terça-feira, 23 de março de 2010

CRÔNICAS NÃO POLÍTICAS

APENAS UMA QUESTÃO DE GOSTO
Paulo Wainberg

Tenho certeza e, sempre que posso, reafirmo, como um princípio categórico e norma de vida: mulher, política, religião, tamanho de seios, marca de automóvel, rabanetes, beterrabas, futebol, cor de batom, rúcula, cinema, Fórmula Um e sorvete de maracujá, dentre várias outras coisas, não se discute.
A única coisa sobre a qual se pode discutir, sem risco de arrumar uma briga, um inimigo ou levar um soco na cara é: Gosto!
Gosto, podemos discutir valentemente, expressar nossa preferência sem ofender, magoar e irritar o oponente.
Fiel a esse princípio, sinto-me à vontade para dizer que não gosto do Partido dos Trabalhadores, dos seus membros, de seus diretores, de seus representantes públicos, prefeitos, deputados, senadores, desculpem o palavrão.
Não gosto do modo como eles destorcem a verdade para provar suas teses, da mania de desqualificar os oponentes para ganhar a discussão, da soberba, típica de quem se sente o dono da verdade, do viés autoritário que norteia suas condutas.
Não gosto da maneira como eles corrompem e se corrompem, da forma como mentem e da absoluta intransigência com opiniões contrárias. Não é uma questão particular, não falo de um ou de outro. Falo do todo. E não gosto do todo.
Não gosto do modo como eles aparelham o Estado, não gosto do plano de poder, não gosto de suas alas e correntes, inclusive e sobretudo a stalinista com seus bigodudos, a castrista com seus barbudos e as agrárias com seus movimentos armados.
Aos mais apressados, atenção! Estou falando de uma questão de Gosto, não se trata de Política, podemos discutir meu Gosto à vontade, sem receio de nos engalfinharmos, caso o Gosto de Vossas Senhorias seja diferente do meu.
Não gosto do MST, um dos braços armados do PT e não gosto do CPERS, um dos braços desarmados do PT.
Para quem não sabe, o CPERS/Sindicato é o sindicato dos professores, aqui no RS, especialista em promover greves inúteis, que causam transtornos a alunos, famílias e população. Não que não tenha direito à greve.
Gosto do direito dos trabalhadores de fazer greve, desde que seja uma greve corporativa, destinada a reais mudanças, quando elas são necessárias.
Não gosto da greve inútil, sabidamente destinada ao fracasso, quando exige o impossível, quando recusam a negociação, coisa que, lamento dizer a quem gosta, é uma especialidade do CEPERS/Sindicato.
Greve para desestabilizar o governo e garantir lucros eleitorais futuros.
Salvo quando, uma única vez, o PT governou o Rio Grande do Sul e atrasou o Estado em pelo menos 15 anos (aí já é opinião, me arrisco a receber pauladas...).
Então, o CPERS/Sindicato agia com doçura amena, pois identificava a ‘vontade política’ do Governo em resolver as suas pautas reinvidicatórias e aceitava a impossibilidade real de cumpri-las, com tênues protestos engambelatórios, na falsa tentativa de aparentar independência.
Para o CPERS/Sindicato os demais governos não atendem suas pautas de reivindicações por falta de vontade política: Os governantes que não pertencem ao PT querem que os professores morram de fome, querem que os trabalhadores em educação não tenham o mínimo necessário para exercerem sua função.
Não gosto disso, acho uma falácia, mais um grande sofisma petista a torturar meu coração.
Mas o que não gosto mesmo, no CPERS/Sindicato, é que eles não admitem ser chamados de professores!!!
Exatamente, minha senhora! O seu filho, na escola, não tem aula com professores e sim com Trabalhadores em Educação, nova designação que o sindicato dos professores usa para definir sua profissão!
Se a moda pega, os escritores devem abandonar a qualificação de escritores, exigindo serem chamados de Trabalhadores em Letras Literárias
Eletricistas serão Trabalhadores em Fiação e Voltagem.
Cantores líricos serão Trabalhadores em Melodrama (estrito senso), ‘Melo’ é garganta e drama é drama, portanto Ópera.
Prostituas passarão a ser Trabalhadoras em Fornecimento de Sexo Remunerado e gigolôs serão conhecidos como Trabalhadores em Explorar Prostitutas.
Eu mesmo deixarei de ser advogado e me transformarei num Trabalhador em Encontrar as Leis que Favorecem os Meus clientes.
Trabalhadores em Educação, distinto público, é dose!
Para o meu gosto, ressalto.
Por favor, não se enerve.
Veja-se que a preposição “em”, logo após a palavra Trabalhadores, é um achado lingüístico, um preciosismo ortográfico a distinguir, nobremente, meros trabalhadores, comuns, no comercio, bancos e até mesmo, ó horror, trabalhadores donos de empresas, daqueles exponenciais trabalhadores em educação’.
“Trabalhadores em Educação” possui tom erudito, um que se adquire ao afirmar que está estudando “a consciência política” em T.S.Eliott”, a “abrangência etno-mitológica em Wagner”, o “estilo epistolar em Rilke”, ou o “argumento pré-natal do ego no uso da palavra ‘joie’ em Jean-Luc Goddard”.

