quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

ESPÍRITO NATALINO

João Eichbaum

Às vésperas do Natal ocorre todos os anos um milagre: a união de todos, sob o manto do “espírito natalino”. Pobres e ricos, ateus e cristãos, negros e brancos, machões e travestis, mulheres lindas e sapatões, os da esquerda e os da direita, comunistas e capitalistas. Todos têm o mesmo objetivo: o “espírito natalino” suficiente para ser feliz. Só não entra nessa onda quem é louco ou tem nojo de existir.

Suprassumo de todas as antíteses: quem inspirou o “espírito natalino”, foi um judeu pobre, parido num estábulo, sem “espírito natalino”, ouvindo puns, mugidos, orneios e balidos de vacas, bois, burros e ovelhas. Quando adulto, andava pelos povoados, xingando os fariseus e fazendo milagres de curandeiro, porque outra profissão não tinha.

Graças ao nascimento desse judeu, chamado Jesus Cristo, conhecido também pelo apelido de Nazareno, o mundo inteiro festeja o Natal. A celebração imanta a todos. Os próprios judeus, que negam a seu conterrâneo o “status” de Messias, não conseguem ficar indiferentes. Também eles correm atrás do “espírito natalino”, não querem ficar fora dessa. Até porque, para celebrar a data, cristãos do mundo inteiro viajam até Israel, levando o dito “espírito natalino”, que faz a alegria dos judeus.

A celebração do nascimento de Jesus Cristo no dia 25 de dezembro, instituída pelo papa Júlio I, no ano 350 d.C., pegou bem, no embalo do clima festivo que tomava conta do povo romano, comemorando, no mesmo dia, o “Nascimento do Sol Invicto”. É claro que até para curtir a festa pagã, o povo precisava de “espírito natalino”. E de lá para cá, montado num “crescendo” irreversível, esse espírito tomou conta do mundo.

Tal e tanta é a força do “espírito natalino” que levou os legisladores brasileiros, cristãos de carteirinha, a aproveitá-lo como denominação do mais esperado salário da nação: a gratificação de Natal, que o vulgo prefere chamar de “décimo terceiro”. Tudo dentro dos conformes.

No Natal o mundo se torna solidário, porque sem “espírito natalino” ninguém vive: nem os ladrões, nem os políticos (com o perdão pelo sinônimo repetitivo), nem a Igreja. Sem “espírito natalino” é impossível comprar presentes. Sem o dito, o Natal não seria o que hoje é: a propulsão do consumismo e a alegria do Fisco. Viva o “espírito natalino”! Que entra nas caixas registradoras e sai pelos carros fortes, devidamente blindado.


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