vejo como reprimir o consumo da droga em Santa Ifigênia e liberar a marcha da maconha na avenida Paulista. A propósito, os marchadores da maconha parecem pretender estabelecer uma hierarquia entre maconheiros e fumadores de crack. Os maconheiros seriam seres moralmente superiores à turma do crack e não gostam de ser confundidos com estes.

A primeira marcha da maconha foi proibida pela polícia, enquanto a turma do crack acendia tranquilamente seus cachimbos na cracolândia. Ora, há apenas três ou quatro quilômetros entre a Paulista e a Santa Ifigênia. Bem que os Unidos na Cannabis podiam organizar sua marcha na cracolândia. Seria divertido ver a polícia permitindo o consumo de drogas e, ao mesmo tempo e no mesmo lugar, proibindo uma manifestação em sua defesa.

Em nome da liberdade de expressão, o Supremo Tribunal Federal decidiu recentemente liberar as tais de marchas da maconha. Desde que não se fizesse apologia da droga. Como se não fosse apologia da droga permitir manifestações em favor de sua descriminalização. As moscas tontas do STF estão se comportando como os teólogos bizantinos, que discutiam se deus era três em um ou um em três.

Cláudio Lembo, secretário de Negócios Jurídicos e ex-governador – o palhaço aquele que cunhou a expressão “elite branca” - disse estar conversando com o Tribunal de Justiça, o Ministério Público e a Defensoria Pública sobre o assunto. Lembo pretende criar um "consenso jurídico" para embasar as ações da prefeitura. A indecisão é tal no que diz respeito à política ante as drogas que a Defensoria negou que esteja participando das discussões.

O TJ não confirmou estar participando da discussão e o Ministério Público não respondeu.

Segundo Lembo, o principal argumento de quem é contrário à medida é que o direito à locomoção, ou "direito de ir e vir", não permite a retirada compulsória de pessoas das ruas. Ora, o que está em jogo não é o direito de ir e vir. Que vão e que venham, nada contra. Os defensores da cracolândia, ao que tudo indica, estão reivindicando um novo item a ser acrescido aos direitos humanos, o direito de deitar. Porque essa turma não vai nem vem. Estão jogados nas calçadas.

Ano passado ainda, a polícia andou retirando os zumbis do crack das ruas e os levou para uma delegacia. Para que, não sei, porque hoje ninguém mais é preso por consumo de drogas. Houve uma grita geral de assistentes sociais e agentes da saúde. Que a polícia estava minando a confiança que os drogados neles depositavam. Que droga não é questão de polícia, mas de saúde pública. Ou seja, que os zumbis permaneçam onde estão. Contei em crônica recente. Há alguns anos dei um chute em um mendigo que se atravessara na entrada de meu prédio. Ele reagiu prontamente: e o direito de ir e vir onde fica? O vagabundo, pelo jeito, entendia de direito constitucional. Claro que ali havia o dedo de alguma assistente social. Contei também a história dos mendigos que haviam sumido do largo Santa Cecília. Dia seguinte, uma assistente social bradava num jornaleco da paróquia: onde estão nossos mendigos? Quem os expulsou daqui? Queremos nossos mendigos de volta.

Ou seja, não há um efetivo interesse em retirar mendigos e drogados das ruas. Mendigos e drogados são altamente rentáveis. Há toda uma indústria da miséria que se locupleta com a miséria. Igrejas e ONGs recebem subsídios de sonho do Primeiro Mundo, particularmente da França, Holanda e Alemanha, para tratar da mendicidade. Sem mendigos, pas d’argent.

Mutatis mutandis, foi o que aconteceu com bin Laden. Os Estados Unidos enviavam milhões de dólares ao Paquistão para capturar bin Laden. Ou seja, o Paquistão precisava proteger o terrorista. Sem bin Laden, adeus dólares. Não por acaso, as autoridades paquistanesas estão prendendo os elementos anti-sociais que denunciaram o esconderijo da galinha de ovos de ouro.

A pretensão de Kassab é tão ridícula quanto o próprio Kassab, um político arrivista mais interessado em sua sobrevivência política do que na administração de São Paulo. Ao definir-se a favor da Marcha da Maconha, o ministro Celso de Mello considerou que a Constituição "assegura a todos o direito de livremente externar suas posições, ainda que em franca oposição à vontade de grupos majoritários”. Mello também classificou como insuprimível o direito dos cidadãos de protestarem, de se reunirem e de emitirem opinião em público, desde que pacificamente.

A decisão do STF de permitir a passeata em prol da maconha, a rigor libera passeatas em defesa de qualquer droga, seja crack, óxi ou cocaína. Não vejo como retirar drogados da rua quando, alguns quilômetros adiante, a polícia protege uma passeata em defesa da maconha.

