sexta-feira, 15 de maio de 2009

UM VENTO LOUCO CHAMADO NORTE

João Eichbaum

Ele se encaixa com perfeição nas especificações requisitadas pela chatice e arma o maior barraco. É morno, feito de um calor que o corpo humano recusa, mas não tem forças para o repelir. O corpo amolece, se entrega, se sente deslocado, perde as propriedades que o tornam feliz, fazendo a gente preferir um vinho vagabundo em copo plástico àquele cheio de pó morno.
O vento se revira em si mesmo e dá cambalhotas, varre Santa Maria de alto a baixo, atropela as pessoas sem pedir licença, cria estranhos ruídos, invade qualquer porta aberta, assusta operários nos andaimes, participa de todos os eventos com a impropriedade de seu ímpeto e do seu indesejável calor. Transforma-se em personagem sinuoso e, triunfante, atravessa qualquer obstáculo que não esteja preparado para enfrentá-lo e mandá-lo de volta, mas contorna tudo o que opõe resistência às suas loucuras de trânsfugo e não faz outra coisa senão atucanar e atrapalhar a vida das pessoas, fazendo da paisagem da cidade uma foto tremida.
O vento norte não entra em acordo com ninguém e com nada. Confia apenas na sua força, no seu calor amolecedor, na sua loucura implacável, no seu espírito sacana, capaz de botar o céu no lugar errado.
É um vento que deixa na miséria anímica ou enlouquece qualquer um, por segundos, afrouxando energias e abortando forças. Destrói e não reconstitui, derruba e não reergue, abate e não reanima, atiça, paradoxalmente, o desânimo, impõe sua presença, a nada se apega, capitaliza o marasmo e o mau humor. Entra na cidade com o desespero de quem quer sair logo dali, se esquecendo de que tem um rabo imenso, que dura três dias, desatinado, interrompendo propósitos de felicidade e deixando todo mundo a viajar na maionese.
Ele é um fantasma que não assusta, não assombra, mas atrapalha. Fantasma, porque é feito de vento, mas atrapalha porque se intromete na vida das pessoas e assassina, com volúpia, necessidades singulares. Ele não dissimula, não se esconde, não disfarça o seu itinerário, não se envergonha de ser assim, desorganizado, sem data para aparecer e de perder, fragorosamente, para a chuva que lhe vem no encalço.
Pois nasci na cidade desse vento louco, turbinado, que dança com as árvores, brinca de rodopiar com as folhas, levanta nuvens de pó e, no meu tempo, aguçava a curiosidade dos marmanjos despudorados, fazendo subir as saias plissadas das meninas, naquele ponto cruel, a esquina da Venâncio Aires com a Avenida Rio Branco.
Hoje, longe e livre, dele não sinto saudade, mas tenho lembranças não muito vagas, das saias plissadas que rodopiavam alto, sem dar a mínima chance para mãozinhas desesperadas que procuravam esconder a cor das calcinhas.

Um comentário:

Gigi disse...

Nada mais típico e enfadonho, em Santa Maria, do que o famoso Vento Norte (que merece maiúsculas). E o autor consegue colocar um pouco de lirismo, até um final feliz, nessa chatice. Por incrível que pareça na minha juventude me aconteceu de assistir a um impulso forte do vento, levantando a saia de uma comerciária até a cabeça. Refleti que Deus estava comigo. Luiz