Por isso, ao chamar um membro do CPERS de ‘professor’, prepare-se para forte retaliação. Para a barulhenta entidade, professor que se preze não é professor, é trabalhador em educação!
Imagine a sala de aula: o aluno ergue o braço e pergunta:
– Dona trabalhadora em educação de geografia, não entendi onde ficam os limites do País!
– Dona trabalhadora em educação de educação física, não consigo fazer mais abdominais!
– ‘Seu’ trabalhador em educação de matemática, o que é mesmo um logaritmo?
– Professora, posso ir ao banheiro?
– Ponha-se daqui para fora, seu mal-educado. Direto para a Secretária! Como ousa me chamar de professora? Não sabe que sou uma trabalhadora em educação?
Ou, na reunião de pais e mestres, o pai, preocupado:
– Senhora trabalhadora em educação, Diretora da Escola, como vamos resolver o problema da segurança na saída das aulas?
Não gosto dos eufemismo petistas, de suas linhas doutrinárias, de suas cartilhas ideológicas, de seus dogmas, de seu cinismo e de sua política de baixo nível e maquiavélica, diante da qual vale tudo para ganhar cargos, eleições e, na pior hipótese, ocupar espaços na mídia.
Petistas jamais admitirão que jogam segundo o preceito ‘o fim justifica os meios’ e valem-se de sofismas mis, a demonstrar que o óbvio não é que parece.
Não que eu goste disso em outros partidos. Não gosto mesmo!
Não gosto do saco de gatos oportunista do PMDB, nem de seus eternos senadores e deputados, os mesmo que deram aparência institucional à Ditadura militar.
Também não gosto da vaidade pavonesca, vazia, oca e inerte do PSDB, fundado para ser o lado ‘ético’ do PMDB (quaquaqua, desculpe, não pude conter o riso)
Mas os outros, pelo menos, fazem menos barulho a respeito das próprias (e falsas) virtudes. E quando são descobertas suas falcatruas, não estão desiludindo ninguém, porque há muito abandonaram a idéia de vender idoneidade ao interesse público, eleitores e cidadãos em geral.
O tema me conduz, inevitavelmente, ao Presidente Lula e à questão que não paro de me fazer: gosto ou não gosto dele?
E, com toda sinceridade, acho que gosto mais do que desgosto.
Para início da discussão sobre Gosto, considero Lula uma espécie de gênio não lapidado da política.
E ainda bem que é não lapidado.
Um pouco mais de polimento e de cultura e estaríamos diante de um dos mais encantadores e tirânicos aspirantes à Ditador que o mundo já produziu.
Porém, assim como ele é, afirmando e negando, como se fossem banalidades, questões essenciais da política e da economia, em linguagem simples e repetitiva, usando e abusando de metáforas incongruentes e parábolas sem sentido, com encantador carisma, Lula galga, Lula sobe, Lula postula e Lula consegue.
Nunca antes, na história deste País, um Presidente da República visitou Israel.
Dentre os inúmeros dogmas lulistas, de originalidade primitiva, este é totalmente verdadeiro.
E ele chega lá com a maior simplicidade, dá um discurso dizendo ser favorável ao Estado de Israel independente e ao Estado Palestino independente, como se, nunca antes neste Planeta, um Presidente de um País tivesse feito tal afirmação.
E comporta-se sem nenhum constrangimento, nem mesmo o de ter recebido o presidente do Irã que, pública e manifestamente nega a ocorrência do Holocausto nazista e prega a destruição definitiva de Israel. E de, com ele, ter estabelecido relações diplomáticas e convênios de mútua cooperação comercial.