Com o aval da Suprema Corte.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

O VOTO DO FUX (VII)

DA SÉRIE LIÇÕES DE DIREITO PARA ASSESSORES, AUXILIARES E ESTAGIÁRIOS DE JUIZES, DESEMBARGADORES E MINISTROS

João Eichbaum



E continua com seu sinuoso palavrório o senhor Fux, que ganha a vida como ministro do Supremo Tribunal Federal:
“No oportuno magistério de INGO SARLET (ob. Cit., p. 148-149),
Outra importante função atribuída aos direitos
fundamentais e desenvolvida com base na existência de um
dever geral de efetivação atribuído ao Estado, por sua vez
agregado à perspectiva objetiva dos direitos fundamentais, diz
com o reconhecimento de deveres de proteção (Schutzpflichten)
do Estado, no sentido de que a este incumbe zelar, inclusive
preventivamente, pela proteção dos direitos fundamentais dos
indivíduos não somente contra os poderes públicos, mas
também contra agressões provindas de particulares e até
mesmo de outros Estados. Esta incumbência, por sua vez,
desemboca na obrigação de o Estado adotar medidas positivas
da mais diversa natureza (por exemplo, por meio de proibições,
autorizações, medidas legislativas de natureza penal, etc.), com
o objetivo precípuo de proteger de forma efetiva o exercício dos
direitos fundamentais.”

“Outra importante função atribuída aos direitos fundamentais...”

Função quer dizer exercício, uso, emprego, ofício, cargo, posto, serviço.
Atribuir significa imputar, referir, assacar, dar, conceder, facultar, conferir, outorgar.
Direito é o complexo de leis, regras ou princípios que regem as relações sociais. Quer como regra, quer como lei, quer como princípio, o direito carrega em si mesmo essa força que o torna regente e administrador das ditas relações. Em outras palavras, é o direito, por si mesmo, que determina o comportamento dos indivíduos e das instituições, quando transformado em regra, lei ou princípio coercitivo.
E porque tem força por si e em si mesmo, o direito não pode ser tratado como receptáculo de “funções” delegadas, concedidas ou emprestadas. O direito, em razão de sua natureza ontológica, não é receptáculo, mas fonte de atribuições.
O direito não recebe funções, não exerce funções. Ele rege funções.
Nem a lei, nem a doutrina, nem a jurisprudência podem “atribuir”, emprestar, delegar, conceder, facultar, conferir “funções” ao direito. Pelo contrário, é o direito que atribui, empresta, concede, faculta e confere força e função à lei, à doutrina, à jurisprudência. Pode-se “atribuir” a alguém o direito ao exercício de alguma coisa. Mas não se pode “atribuir” (no sentido de conceder, emprestar, facultar) ao direito o exercício de alguma coisa.
“Dever geral de efetivação...”
O que é isso mesmo?
Efetivação é o ato de efetivar. Efetivar, por seu turno, significa realizar, perfazer. Todos são verbos transitivos diretos: exigem objeto. Não se pode, simplesmente, “efetivar”. É necessário efetivar alguma coisa.
Então, vem a pergunta: efetivação de quê, mesmo?
Nem o Fux, nem o Ingo Sarlet, que ele invoca, o dizem.
Um bom cursinho de redação seria aconselhável para ambos.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

A BÍBLIA LIDA PELO DIABO

João Eichbaum

TENTAÇÃO DA EVA E QUEDA DO HOMEM.

3.1 Ora, a serpente era mais astuta do que todas as alimárias do campo que o Senhor tinha feito. E esta disse à mulher: é assim que Deus disse, não comerás de toda a árvore do jardim?2 E disse a mulher à serpente: do fruto das árvores do jardim comeremos. 3 Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: não comereis dele, nem nele tocareis para que não morraes. 4 Então a serpente disse à mulher: certamente não morrereis. 5 Porque Deus sabe que no dia em que desse fruto comerdes, se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal.

Então a serpente era a mais astuta, era? E quem a fez assim, tão astuta? Quem a criou? Quem a criou não sabia que ela seria tão astuta assim?
Pô, se não sabia, não podia ser deus. Um Deus sabe tudo o que acontece, antes e depois, no passado, no presente, no futuro, em praça pública e na privada dos fundos da casa.
E um deus que bota duas inocentes criaturas num paraíso bem organizado, cheio de frutas, com belos rios, temperatura amena, etc, não pode criar uma serpente mais astuta do que eles e do que todos os outros animais. É um deus despreparado, desorganizado, medíocre, irresponsável, que submete os ingênuos à astúcia dos cretinos.
A serpente atirou verde, para colher maduro, quando lembrou à mulher que Javé permitira a degustação de todos os frutos. A mulher caiu na conversa da serpente exatamente porque era ingênua e acabou revelando a descabida proibição. Então, a serpente aproveitou para lançar o veneno, com uma versão lunática dos acontecimentos: se vocês comerem dos frutos daquela árvore, serão iguais a Deus.
Claro que a serpente era esperta e sabia de tudo. Quem é que não gostaria de ser igual a Deus?
E a mulher foi pega pela ambição do poder, e dominada pelo devaneio inútil de se tornar divina. Mas, sem maldade nenhuma, porque, antes de comer a fruta, não tinha condições de distinguir entre o bem e o mal.
Viu só, mano, a barbárie praticada por Javé, condenando inocentes, que não podiam praticar o mal, porque não sabiam o que era isso?

