segunda-feira, 6 de abril de 2009

COLUNA DO PAULO WAINBERG

QUEM DÁ A DEUS...
Paulo Wainberg


Dom Dadeus – que o Próprio o perdoe – arcebispo metropolitano de Porto Alegre tem idéias curiosas para uma representante da Igreja Católica e autoridade eclesiástica, à respeito da obra de Hitler. Em 2003, numa publicação, ele afirmou que apenas um milhão de judeus foram mortos ‘e não os seis milhões que os judeus vivem falando’. E semana passada, numa entrevista, ele reafirmou a estatística e ainda informou que as verdadeiras vítimas do Holocausto foram os ciganos, que morreram muito mais católicos do que judeus e que eles (os judeus) não falam nisso porque controlam a imprensa e a propaganda.
Pessoa querida esse Dom Dadeus – que usa o Nome em vão -, levantando esse tipo de questão em época assim complicada em que a intolerância grassa e o terrorismo engrossa.
Eu, que sou um judeu de nascimento, não consigo entender que um religioso queira reduzir o desastre a “apenas” um milhão de pessoas - que morreram por serem apenas o que eram: judeus. Se um único tivesse morrido em razão dessa condição, o holocausto seria o mesmo. Os ciganos foram trucidados também, estão incluídos na tragédia. Não sei por que razão Dom Dadeus exclui os homossexuais, os aleijados, os mal-formados e outros exterminados apenas por serem o que eram. Talvez porque tenha uma visão distorcida e irremediavelmente preconceituosa da Humanidade.
Numa coisa ele tem razão, morreram mais católicos sim, nenhum padre, bispo ou cardeal, que se saiba, e nenhum que tenha sido assassinado apenas por ser católico. Os católicos, protestantes, evangélicos, muçulmanos e outras etnias que morreram, estavam em combate, lutando por seus exércitos em defesa de suas pátrias. Os dizimados não, foram mortos por serem o que eram.
Dom Dadeus que me desculpe, mas ele não tem direito a usar o nome que usa nem merece falar em nome da Igreja e, sinceramente?, acho que nem padre deveria ser. Pessoas assim devem ocupar seu espaço adequado, enrustidos nos próprios grupos, preocupados em revisar a História, distorcer as versões e disfarçar o racismo incontrolável que teima em vir à tona de tempos em tempos.
Eu sou brasileiro de terceira geração, minha filha é de quarta, meus futuros netos serão de quinta geração. Não sei a qual geração de brasileiros Dom Dadeus pertence, mas mais brasileiro do que eu ele não é. Ninguém é. Nem eu sou mais do que alguém. Mas nem assim escapo de ouvir que os judeus dominam isto, são donos de tudo aquilo, quero dizer que, se desde a publicação apócrifa dos Protocolos dos Sábios do Sião até os dias de hoje, tudo o que se diz a respeito dos planos de dominação e “pertences” dos judeus fosse verdade, o resto do mundo seria de escravos à serviço desse povo.
Os judeus concentram toda a riqueza do mundo (alguém está com a minha parte), os judeus controlam a imprensa mundial (não é o que se lê sobre os conflitos árabe-israelense), os judeus querem dominar o mundo (salvo em Israel não conheço algum presidente, ditador, primeiro ministro, rei ou tirano judeu, no resto do mundo), afirmações que cansei de ouvir e de ler ao longo da vida, ditas com o ar proverbial de quem está por dentro das coisas, afirmadas em almoços familiares de domingo, espargidas em cultos ocasionais, jogadas aqui e ali, em tom de brincadeira, em churrascos e festas, a revelar um preconceito endêmico e prestes a explodir em discriminação explícita.
Por isso, Dom Dadeus, no resto do mundo eu não sei, mas aqui no Brasil não!
Por outro lado, se Dadeus me condena, Lula me absolve. E isto já é um consolo para lá de grande.
Não é que o nosso Presidente afirmou, para quem quiser ouvir e na cara do primeiro ministro inglês, que a culpa da Crise é dos brancos de olhos azuis? Eu, que sou branco de olhos verdes estou, portanto, absolutamente inocentado, ninguém pode me acusar de destruir a economia mundial, explodir as bolsas de valores, fazendo do Capitalismo uma faca de um só gume.
Eu e todos os outros brancos de olhos pretos, marrons, castanhos, amarelos e albinos. Somos, ó brancos do mundo que não temos olhos azuis, inocentes e, o que é pior, vítimas desses famigerados brancos de olhos azuis.
Mais além, nosso Presidente afirmou que nunca viu negro ou índio dono de banco o que, para bom entendedor, significa que, se ele não viu é porque não existe... E agora esses brancos de olhos azuis querem que os negros e os índios que, na visão do Presidente nunca tiveram um banco, paguem a conta!
Como ousam. Morte aos brancos de olhos azuis? Hein? Que tal essa Dom Dadeus? Largaram a bola picando na sua frente e o senhor não arrematou para o fundo das redes?
O nosso Presidente Lula não mencionou os amarelos. Onde entram os chineses, japoneses, coreanos, tailandeses nessa notável equação presidencial em que os brancos de olhos azuis criaram a Crise, os brancos de olhos de outras cores não tem nada com isso e os negros e índios pagam a conta?
Será que Lula já viu japonês dono de banco? E se algum for, nesse caso os amarelos não tem culpa da crise tanto quanto os brancos de olhos azuis, numa reedição diabólica do famoso Eixo da Segunda Guerra Mundial?
Imagine Lula e Dadeus numa conversa privada, cada um expondo os seus mais íntimos pensamentos! Sem nenhum risco de serem ouvidos ou gravados:
DOM DADEUS: - Os judeus controlam a mídia, a riqueza e o mundo.
LULA: - E a Crise foi causada pelos brancos de olhos azuis!
DOM DADEUS: - Brancos judeus de olhos azuis.
LULA: E os negros e índios pagando a conta.
DOM DADEUS: - E os ciganos, Lula, não esquece os ciganos.
LULA: - Tem razão, tinha esquecido. Nunca vi um cigano dono de banco.

Acho que nós, seres humanos, somos naturalmente racistas, preconceituosos e xenófobos. É uma questão intrínseca, superior à nossa vontade. O não gostar de judeus, de negros, de brancos, do vizinho está lá no fundo do ser humano, é uma de nossas imperfeições, falha de fabricação, erro de concepção. Portanto o sentimento racista não é crime tanto quanto não é crime o desejo de matar alguém.
O crime consiste em expressar esse sentimento através da discriminação, estabelecendo direitos menores para o discriminado, dizimá-lo ou, por qualquer forma, agir como se ele fosse inferior. Tanto quanto matar alguém é crime.
A Humanidade caminha sobre o fio da gilete, literalmente. Uma pequena pressão e ela se corta. Um leve desequilíbrio e ela tomba num dos lados do abismo. Sendo assim tão tênue a linha que separa a sanidade da barbárie, é bom que não se brinque com temas desequilibrantes e perfunctórios como as raças e as tragédias históricas. É bom que não se mexa em feridas que não cicatrizam nem se provoquem mal-entendidos grotescos, especialmente se você for chefe de uma nação ou representante de uma religião.
Porque, em última análise, é disso que se trata, quando se fala em Humanidade: sentimentos individuais e sentimentos nacionais.

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