TANGO
GREGORIANO
João
Eichbaum
O Espírito
Santo acabou com a alegria dos brasileiros. Olhou para a pose de papa que o
Odilo Scherer, gaúcho de Cerro Largo, já estava ensaiando, e virou o jogo.
Roma tem um
novo bispo, como todo mundo sabe. Ele se chama Jorge Mario, é argentino, formado
em química, tem um pulmão só, é torcedor do San Lorenzo de Almagro e gosta de
tango.
Ouvi seu
primeiro pronunciamento. Para começar, não usou uma vez sequer a palavra
“papa”. Ele se apresentou e se dirigiu a todos como “o bispo de Roma”.
O homem é
de uma simplicidade cativante. E sabe se comunicar. É filho de ferroviário, tem
jeito de gente do povo e costumava usar transporte público em Buenos Aires,
onde era cardeal.
Mas, de
tudo o que contaram sobre o Jorge Mario Bergoglio, que a partir de agora será
chamado de Francisco, o que mais me impressionou foi como teria sido seu comportamento na eleição
anterior, quando foi escolhido o alemão Joseph Ratzinger. Diz-se que ele
estaria sendo o segundo na ordem de votação. E aí levantou-se e pediu aos
cardeais que o não escolhessem. Confessou que não se sentia preparado para
assumir as pesadas responsabilidades de chefe da Igreja Católica. Assim, os
votos dele migraram para o concorrente, que foi o escolhido.
Do fato
extraí duas conclusões. A primeira é de que o Espírito Santo não tava nem aí, e os cardeais iam escolhendo o cara errado.
Se não fosse o pedido do Bergoglio para
que o deixassem fora dessa, quem ia dar bola fora seria o Espírito Santo.
A segunda
conclusão é de que alguém, sujeito a ser excomungado, contou a história para o Nanni Moretti, que
fez o belíssimo filme “Habemus papam”. O enredo explora a eleição de um cardeal
que não queria ser papa e, tendo sido escolhido, pirou, fugiu e complicou a
Cúria Romana.
Penso que Moretti
agora poderá ter outra inspiração: a de um cara de vida simples, que anda de
ônibus, de metrô, anda pelas ruas misturado com o povão, faz a própria comida,
e de uma hora para hora se torna escravo da liturgia do cargo mais cobiçado do
mundo, e é obrigado a viver paparicado pela vida afora.
E daí
Moretti, como faremos o final: ele dá o fora ou morre de desgosto? Ou daremos
um final pior ainda: o cara se acostuma com o luxo, com a pompa, com o dinheiro
do Vaticano, com todo mundo se lhe ajoelhando aos pés, fica agarrado ao poder
até a morte e depois vai direto para inferno, porque tinha dançado muito tango
antes de entrar para o seminário. Que tal?
Um comentário:
Gostei muito dessa crônica, bem leve e inspirada. Divirjo na questão do Espírito Santo, quanto ao concílio anterior. O Espírito estava vigilante e inspirou o "cardeal errado" para que anunciasse que não era a sua hora, daí foi feita a escolha certa.
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