Assim como não se constrange ao afirmar que os dissidentes do regime de Cuba são terroristas, ao apoiar ditaduras tão cruéis quanto anacrônicas dos irmãos Castro em Cuba, da Coréia do Norte e das pretensões dignas de filmes de pastelão, de títeres como Hugo Chaves e Evo Morales, além do cara aquele do Equador, cujo nome esqueci e não vou me dar ao trabalho de procurar no Google.
A diferença é que, nas comédias de pastelão, o efeito é a gargalhada. Nos governos desses indivíduos está o desrespeito aos direitos, aos direitos humanos, à democracia e à liberdade. Incluindo-se, no rol, o racismo quase explícito, manifestado pela discriminação de minorias e censura.
Lula, cujo pensamento político moldou-se na luta sindical, contra o capitalismo, o liberalismo, o neo-liberalismo e a globalização, entretanto e como se não fosse com ele, adota e implanta uma política econômica no País exatamente de acordo com tudo aquilo que, antes, era contra. Inclusive o FMI, cuja conta foi uma das primeiras que pagou e para quem, hoje, empresta.
Lula, que quando explodiu a crise do mensalão, veio à televisão dizer-se traído, afirmar ao Pais a sua total ignorância sobre o caso, demitiu seu ministro-chefe da casa civil, o plenipotenciário José Dirceu e exigiu mudanças radicais no comando de seu partido, o PT. E agora, ultrapassada a fase aguda da crise, admite que foi informado do esquema em reunião com Roberto Jefferson e várias testemunhas.
Lula, que, nos seus bons tempos sindicais, só faltou chamar José Sarney de demônio do mal e que, agora que o País sabe que, nisso Lula tinha razão, exige que seus aliados levem em consideração que “Sarney tem uma história a ser respeitada” e que o Senado não pode ignorar essa história.
Planando – no aerolula – sobre todas e tamanhas contradições, Lula é o Presidente que tem o maior índice de aceitação na história deste País.
Por que? Porque ele é um bom Presidente, porque a economia vai bem, porque a miséria diminui, o desemprego diminui, o analfabetismo diminui e a Polícia Federal não dá sossego aos corruptos.
A Humanidade nos mostra que as pessoas são julgadas, não pelo que pensam, não pelo que querem, e sim pelo que fazem.
Lula faz, faz muito. Erra e acerta. Mas está sempre fazendo. Vocês podem não gostar da bolsa-família, por exemplo. Mas quem a recebe gosta, sente-se agradecido e adquire, ainda que de forma rudimentar, noção de inclusão, de pertencer, de cidadania.
Pode-se não gostar das tentativas de protagonizar de Lula, mas ele está protagonizando.
Pode-se não gostar da ida de Lula a Israel, mas ele foi. Pode-se não gostar da ida de Lula aos territórios palestinos, mas ele foi. E pode-se não gostar do que parece ser um indício de megalomania, quando Lula se coloca à frente e à disposição para contribuir com o fim do conflito no Oriente Médio, mas ele se colocou.
É por essas e por outras, fiel ao meu Gosto e respeitando o seu, é que me posiciono, ‘duela a quien duela’: não voto em absolutamente ninguém do PT, nem mesmo para síndico do meu edifício, caso eu morasse num, nem mesmo para chefe da minha torcida organizada, caso eu tivesse uma, nem mesmo para presidente da Associação dos Amigos da Bocha, caso eu jogasse bocha.
Não há hipótese.
Questão de Gosto, discutível portanto, sem ofensa e sem bofetada.
Mas, provavelmente, com toda a força da minha consciência, votaria no Lula, em outro futuro.

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