DE CHARLATANICES E ASSEMELHADOS
João Eichbaum
A consciência da própria finitude
e, consequentemente, o medo da morte, levaram o homem, fomentado pelo
instinto, a criar um mundo mitológico, a que chama pelo eufemismo de espiritualidade.
Nesse mundo ele coloca deuses e demônios, bem-aventuranças e castigos, almas
penadas e depenadas. Para não esquecer de si próprio, naturalmente, coloca lá
também uma extensão da própria vida, com outra dimensão.
Em outras palavras: ninguém morre. Do cadáver evola uma energia
que o transforma em espírito. Até hoje ninguém viu a tal energia. Mas a maioria
das pessoas vai levando a vida com seus solavancos, dores, desenganos,
sofrimentos, perdas, paixões e desamores, esperando pelo fim que não será o
fim. E, para tornar mais forte essa esperança, procuram meios físicos aos quais
creditam o poder de ligá-las ao mundo criado por suas fantasias.
Uma dessas ligações, além do papa e Maomé, são os chamados “médiuns”,
a quem se atribuem poderes de encarnar almas do outro mundo. Essas, por sua
vez, são dotadas de qualidades que as do lado de cá não têm: curam doenças,
servem de mensageiras de recados de outros falecidos, transformados em espírito
pela morte.
A revista Veja desta semana traz intrigante matéria sobre João de
Deus, um desses “médiuns” que, sofrendo de câncer, não curou a si próprio, nem
procurou outros colegas do além: submeteu-se à cirurgia e à quimioterapia, como
qualquer um que tenha CPF. Mas, não foi tratado um vivente comum. Foi incluído
entre os da categoria de cima: no famoso hospital Sírio Libanês de São Paulo,
graças aos que pagam por seus favores.
A superstição, conhecida também pelo nome eufêmico de fé, é mais
fruto do instinto, de que cada animal é dotado, do que da inteligência,
qualidade privativa do homem. Por isso, nem a comprovada charlatanice (que é
crime) inibe a prática de “passes, curas espirituais e incorporações”, a que se
segue um monte de etc.
Nas pegadas de gente como Lula, Chaves, ministro Roberto Barroso,
modelo Naomi Campbell, atriz Giovana Antonelli e apresentadora americana Oprah
Winfrey, que figuram na lista dos milhares de “clientes” do tal de João de
Deus, o povo não vai se considerar burro, nem desistir.
As imensas filas na frente da casa de João de Deus, em Abadiânia,
no interior de Goiás, continuarão, porque a razão bate em retirada diante das
ilusões do povo. Com tais ilusões não combinam as reflexões sobre um ser
chamado homem. Essa criatura, gerada entre fezes e urina, e sujeita a
disfunções cerebrais que a tornam menos do que um animal, acaba em cinza e
barro. Mas não abre mão da ilusão de ser transformada, para toda a eternidade, numa
versão mais sofisticada, chamada espírito.
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