quarta-feira, 22 de junho de 2011

JÁ NÃO MAIS EXISTEM HOMOSSEXUAIS COMO ANTES

Janer Cristaldo

Homossexualismo, pelo jeito, está se tornando um fenômeno religioso. Surgiu agora em me bairro a igreja Cidade de Refúgio, criada por duas pastoras lésbicas evangélicas. Se você é daqueles que um dia sonhou com uma freirinha de hábito, agora há pecado melhor. Pecado multiplicado por três: pastoras, lésbicas e evangélicas.

Mais ainda, militantes. O casal de pastoras, Lanna Holder e Rosania Rocha, pretende participar da Parada Gay de São Paulo, no 26 de junho próximo, para evangelizar os participantes. Estudantes de assuntos ligados à teologia e a questões sexuais, as mulheres encaram a Parada Gay como um movimento que deixou de lado o propósito de sua origem: o de lutar pelos direitos dos homossexuais.

“A história da Parada Gay é muito bonita, mas perdeu seu motivo original”, diz Lanna Holder. Para a pastora, há no movimento promiscuidade e uso excessivo de drogas. “A maior concepção dos homossexuais que estão fora da igreja é que, se Deus não me aceita, já estou no inferno e vou acabar com minha vida. Então ele cheira, se prostitui, se droga porque já se sente perdido. A gente quer mostrar o contrário, que eles têm algo maravilhoso para fazer da vida deles. Ser gay não é ser promíscuo.”

Até pode não ser promíscuo, mas o Livro o proíbe. Pelo menos no caso do homossexualismo masculino. No Levítico, lemos: “Com homem não te deitarás como se fosse mulher; é abominação.” E logo mais adiante: “Se também um homem se deitar com outro homem, como se fosse mulher, ambos praticaram coisa abominável; serão mortos; o seu sangue cairá sobre eles”. Mas se homossexuais devem ser mortos, há uma brecha: se um homem se deitar com outro homem, como se fosse mulher. Os judeus sempre abominaram a penetração no vaso indevido, como diria Tomás de Aquino. Quanto às lésbicas, nada contra. Profitez-en, jeunes filles!

Em meio a isso, o STF se manifestou a favor da união homossexual. Ou, como prefere o ministro Ayres Britto, homoafetivas. Cá entre nós, sempre fui contra o casamento homossexual. Não por ser contra o homossexualismo. Afinal, gosto não se discute. Mas por ser contra a prisão do casamento. Casamento implica divórcio, separação de bens y otras cositas más.

Outro dia, um amigo me dizia que a palavra homoafetivo elimina o sufixo sexual da palavra homossexual, deixando assim de lado o que ele chama de “lascívia pura”. Pode ser. Mas eu sou dos bons tempos pagãos da lascívia pura. Isso de trocar tesão por ternura, perdoem-me meus leitores homoafetivos, é coisa de bicha. Mais ainda, de bicha católica. Estão cristianizando o que um dia foi puro prazer. Prova disto são as pastoras lésbicas de meu bairro.
Pelo que li, as pastoras durante muito tempo condenaram as relações homossexuais. Dizem que a carne é fraca. No caso, a carne foi mais forte. Hoje, as moças não só aderiram ao bom esporte, como passaram a fazer proselitismo.

Em meio a isso, leio notícia vinda da Argentina. Duas mulheres que se casaram em abril deste ano em la Rioja iniciaram os trâmites do primeiro divórcio entre homossexuais no país, informaram nesta quarta-feira à agência EFE fontes da Federação de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais. Se bem me lembro, isto já ocorreu há alguns anos na Alemanha. São as decorrências do casamento. Quando não havia casamento, era só dizer tchau e não se precisava recorrer a advogados.

Ángela, 46, e Vanesa, 26, estavam juntas há seis anos, e após a sanção da lei de casamento igualitário, em julho de 2010, decidiram se casar no dia 20 de abril passado. A união teria provocado grande repercussão na mídia local por ser a primeira do tipo naquela região da Argentina. As mulheres se conheceram em 2005, quando se relacionavam com homens. Mutatis mutandis, foi o caso das pastoras minhas vizinhas.

Desde há muito venho escrevendo sobre os dias áureos do homossexualismo, quando um homem se relacionava com quantos parceiros quisesse sem dar satisfação a ninguém. Com isso de casamento, fidelidade se torna obrigação. Segundo a imprensa argentina, a ruptura do casamento aconteceu como conseqüência da infidelidade de uma das moças.

Os homossexuais, que um dia foram outlaws, estão preferindo as algemas do casamento. E virando religiosos. Estão caindo em meu conceito.