quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

COM A PALAVRA, JANER CRISTALDO

JORNALISTA ANALFABETO ACUSA ATEUS PELOS MALES DO MUNDO


Um apresentador de televisão, truculento e analfabeto, o tal de José Luiz Datena, andou afirmando em julho passado que crime é coisa de pessoas que não acreditam em Deus. “Porque o sujeito que é ateu, na minha modesta opinião, não tem limites, é por isso que a gente vê esses crimes aí”. E continuou em seu discurso sem nexo: “É por isso que o mundo está essa porcaria. Guerra, peste, fome e tudo mais, entendeu? São os caras do mal. Se bem que tem ateu que não é do mal, mas, é ..., o sujeito que não respeita os limites de Deus, é porque não sei, não respeita limite nenhum”.
O pronunciamento do bronco vem agora à tona porque o Ministério Público Federal (MPF) ajuizou ação civil pública obrigando a TV Bandeirantes exibir uma mensagem de retratação de declarações ofensivas aos ateus durante seu programa.
Para o Procurador Regional dos Direitos do Cidadão Jefferson Aparecido Dias, autor da ação, ao veicular as declarações preconceituosas contra pessoas que não compartilham o mesmo modo de pensar do apresentador, a emissora descumpriu a finalidade educativa e informativa, com respeito aos valores éticos e sociais da pessoa, prestou um desserviço para a comunicação social, uma vez que encoraja a atuação de grupos radicais de perseguição de minorias, podendo, inclusive, aumentar a intolerância e a violência contra os ateus. “Evidentemente, houve atitudes extremamente preconceituosas uma vez que as declarações do apresentador e do repórter ofenderam a honra e a imagem das pessoas atéias. O apresentador e o repórter ironizaram, inferiorizaram, imputaram crimes, 'responsabilizaram' os ateus por todas as 'desgraças do mundo'”, afirma o procurador. O procurador revelou-se tão analfabeto quanto o estúpido apresentador. Conhecesse um pouco de história da literatura, teria de processar Dostoievski. E também Sartre, que distorceu o pensamento de Dostoievski. Mais a novel presidenta, que participa do mesmo analfabetismo.
Já comentei, comento de novo. No início deste ano, pretendendo posar de intelectual, Dilma Rousseff, ao falar sobre religião, mencionou os romances de Fiódor Dostoiévski, permeados do conceito de que, "se Deus não existe, tudo é permitido".
A ex-terrorista dificilmente terá lido Dostoievski. Esta frase, atribuída ao escritor russo, é mais uma daquelas bobagens recorrentes – semelhante àquela outra, de que Guernica, de Picasso, tem algo a ver com o suposto bombardeio da cidade basca – que são repetidas ad nauseam por jornalistas. Dona Dilma, na verdade, ouviu o galo cantar, mas não sabe onde.
Os católicos ocidentais adoram empunhar esta deturpação do pensamento do escritor católico ortodoxo. Querem colocar Deus como fundamento de toda ética, como se não pudesse existir ética sem a crença em Deus. Esta frase estaria em Os Irmãos Karamazov. Ora, Dostoievski jamais escreveu isto. Foi Sartre quem lhe atribuiu esta frase. Quem a menciona são geralmente pessoas que nunca leram Dostoievski e o citam de ouvir falar. Há algum tempo atrás, me dei ao trabalho de reler Os Irmãos Karamazov para ver se Dostoievski havia realmente escrito tal bobagem. Não encontrei. O mais próximo que existe é isto: - Ivan Fiodorovitch ajuntou entre parênteses que lá está toda a lei natural, de maneira que se você destrói no homem a fé na sua imortalidade, não somente o amor nele perecerá, mas também a força de continuar a vida no mundo. Mais ainda, não existiria nada mais que fosse imoral; tudo será autorizado, mesmo a antropofagia. E não é tudo: ele acaba afirmando que para todo indivíduo que não crê em Deus nem em sua própria imortalidade, a lei moral da natureza deveria imediamente tornar-se o inverso absoluto da precedente lei religiosa; que o egoísmo, mesmo levado ao crime, deveria não somente ser autorizado, mas reconhecido como uma solução necessária, a mais razoável e quase a mais nobre. Após um tal paradoxo, julgai, senhores, julgai o que nosso caro e excêntrico Ivan Fiodorovitch julga bom proclamar e suas eventuais intenções.
Mais adiante, Mitia se pergunta: - Mas então, que se tornaria o homem, sem Deus e a imortalidade? Tudo é permitido e, conseqüentemente, tudo é lícito? (...) Que fazer, se Deus não existe, se Rakitine tem razão ao pretender que é uma idéia forjada pela humanidade? Neste caso, o homem seria o rei da terra, do universo. Muito bem! Mas como ele seria virtuoso sem Deus?
Ou seja, a pergunta não é exatamente sobre Deus, mas sobre Deus e a imortalidade. Imortalidade significa punições e recompensas. Os teístas querem ver nos personagens de Dostoievski a impossibilidade de uma ética sem Deus. No entanto, o que o autor empunha é a promessa de céu... ou de inferno. O fundamento de sua moral - ou da de Ivan Karamazov, como quisermos - não é exatamente Deus, mas a esperança ou o medo.
O tal de Datena, como a novel presidenta, também ouviu o galo cantar, mas tampouco sabe onde. O promotor muito menos. Os ateus, que certamente estão por trás de tal ação, idem. Qualquer dia ainda pedem a proibição de Os Irmãos Karamazov. Há ateus que estão transformando o ateísmo em religião e se pretendem discriminados. Mais um pouco e pedirão cotas na universidade.
Ateus, se Datena e dona Dilma não sabem, também têm ética. Mais ainda, nossa ética é gratuita e não depende de recompensas no Além. O crente, ao manter um comportamento ético, busca o conforto na imortalidade. Nós, que não cremos nessas patacoadas, não esperamos o paraíso por sermos honestos nem tememos o inferno por não sermos honestos. Somos éticos porque julgamos ser esta a melhor fórmula de conviver com nossos semelhantes.
O analfabetismo, ao que tudo indica, invadiu não apenas o jornalismo, mas também o universo jurídico.

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