quarta-feira, 1 de abril de 2015


O NÉRIO SABE DAS COISAS

Tenho que ser sincero. Gosto de ler. Desde jovem. Fui despertado para o gosto pela leitura, pela minha avó paterna, Hildegonda Biazus Letti, para nós, lá em Antonio Prado, a " nona Gonda", mãe de meu pai, Horacio Letti, viuva, jovem, com 41 anos, do meu avô paterno que morreu em 1932, de cirrose hepática ( como bom italiano farrista bebeu todas e o fígado o levou rapidamente, ele era ótimo seleiro, fazia todos os arreios, ganhou dinheiro, a selaria ficava no atul Bazar Chini, na Av. Valdomiro Bocchese, casa tombada, pelo patrimônio histórico federal, como representante da imigração italiana) . Assim que minha avó ficou viúva, com 41 anos, em 1932, gastou tudo o que tinha com a doença do marido, pois, a cirrose hepática mata lentamente e naqueles tempos não tinha plano algum de previdência, nem de pensão. Assim que minha avó paterna, ficou viúva, jovem, bonita, elegante, marcou como mulher na Praça Garibaldi,de Antonio Prado. habilidosa, na cozinha e na costura, abriu o Café Itália, na frente da casa, onde hoje tem o artesanato municipal e foi meu escritório de advocacia, de 1963 a 1966. A casa existe e está conservada, por obra e graça desta mulher notável, minha avó paterna. O meu pai era filho único. Assim que meu pai casou, em seguida, se mudou já com tres filhos, Nicanor, Nivalda e Neura, para o bairro Golin, hoje Bairro Fátima, na Rua 7 de setembro, 150, pois, meu pai trabalhava como guarda-livro da grande empresa Golin, Irmãos & Cia -  onde ficou por 40 anos. 
Desta forma ele foi morar no local mais movimentado da cidade, o polo econômico de Antonio Prado e ficou perto do trabalho. Ia a pé. Na casa da rua 7 de setembro, 150, bairro Golin, nascí eu, e o Norberto, o mais novo. Hoje a casa já foi demolida pelos atuais proprietários.

Minha avó paterna, Hildegonda Biazus Letti, além de manter o Café Itáli, com o fogão à lenha,nos fundos, na sala do meio, mantinha o jogo que era lícito e os fazendeiros da Vacaria, que viviam em Antonio Prado, sempre frequentavam as tres mesas de pano verde, que minha avõ mantinha com carinho, servindo quitutes, almoço e janta, pois, o jogador inveterado, ele não abandona a mesa de jogo, do pano verde, maiormente, os fazendeiros da Vacaria, dado sua filosofia de vida, de pouco fazer posto que o gado fazia no campo e vendia a tropa e enchia o bolso de dinheiro.

Assim, minha avó sustentou a familia e ajudou, posto que meu pai, era filho único. Católica fervorosa, do Apostolado da Oração, levava todas as tardes para o padre vigário, bolinhos, feitos por ela, com carinho, em bandeija da Metalúrgica Eberle de Caxias,  um luxo, recobertos pela toalha branca engomada para o padre tomar seu café da tarde, com mistura. Bordava, forrava botões, costurava, fazia bainha, picot, a máquina Singer, que importou de Dresden, (  A Singer ainda ela alemã,) em 1911 - fazia milagres com aquela máquina, nas roupas e também ganhava algum dinheiro. Pintava, bordava, tocava piano, tocava violino, vestia sempre vestidos longos e salto Luiz XV, elegante, cuidadosa, dizia que a pessoa devia tomar banho todos os dias, e como exemplo de saúde e  cuidado com o corpo se alimentava com o produto de sua horta, nos fundos da casa, e sabia fazer comida, com pouco sal, pouco açúcar e o pão integral e como a justificar sua maneira de se cuidar, dizia que tinha o mesmo peso fazia mais de 50 anos. E outra - dava como exemplo, que a pessoa come para viver, e não vive para comer, com o que se vangloriava, que fazia muitos anos, nem se lembrava mais, que sempre "ia aos pés"  isto é, rigorosamente, pela manhã, após o café frugal, evacuava com normalidade, todos os dias, na mesma hora. Ela dava como sinal de vida e de bom gosto com o corpo a regularidade intestinal.  ESta mulher, lá em Antonio Prado para se manter atualizada, assinava o Correio do Povo, desde 1915 e lia. Assinava o figurino famoso alemão, na época, o Burda - e dele tirava os moldes para as costuras mais refinadas.  O  figurino " Burda ",  alemão,  marcou época para o figurino e o vestir das mulheres da época, antes da Segunda Guerra Mundial, isto é, antes da destruição alemã, principalmente o bombardeio de Dresden que foi arrasada pelas bombas dos aliados  .Ouvia rádio e mantinha amizade com a elite de Caxias do Sul, esta eleite caxiense,  já rica e em evidência.

Tudo isso meu veio à mente e muito mais, na lembrança de minha avó paterna, cuja casa está lá, de pé, na Praça Garibaldi, 80, conservada, às ordens, vinham visitá-la, tombada pelo Patrimônio Histórico Federal, como representante da imigração italiana, com esta propaganda  "nuvens de livros" milhares e milhares de livros reduzidos a alguns CDS. introduzidos no meio eletrônico, hoje da Internet e que aos poucos vai acabando com a biblioteca do livro impresso. Eu acho isso um horror. Em todos os casos, para ser um caminho inexorável.

Mas, devo confessar, que li os sete volumes com gosto e capricho, quando adolescente , incentivado pelo minha avó paterna,   -  " a nona Gonda"  -   de O Tempo e o Vento - de Erico Verissimo - e nunca mais esqueci, a saga da fundação do RGS, das familias inimigas, como sempre, no RGS, dos Terra e dos Cambará, em Santa Fé, a cidade que Erico Verissimo criou para descrever o drama  da formação do RGS. Minha avó tinha uma pequena biblioteca, pois ela recebia a Revista do Globo, quinzenal, fantástica Revista e assim também os livros das grandes coleções da Editora Globo, notável livaria do RGS, que marcou época e que desapareceu na voragem do tempo. Havia livros na casa de minha avó, e o armário ainda está lá, conservado e com muita coisa que pertenceu a ela, principalmente os livros católicos, de rezas e missas e seus terços, etc....

Finalmente, fazendo o cotejo com o que acabo de escrever sobre minha avó paterna   - a nona Gonda  - Hildegonda Biazus Letti -  sobre a leitura de livros - e   devo confessar que jamais vou conseguir ler os sete volumes de   -   O Tempo e o Vento     -   de Erico Verissimo, aqui no meu micro, na tela do mesmo. Leio um pouco. Paro. Canso. Dá sono. Dor na parte posterior do pescoço, sei lá, adoro ler o livro impresso. O eletrônico ainda não entrou na minha cabeça.


Nério "dei Mondadori" Letti

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