segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

CRÔNICAS IMPUDICAS

O ROMÁRIO, O FUX E OUTROS MUITO MAIS VOTADOS

João Eichbaum

O Jornal Zero Hora, na sua edição de sábado último, gastou o verbo, se ocupando, na página editorial, do Romário. Sim, do Romário, aquele baixinho, goleador, sempre fixado na área, que fez das suas, andou com belas mulheres, ganhou milhões, teve bens leiloados por conta de pensões alimentícias e outras dívidas, mas faturou muitos golos e encheu de alegria o povão.
O editorial não falava de futebol, propriamente, nem elogiava os feitos esportivos do Romário, senão que achincalhava o ex-craque por ter sido ele flagrado, jogando futevôlei, na Praia da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, quinta-feira última.
É que, para a Zero Hora, o Romário “deveria passar a ser visto, agora na condição de político, como referência de conduta, em respeito aos que o elegeram e ao próprio Congresso”.
Bom, das duas, uma: ou os editorialistas não conhecem o Romário, ou não conhecem o Congresso. Resta uma alternativa: não conhecem nem o Romário, nem o Congresso.
Em primeiro lugar, nem quando jogava futebol o Romário corria atrás da bola. O negócio dele era ficar parado, esperando por ela, e aí, com ela no pé, fazia misérias.
Queriam o quê os editorialistas: que o Romário mudasse de tática, da noite para o dia, que vestisse outra personalidade, que o cargo de deputado o dotasse de uma dignidade plena, por obra de prestidigitação desse mesmo cargo?
Segundo: desde quando o político brasileiro pode ser tido como “referência de conduta”?
De má conduta, sim. De aproveitamento do cargo para mordomias, como passaportes, aumento dos próprios subsídios, só para ficar nas últimas notícias...
O que a Zero Hora queria era que o Romário estivesse lá na Câmara, teso, de gravata, mostrando respeito pelos eleitores e pelo Congresso, se mostrando, exemplarmente, como o único deputado assíduo de toda a história do dito Congresso.
Bem, acredito que os editorialistas do jornal ZH não conheçam a biografia do Fux, o Luiz Fux, carioca, como o Romário, que agora foi escolhido para ministro do Supremo Tribunal Federal. Tido como “jurista brilhante”, magistrado de carreira, professor, o Fux “seguiu dando aulas na Uerj após ser nomeado para o STJ em Brasília”, noticiam jornais de São Paulo.
Entenderam? O brilhante jurista saía de Brasília para dar aulas no Rio de Janeiro.
Esse, sim, serve de “referência de conduta”. Quantas horas de viagem entre Brasília e Rio? Quantas horas de aula? E quem proferia os acórdãos dele no STJ?
E enquanto os editorialistas gastavam verbo, adjetivo e advérbio para desancar o Romário, o torneiro mecânico Marco Maia, presidente da Câmara, que devia estar em Brasília, estava em Porto Alegre, almoçando no Tirol, visitando Canoas, dando entrevistas, defendendo o aumento dos subsídios dos deputados, o uso dos passaportes diplomáticos.
Respeito pelos eleitores do Romário? Ora, os eleitores do Romário têm a cara dele, só querem saber de gozar a vida, tão se lixando para o respeito. Respeito pelo Congresso? O Congresso presidido pelo Sarney?
Ora, convenhamos. Respeito não se impõe, mas se conquista. E o cargo não dignifica a pessoa. Essa, sim, é que empresta dignidade ao cargo, se a tiver.

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