quarta-feira, 20 de agosto de 2014

A CAIXA PRETA
João Eichbaum

A morte não tem caixa preta. Pelo contrário: ela é a caixa preta da nossa vida. Ao morrermos, pessoas que não nos conheceram em vida saberão quem fomos, o que fazíamos, de que vivíamos, se éramos casados, se tínhamos filhos,  se tínhamos seguro de vida, funerais e cremação pré-pagos, bens, etc.
O agente funerário terá que saber isso, o oficial do registro civil, também. Nossos dados pessoais irão para os arquivos ou escaninhos do Estado. Enfim, alguém saberá que existimos e que deixamos de existir. Se aparecermos, com foto e tudo o mais, no caderno de necrologia de algum jornal, até a mãe daquele bebê produzido no embalo de uma noite na balada, poderá nos identificar e garantir posteriormente na ação de investigação de paternidade: “foi ele”.
Se formos famosos, todo mundo saberá de nós: onde nascemos, como subimos na vida, como foi e com quem foi que vivemos, quais foram nossos pensamentos, nossos propósitos, nossas frustrações, nossos defeitos, nossas virtudes, e tudo o mais que despertar a curiosidade do público. A morte, nossa caixa preta, desvendará como foi nossa vida, enfim.
Mas, não servirá como caixa preta de si própria a nossa morte, se ela nos quiser como protagonistas dum acidente aéreo. Ela deixará de registrar  nossos dados a partir do momento em que subirmos a escada do avião. Ficará como um ponto final aquela foto que nossa amada bateu no celular, quando já nos dirigíamos para o portão de embarque. E será o nosso último registro, nosso último sorriso, nosso último gesto de despedida, sem a consciência de ter sido a despedida definitiva.
Se nosso voo for num desses aviões pequenos, de dez lugares, fretados para negócios ou eventos, não haverá aquela frescura de instruções sobre as saídas de emergência e as máscaras de oxigênio, ou sobre uso da poltrona como objeto flutuante, coisas que nunca salvaram a vida de ninguém.
O avião levantará voo, tudo correrá bem até a hora de aterrissar. Mas aí o piloto avisa que terá de arremeter e então sentiremos aquele desconfortável frio na barriga, provocado não só pela subida brusca, como pelo medo. O avião balança, o frio no estômago aumenta e a gente sente vontade de vomitar. Olha para os lados e vê os companheiros pálidos, sem coragem para dizer palavra, moídos pelo terror, de mãos postas ou se benzendo. O avião não consegue subir mais, e o que sobe na frente dele são alguns edifícios. Numa manobra brusca a aeronave se inclina, a gente perde o equilíbrio, tateia para se segurar em alguma coisa, mas tudo está girando ao derredor. O avião perde a altura, mas não a velocidade. O peso abissal do pavor, provocado pela loucura da morte, vence a esperança. Uns choram, outros berram “meu Deus”!
Não dá tempo de ouvir o estrondo porque, antes de nos deletar, a última coisa que a morte nos mostra é o avião embicando na direção de um edifício.
Mas nada disso registrará a caixa preta da morte. Nem a do avião.



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