quarta-feira, 23 de setembro de 2015

QUANDO O DIREITO SE CONFUNDE COM A MALDADE
João Eichbaum

Não deu mais. Depois da terceira noite de febre, a angústia os asfixiou. A filhinha de três anos já respirava com dificuldade, mal abria os olhinhos tristes, tornava a fechá-los, como que tomada pelo cansaço. Seu peitinho subia e descia, na luta em busca de uma respiração que não chegava.

A léguas e léguas de qualquer atendimento médico, sem dinheiro para consulta, para uma eventual internação, para remédios mais caros, não sabiam o que fazer. Colonos, vivendo da terra que plantavam com dificuldade, mal conseguiam comer e dar de comer para duas vaquinhas, que retribuíam com o leite para lhes aplacar a fome.

Seu único tesouro era aquela criaturinha que, de uma noite para outra, deixara de lhes alegrar a vida. Seus olhinhos tinham se apagado, suas perninhas estavam amolecidas, seu corpinho, enfraquecido, se entregara ao torpor da febre, naquele hiato em que a indiferença se torna maior que a vida.

Foi então que um vizinho se ofereceu para levá-los a Porto Alegre, na Santa Casa, onde médicos, remédios e uma possível internação não lhes arrancariam o desespero de ter que pagar o que não podiam. De madrugada saíram, para chegar cedo à Santa Casa, por volta das sete da manhã. A pequena nos braços da mãe, já nem força para chorar tinha. Só arfava.

Antes de entrarem na Avenida da Legalidade, o choque: todo o trânsito parado. Em questão de segundos ficaram trancados, sem poder andar um centímetro sequer. Fome, sede, angústia, necessidades fisiológicas, tudo o que a natureza exige nas horas mais impróprias os torturou por um tempo regido pela maldade de quem só pensa em si mesmo.

Os responsáveis estavam lá na frente, berrando, gritando qualquer coisa, levantando panos e bandeiras. Eram os funcionários públicos do Estado do RS e seus cupinchas políticos, os energúmenos sem consciência, que se lixam para a sociedade. Animais egoístas, torturavam uma população que paga seus impostos, que precisa trabalhar, que tem tanta necessidade de viver, como eles.

Sentindo-se poderosos dentro do regime “democrático” que lhes garante o direito de perturbar a ordem e impedir a liberdade de ir e vir, eles se vingavam nos mais fracos, porque vivem num país onde as autoridades não têm moral para impedir que uns tenham mais direitos do que outros.



Nenhum comentário: